Ao contrário de algumas pessoas na minha vida, para quem África é uma paixão, eu nunca me senti muito atraída por visitar esse grande continente. No entanto não diria que não a uma oportunidade de lá dar um pulo.
Essa oportunidade surgiu, numa viagem de duas semanas a Angola, que incluiu uma "road trip" através das províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Norte e Malange
Depois de muita paciência para reunir toda a papelada exigida para o visto de turismo e de ir a uma consulta do viajante, tive ainda de levar algumas vacinas, uma das quais me fez desmaiar e originar um mini-caos no centro de saúde. No dia da partida, na hora do embarque, tive um ataque de urticária e quase estive para desistir, mas decidi confiar que aquilo passariadurante as quase 8h de viagem de avião. Felizmente foi o que aconteceu, ou as férias teriam sido talvez um pouco menos agradáveis.
Antes de ir falei com diversas pessoas com raízes em Angola e ouvi de tudo um pouco, desde o muito bom ao muito mau e sinceramente já não sabia o que esperar. A primeira impressão não foi má. O aeroporto é um local aprazível, nada assustador como alguém me tinha descrito. E ter alguém à minha espera ajudou a amenizar os meus receios. O primeiro contacto com o trânsito de Luanda também não foi muito mau, embora mais tarde tivesse tido a chance de experimentar os famosos engarrafamentos, que também me haviam sido descritos. Como parte da experiência turística, não me aborreci demasiado com eles, mas coitado daquele que tenha de os experienciar no dia-a-dia. As regras de trânsito são letra morta para a maioria dos angolanos, as bermas são mais uma via de circulação, as vias rápidas têm retornos a meio para quem queira inverter o percurso e em caso de muito trânsito, onde deveriam existir 3 filas de carros, coexistem 6 lado a lado. Morre imensa gente nas estradas em Angola. Felizmente, durante o meu passeio, vi talvez um único acidente e foi só chapa, sem feridos.
Comecei a minha visita fora de Luanda, pelo Parque Natural da Kissama ou Quiçama. Apesar de ser a meros 70 km de distância de Luanda, é um espaço que merece ser visitado. Quando compramos bilhete à entrada, nem imaginamos o tamanho daquilo, até que nos dizem "para a recepção, é seguir sempre em frente durante 39 kms." Comé que é??? "Ah, e quando virem um caminho para a esquerda, por favor não virem para a esquerda!". Hum, ok, será que vai dar aos leões???
Infelizmente não há leões na Quiçama, mas há girafas, elefantes, gnus, zebras, impalas, entre outros animais icónicos de África. O suficiente para fazer um safari fotográfico simpático para mostrar à família e meter no facebook
Ao fim dos tais 39 kms de estrada de terra através do mato, lá está a recepção, assim como um resort com agradáveis bungalows onde se pode passar a noite. Infelizmente não tinham àgua disponível, devido a uma bomba avariada, pelo que não ficámos lá para a noite. Fizémos um safari curto de uma tarde, mas tivémos sorte de ver mais animais do que muita gente que passa lá 2 dias inteiros - segundo disse o guia que nos levou pelo parque.
Na estrada novamente em direcção a Cacuso, deu para começar a sentir Angola. As aldeias de casas de adobe e palha à beira da estrada, as mulheres a carregar sacas de milho ou a secar mandioca no asfalto, as vendas de comida em alguidares no chão debaixo das árvores, as cabras e cães no meio da estrada, as crianças que se chegam em qualquer lado para pedir "bolacha".
Ficámos hospedados em Cacuso, por ser o local ideal para ver pontos turísticos na província de Malanje, sem os preços elevados da cidade de Malanje. Apesar disso, não deixou de ser caro. Em Angola é tudo caro. Pelo menos tudo aquilo que seja uma conveniência dada por adquirida num país dito desenvolvido, mas que em Angola não está ao alcance da maioria das pessoas.
Fomos ver as Quedas de Calandula e vimo-nos rodeados de miúdos a quererem vender os seus préstimos a troco de dinheiro e mais "bolacha". Contratámos dois rapazes que diziam ser irmãos e que nos levaram a ver as quedas de várias perspectivas, incluindo de uma antiga pousada do tempo colonial, agora em ruínas. Um sítio impressionante.
Sugeriram-nos depois as Quedas de Musseleje, que não ficavam ali muito longe. Aprendemos que a questão do estado dos acessos é para eles coisa de somenos importância. O facto de a estrada para se lá chegar estar alagada em 90% da extensão, formando autênticas piscinas onde não sabíamos se iríamos ficar atolados, para eles não era algo que valesse a pena mencionar antecipadamente. Talvez porque, apesar disso, conseguimos ir e vir sem problemas. Mas passou por nós alguém num carro tipo Fiat ou Renault, que não garantimos que tenha chegado ao fim. Felizmente, como tive o privilégio de aprender, em Angola nunca estamos realmente sozinhos ou isolados. Há sempre gente por perto. Ao longo dessa estrada de selva passámos por várias aldeias onde se podia comprar gasolina 3 vezes mais cara que na cidade e até encontrar um mecânico. Os meus receios de ficar perdida no mato com fome e sede em caso de avaria, dissiparam-se naquele caminho.
Chegados às quedas de Musselege, encontrámos imensas crianças das aldeias em redor, a divertirem-se na água. Com ar extremamente intrigado com a nossa presença, ficaram por ali a cirandar enquanto andámos a tirar fotografias e não resisti a pedir-lhes que posassem para a foto.
A próxima etapa levou-nos às Pedras Negras de Pungo-Andongo. Mais uma paisagem angolana de cortar a respiração. Para a explorar como deve ser, seria necessário mais tempo e ir numa outra altura. Um polícia que encontrámos naquele Parque falou-nos da existência de um caminho através do maciço de pedras, onde até se encontram aldeias, mas que estaria intransitável po causa das chuvas. A administradora do Parque, que conhecemos um pouco depois, mencionou que um miúdo tinha sido recentemente atacado por uma jibóia nesse caminho e deu a entender que o mesmo precisava de manutenção e não era seguro para passeios turísticos. A nossa sede de aventura não era tão intensa que nos levasse por caminhos arriscados, por isso limitámo-nos a visitar uma pequena zona de entrada no complexo rochoso, onde estão os edifícios administrativos e um parque de estacionamento. Embrenharmo-nos nas Pedras terá de ficar para uma nova oportunidade, em que as condições estejam reunidas para viver essa aventura.
Acabámos por dar boleia à administradora desse Parque, que queria ir para Malange. Tinha ouvido falar tanto de Malange, que queria ir conhecer a cidade, mas tal como Luanda, não me deixou uma grande impressão. Parece que hoje em dia as cidades angolanas se destacam pela confusão, sujidade e criminalidade. É pena, pois quando ouvimos falar de como estas cidades já foram em tempos passados, gostaríamos que fossem tão boas ou melhores nos dias que correm. Mas Angola sofreu muito e está agpra a tentar reinventar-se e é natural que haja algum caos durante o processo. Só espero que não seja duradouro, pois há pessoas a sofrer com isso.
No regresso a Luanda, ainda tive a sorte de assistir a um pequeno desfile carnavalesco quando atravessávamos N'dalatando. Este país de cores garridas ficou ainda mais colorido com os fatos e pinturas dos jovens nas ruas e foi um desfecho agradável para o meu passeio. Espero poder regressar a Angola mais vezes, pois ainda há tanta coisa para ver.
Essa oportunidade surgiu, numa viagem de duas semanas a Angola, que incluiu uma "road trip" através das províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Norte e Malange
Depois de muita paciência para reunir toda a papelada exigida para o visto de turismo e de ir a uma consulta do viajante, tive ainda de levar algumas vacinas, uma das quais me fez desmaiar e originar um mini-caos no centro de saúde. No dia da partida, na hora do embarque, tive um ataque de urticária e quase estive para desistir, mas decidi confiar que aquilo passariadurante as quase 8h de viagem de avião. Felizmente foi o que aconteceu, ou as férias teriam sido talvez um pouco menos agradáveis.
Antes de ir falei com diversas pessoas com raízes em Angola e ouvi de tudo um pouco, desde o muito bom ao muito mau e sinceramente já não sabia o que esperar. A primeira impressão não foi má. O aeroporto é um local aprazível, nada assustador como alguém me tinha descrito. E ter alguém à minha espera ajudou a amenizar os meus receios. O primeiro contacto com o trânsito de Luanda também não foi muito mau, embora mais tarde tivesse tido a chance de experimentar os famosos engarrafamentos, que também me haviam sido descritos. Como parte da experiência turística, não me aborreci demasiado com eles, mas coitado daquele que tenha de os experienciar no dia-a-dia. As regras de trânsito são letra morta para a maioria dos angolanos, as bermas são mais uma via de circulação, as vias rápidas têm retornos a meio para quem queira inverter o percurso e em caso de muito trânsito, onde deveriam existir 3 filas de carros, coexistem 6 lado a lado. Morre imensa gente nas estradas em Angola. Felizmente, durante o meu passeio, vi talvez um único acidente e foi só chapa, sem feridos.
Comecei a minha visita fora de Luanda, pelo Parque Natural da Kissama ou Quiçama. Apesar de ser a meros 70 km de distância de Luanda, é um espaço que merece ser visitado. Quando compramos bilhete à entrada, nem imaginamos o tamanho daquilo, até que nos dizem "para a recepção, é seguir sempre em frente durante 39 kms." Comé que é??? "Ah, e quando virem um caminho para a esquerda, por favor não virem para a esquerda!". Hum, ok, será que vai dar aos leões???
Infelizmente não há leões na Quiçama, mas há girafas, elefantes, gnus, zebras, impalas, entre outros animais icónicos de África. O suficiente para fazer um safari fotográfico simpático para mostrar à família e meter no facebook
Ao fim dos tais 39 kms de estrada de terra através do mato, lá está a recepção, assim como um resort com agradáveis bungalows onde se pode passar a noite. Infelizmente não tinham àgua disponível, devido a uma bomba avariada, pelo que não ficámos lá para a noite. Fizémos um safari curto de uma tarde, mas tivémos sorte de ver mais animais do que muita gente que passa lá 2 dias inteiros - segundo disse o guia que nos levou pelo parque.
Na estrada novamente em direcção a Cacuso, deu para começar a sentir Angola. As aldeias de casas de adobe e palha à beira da estrada, as mulheres a carregar sacas de milho ou a secar mandioca no asfalto, as vendas de comida em alguidares no chão debaixo das árvores, as cabras e cães no meio da estrada, as crianças que se chegam em qualquer lado para pedir "bolacha".
Ficámos hospedados em Cacuso, por ser o local ideal para ver pontos turísticos na província de Malanje, sem os preços elevados da cidade de Malanje. Apesar disso, não deixou de ser caro. Em Angola é tudo caro. Pelo menos tudo aquilo que seja uma conveniência dada por adquirida num país dito desenvolvido, mas que em Angola não está ao alcance da maioria das pessoas.
Fomos ver as Quedas de Calandula e vimo-nos rodeados de miúdos a quererem vender os seus préstimos a troco de dinheiro e mais "bolacha". Contratámos dois rapazes que diziam ser irmãos e que nos levaram a ver as quedas de várias perspectivas, incluindo de uma antiga pousada do tempo colonial, agora em ruínas. Um sítio impressionante.
Sugeriram-nos depois as Quedas de Musseleje, que não ficavam ali muito longe. Aprendemos que a questão do estado dos acessos é para eles coisa de somenos importância. O facto de a estrada para se lá chegar estar alagada em 90% da extensão, formando autênticas piscinas onde não sabíamos se iríamos ficar atolados, para eles não era algo que valesse a pena mencionar antecipadamente. Talvez porque, apesar disso, conseguimos ir e vir sem problemas. Mas passou por nós alguém num carro tipo Fiat ou Renault, que não garantimos que tenha chegado ao fim. Felizmente, como tive o privilégio de aprender, em Angola nunca estamos realmente sozinhos ou isolados. Há sempre gente por perto. Ao longo dessa estrada de selva passámos por várias aldeias onde se podia comprar gasolina 3 vezes mais cara que na cidade e até encontrar um mecânico. Os meus receios de ficar perdida no mato com fome e sede em caso de avaria, dissiparam-se naquele caminho.
Chegados às quedas de Musselege, encontrámos imensas crianças das aldeias em redor, a divertirem-se na água. Com ar extremamente intrigado com a nossa presença, ficaram por ali a cirandar enquanto andámos a tirar fotografias e não resisti a pedir-lhes que posassem para a foto.
A próxima etapa levou-nos às Pedras Negras de Pungo-Andongo. Mais uma paisagem angolana de cortar a respiração. Para a explorar como deve ser, seria necessário mais tempo e ir numa outra altura. Um polícia que encontrámos naquele Parque falou-nos da existência de um caminho através do maciço de pedras, onde até se encontram aldeias, mas que estaria intransitável po causa das chuvas. A administradora do Parque, que conhecemos um pouco depois, mencionou que um miúdo tinha sido recentemente atacado por uma jibóia nesse caminho e deu a entender que o mesmo precisava de manutenção e não era seguro para passeios turísticos. A nossa sede de aventura não era tão intensa que nos levasse por caminhos arriscados, por isso limitámo-nos a visitar uma pequena zona de entrada no complexo rochoso, onde estão os edifícios administrativos e um parque de estacionamento. Embrenharmo-nos nas Pedras terá de ficar para uma nova oportunidade, em que as condições estejam reunidas para viver essa aventura.
Acabámos por dar boleia à administradora desse Parque, que queria ir para Malange. Tinha ouvido falar tanto de Malange, que queria ir conhecer a cidade, mas tal como Luanda, não me deixou uma grande impressão. Parece que hoje em dia as cidades angolanas se destacam pela confusão, sujidade e criminalidade. É pena, pois quando ouvimos falar de como estas cidades já foram em tempos passados, gostaríamos que fossem tão boas ou melhores nos dias que correm. Mas Angola sofreu muito e está agpra a tentar reinventar-se e é natural que haja algum caos durante o processo. Só espero que não seja duradouro, pois há pessoas a sofrer com isso.
No regresso a Luanda, ainda tive a sorte de assistir a um pequeno desfile carnavalesco quando atravessávamos N'dalatando. Este país de cores garridas ficou ainda mais colorido com os fatos e pinturas dos jovens nas ruas e foi um desfecho agradável para o meu passeio. Espero poder regressar a Angola mais vezes, pois ainda há tanta coisa para ver.


