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Tuesday, November 18, 2008

Bruxelloise au coeur

Um ano depois, regressei a Bruxelas. Uma emoção surda instalou-se assim que vi ao longe o perfil da cidade. Enquanto lá estive tentei analisar os porquês daquilo que sinto e excluí coisas concretas como casos mal-resolvidos dentro dos seus limites. Concluí que, para além do sentimento que terei para sempre associado a esta cidade, por ter sido o local do meu renascimento, a cidade tem um je-ne-sais-quoi que se escapa por todos os seus poros e que me invade.


Quando estava pela madrugada na varanda do Palais de Justice sobre os Maroles, a ver a cidade em silêncio e coberta por uma névoa espessa, convenci-me de que estava suspensa numa bolha fora da qual nada mais existia. Naquele momento só a cidade era real e nada mais existia para lá do nevoeiro. Quando estou nesta cidade, não existe nada para lá dela. Apodera-se de mim uma melancolia que nem em Lisboa sinto.
Noutra ocasião sentei-me no parapeito da sala redonda das estufas do Botanique e ali fiquei a ver anoitecer. O jardim oitocentista lá em baixo rodeado pelos prédios altos envidraçados das avenidas que o rodeiam, pareceu-me partilhar comigo os meus sentimentos. Sentimentos de nostalgia pela inevitabilidade do passar do tempo, da mudança, do adeus, dum romantismo sempre ansiado mas nunca vivido.
No metro do Botanique há um painel de azulejos de homenagem a Fernando Pessoa. Um esboço dele meio pensativo, debruçado sobre um rapaz que lhe engraxa os sapatos. Sempre achei muito adequado encontrá-lo ali quando saio do Botanique. Porque ali a poesia torna-se real.

Les feuilles jaunes des arbres tombent l'une après l'autre, comme je tombe d'amour et ensuite je tombe du haut de mes illusions.

Soube que nas Caves de Cureghem estava a exposição Körperwelten e não resisti a ir dar uma espreitadela. Tinha ouvido rumores de que o mentor da exposição era um tipo um bocado manhoso - tem fama de nazi e de usar corpos de chineses executados para as suas experiências de plastinação de corpos - mas apesar disso achei que devia ir ver com os meus próprios olhos tão polémica exibição.
Ao longo da exposição é repetido incessantemente o quanto esta revela a beleza escondida por baixo da nossa pele. É discutível. Há quem diga que "beauty is skin deep". De facto não somos tão atraentes sem pele e com os orgãos à mostra, mas também não senti qualquer tipo de repulsa. Somos como somos, tão bonitos ou tão repulsivos, por dentro ou por fora, consoante mudemos de perspectiva e nos desprendamos de preconceitos.
A maior parte das pessoas que vê esta exposição de certeza que fica uma semana sem vontade de comer carne, mas no meu caso, ao olhar para uma coluna vertebral com os músculos e tendões agarrados, de repente senti desejo de costeletas. Tudo é relativo.

Estive em casa da Sevelina, num dos inúmeros e memoráveis jantares que se realizam na rua Hôtel de la Monnaie e ela disse que não queria ver tal coisa, que se sentiria mal. Eu disse-lhe que é importante confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade e aceitá-la com naturalidade, mas um coro de vozes se levantou - ninguém em meu redor parecia querer sequer pensar nisso. É mesmo verdade que estamos cada vez mais desligados da morte e convencidos de que vamos viver para sempre, frescos e radiantes. Apercebi-me de que nunca vi nenhuma pessoa morrer. Já morreram nos meus braços animais não-humanos, mas nunca vi sequer um cadáver humano - excepto agora os plastinados. Fazemos de tudo para afastar e esconder a morte que ela já nem sequer faz parte da equação da vida. É algo de que não queremos falar até ao dia em que nos acontecer. E porquê? Porque as pessoas acomodaram-se à ideia de que a matéria, tal como os seus sentidos iludidos a apercebem, é tudo o que existe e sentem-se agoniadas perante a perspectiva do vazio da não-existência. Esse é o triste legado da nossa civilização materialista. Felizmente eu não herdei esse legado e tenho uma perspectiva diferente, logo a morte não me angustia.
Muitas vezes penso que a única coisa que me faria agarrar com unhas e dentes à vida se me visse às portas da morte, seria o querer evitar a todo o custo o sofrimento daqueles que deixaria para trás. Porque sei que eles sentiriam imensa agonia e é só isso que eu não suporto.

Também fui ver a exposição "Le sourire de Bouddha" no BOZAR. Como sempre no BOZAR, uma exposição lindíssima. Uma viagem pela história do budismo na Coreia através de estátuas e pinturas impressionantes.
Durante a minha estadia em Bruxelas tive ainda possibilidade de jantar no trendy Belgo-belge, almoçar no acolhedor Imagin'air, beber kriek num pub anónimo, tomar vodka com ananás no Calabriego e viver um serão multicultural com um artesão argentino, um dançarino do Burkina Faso, uma escriturária alemã e uma empregada de bar espanhola. L'habituel à Bruxelles

Thursday, October 02, 2008

I'm going deeper underground

Tenho estado ocupada. Entre a natação, curso de alemão e agora dança oriental, lá vou trabalhando e tentando estar a par do que acontece no mundo. Uma vez que dificilmente consigo fazer tudo o que quero - desenhar, escrever, meditar mais, ler mais, desenvolver projectos megalómanos para salvar o ser humano de si próprio - tomei a decisão de cortar nas coisas que além de consumirem o meu tempo precioso, contribuem para a minha alienação do "mundo real", ao mesmo tempo que me expõem demasiado a ele.
Falo da minha participação na web. Facebooks, hi5s, last.fms, iReads, iGoogles, Yahoos, Flixters,... chega! Vou manter apenas o útil e indispensável à comunicação com amigos distantes e o resto vai às urtigas. Estou farta de voluntariamente esparramar informação pessoal na internet.
Há dias um homem comentava num fórum que o Google sabe mais sobre ele do que a sua própria mulher alguma vez saberá. E eu senti o mesmo: não tenho nenhum amigo ou familiar que me conheça tão bem como a internet me conhece. A internet sabe a história da minha vida, que filmes vejo, que música ouço, que personalidade tenho, em que causas me envolvo, as minhas opiniões sobre tudo e sobre nada... Quase tenho inveja das pessoas sobre as quais o Google encontra "0 resultados". É como se não existissem, deveriam sentir-se tão livres!
Até aqui tive algum gozo em experimentar as redes sociais e as milhentas ferramentas online que hoje existem para o nosso entretenimento, mas não só começo a sentir que perco demasiado tempo com isto, como atingi o meu limite de aceitação da exposição pública. Além dos malefícios óbvios, a exposição também tem o inconveniente de alimentar o meu ego, algo no qual não quero de forma alguma investir o meu tempo.
Um amigo entendido nas artes da internet descobriu que a maior fatia de tráfego que vai parar ao site dele é reencaminhado a partir dum link num dos meu blogs e após mais alguma pesquisa sobre as origens dessas pessoas concluiu que muitas vão ter aos meus blogs googlando pelo meu nome. Diz ele com um sorriso sarcástico que isso não é muito comum e que tudo indica que eu sou famosa.
Até agora foi útil estar disponível para ser encontrada e fiz uns quantos amigos novos por causa dos blogs e redes sociais, mas acho que as desvantagens superam as vantagens. É giro ouvir constantemente "Ah, tu é que és a Irina!" quando conheço alguém que já "ouviu falar de mim" na net, mas eu não quero ser "célebre", quero apenas paz de espírito e o amor dos amigos que me foram conhecendo aos poucos, em carne e osso e olhos nos olhos.

Wednesday, August 27, 2008

Procrastinação estruturada

Hoje vou revelar um segredo àqueles que me vêem como a mulher dos sete ofícios, que conhece tudo e todos, que está metida em tudo e mais alguma coisa, que é um sucesso profissional, etc e tal. Wrong! O que eu sou verdadeiramente é uma procrastinadora estruturada.
Descobri este belo conceito e imediatamente me reconheci nele.


Meto-me em tudo e conheço tudo, porque passo horas a inventar actividades paralelas e a ler tudo o que é livros, revistas, blogs, etc, para fugir de forma airosa a qualquer outra coisa verdadeiramente importante que tenha para fazer.
Como por exemplo agora, que tenho que responder a uma entrevista que me foi requisitada, mas como não estou nada inspirada e o prazo apertado me está a pôr nervosa, comecei antes a pensar nisto de fugir ao trabalho e acabei a escrever no blog sobre o assunto.
O que acho fascinante neste conceito de procrastinador estruturado é a afirmação de que é possível fugir ao trabalho e ainda assim construir-se uma imagem de sucesso. Eu diria que sou uma prova viva disso. Basta saber escolher bem as actividades que se fazem para fugir ao trabalho, de modo a parecerem elas próprias um trabalho importante. Não há nada como preguiçar de forma inteligente e construir uma carreira a partir disso!
Mas o melhor mesmo é deixar de procrastinar. Aqui ficam umas dicas para quem quer combater esse mau hábito.

Thursday, June 12, 2008

O fim do mundo em cuecas

Anda tudo doido por causa dos combustíveis e como hoje de manhã experimentei em 1ª mão o ambiente de nervos que se vive nas bombas de gasolina, não me escapo a ir na onda de escrever umas quantas palavras sobre o assunto, como toda a gente...
É doloroso ver que as pessoas estão tão iludidas quanto ao mundo em que vivem que assim que ele é um bocadinho abalado, sentem logo que é toda a realidade que se desmorona.
Eu, pessoalmente, já espero um colapso da nossa civilização desde há muitos e bons anos e fiz um esforço para me preparar para ele, pelo menos psicologicamente. Perante a hipótese de passar alguma fome, ter energia racionada ou não poder andar de carro, sinto-me bastante serena. (Só me perturba não poder andar de avião - efeitos perversos de se subir na vida. lolol)
Mas preocupa-me o grau de ignorância das pessoas, que reagem desproporcionadamente às crises normais da existência num mundo impermanente. Uma reacção exagerada por parte das pessoas pode despoletar o colapso do mundo tal como o conhecemos, muito antes de haver razões incontornáveis para isso. Se juntarmos o sangue que ferve ao aquecimento global, este pode muito bem vir a ser o tão anunciado fim-do-mundo em cuecas.
Por exemplo, esta paralisação dos camionistas... OK, os combustíveis estão caros e muitas empresas vão à falência com isso e as que sobrevivem deixam de ter os lucros que tiveram até aqui, mas o mundo continua, funcionando de modo mais modesto e ajustado aos recursos que temos. Mas o apego das pessoas ao mundo que conhecem é de tal ordem que as leva a exigir que o governo faça desaparecer por magia uma crise profunda mundial que só se resolve com uma mudança de paradigma de desenvolvimento da humanidade. C'mon!
Se a paralisação continuar, em breve as pessoas não terão combustível para se deslocar de carro para o trabalho, os transportes públicos não vão dar conta do recado, muita gente não vai poder ir trabalhar, a comida não vai chegar aos supermercados - ficam todos em casa agarrados ao estômago e a ver televisão ou, num pior cenário, vão para a rua e começam a matar-se uns aos outros por um litro de gasolina ou um papo-seco.
Por acaso acho que não se chegará a isso. O colapso civilizacional ainda não é desta.
O governo vai chegar a um acordo qualquer com os camionistas, eles vão voltar à estrada, as pessoas vão continuar a ter disponíveis os bens de consumo que tanto prezam (embora dos preços galopantes não se livrem) e o mundo vai continuar a girar.
Estas crises que estamos a passar são apenas avisos à navegação - early warnings, wake up calls, eye-openers - daquilo que nos espera se não arrepiarmos caminho.
Compreendo o sofrimento e desespero das pessoas, que não têm capacidade para mudar de vida dum dia para o outro, mas todos tivémos hipóteses de escutar os avisos, de mudar aos poucos, de contribuir com pequenos esforços pessoais para se evitar estas crises maiores. Todos temos culpa e merecemos o castigo. Se uns são subsidiados e outros não e há aí injustiça, a solução é não subsidiar ninguém! Welcome to the real world!


P.S.: Quanto às minhas deslocações de carro para Lisboa, encontrei uma solução! Vou de boleia dum colega que vem das mesmas bandas. Viva o car-sharing!

Tuesday, June 03, 2008

Luzes da cidade

Estou a frequentar um curso de Agricultura Biológica da AGROBIO, que já andava há anos para fazer. Até agora não aprendi muito - ainda andam a explicar a fotossíntese, as características dos solos, enfim, "basic stuff" - mas eu insisti em fazer este curso porque sinto necessidade de sistematizar os conhecimentos livrescos e dispersos que tenho, num todo coerente.
Vou e venho no carro da minha mãe todos os dias, o que me pesa na consciência, mas considerando que saio do curso lá pelas 22h00-22h30, nem pensem que vou sozinha apanhar comboio a Alcântara-Terra a essas horas da noite para reduzir a minha pegada ecológica. Espero que os conhecimentos adquiridos me permitam um dia mais tarde cultivar hectares e hectares biológicos e compensar estas emissões de CO2 ;)
Estou a falar nisto porque ultimamente penso muito no impacto que passei a ter com as minhas viagens regulares de avião. Já ouvi umas bocas duns amigos puristas que atravessam o mundo de comboio e autocarro se for caso disso, mas outros há que argumentam que o meu trabalho em prol de um mundo melhor é suficientemente compensador das emissões de CO2 que emito para a atmosfera. É um argumento discutível. Eu diria que é mais na base do potencial do meu trabalho em contribuir para um mundo melhor que os impactos poderão vir a ser compensados, mas se falarmos em termos imediatos, então de facto não estou a compensá-los muito.
Mas quando os meus amigos anti-avião me apertam os calos, eu digo que antes de se pedir aos ecologistas que deixem de viajar de avião para defenderem o ambiente global, devem pedir isso a quem viaja de avião de Nova Iorque à China apenas para apertar a mão a alguém e fechar um qualquer negócio poluidor. Não estou a sacudir a água do capote dizendo que outros se esforcem em vez de mim, apenas estou a dizer que se o esforço que me pedem para fazer me impede de fazer o meu trabalho em prol dum melhor ambiente, então nesse ponto deveriam passar a pedir esforço semelhante a alguém que possa fazê-lo sem prejuízo para o mundo e chatear-me um pouco menos com o assunto. Busco alternativas, mas para mim não é alternativa gastar 500 EUR e vários dias em vários comboios, numa viagem de trabalho, quando de avião gastaria 200 EUR e 4-5 horas para chegar ao mesmo destino. O que achas, Ritinha?



Quando venho de carro à noitinha - o brilho das luzes da cidade, o reflexo dos vidros e espelhos, a beleza crua dos prédios iluminados contra o céu escuro - ao som de swing e blues da Marginal ;), não consigo evitar amar a beleza deste mundo artificial, denso, complexo e musical que criámos. Uma das imagens mais belas que povoam a minha memória é a das luzes da cidade de Lisboa vistas de avião. Parece algo tirado dum livro de ficção científica, um monumento às capacidades sobre-humanas do ser humano. É pena que tenhamos enveredado por um caminho em que temos tudo isto às custas de um anunciado fim-do-mundo tal como o conhecemos. Podíamos ter tudo isto de forma sustentável. A única razão porque não o temos é o facto da ignorância de alguns prevalecer sobre o engenho de muitos. Oxalá as luzes da cidade iluminem as mentes obscurecidas deste mundo e as coisas mudem. Até lá faço o que posso, mas não me peçam para ser perfeita.

Wednesday, April 30, 2008

Eu-ropeia

Como diz a Fernanda, ser europeu pode ser muito bem resumido na minha experiência de ter provado verdadeiro mozzarella pela primeira vez em Bruxelas através duma amiga búlgara. Ser europeu é excitante, é fashion e tem "montes" de estilo ;)
Mas eu interrogo-me por quanto tempo se conseguirá ser europeu assim.
Por agora encontram-se muitos italo-gregos casados com alemãs-belgas, cujos amigos mais chegados vivem todos no mínimo a 2h de avião de distância e cujos filhos nascidos na França falam pelo menos quatro línguas e não sabem bem que nacionalidade preencher nos formulários.
Esta diversidade tenderá a desvanecer-se com o desvanecimento das fronteiras e o alargamento dos nossos horizontes. Ser europeu terá tendência a tornar-se um bocado amorfo - uma só eurolíngua, uma só eurogastronomia, uma só eurocultura.
Deixaremos de poder gozar com os franceses dizendo que são uns enfants terribles, com os italianos que são uns engatatões, com os espanhóis que são uns egocêntricos e com os alemães que são uma experiência de condicionamento mal acabada. Seremos todos europeus e teremos todos esses defeitos.
Eu sinto-me felizarda por estar a viver o momento em que a osmose começou e o equilíbrio ainda não foi atingido. Mas quando o "equilíbrio" for atingido e nos tornarmos os Estados Unidos da Europa, muito terá sido perdido. Mas a vida é impermanência, não podemos esperar que as coisas se mantenham sempre no mesmo estado. Há é que aproveitar o melhor possível cada estado enquanto duram.

Monday, March 10, 2008

Lisboa

Ah, Lisboa.
Voltei a sentir-te.
Como uma estaca no coração.
Quero chorar contigo.
O fado. O nosso triste fado.
Abandonada à amargura doce do amor sentido, adiado, reprimido, renunciado.
Assistes indolente ao nascer e ao pôr-do-sol.
Anseias por algo prisioneiro na matriz da melancolia e da saudade.
E o meu coração é o teu.

Saturday, November 17, 2007

Conexões

As pessoas no Porto são mais simpáticas. Pelo menos diz-se que sim e eu também tenho essa impressão. Mas ainda ontem ajudei um senhor a carregar as suas pesadas malas até à hospedaria onde ia ficar instalado e ele agradeceu-me, dizendo precisamente que as pessoas aqui são mais simpáticas, não são como em Lisboa. Ao que eu lhe respondi "Pois, mas eu não sou de cá, eu sou de Lisboa." O senhor ficou sem resposta para me dar.
Às tantas a ideia de que por aqui se é mais simpático acaba por contagiar quem cá chega e a simpatia cresce e multiplica-se, não é que esteja de facto incutida nos genes.
Por falar em pessoas simpáticas... o António descobriu que o café da esquina, aqui perto de casa, tem wi-fi gratuito. Que simpáticos! Pelo que agora somos frequentadores habituais do sítio, juntamente com os nossos laptops. Claro que tenho que consumir alguma coisa para poder cá estar, mas mesmo assim sai mais barato do que ir a um ciber-café. E é sem dúvida mais agradável. O espaço é amplo e quando consigo lugar junto à janela, apanho um belo solinho e tenho uma vista bastante interessante sobre a rua.
Só tem um problema, as opções de bebida e comida não são muito veggie-friendly. Perguntei à senhora do café se tinha leite de soja e ela disse "Não menina, eu só uso meio-gordo." Achei adorável a sua candura :) Resolvi pedir um chá, mas perante a minha pergunta sobre que chás tinham, ela disse que não sabia, porque os nomes estavam todos em inglês. Por isso tive que ser eu a informá-la sobre os chás que tinha. Será que nunca ninguém pediu um chá neste café antes de mim?
Aaaaah, sábado à tarde, sentada no café, ligada à net. Pode parecer estúpido, mas sinto-me bem com isso. Já me tinha adaptado a uma vida "desligada", mas confesso que o vício é grande e agora que o recuperei, sinto-me nas nuvens :) Ontem li cerca de 500 emails que deixei acumular na mailbox e percebi o quanto me faz falta estar "ligada" para manter aquela minha tão característica capacidade de "saber tudo" antes dos outros :) Já andava a ouvir bocas do tipo "então não leste o email que eu te mandei?", "então não soubeste do que se passou?". Isso não costumava acontecer! Senti que estava a ficar para trás. Maldita sociedade da informação! Se quero desligar-me, tenho mesmo que me refugiar numa gruta na montanha...

Thursday, November 15, 2007

B@B

Na 2ª e 3ª feira estive em Lisboa na Gulbenkian, a participar na “High Level Conference of Business and Biodiversity”, organizada pela Presidência Europeia do Conselho da EU e pela Comissão Europeia.
Era mesmo “high level” pois não era qualquer um que lá conseguia entrar, apenas aqueles que fizeram por o merecer ou que lóbiaram/subornaram alguém :) Eu consegui lá entrar porque tenho “contactos” ;) OK, também houve pessoal que conseguiu entrar à socapa, porque nem sempre se fazia controlo à porta.
Aquilo estava a abarrotar de ministros, secretários de estado, banqueiros e belmiros de azevedo. Aliás, O Belmiro de Azevedo original esteve mesmo lá, para aí durante 10 minutos enquanto fez o seu discurso e depois pirou-se e já não ouviu a boca que o orador seguinte lhe mandou por não ficar para participar na discussão.
Esta conferência foi mais uma excelente ocasião para se observar várias coisas:
- O quanto “esta gente” tem tão pouca noção do “estado de emergência” em que estamos metidos, que ainda vêem estas iniciativas para se tornarem verdes, como uma estratégia de marketing e não como uma necessidade para a sua própria sobrevivência. A maior parte das empresas que começam a desenvolver produtos verdes, fazem-no para explorar um novo nicho de mercado (os maluquinhos que gostam de comprar coisas “verdes”) ou para poderem usar isso como bandeira e não como um ensaio para mudança do seu modus operandi.
- O quanto se perdem tempos infinitos discutindo possíveis soluções, quando já tudo foi descoberto e inventado – só que como as soluções são trabalhosas e/ou inconvenientes de aplicar, é melhor continuar a organizar conferências e workshops durante anos a fio, discutindo eternamente as vantagens e desvantagens de todas as propostas que claramente não levem a lado nenhum, até se decidir pôr em prática uma que “pareça bem” mas não seja muito chata de implementar.
- O quanto estes eventos são manipulados para se passarem determinadas mensagens e se fazer auto-promoção e greenwashing. Para mim, os vencedores do “óscar greenwash” deste evento foram a Syngenta ex aequo com a Bayer CropScience, pelo melhor filme, argumento e actores. A Syngenta, por ter a coragem desmesurada de oferecer “os seus conhecimentos e experiência na protecção da biodiversidade” e a Bayer por afirmar “que as suas soluções tecnológicas para a agricultura são a única solução séria para se proteger a biodiversidade” e ambas pela actuação inspirada dum dramatismo intenso dos seus “actores” no papel de mártires – “a Syngenta, a Bayer, a Dupont e a Monsanto têm investido milhões no desenvolvimento de soluções para salvar o mundo da destruição e só recebem rejeição das pessoas ignorantes que têm medo da ciência e que se pudessem impediriam o mundo de ter aviões e telemóveis”. Snif, snif, toda a gente estava marejada de lágrimas e com o coração detroçado de pena pelas pobres corporações incompreendidas.
- O quanto os portugueses são saloios a falar inglês (excepto os que trabalham no estrangeiro em ambiente internacional) e precisam desesperadamente de dizer coisas, mesmo que fora de contexto, desactualizadas ou que nada acrescentem à conversa, apenas para mostrarem que existem.
- O quanto os ecologistas portugueses são pouco profissionais e continuam a dar tiros nos pés cada vez que têm oportunidade para isso – mesmo assim merecem todo o meu respeito e admiração, pois tudo o que fazem é por dedicação voluntária à causa e conseguem ter quase sempre a razão do seu lado. Infelizmente irritam-se muito facilmente e passam para as atitudes sensacionalistas, para os insultos e para os argumentos balofos em vez de manterem uma postura respeitável e coerente.
Para finalizar, gostei de rever muitas caras conhecidas de Bruxelas, de voltar a falar "estrangeiro", de falar com pessoal dos ministérios do ambiente de vários países, de voltar a comer de borla grandes jantaradas com 5 pratos, 5 pares de talheres e 3 copos. O “high level” sobe facilmente à cabeça, é o que é…
À hora de almoço aproveitei para passear pelo jardim (hum, que recordações felizes tenho ali passadas) e deitei-me na relva a apanhar sol, para descer lá do “high level” de volta à terra.

Friday, October 12, 2007

A mente masculina

Desculpem lá por ao fim de tanto tempo sem dar notícias, vir para aqui falar deste assunto parvo, mas no decorrer do meu trabalho fui dar ao site da Milupa e deparei-me com algo que não podia deixar de partilhar com vocês.
Todo o site está dirigido às mamãs e futuras mamãs, com dicas do que dar de comer ao bebé aos 0, aos 4, aos 6 meses, aos 6 meses e 2 dias, aos 6 meses e 2 dias e 3 horas e 45 minutos... E um pouco escondida lá aparece uma página dedicada aos pais! E o que contém esta página? Em 5 tópicos, 2 referem-se a "sexo antes da gravidez" e "sexo depois da gravidez". Bem, isto diz muito da mente masculina. Não sei quem escreveu o site e podem argumentar comigo que ou era uma mulher que não conhece verdadeiramente o que vai na mente dos homens, ou que é um homem que aplica este estereótipo a todos os seus congéneres. Mas eu estou inclinada para pensar que a Milupa contratou um psicólogo macho que sabe o que vai na alma dos homens para que respondesse no site às inquietações típicas do sexo masculino. Com honrosas excepções, vocês machos são mesmo assim, entre cada dois pensamentos que têm sobre outra coisa qualquer, lá vem um pensamento sobre "então e sexo?". Taditos, não têm culpa, foi a mãe natureza que vos fez assim. Mas podiam fazer um esforçozito para contrariar, não? Ah ah ah!
No mesmo site encontram-se pérolas como "não fique alarmado, essas novas aquisições (i.e. o bebé) não o impedirão de ir (...) ao futebol" - ok também diz ir ao teatro e viajar, mas isso é só para disfarçar o verdadeiro desejo do homem, que é de ir ao futebol. Ah, ah, ah!
Desculpem lá, hoje estava mesmo a apetecer-me gozar com vocês, queridos homens :)
Do Porto não tenho muito a dizer. Verdade seja dita que além do percurso casa-trabalho, trabalho-casa, ainda não andei muito por aqui.

Friday, August 17, 2007

O mundo sem nós

Para quem tem tendência a esquecer-se da insignificância das nossas vidas no tempo de vida do universo, aqui vai um link que deve ser explorado: The world without us.

Saturday, April 14, 2007

Por água abaixo

Afinal todos aqueles planos de ir ao Festival de Cinema e tantos outros que eu tinha para o fim-de-semana prolongado da Páscoa foram por água abaixo. Adoeci e já há uma semana que mal saio de casa. Não é muito habitual isto acontecer-me, mas muito de vez em quando até a mim acontece.
Já me sinto melhor, mas tenho que me portar bem durante mais uns tempos.
Amanhã vou a casa da Sevelina, a mais uma festa, mas tenho que permanecer muito quietinha e beber muito cházinho, nada de me meter nos copos... Vai ser uma seca quando estiverem todos a rir-se de coisa nenhuma e eu não perceber a piada por falta de álcool no sangue :)
Desta vez a festa é de despedida ao Damien. Bruxelas tem destas coisas, assim como nos dá a conhecer muita gente e a fazer muitos amigos, também nos obriga constantemente a dizer-lhes adeus.
Penso que agora percebo o que é que a cidade tem que lhe dá a personalidade: aqui vive-se numa euforia que se sustenta continuamente porque nada dura muito tempo. As pessoas chegam e partem constantemente, as relações criam-se e dissolvem-se a toda a hora e nunca se chega àquele ponto em que tudo começa a decair. Nada chega a ser suficientemente profundo, suficientemente real para que ocorram desilusões, desentendimentos, incompatibilidades. Quando quase se chega a esse ponto, muda-se de sítio, volta-se para casa, liga-se o sorriso, recomeça-se de novo.
Talvez seja só impressão minha, mas eu vejo Bruxelas mudar de máscara todos os dias.

Wednesday, April 04, 2007

Impermanência

A Eva vai voltar para Espanha este sábado. Após 3 anos em Bruxelas decidiu que era tempo de regressar e não pensa voltar mais. Não que esteja farta de Bruxelas, ela adora esta cidade e foi com muito sofrimento que ela percorreu a meu lado alguns locais de Bruxelas que queria ver uma última vez.
Ela diz que se vai embora para fugir da vida em que aqui se enredou. Quer começar de novo e para isso tem que deixar para trás Bruxelas, pois já não consegue desligar a cidade da sua própria existência. Voltar a Espanha será para ela um renascimento.
Quando nos despedimos no metro, como se fosse apenas até um dia destes, eu não consegui evitar perguntar se nos voltaríamos a ver e ela disse que claro que sim, que havemos de nos cruzar em Paris ou em Nova Iorque. É remotamente provável que isso aconteça, mas honestamente eu senti que não. Já estamos suficientemente ligadas para que o adeus seja doloroso como um murro no estômago, mas não o suficiente para evitarmos que daqui a uns meses nos deixemos de escrever e nos esqueçamos uma da outra.
Daqui a quatro meses poderei estar no lugar dela, a querer memorizar cada detalhe de Bruxelas, a querer trazê-la para dentro de mim. Acompanhar a Eva neste último passeio pela cidade foi como que uma pré-experiência desse sentimento de perda. Por causa disso a cidade pareceu-me ainda mais viva. Parecia-me que estava a ver Bruxelas pela primeira vez e fiquei surpreendida com a quantidade de coisas que nunca tinha visto nas ruas por onde já passei tantas vezes.
Vou ter um fim-de-semana prolongado de 4 dias e tinha pensado viajar para fora de Bruxelas, mas agora decidi ficar na cidade, pois há ainda tanto dela que eu quero viver e absorver.
Já ando a sonhar com outros destinos, na Europa, na América, na Lua talvez. Daqui a quatro meses não sei se vou ou se fico ou se volto para casa. Mas sei que todas as despedidas são difíceis e que não interessa realmente o lugar para onde se vai, o que importa é aprender a não sofrer por aquilo que se teve que deixar para trás.

Thursday, March 15, 2007

É preciso ter lata

Ganhei dois convites para visitar o Salão Life2, sobre saúde, alimentação, bem-estar e forma física, no Expo Palais de Bruxelles.
Fui ver o programa do salão no website que vem indicado nos convites e qual não é o meu espanto quando vejo que durante toda a tarde de sexta-feira, irão haver sessões contínuas da seguinte apresentação:
"Choix en connaissance de cause chez McDonald's - Fun, exercise et alimentation variée: un engagement pour l'équilibre" - Dhr. Stephan De Brouwer (McDonald's)
Para quem não percebeu, um "doutor" vai falar sobre como ter uma vida saudável e uma alimentação saudável com o McDonalds! E eu que me tenho andado a enganar a fazer yoga e a ter uma alimentação vegetariana biológica quando afinal a fast food do MacDonalds é que é o caminho para uma vida saudável! A partir de amanhã só como hamburguers, mcnuggets, sundaes e batatas fritas e o único exercício que vou fazer será caminhar até ao McDonalds mais próximo 3 vezes ao dia.
É realmente maravilhoso que haja pessoas tão altruístas no mundo que tenham a bondade infinita de nos mostrar desinteressadamente o que verdadeiramente é melhor para a nossa saúde e qualidade de vida! (ironia)

Sunday, March 11, 2007

As iludências aparudem

Na 6ª feira à noite jantei em casa da Lena e aproveitámos para discutir os meus primeiros 6 meses de EVS. Chegámos a muitas conclusões interessantes que irão constar dum relatório que estamos a escrever, mas o mais interessante foi aquilo que ela me disse sobre as expectativas iniciais que ela e o Marco tinham de mim.
Ela disse que literalmente não esperavam muito de mim. Enfim, tive que me rir, porque afinal escolheram-me de entre dezenas de candidatos e mesmo assim não estavam muito convencidos das minhas capacidades. Ela explicou-me que não só eu superei as expectativas em termos intelecto-profissionais (também não era preciso muito... considerando o nível de expectativa) como superei as expectativas em termos de resistência psicológica e emocional. Estavam ambos convencidos que ao fim do primeiro mês eu quereria desistir ou pelo menos precisaria de apoio psicológico para me aguentar por cá mais tempo.
Fiquei tão surpeendida com isso que perguntei porquê. Ela disse-me que nos primeiros 6 meses em Bruxelas ela não conseguiu arranjar amigos, estava sempre enfiada no quarto a chorar, que odiava tudo e queria voltar para casa e que partindo do pressuposto que eu era mais nova, que nunca tinha saído do país, que nunca tinha estado longe da família por tanto tempo, que vinha fazer algo que nunca fiz na vida e que tinha que aprender a falar outra língua (além de ser portuguesinha e vir dum "país de 3º mundo" para uma "metrópole europeia") só poderiam esperar que eu desatasse a chorar e a chamar pela mamã.
Mas eu já estou habituada a ser menosprezada. As pessoas baseiam-se nas aparências e nas suas próprias vivências e não imaginam nem sonham o que se esconde debaixo daquilo que projetam em mim.  Tão calada, tão sossegada, nunca foi a lado nenhum, não tem ambições, não deve saber nada da vida, deve ser tão ingénua, não se irá safar lá fora no mundo...
Tempos idos eu costumava dizer que tinha a experiência de mil vidas dentro de mim e o meu paizinho ficava imensamente chateado quando ao querer ensinar-me sobre as pessoas e o mundo eu alegava sempre que já sabia tudo isso e mais. Ele achava que eu estava a ser arrogante, mas eu não estava apenas a teimar, eu sabia mesmo. Hoje continuo certa daquilo que eu afirmava. 

Banda sonora underground

Comprei um leitor de mp3 baratinho no ebay que também lê ebooks e vídeos, toca rádio, grava aúdio, mostra fotografias, tem jogos... Enfim, só não me massaja os pés quando chego a casa cansada, de resto faz tudo. Já estava farta de ver toda a gente no metro com os fonezinhos nos ouvidos, imersos na sua própria banda sonora enquanto eu tinha que ouvir os artistas do metro que, verdade seja dita, são mais inventivos que os do metro de Lisboa, mas mesmo assim não são assim tão bons que eu os queira ouvir. Há um italiano (outro), que carrega consigo um carrinho de ir às compras com um aparelho de karaoke e colunas no interior e que pega num microfone e enche a carruagem do metro com as suas musiquinhas pirosas e românticas. É uma cena bizarra ver um tipo a cantar para um microfone a sair dum carrinho de compras.
Mas dizia eu... Ao vir para casa com o meu novo brinquedinho, reparei que em 10 pessoas que partilhavam a carruagem de metro comigo, 5 delas (sem exagero) também tinham um brinquedinho como o meu. De repente senti-me estúpida e que tinha comprado aquilo só porque toda a gente tem um. Mas a verdade é que a vida é mesmo diferente quando temos banda sonora. Por exemplo, quando em final de hora de ponta eu observava as pessoas vagueando no metro com ar ausente, começou a tocar a música Ring of Fire do Jonhy Cash no mp3. De repente tive a clara sensação de estar dentro dum filme do Tarantino e comecei a rir-me sozinha. Se calhar sou maluca, mas estas pequenas coisas divertem-me à brava.

Thursday, January 18, 2007

Petite poésie à la japonaise

Je suis amoureuse d'un chat
un chat avec l'âme noir et aux profonds yeux bleus
bleus comme le ciel à Lisbonne dans un jour d'été

Saturday, January 13, 2007

Memória

Enquanto estive em casa, tentei ir a vários sítios que eu evocava da minha memória enquanto estava longe. Queria reviver as emoções a eles associadas e dar-lhes novo fôlego para conservá-las vívidas. Mas não senti as emoções que esperava. Apenas quietude e mesmo algum vazio triste. Não percebia porquê, porque é que lá longe lembrar-me de certos locais me enchia a alma e agora ali presente eles não me diziam nada de especial.
Depois percebi que não são apenas os locais, é um determinado ponto no espaço-tempo, um determinado acontecimento e uma determinada pessoa, que em conjunto constroem aquela emoção única e irrepetível no tempo e no espaço.
O passado não se repete, mas os seus momentos são eternamente conservados no fundo do nosso coração quando os amamos.

Sunday, December 10, 2006

Portugal genuíno

A Sevelina acha que eu tenho algo contra Portugal, porque estou sempre a criticá-lo. E eu reconheci que "Sim, tenho algo contra Portugal, mas apenas contra um certo Portugal, pois há um outro Portugal que eu amo, mas esse quase não se vê nem se ouve."
Fui até Antuérpia com ela e uma amiga dela espanhola, a Elena, e encontrámos por lá um Café-Restaurante Lisboa que elas quiseram conhecer por dentro. Eu não percebo nada de café, pelo que pedi no balcão um café e um café com leite para elas, mas a senhora que me atendeu fez questão de me corrigir que o que eu queria era uma bica e uma meia-de-leite. "Sim, isso..."
Sentámo-nos a beber a bica e discutimos sobre a cultura portuguesa. A Sevelina adora o "ordinary" e fica fascinada com sítios como aquele, tipicamente portuga, com uma árvore de Natal de plástico numa ponta do balcão e uma águia gigante na outra, Pais-Natal da loja dos trezentos a espreitar por entre garrafas de vinho tinto, posters do SLB por todo o lado e uma televisão gigante de plasma a passar um filme na SIC. Ela acha que isto é o Portugal genuíno e eu tenho que reconhecer que infelizmente ela está correcta. Mas disse-lhe que apesar de genuíno, não é o tradicional, é apenas a versão moderna da cultura portuguesa, despida de profundidade, assente nos valores do futebol, do mal-dizer, da conformidade e da quadrilhice.
Eu não detesto Portugal, gosto do Alentejo e de Trás-os-Montes, da tristeza amargurada de Lisboa e da vivacidade do Porto, da luz e da cor de Portugal, dos pastéis de feijão e de noz (não sou fã de pastéis de nata), da couve-portuguesa e das sopas portuguesas, do azeite e da cortiça, dos Madredeus e do Sérgio Godinho, do Fernando Pessoa e da Florbela Espanca e das pessoas maravilhosas que aí habitam e que eu tive a sorte imensa de terem cruzado a minha vida. Mas não gosto da mentalidade dominante do povo português, nem das expressões dessa mentalidade que decoram um café ou uma tasca perdidos algures numa Antuérpia ou numa Bruxelas. Acho vulgares e de mau gosto.
Mas compreendo que para alguém doutro país possam ser fascinantes. Acho que ficamos sempre fascinados com o kitsch doutros povos e culturas, porque não levámos com uma dose maciça dele ao longo de toda a nossa vida. Por exemplo, ando fascinada com o folclore búlgaro, que acho místico e profundo, mas a Sevelina torce-lhe o nariz.

Thursday, November 16, 2006

And now for something completely different!

Os meus "posts" têm sido muito "light" e sinceramente nem tenho ligado muito à qualidade do meu português quando os escrevo. Mas na minha cabeça passam-se coisas mais sérias e complexas do que apenas os olhares que se cruzam no metro e as músicas que tocam na rádio. Por isso hoje deixo aqui um "post" completamente diferente.
No sábado à noite vi o filme "Children of Men" e fiquei em estado de choque. É demasiado verosímil e coincidente com as minhas piores previsões do futuro próximo.
Ainda nessa tarde tinha lido uma brochura duma associação belga de direitos humanos denunciando histórias terríveis de detenção de imigrantes ilegais e a situação crescente e grave de atropelos dos direitos humanos que estão a ocorrer em toda a Europa (e no mundo) sob o pretexto de combate à imigração ilegal. É apenas uma questão de escalada dos acontecimentos, porque as bases já foram assentes.
Os atentados à liberdade em todos os campos das nossas vidas sucedem-se e é uma questão de tempo até sermos prisioneiros neste mundo que de democrático já só começa a ter a aparência.
Outro exemplo de que tive conhecimento na 6ª feira: os EUA estão prestes a aprovar uma lei que diz que toda e qualquer pessoa que cometa actos que prejudiquem o negócio de produção de animais para qualquer fim (carne, peles, cobaias, etc) serão consideradas terroristas e punidas de acordo com isso. Em teoria, isso implica que se activistas dos direitos dos animais protestarem frente a uma loja, fábrica, laboratório por causa da forma como os animais são aí tratados, e se se considerar que isso "prejudica o negócio" vão todos de cana por uma boa temporada. Mesmo defender uma dieta vegetariana poderá ser considerado terrorismo, uma vez que isso prejudica o negócio da carne. Não só é ridículo como é bastante sério, pois abre um precedente para se generalizar a caça a todos quantos se oponham e se manifestem contra qualquer coisa neste mundo.
O mais provável é que daqui a poucos anos todos sejamos muito bem controlados e que quem não se portar de acordo com os padrões estabelecidos será estigmatizado e perseguido. E claro, quem não aceitar ter um chip debaixo da pele vai ser excluído da sociedade. Parece que na França já funciona tudo com chip - um cartão bancário magnético já não é aceite em praticamente lado nenhum, só com chip. Na Bélgica parece que há planos para fazer o mesmo para breve. OK, o chip em si não parece muito mau, o problema é que ele armazena toda a informação sobre os sítios por onde passámos, o que comprámos, etc, que depois pode ser lida por máquinas, à distância (nem precisamos de inserir lá o cartão), para que por exemplo ao entrarmos numa loja já saibam o tipo de cliente que nós somos, para que ao passarmos numa rua, a publicidade em ecrãs digitais se adapte ao nosso perfil de consumidor, etc. Lembram-se de ver isso no filme Relatório Minoritário? Pois é isso que andam a planear fazer aqui na Bélgica e um pouco por todo o lado. Por enquanto as pessoas vêem isso como uma curiosidade, algo divertido até, mas as consequências serão bastante sérias.
Eu e o Pedro costumamos dizer "na brincadeira" (na verdade é bem a sério) que daqui a uns anos quem ousar ter uma horta, guardar sementes, cultivar plantas medicinais, querer comer alimentos saudáveis, levar uma vida simples e ecológica, etc, será considerado terrorista, porque tudo isso é prejudicial para "o negócio" das indústrias agro-alimentares, farmacêuticas e por aí fora. Essa perseguição já começou, com as Monsantos deste mundo a processarem agricultores que "ousam" reproduzir sementes tradicionais e vendê-las aos seus vizinhos ou que vêem as suas culturas contaminadas por OGM e são acusados de violar a propriedade intelectual; com a proibição do uso de plantas pelos povos que durante milénios usufruíram e dependeram delas para a sua sobrevivência, porque de repente passaram a ser consideradas "drogas perigosas" ou porque alguma empresa decidiu patenteá-las e reclamá-las como suas. Basta estar atento para ver como cada dia perdemos um pouco mais da nossa liberdade e como a informação do passado e das alternativas do presente está a ser apagada a um ritmo alucinante. Não sei se é uma conspiração global bem planeada ou apenas uma tendência que se alimenta de si própria, mas os poderosos deste mundo estão a fazer tudo o que podem para que sejamos cada vez mais ignorantes da história, da realidade, das consequências e nos tornemos apenas e simplesmente consumidores apáticos e acéfalos.
É tão simples não pensar, não procurar saber, não querer saber! Mas é preciso resisitir, é preciso lutar. É preciso consciência de que há uma guerra silenciosa a decorrer e que estamos a perdê-la, porque quem pode mudar-lhe o rumo ignora que ela está a decorrer. Se ainda não se aperceberam dela ou acham que não é assim tão grave é porque ainda não viram o quadro completo. Investiguem, vejam com os vossos próprios olhos, juntem todas as peças e quando virem o puzzle completo, juntem-se à resistência, ousem não seguir a corrente!
Por coincidência (embora não por acaso) descobri este filme "America - Freedom to Fascism".

Não sei como, onde e quando o poderão ver, mas se puderem não deixem de o fazer. vejam também o "Inconvenient Truth", já agora e o "Children of Men", claro.