Em Tokyo não estava certa quanto a ir a Kyoto. Já tinha ultrapassado o meu orçamento previsto e a viagem extra iria sair caro, mas o Wen tinha-me convidado e o Leo também. Perguntei então ao Tengyo o que ele achava - se devia ficar em Tokyo o fim-de-semana ou ir a Kyoto e ele disse que sem dúvida devia ir a Kyoto. OK, ficou decidido.
Procurei ir de autocarro nocturno na noite de sexta feira, mas não consegui bilhete por diversas razões, pelo que tive que apanhar o Shinkansen (comboio rápido) na manhã seguinte.
Tinha combinado por email encontrar-me com o Wen às 10h na estação de comboios (o telemóvel dele não funcionava no Japão - parece que só eu é que sabia que no Japão só funciona a rede 3G). Se não nos encontrássemos aí, o segundo encontro seria às 11h no hostel. Se mesmo aí falhasse, encontrávamo-nos no Pavilhão Dourado às 12h.
Esperei 40 minutos por ele na estação e nada. Fui para o hostel, tomei lá um pequeno-almoço tardio e por volta das 11h30 ainda não o tinha visto. Arranjei então um mapa de Kyoto e procurei a paragem do autocarro para me levar ao Pavilhão Dourado. Acontece que não tinha confirmado anteriormente a distância até ao Pavilhão e tarde demais percebi que não ia conseguir chegar lá até às 12h. Estava a pensar nisto quando uma rapariga que se dirigia à mesma paragem olhou para mim ao longe, parou e fez gestos e interjeições como se me conhecesse. Àquela distância não estava a ver quem seria, mas ao chegar-se vi que era a Rita, uma húngara que eu tinha conhecido em Nagoya. Mas o que raio se estava a passar no Japão nestes dias que eu estava sempre a encontrar-me com as mesmas pessoas? Rimo-nos com a coincidência de estarmos em Kyoto na mesma paragem de autocarro no mesmo momento e mais nos rimos quando concluímos que (tal como com o Wen em Nagoya), estávamos alojadas no mesmo dormitório no mesmo hostel! Quais as probabilidades de tal sucessão de acontecimentos acontecerem por acaso?
Quando lhe disse que ia ter com um amigo ao Pavilhão Dourado ela disse-me que eu não ia chegar a tempo - em nenhuma circunstância - porque estava na paragem de autocarro errada. Tinha seguido para Este em vez de Norte e não me apercebi que estava a afastar-me ainda mais.
Lá dei por encerradas as tentativas de encontrar o Wen, mas continuei com esperança de que nos cruzássemos acidentalmente durante o resto do dia. Entretanto decidi juntar-me à Rita e fomos ao Pavilhão Prateado em vez do Dourado e de lá percorremos o Caminho do Filósofo, um percurso ao redor de Kyoto, ao longo de um ribeiro ladeado de chorões e cerejeiras (infelizmente não em flor nesta época do ano) e populado de templos e santuários - um pouco à semelhança de Takayama.
Ao fim do dia, no regresso ao hostel, lembrei-me novamente do Wen. Perguntei na recepção em que dormitório ele estava e deixei um recado na porta dele: se regressasse a horas decentes, para me bater à porta e sempre poderíamos conversar um pouco e talvez combinar melhor o dia seguinte. Só que estava tão cansada que às 22h já estava em pijama a dormir, tal como duas outras raparigas, incluindo a Rita. Todas nós acordámos com ele a bater à porta. Pedi-lhes desculpa e saí para o cumprimentar. Ele estava um bocadito assim para o bêbado. Perguntei-lhe quanto ele tinha bebido e ele disse umas 4 ou 5 cervejas ao longo do dia. Disse-me que tinha estado na estação à minha espera 45 minutos e que não me tinha visto e que depois falhou o hostel mas foi directo ao Pavilhão Dourado. É preciso azar. Mas seria por isso que se tinha metido nos copos?
Convidou-me para irmos ao bar no rés-do-chão, que fazia parte do hostel e eu aceitei. Ele perguntou se eu não queria mudar de roupa, mas eu estava preguiçosa e de qualquer forma achei que seria giro ir em pijama e pantufas. Senti que ninguém mais se ia importar além dele, que parecia intimidado.
Bebi um sake e ele outra cerveja, apesar de eu lhe ter dito que ele não precisava de mais. Tivemos uma conversa relativamente interessante sobre o Japão, a China e a Europa, planos de vida,,valores, amor, mas mais para o fim ele já não dizia coisa com coisa e achei que era hora de ir dormir. De qualquer forma à meia noite puseram-nos na rua - horários japoneses.
Na despedida ficou claro que no dia seguinte não íamos novamente passar o dia juntos, pois ao contrário do que ele me tinha dito, ele tinha que ir embora no domingo de manhã cedo e não ao fim do dia. Paciência, o sake em pijama já foi uma experiência suficientemente memorável do nosso encontro em Kyoto. E tinha sempre a Rita e o Leo (de quem me tinha entretanto esquecido) para me fazerem companhia no dia seguinte.
No dia seguinte a Rita decidiu ir a Nara, onde eu também adorava ir, mas achei que não fazia muito sentido sair já de Kyoto sem ter visto sequer uma geisha. Por isso fiquei. Mandei mensagem ao Leo para saber das andanças dele e logo por coincidência estávamos no mesmo castelo e com planos de ir aos mesmo locais a seguir, por isso encontrámo-nos e passámos mais um dia a fazer turismo juntos.
Vimos o Jardim Imperial, o Castelo de Nijo, o Pavilhão Dourado, entre outras vistas inesquecíveis. Terminámos o passeio no bairro de Gion, onde jantámos num restaurante indiano (por ele estar farto de comida japonesa) e bebemos um café num Starbucks (estão em todo o lado,..).Antes tinha visto passar um carro com um motorista conduzindo três geishas com um ar altivo e imponente. Tive pena de não irem a pé, mas teriam sido completamente engolidas pelas hordas de turistas que por ali circulam na esperança de as ver passar. Mais tarde vi uma outra - talvez fosse uma maiko (aprendiza) - que passou por mim muito discretamente numa ruela traseira pouco frequentada. Ela olhava para o chão, como que a querer tornar-se invisível e eu não fui capaz de ser indelicada e tirar-lhe uma fotografia. Já tinha tirado fotos à socapa das meninas vestidas de boneca, de um lutador de sumo no metro de Tokyo ou a senhoras nos seus kimonos, mas esta geisha ou maiko despertou em mim um respeito maior e não fui capaz de o fazer. Fiquei a pensar no fascínio que elas exercem sobre pessoas de todo o mundo.
Fiquei também a pensar que a vida delas é o equivalente glamouroso duma vida monástica. Vivem em quase reclusão, estudando arduamente anos a fio todo o tipo de artes e conhecimento geral, dedicam-se ao serviço aos outros, levam vidas celibatárias e de renúncia... É pena que tanta gente ainda pense nelas como uma espécie de prostitutas de luxo, porque estão bem longe de ser tal coisa.
Quando estava cansada decidi voltar ao hostel. O Leon ficou em Gion, porque estava alojado aaquela zona Quando eu disse que estava na hora de ir, ele não tirava os olhos dum livro que tinha começado a ler furiosamente minutos antes. Primeiro achei "este tipo é mesmo desprendido, nem me liga nenhuma." Mas depois ele levantou os olhos do livro e estava quase marejado em lágrimas. Uau, também não esperava uma reacção tão emocional, apenas uma palavra atenciosa em como tinha sido agradável o tempo que passámos juntos. No dia seguinte deveria ter regressado a Nagoya, mas ainda havia tanto para ver em Kyoto que adiei o regresso para a noite e passei mais um dia por lá, desta vez sozinha.
Procurei ir de autocarro nocturno na noite de sexta feira, mas não consegui bilhete por diversas razões, pelo que tive que apanhar o Shinkansen (comboio rápido) na manhã seguinte.
| Pavilhão Dourado |
Esperei 40 minutos por ele na estação e nada. Fui para o hostel, tomei lá um pequeno-almoço tardio e por volta das 11h30 ainda não o tinha visto. Arranjei então um mapa de Kyoto e procurei a paragem do autocarro para me levar ao Pavilhão Dourado. Acontece que não tinha confirmado anteriormente a distância até ao Pavilhão e tarde demais percebi que não ia conseguir chegar lá até às 12h. Estava a pensar nisto quando uma rapariga que se dirigia à mesma paragem olhou para mim ao longe, parou e fez gestos e interjeições como se me conhecesse. Àquela distância não estava a ver quem seria, mas ao chegar-se vi que era a Rita, uma húngara que eu tinha conhecido em Nagoya. Mas o que raio se estava a passar no Japão nestes dias que eu estava sempre a encontrar-me com as mesmas pessoas? Rimo-nos com a coincidência de estarmos em Kyoto na mesma paragem de autocarro no mesmo momento e mais nos rimos quando concluímos que (tal como com o Wen em Nagoya), estávamos alojadas no mesmo dormitório no mesmo hostel! Quais as probabilidades de tal sucessão de acontecimentos acontecerem por acaso?
Quando lhe disse que ia ter com um amigo ao Pavilhão Dourado ela disse-me que eu não ia chegar a tempo - em nenhuma circunstância - porque estava na paragem de autocarro errada. Tinha seguido para Este em vez de Norte e não me apercebi que estava a afastar-me ainda mais.
| Templo Toji |
Ao fim do dia, no regresso ao hostel, lembrei-me novamente do Wen. Perguntei na recepção em que dormitório ele estava e deixei um recado na porta dele: se regressasse a horas decentes, para me bater à porta e sempre poderíamos conversar um pouco e talvez combinar melhor o dia seguinte. Só que estava tão cansada que às 22h já estava em pijama a dormir, tal como duas outras raparigas, incluindo a Rita. Todas nós acordámos com ele a bater à porta. Pedi-lhes desculpa e saí para o cumprimentar. Ele estava um bocadito assim para o bêbado. Perguntei-lhe quanto ele tinha bebido e ele disse umas 4 ou 5 cervejas ao longo do dia. Disse-me que tinha estado na estação à minha espera 45 minutos e que não me tinha visto e que depois falhou o hostel mas foi directo ao Pavilhão Dourado. É preciso azar. Mas seria por isso que se tinha metido nos copos?
Convidou-me para irmos ao bar no rés-do-chão, que fazia parte do hostel e eu aceitei. Ele perguntou se eu não queria mudar de roupa, mas eu estava preguiçosa e de qualquer forma achei que seria giro ir em pijama e pantufas. Senti que ninguém mais se ia importar além dele, que parecia intimidado.
Bebi um sake e ele outra cerveja, apesar de eu lhe ter dito que ele não precisava de mais. Tivemos uma conversa relativamente interessante sobre o Japão, a China e a Europa, planos de vida,,valores, amor, mas mais para o fim ele já não dizia coisa com coisa e achei que era hora de ir dormir. De qualquer forma à meia noite puseram-nos na rua - horários japoneses.
Na despedida ficou claro que no dia seguinte não íamos novamente passar o dia juntos, pois ao contrário do que ele me tinha dito, ele tinha que ir embora no domingo de manhã cedo e não ao fim do dia. Paciência, o sake em pijama já foi uma experiência suficientemente memorável do nosso encontro em Kyoto. E tinha sempre a Rita e o Leo (de quem me tinha entretanto esquecido) para me fazerem companhia no dia seguinte.
No dia seguinte a Rita decidiu ir a Nara, onde eu também adorava ir, mas achei que não fazia muito sentido sair já de Kyoto sem ter visto sequer uma geisha. Por isso fiquei. Mandei mensagem ao Leo para saber das andanças dele e logo por coincidência estávamos no mesmo castelo e com planos de ir aos mesmo locais a seguir, por isso encontrámo-nos e passámos mais um dia a fazer turismo juntos.
Vimos o Jardim Imperial, o Castelo de Nijo, o Pavilhão Dourado, entre outras vistas inesquecíveis. Terminámos o passeio no bairro de Gion, onde jantámos num restaurante indiano (por ele estar farto de comida japonesa) e bebemos um café num Starbucks (estão em todo o lado,..).Antes tinha visto passar um carro com um motorista conduzindo três geishas com um ar altivo e imponente. Tive pena de não irem a pé, mas teriam sido completamente engolidas pelas hordas de turistas que por ali circulam na esperança de as ver passar. Mais tarde vi uma outra - talvez fosse uma maiko (aprendiza) - que passou por mim muito discretamente numa ruela traseira pouco frequentada. Ela olhava para o chão, como que a querer tornar-se invisível e eu não fui capaz de ser indelicada e tirar-lhe uma fotografia. Já tinha tirado fotos à socapa das meninas vestidas de boneca, de um lutador de sumo no metro de Tokyo ou a senhoras nos seus kimonos, mas esta geisha ou maiko despertou em mim um respeito maior e não fui capaz de o fazer. Fiquei a pensar no fascínio que elas exercem sobre pessoas de todo o mundo.
Fiquei também a pensar que a vida delas é o equivalente glamouroso duma vida monástica. Vivem em quase reclusão, estudando arduamente anos a fio todo o tipo de artes e conhecimento geral, dedicam-se ao serviço aos outros, levam vidas celibatárias e de renúncia... É pena que tanta gente ainda pense nelas como uma espécie de prostitutas de luxo, porque estão bem longe de ser tal coisa.
| Jardim Imperial |


