Tuesday, July 28, 2009

O sole mio!

A convite da minha amiga Fernanda, que vive num simpático "monte alentejano" na região italiana de Marche, eu e o meu namorado demos um pulinho à Itália para uns dias de repouso e aprendizagem.
Conheci a Fernanda em Bruxelas. Ela é daquelas pessoas que ilumina uma sala quando entra e que põe os mortos a mexer, mas é preciso não lhe tocar em certos nervos ou poderão ouvir das boas, que ela não tem papas na língua! Mas é uma kriiiiida :)
Pois bem, neste montezinho (quase) à beira-mar plantado, a Fernanda e o seu valente companheiro de caminhada Mário, tentam esforçadamente voltar às raízes, aprender como fazer, como viver, como estar, produzindo aquilo que é necessário e eliminando aquilo que é supérfluo.

Durante a minha estadia pude conhecer a família alargada da Fernanda, composta por um gato e uma gata, um cão e uma cadela, um cavalo e uma égua, um peixe e uma tartaruga e uns galitos que os vizinhos proprietários de um bed and breakfast querem ver bem longe dali porque incomodam os hóspedes com o seu cócóricó às 5h da manhã. Fica a questão: se não querem ouvir os bichos do campo, porque é que as pessoas não ficam no barulho da cidade? Desejarão também exterminar as cigarras que fazem um barulho ensurdecedor todo o dia? Qual é o limite de ruído campestre aceitável em redor de um turismo rural? Será que existem normas comunitárias com valores-limite de décibeis que os bichos podem fazer? Horário padrão que deverão respeitar?
Conheci os velhotes queridos da quinta mais próxima, com os seus 70 e tal anos de vida agrícola bem impregnados nos corpos rijos. Uma delegação de meninas, na sua maioria neo-campestres, vegetarianas e pró-biológicas invadiu-lhes a casa e eles ofereceram de imediato e com orgulho uma mão-cheia de garrafas de coca-cola para matarmos a sede. A Fernanda explicou que eles julgam ser esse o tipo de coisa que nós bebemos e apreciamos e sentem orgulho em mostrar que têm dinheiro para o comprar e oferecer às visitas. Estranharam por isso a nossa recusa e o pedido de vinho de produção caseira ou sumos biológicos ou até mesmo só água. Ficaram confusos com os nossos pedidos absurdos. Afinal o que os jovens bebem hoje em dia não é coca-cola? Por que raio haveriam de querer beber vinho feito em casa, sem cuidados nenhuns, sem aqueles químicos todos que os tornam merecedores de figurar no supermercado? Água? Mas de que planeta viríamos nós? Isso era dantes, quando não havia coca-cola!!! Acabámos a conversar sobre os problemas da industrialização da agricultura, da exploração e tratamento desumano dos animais, do porquê de preferirmos não comer carne e preferirmos consumir biológico, uma vez que não temos a sorte que eles têm de produzir de forma sustentável o nosso próprio alimento. Aí eles deviam estar a pensar "Sorte!???". Mas depois de todas as explicações, eles acharam que até fazia sentido. Guardaram as coca-colas e bebemos sumos de fruta.
Foram dias ricos em aprendizagem sobre cooperação, desenvolvimento, gestão, sustentabilidade e autonomia. E histórias que davam para não sei quantos filmes.
Pelo meio visitámos algumas terreolas em volta (Monsampolo del Tronto, Acquaviva Picena, Ascoli Piceno, Grottamare), passámos uma tarde na praia mais paradisíaca das nossas vidas banhada pelo Adriático (20ºC às 22h, sem ondulação), almoçámos na associação de produtores biológicos Aurora, comemos como só em Itália se consegue comer delícias de revirar os olhos e ainda tivémos oportunidade de passar por Bolonha e Veneza.
Podia falar muito mais de Bolonha e Veneza, mas não sinto que tenham sido os pontos principais de interesse desta viagem.
Bolonha "La Rossa" merece uma visita às suas infidáveis arcadas, aos palácios em cada esquina transformados em condomínios privados e à sua torre inclinada. Pois é, não é só Pisa que tem uma, existem várias na Itália!
E claro, escusado será dizer que Veneza merece uma visita. Não me deixou boquiaberta como vários amigos me tinham dito que ia deixar, porque quando as expectativas são elevadas, a realidade fica sempre aquém. Mas é bellissima. E se ignorarmos os milhões de turistas que se acotovelam nas ruas principais e mais estreitas, quase se diria que é uma cidade pacata. A não perder: o gueto judeu com as suas lojas de arte e um fantástico restaurante kosher que serve o melhor cappucino do mundo com leite de soja!
Como cereja no topo do bolo, no vôo de regresso reconheci uma das assistentes de bordo como sendo a minha colega Patrícia do curso de alemão, que nos ofereceu a possibilidade de nos sentarmos no cockpit durante a descida e aterragem do avião. Fiquei nas nuvens!!!!!

Thursday, April 30, 2009

Entre os helvéticos

Decorreu na Suiça a conferência "Food and Democracy" que me levou pela primeira vez à terra dos canivetes e dos chocolates que se fazem nos Alpes e se desfazem na boca.
Passei uns dias em Luzerna - para a conferência - e outros em Zurique - onde fica o aeroporto.



Duas cidades belíssimas, como aliás é característica de quase todas as cidades europeias, mas talvez pela omnipresença da natureza - os rios, os lagos, as montanhas no horizonte - senti um maior apelo para sair delas e ir para o campo.
Subi ao Monte Pilatus, via teleférico e fiquei deslumbrada. O silêncio nas encostas do monte é poderoso e lá no topo a vista panorâmica é linda, linda, linda!



Este teleférico chegou a ser o mais longo e mais alto do mundo. Acredito que a parte final da subida ainda deve deter um recorde qualquer. Imaginem uma subida de cerca de 500 mts em 2 minutos e 85º de inclinação. Um cachorrinho que teve o azar de ser levado pelos donos a passear de teleférico, tremeu e ganiu o tempo todo, com o pedido de "por favor, tirem-me daqui!" nos seus olhitos aterrorizados.
Isso fez-me perceber os medos de que me libertei, ao não sentir qualquer vertigem quando suspensa por um fio ou atrás duma cerca de madeira sobre abismos de no mínimo 500 mts. Há anos atrás não consegui sair dum elevador num 12º andar, só porque a parede ao longo do corredor era toda de vidro e a vertigem colou-me ao chão.
Acho que nenhum suiço deve sofrer de vertigens e medo das alturas. Desde miúdos que descem por escorregas com 20 mts de altura nos parques infantis e são levados pelos pais ao maior tobogã do mundo. Não admira que depois façam snowboard e esqui como nós aqui vamos ao centro comercial.
Em Luzerna esteve bom tempo, mas em Zurique estive sempre debaixo de chuva. Isso estragou-me os planos de uma excursão ao campo, às aldeias na montanha e ao vizinho Lichtenstein. Foi cancelada devido ao mau tempo e dei por mim a vaguear pela zona comercial da baixa de Zurique. Foi uma perda de tempo particularmente frustrante, porque em Zurique os preços são exorbitantes. Afinal é a capital económica daquele que é um dos países mais caro da Europa. Mesmo o fast food custa mais do que aquilo que é o limite do razoável.
Decidi almoçar no Hiltl, o restaurante vegetariano mais antigo da Europa, com 111 anos!!! Além de histórico, tem uma comida deliciosa! E é muito in. Foi caro, paguei cerca de 21 EUR por um prato e uma bebida, mas soube-me tão bem! O sumo de banana e côco era divinal, os raviolis, as batatinhas fritas com paprika, os legumes gratinados... Miaaam, a minha barriguinha ficou mesmo contentinha. Visitei outro restaurante vegetariano, o Bona Dea, mas esse era ainda "pior": só uma sopa custava 7 EUR!!! Espreitei lá para dentro e eram só senhoras bem e garçons de laço. Fiquei intimidada e optei por ir ao supermercado comprar uma carcaça e uma caixinha com 3 triângulos de queijo. Mesmo isso foi caro... Depois percebi que mais valia comer à vontade desde que não gastasse dinheiro inutilmente noutras coisas.
Aho que já estou um pouco farta de visitar igrejas - crescem como cogumelos na Europa! - pelo que desta vez só entrei em 3, em Zurique - Fraumünster, Grossmünster e St. Jakob. As duas primeiras, porque são realmente grandes (ah, "münster" significa catedral ou sé e não algo monstruoso, como julguei no primeiro contacto com estes nomes) e porque estão referenciadas como "must-see" em todos os guias turísticos. Gostei da Grossmünster porque se pode subir a uma das torres e ter uma vista panorâmica de Zurique e do lago. Subir a torres e campanários de catedrais e castelos é das coisas que me dão mais gozo quando faço turismo - já estive numas quantas, daquelas desaconselhadas a quem tem vertigens, problemas de coração ou falta de ar - pelas vistas, pela estrutura majestosa em pedra e madeira, pelo cheiro a pó de séculos. Também gosto de visitar as criptas e a de Fraumünster foi a que me proporcionou a experiência mais intensa até agora. O cheiro a cadáveres empoeirados era brutal e às tantas juro que senti fantasmas a tocarem-me ao de leve na pele - provavelmente eram teias de aranha, mas deixem-me lá fantasiar livremente.
A igreja de St. Jakob não era grande nem tinha nada de especial na fachada que atraísse a atenção, no entanto levou-me a atravessar uma estrada e a procurar a sua entrada. Lá dentro fiquei surpreendida ao ver que no lugar dos bancos de igreja o espaço central da nave estava ocupado com apenas 4 almofadas e bancos de meditação. Uau, por essa não esperava eu. Depois de me recompor do "choque" pousei as minhas coisas e sentei-me numa almofada a meditar. Soube-me muito bem e não me importava de ter ficado por lá o resto do tempo, mas ainda havia tanta coisa que eu queria ver. Maldita mente que prefere sempre estar entretida a simplesmente estar!
Visitei ainda o museu nacional Suiço onde vi uma das melhores exposições de sempre sobre a pré-história até à civilização romana. Também vi uma exposição temporária sobre o humor suiço. Não percebi a maior parte da extensa colecção de cartoons, mas notei que nos mais modernos há uma grande tendência para mostrar o "orgulho suiço" e superioridade relativamente aos "invasores" europeus. Assisti também a um stand up comedy de um suiço francófono explicando "como funciona a Suiça" e as diferenças entre os suiços-francófonos e os suiços-alemães.
Até àquele momento tinha tentado em vão perceber os suiços-alemães e responder-lhes na mesma língua, mas aquilo não me pareceu alemão em momento algum. Parecia uma língua remotamente relacionada com alemão, com laivos de francês, italiano e até inglês.
O tal comediante explicou que eles se cumprimentam dizendo "Wie «gouts»?" em vez de "Wie geht's?" e que respondem "Ouait!" em vez de "Gut!". O sotaque deles é para o alemão o equivalente do sotaque dos franceses do norte para o francês, ou o sotaque de Sã M'guel para o português. Como é que eu havia de perceber uma única palavra do que eles diziam? De qualquer forma diverti-me a tentar decifrá-las.
E claro, trouxe a mala cheínha de chocolates suiços para distribuir entre os mais carentes ao meu redor :)

Friday, March 06, 2009

A estupidez da crueldade perante a impermanência

Como disse no outro post, fui visitar Auschwitz-Birkenau. Não apenas essa visita, mas também a do museu do gueto de Varsóvia e toda a história polaca que transpira dos seus monumentos, memoriais e relíquias do passado, ofereceram-me uma experiência pungente da frágil e sofrida condição humana.
Os polacos são um bom exemplo de seres oprimidos e abusados por parte de quem é mais forte mas nem por isso mais "iluminado".
Cheguei a Auschwitz onde tive o primeiro contacto com a realidade dos campos de concentração e de extermínio do complexo Auschwitz-Birkenau. Aprendi uma série de factos que não eram bem conhecidos por mim - como por exemplo, que Auschwitz-Birkenau são de facto 2 campos e não um só.
Do primeiro campo segui de mini-bus para o segundo, 25 vezes maior, em Birkenau, que fica a 3 km de distância. Aí a exposição dos factos continua através de painéis explicativos colocados ao longo do percurso de visita. Não percorri tudo, pois a extensão deste campo é gigantesca, mas mesmo assim passei cerca de 4 horas nos dois locais.
Enfim, não vou contar aqui a história toda que concerteza já a conhecem ou sobre a qual poderão encontrar muita informação na internet e em livros. Queria apenas dizer quais foram as impressões que me ficaram gravadas desta visita.



Esperava encontrar um ambiente pesado, cheio de dor, mágoa e revolta, mas afinal deparei-me com uma espécie de santuário silencioso onde impera a paz, a reconciliação, o perdão. Auschwitz-Birkenau é como uma ferida sarada. Infelizmente muitas feridas estão ainda abertas um pouco por todo o mundo. Genocídios continuam a acontecer, ali apenas teve lugar um mais metódico e organizado, ou não tivesse sido feito por alemães...
Ao ver as câmaras de gás e os crematórios em ruínas, as casernas abandonadas, os turistas caminhando em silêncio ao lado dos infames carris que trouxeram comboios cheios de infelizes para ali serem exterminados, ocorreu-me que o Hitler e todos aqueles que a ele se juntaram naquele triste desenrolar de acontecimentos deveriam ter tido a capacidade de ver o futuro, de ver as ruínas do seu empreendimento, de tomarem consciência da inutilidade de tudo aquilo que fizeram. Se tivessem tido essa visão, ter-se-iam eles ainda assim dado ao trabalho de torturar e assassinar metodicamente toda aquela gente? Se calhar sim, mas eu acredito que se percebessem que aquilo não levaria a lado nenhum, perderiam todo o interesse em fazê-lo.
Isto aplica-se a toda e qualquer pessoa que julgue que vale a pena por alguma razão derramar sangue, matar e torturar. Não interessa por quanto tempo as suas ideias e acções conseguirão persistir no mundo, mais tarde ou mais cedo serão suplantadas, vencidas, abandonadas, esquecidas. Nada dura para sempre, muito menos um ser humano ou a sua visão do mundo. Perante esse facto, como é possível que alguém consiga justificar qualquer tipo de violência ou crueldade? Só a ignorância e a falta de compreensão perante a natureza impermanente das coisas permite que as pessoas se continuem a matar como se fossem viver para sempre.
Quando irão os seres humanos acordar desta ilusão? Que seja o mais cedo possível.


Dançando a polska

A minha mais recente aventura teve lugar na Polónia. Fui a uma conferência em Varsóvia, mas não podia perder a oportunidade de dar um saltinho a Cracóvia e já agora visitar Auschwitz-Birkenau e outros marcos históricos nos arredores.
Acho que os polacos são boas pessoas, pelo menos gostam de alimentar os pássaros, o que eu considero bom sinal. Em todos os parques as pessoas colocam casinhas e alimentadores para pássaros, alguns improvisados com garrafões de plástico. Na rua, em cada esquina, as pessoas partilham a sua comida com os pombos e pardais, até mesmo enquanto esperam pelo comboio – em Portugal quem enchesse os passeios e a plataforma da estação com tantas migalhas, haveria de receber uns quantos olhares desaprovadores.
Na Polónia apenas recebi olhares desaprovadores ao atravessar a estrada antes do sinal ficar verde para os peões. Se o sinal está vermelho para o trânsito e os carros já estão todos parados, o que é que estou ali a fazer parada ao frio? Curiosamente os alemães também não atravessam antes do sinal estar verde, mas são facilmente corrompíveis - se vêem alguém a fazê-lo vão logo atrás. Os polacos não! Fiquei mesmo impressionada com a disciplina deles, nem um quebrou a regra e sempre que eu chegava ao outro lado da estrada tinha que enfrentar uma barreira de polacos inamovíveis a olhar-me em desaprovação.
Por outro lado os negociantes não perdem uma oportunidade para explorar a “inocência” dos turistas, por isso há que ter cuidado com eles. Fazem preços especiais para quem venha doutras bandas e não registam a transacção na máquina (apesar de o fazerem com o cliente compatriota anterior e seguinte). O que vale é que o zloty é uma moeda mais fraca que o euro - 1 EUR equivale a 4.7 zlt – e por isso cada vez que me endrominavam e me cobravam 1/3 a mais do que deviam, no fundo eram só mais uns cêntimos, pelo que eu não me chateava muito.
Até quis aproveitar para ser generosa e dar boas gorjetas a quem me ajudava, mas nalguns casos os beneficiários mostraram-se pobres e mal-agradecidos, dizendo "Só 10 zlt? Isto é para aí uns 2 EUR!" - "Ai sim!? E querias mais que isso? Já vais com muita sorte!!!" - Devem pensar que tudo o que é turistas da zona euro é gente rica com obrigação de deixar lá até a roupa que traz vestida.
Ora bem, andava eu a passear por Varsóvia e ocorreu-me que o centro-norte da Europa é o sítio ideal para se passar o inverno e especialmente a época de Natal. Eu que não ligo nenhuma ao Natal, sempre que ando pelos "nortes" e vejo as casinhas à contos de Hans Christian Andersen e o vinho quente e os abetos cobertos de neve, fico logo imbuída de espírito natalício! E vagueava eu por estes pensamentos quando, na entrada da Universidade Católica de Varsóvia me deparo com um enorme presépio em madeira e na praça central de Varsóvia encontro uma fila de restaurantes ainda decorados com árvores de Natal, bolas e luzinhas. De repente confesso que fiquei baralhada com as datas, mas não, não estou enganada, estamos mesmo em Março! Afinal não estou sozinha nesta ideia de que por aquelas bandas parece sempre Natal! Pelo menos alguns polacos ainda parecem estar a celebrá-lo.


Passei por uma feira da ladra para ver se encontrava as coisas bizarras que tanto se ouve falar que costumam vender-se por lá. De facto encontrei verdadeiras relíquias do passado polaco que concerteza fazem as delícias dos coleccionadores - fivelas com suásticas, medalhas de honra do exército vermelho - mas eu não comprei nada. O que é que eu fazia com aquilo? Sinceramente optei por não trazer para casa peças com tão más energias impregnadas. Os coleccionadores que peguem nelas. Eu limitei-me a apreciá-las ali como se visitasse um museu.
Falando em museu, visitei o museu da revolução do gueto de Varsóvia. Muito bom, mas às 18h em ponto eles apagam a luz, sem consideração por quem possa ainda estar perdido no 3º andar, à nora por entre corredores, painéis e esculturas. E ainda se fala da pontualidade britânica ou germânica...
Ao caminhar por uma zona ajardinada de um bairro, tive a minha única experiência de desilusão relativamente à disciplina polaca: havia cocó de cão por todo o lado!!! Pelos vistos os habitantes (talvez só os daquele bairro específico?) não se dão ao trabalho de apanhar o dito cujo e as temperaturas geladas preservam os poios, que se acumulam às centenas por entre as ervas e a neve meio derretida.
Depois de tanta caca, felizmente como bónus fiquei alojada num hotel 4 estrelas onde tinha direito a usar gratuitamente sauna, jacuzzi e spa. Não tive foi muito tempo para gozar dessas maravilhas, mas ainda assim experimentei a sauna onde ia cozendo e o jacuzzi onde fiquei até quase me dissolver na água. Mmmmmm, é muito fácil uma pessoa habituar-se a uma vida assim... O que vale é que só de quando em vez é que tenho acesso a essas mordomias, se não ficava totalmente corrompida, eheheheh.


Já em Cracóvia aproveitei para dar um saltinho ao castelo de Wawel (mas tive azar, só o vi por fora que estava fechado às visitas), às minas de sal de Wieliczcka e aos campos de Oswiecim-Brzezinka (o nome original de Auschwitz-Birkenau). Destes falarei num post à parte, que a solenidade assim o exige.
Quanto à visita às minas, foi uma experiência radical. A mina chega aos 327 mts de profundidade, mas os turistas só descem até aos 135 mts. Começamos por descer 65 mts de escadas cujo fim não se consegue descortinar - logo aí, todas as pessoas potencialmente claustrofóbicas desistem de prosseguir - e depois descemos por túneis e galerias até aos 135 mts. A subida faz-se por um elevador de mina, não aconselhado a cardíacos, que sobe 135 mts em 45 segs. É uma espécie de gaiola metálica, sem luz, que chocalha e guincha por todos os lados. Confesso que foi a parte mais assustadora e divertida.
As galerias, esculturas e baixos relevos esculpidos na rocha de sal ao longo de séculos são verdadeiramente impressionantes e igualmente impressionante é saber que os turistas só visitam 1% dos 300 km de túneis e das 3000 galerias existentes. Existe uma outra parte com cerca de 10 kms aberta a visitas geológicas, mas o que se passa nos restantes 99% da mina é um mistério. Foi-me dito que muitos túneis foram aterrados porque custa balúrdios mantê-los funcionais e é demasiado perigoso deixá-los colapsarem pois existem cidades e vilas à superfície que poderiam sofrer com isso, mas a extensão é tão grande que muito haverá ainda para ver que não tenha sido aterrado.
O tempo por lá estava bem fresquinho, mas bom. Curiosamente é sempre quando chego a Lisboa que apanho o pior tempo. Assim que sobrevoei Lisboa, o avião começou a ser chocalhado, mais ou menos como fui chocalhada no elevador da mina. Os ventos estavam tão fortes que o piloto não conseguia aterrar em segurança e quando já estava a tocar a pista, levantou vôo novamente. Consta-me que é normal isso acontecer, mas para quem passa por isso pela primeira vez, convence-se que é desta que não se safa. A 2ª tentativa resultou melhor, mas podia não ter resultado. Muitos vôos no dia seguinte tiveram que ir aterrar no Porto e em Faro, porque não conseguiram mais fazer a manobra em Lisboa.
Durante aqueles minutos de "bumpy landing" - como descrito pelo piloto - senti a adrenalina a tomar conta de mim: de vez em quando passavam-me pela cabeça alguns pensamentos breves e isolados, mas acima de tudo lembro-me apenas de um grande vazio.
Confesso que me preparei para o pior. Mas provavelmente estava a ser mariquinhas. Com tanta viagem que faço, concerteza vou ter a minha dose de histórias destas para contar aos netinhos. Mais vale começar a habituar-me. De qualquer forma passar por estes sustos é uma excelente forma de me relembrar da minha mortalidade.

Tuesday, January 27, 2009

O que faz falta é animar a Malta :)

Passei 8 diazinhos em Malta a propósito da participação num curso sobre Eco-inovação. Pelo caminho fiquei retida em Roma (oh que pena!) e só vi a minha bagagem 3 dias depois de chegar a Malta, mas são os ossos do ofício.
Quando perdi o vôo de ligação em Roma comecei a sentir a cabeça a ferver de nervos, mas depois pensei "Até parece que não estava mortinha por isto acontecer! Assim que aterrei em Roma desejei ficar lá um dia inteirinho, por isso só tenho que agradecer o meu desejo ter sido atendido! - lá diz o ditado: be carefull what you wish for..."
Liguei ao meu amigo Luca que me ofereceu alojamento e me convidou para me juntar a ele e à sua esposa num jantar com um grupo internacional sobre soberania alimentar reunido esse dia em Roma. Fiquei a conhecer o grupo e a Città dell'Altra Economia, um centro alternativo em plena cidade de Roma onde podemos encontrar um restaurante bio-vegetariano, um banco ético-ecológico, lojas bio e comércio justo entre outras coisinhas boas para o mundo.
Já em Malta começou a minha aventura de exploração deste (para mim) novo território. Tive oportunidade de conhecer grande parte da ilha de Malta: La Valletta, Mdina, Rabat, Vittoriosa, Marsaxlok, Tarxien, Qawra, entre outras vistas.
Também fui à ilha irmã Gozo onde visitei a gruta na qual, segundo reza a lenda, Homero esteve prisioneiro de Calypso durante 7 anos. Foi um daqueles sítios com os quais já tinha sonhado antes de lá ter estado... Fico sempre com arrepios na espinha quando isso acontece.
Malta no geral não é linda. Não chove muito por lá e não há muita agricultura ou verdura espontânea. As casas são modestas e pouco atraentes - mesmo o meu novo amigo do Zimbabwe, que cresceu numa aldeia de palhotas, concordou com o meu comentário de que urbanisticamente falando, Malta parece um país do 3º mundo. Mas quando entramos em cidades como Mdina, Valletta ou Vittoriosa, ficamos maravilhados. Parecem uma mistura de Veneza e sul de Itália com zona ribeirinha do Porto :) Existem fortalezas em cada esquina e as casas com as suas varandas fechadas em madeira são simplesmente adoráveis.
Os malteses são extremamente simpáticos - ou será só comigo? Numa loja em Qawra a rapariga na caixa disse-me que eu era uma querida ("you're so sweeeeet!!!") só porque lhe dei o troco certinho. Numa igreja o guarda vinha dizer-me que eu não podia tirar fotos e acabou na conversa comigo, terminando com abraços e beijinhos. Um guia no templo neolítico de Tarxien começou a tagarelar comigo e acabou a dizer que queria vir a Lisboa conhecer o Estádio da Luz (sem dúvida o nosso maior marco cultural...) enquanto outro se ofereceu para me tirar fotos em diferentes posições (não se ponham com ideias...) em frente ao templo e me fez uma visita guiada personalizada, que incluiu autorização para me sentar num dos altares e "extrair as energias da rocha como se fazia em tempos idos" - "Sentiste, sentiste!?". Sim, claro! Recarreguei as minhas baterias telúricas :)


E que dizer do senhor simpático do café na praça de St John, que me cobrou 1 EUR por um chá de 1,05 EUR e ainda me ofereceu um café por cima.
A propósito, a comida maltesa é um cruzamento entre a "pastry" inglesa e  a comida italiana. Imaginem quiche de esparguete e pastel de massa com bolonhesa e caril e terão uma boa ideia do que estou a falar :) Se a comida italiana engorda, não sei que dizer da maltesa... Talvez... que entope todos os tubos e poros do corpo?
Uma das principais atracções turísticas de Malta são os seus autocarros "cubanos".


Uma senhora ao meu lado benzeu-se quando o autocarro partiu e depressa percebi porquê. São autocarros do tempo da maria-cachucha, quando ainda não havia suspensão ou qualquer conceito de segurança rodoviária. As criancinhas podem ir sentadas num banco ao lado do condutor, directamente em cima do pára-brisas, os autocarros não têm portas (felizardos dos malteses que contam com temperaturas amenas todo o ano) e os upgrades que foram sendo feitos ao longo dos tempos foram só em termos de pintura e mensagens personalizadas que se lêem na frente e traseira de muitos deles: em vez do painel indicando o destino do autocarro, podemos ler "speed of light", "I forgive but never forget", entre outras pérolas rodo-literárias.
A minha palavra favorita em malti é Marsaxlok, o nome duma aldeia piscatória que significa literalmente "porto do Siroco". O malti é uma língua 60% arábica, com laivos de italiano e provavelmente francês, português e inglês, pois por aquelas ilhas passou quase toda a gente... Os nativos falam na sua maioria inglês como segunda língua, mas um inglês estranho - eu diria um tipo de engrish, como demonstrou o Jonathan (um dos nativos) quando alguém lhe perguntou a origem de determinado elemento arquitectónico: "Oh, that's from the engrish occupation!". Os funcionários da hotelaria falam um inglês bastante correcto mas sempre com um estranho tom "afectado" com mudanças de entoação um tanto ou quanto bizarras. Penso que herdaram o tom formal britânico, mas tão degenerado que apenas conseguem parecer patetas.
Fiquei com a sensação de que os únicos nomes de família dos malteses são Borg e Farrugia. Quase todas as pessoas que conheci tinham esses apelidos e montra sim, montra não, vemos "Auto Borg" e "Pastelaria Farrugia".

Ah, e os gatos malteses não tocam piano nem falam francês, mas são lindoooos!