O que fazer em Tokyo? Quando há tanto para ver e fazer e apenas dois dias disponíveis, como decidir o que é prioritário?
Um amigo tinha-me dito que fosse ao Parque Ueno e como ficava a 10 min de metro do meu hostel foi onde decidi ir em primeiro lugar. A entrada por onde cheguei ficava mesmo perto do Museu de Ciência e História Natural. Hesitei bastante quanto a visitá-lo, acho que fui à porta e voltei para trás umas três vezes. Estava na dúvida se era algo que eu queria mesmo fazer, encafuar-me em museus, ou se preferia caminhar no parque e seguir depois para outras bandas. Mas lembrei-me vagamente que o meu amigo me tinha-dito também que no parque havia um museu muito interessante. Não sabia se era este ou o de arte que ficava mais adiante, mas pensei "Que se lixe, mesmo que seja chato, sempre posso dizer que visitei um museu em Tokyo, pelo que nunca será uma perda de tempo." Mas não foi chato, na verdade foi um dos melhores museus de história natural que já visitei, apesar da quantidade de bichos empalhados que lá há - ou talvez mesmo por isso. Toda a história natural e evolutiva está lá condensada e muito bem apresentada. Mas o melhor foi o cinema a 360º que lá está instalado. Sem entrar em grandes detalhes, o cinema consiste numa esfera gigante com uma ponte que a atravessa de um lado ao outro e a partir da qual vemos os filmes projectados em nosso redor e ficamos imersos dentro do filme. Na verdade é impossível ver o filme todo, porque tínhamos que ter uma visão a 360º. Mas o efeito é espectacular e tão realista que tive que me agarrar com força ao corrimão da ponte para não cair ao chão com as tonturas.
Um tipo ocidental com quem já me tinha cruzado na entrada, por outro lado não ligou muito aos filmes porque não tirou os olhos de mim. Tentei ignorá-lo e fora do cinema procurei trocar-lhe as voltas quando via que ele estava a tentar meter conversa comigo. Não me apetecia mesmo nada entrar em conversas e fazer amizades porque as companhias só nos atrasam quando andamos a fazer turismo e eu tinha pouco tempo. Mas ele foi mesmo persistente e lá houve uma ocasião em que simplesmente me barrou o caminho e me perguntou de onde eu era. Quando eu disse Portugal ele fez uma cara desanimada, que mais tarde ele me disse ter sido por julgar que eu não devia falar inglês suficiente para comunicarmos. Mas logo lhe passou o desânimo quando comecei a falar fluentemente com ele. Chamava-se Leo, era americano de Seattle, saxofonista e informático. Visitámos o museu juntos e a conversa correu tão bem que acabámos por ficar amigos. E claro, eu tinha razão, demorei 3 horas a ver um museu que veria numa hora e o resto do dia não fiz mais nada do que tinha programado. Mas valeu a pena pelo que acabou por se suceder graças a este encontro. Falámos de tudo, desde ciência, biologia, evolução, guerra, religião, sonhos... Eram para aí umas 3h da tarde quando finalmente saímos do museu e concluímos que nenhum de nós tinha almoçado e que estávamos ambos esfomeados. Corremos os arredores do parque em busca de um restaurante mas só encontrámos uma pizzeria. Concordámos passar mais alguma fome, mas nem pensar em rendermo-nos à pizza no Japão! Até que numa pequena rua já a caminho da estação de comboio mais próxima, vimos o que parecia ser um pequeno restaurante japonês. Tinha uma porta de vidro de correr. Espreitámos lá para dentro e vimos uns quantos jovens japoneses sentado no chão em redor duma mesa, mas afinal parecia ser apenas uma pastelaria. Íamos já a virar as costas quando um japonesinho de ar adorável e chapéu na cabeça, sentado ao lado duma japonesinha de cabelo curto, nos fez sinal para entrarmos. Olhei para o Leo e o Leo olhou para mim, sem sabermos bem o que fazer, mas entrámos. O japonesinho convidou-nos a sentarmo-nos com eles, mas nós dissemos que estávamos mesmo com fome e a precisar de algo mais do que bolinhos. Ele riu-se e disse que nos podia levar ao sítio certo. Ele e a rapariga (que viemos a saber ser a namorada dele) levantaram-se, pagaram e saíram connosco. O nome dele era Tengyo e era um rapaz super cool, um pouco misterioso, com um inglês perfeito (o que é raro por aqueles lados) e um interesse genuíno em nos fazer sentir em casa. Senti fortemente que queria conhecê-lo melhor e pareceu-me que ele estava também particularmente interessado em conhecer-me a mim, o que podia ser apenas o meu ego a iludir-se, mas quando eu lhe disse que era portuguesa ele ficou absolutamente delirante. Disse-me que tinha estado em Portugal ainda não há muito tempo e que era fascinado pela cultura portuguesa. Eu ri-me e disse-lhe que eu por outro lado era fascinada pela cultura nipónica. O Tengyo revelou-se um fã de Camões e mencionou que esteve no Cabo da Roca, "onde a terra acaba e o mar começa". Falámos das semelhanças entre as nossas culturas, as ligações históricas e foi amizade à primeira vista. Ele deixou-nos à porta de um restaurante onde poderíamos encher a pança apesar de já serem 4h da tarde, trocámos contactos e ele pediu que por favor o incomodássemos nos dias seguintes pois ele estava disponível para nos fazer um tour por Tokyo. Eu prometi que o faria, o Leo também, mas só para parecer bem, porque depois não o fez.
Já no restaurante, um outro japonês com quem metemos conversa sugeriu-nos que fizéssemos um cruzeiro nocturno na baía de Tokyo. Achámos a ideia espectacular e depois de comermos fomos até ao cais de onde supostamente sairiam os barcos. Mas chegámos mesmo na hora de saída do último barco da tarde (a preços razoáveis) e já só sobrava o cruzeiro nocturno, cujo custo rondava os 7500 yens (perto de 70 EUR). Com muita pena, decidimos desistir da ideia. Despedi-me do Leo, trocámos contactos também e ele disse-me que iria passar o fim-de-semana em Kyoto. Eu respondi "Que coincidência, o meu amigo Wen também me convidou e estou a pensar ir". "Então vai e quando lá estiveres avisa". Na verdade ainda não tinha decidido completamente sobre a ida a Kyoto. Queria mesmo estar em Tokyo no domingo, quando os jovens se juntam no parque Yoyogi vestidos a rigor de bonecas, punks, personagens anime, etc. Mas já eram duas pessoas a convidarem-me a ir a Kyoto no fim-de-semana e eu achei que era demasiada coincidência.
Antes de regressar ao hostel decidi passar por Akihabara, que ficava apenas a uma estação de comboio de distância. Akihabara é famosa pelas lojas de electrónica mas também pelas lojas de anime e manga e tinha ouvido dizer que poderia lá dar de caras com algum pessoal do cosplay. Era dia de semana, pelo que as chances eram limitadas, mas fui na mesma. Encontrei várias meninas vestidas de "maids" a distribuir folhetos publicitários dos cafés onde trabalham assim vestidas (outra grande moda de Tokyo, principalmente entre os otaku [geeks] que gostam particularmente de ser servidos por estas "criadas"). A maior parte das lojas já estavam a fechar, mas ainda tive tempo de percorrer uma loja de manga e anime com 10 andares e passar por várias lojas de figurinos de anime e roupas de fantasia - tanto para cosplay como para outros fins mais... digamos, íntimos. Quase comprei um desses fatos de criada, só por graça, mas aguentei-me, porque eram caríssimos.
Por fim, ainda encontrei uma loja que vendia as famosas bonecas japonesas para... digamos... senhores que não arranjam namorada. Na montra só tinham as cabeças e fotografias do corpo inteiro. Mas fiquei mesmo curiosa em vê-las ao vivo e a cores. Não fosse a loja estar a fechar e eu tinha mesmo entrado. O facto de ser turista deu-me mais à-vontade para esse tipo de coisas: também entrei numa loja de hentai e os rapazotes que por lá andavam ficaram todos a olhar para mim, embaraçados e surpresos. Em Portugal teria tido vergonha de entrar num tal sítio, mas ali podia sempre armar-me em turista curiosa que não sabe bem onde está e morder o ambiente.
No dia seguinte mandei uma mensagem ao Leo para saber por onde ele andava, mas ele optou por ir ver o famoso mercado de peixe em Tsukiji, algo que eu claramente dispensava e optei antes por ir ao templo Senso-Ji, à torre de Tokyo, entre outras paragens.
Tinha enviado uma mensagem ao Tengyo e ele respondeu sugerindo-me que nos encontrássemos no dia seguinte para um tour pelas zonas de Harajuku e Shibuya, que eu tanto queria ver. O Leo não disse mais nada durante todo o dia, por isso não pensei mais nele. Encontrei-me com o Tengyo no dia seguinte na estação de Harajuku e lá fomos explorar esta famosa zona de Tokyo onde os jovens expressam a sua criatividade e excentricidade livremente. Confesso que me pareceu mais Ibiza que o Japão, não fossem as lojas de roupas estapafúrdias que só existem em Tokyo e que seriam consideradas péssimo gosto em qualquer outro sítio do mundo.
Ele levou-me a uma espécie de casa de artistas / galeria de arte, com a qual eu já tinha sonhado (o costume...). Ali tive que fazer uns testes de realidade, porque era tudo tão estranho que eu julguei estar outra vez naquele sonho. A casa é toda pintada por dentro e por fora com graffitis psicadélicos e apesar de ter poucas divisões no rés-do-chão, perdi-me do Tengyo, por entre as diversas ligações que há de sala para sala e do corredor e pátio interior para cada sala. Acabei por ir ao 2º andar procurá-lo e encontrei uma espécie de pequena loja de roupas de designer, mas não tinha a certeza se aquilo era de facto uma loja ou o quarto de um dos artistas. Às tantas estava a remexer nas roupas de alguém... Apareceu um casal de japoneses vestidos no melhor estilo clown-punk. Não faço ideia o que chamar ao estilo deles, mas clown-punk parece-me apropriado, pois por um lado vestiam-se de preto, com correntes, espigões e cabelos espetados, mas também usavam meias às riscas fluorescentes, pompons coloridos no lugar de botões, pinturas garridas na cara e saias de tule amarelo. É um dos estilos de street-wear de Tokyo e se alguém souber classificá-lo, agradeço a dica.
Eles sorriram mas não disseram uma palavra, pelo que eu saí e entrei no quarto ao lado. Não estou a brincar quando digo que acreditei seriamente estar a ter uma alucinação. Havia três raparigas sentadas em bancos, uma em cada canto do quarto. Eu estava de pé na porta no canto inferior esquerdo, ao meu lado direito no outro canto estava uma rapariga normalíssima de calças de ganga. No canto superior direito estava uma rapariga vestida de boneca, vestido cor-de-rosa, lacinhos, fitinhas, cabelo longo encaracolado, lábios vermelhos pequeninos e olhos gigantes pestanudos. E no canto superior esquerdo à minha frente estava outra rapariga meio punk, sem camisola, apenas de sutiã preto. O chão no meio de nós as quatro estava completamente coberto de balões de todas as cores, as paredes cobertas de quadros psicadélicos e surrealistas cujo tema não consegui descortinar. E todas as três estavam completamente caladas, a ouvir atentamente um guincho electrónico misturado com ruído branco, que saía de umas colunas invisíveis. Apertei o nariz para confirmar pela 3ª vez que não estava a ter um sonho qualquer absurdo e fiquei admirada quando percebi que não. Fiquei ali especada a olhar para elas, quando o Tengyo apareceu não sei de onde e me puxou pelo braço para seguirmos caminho. Perguntei-lhe se ele tinha visto o mesmo que eu e ele disse que sim, mas sem perceber porque é que eu tinha achado aquilo estranho. Afinal de contas estávamos em Harajuku.
Terminámos o passeio em Shibuya onde ele me levou a um dos mais famosos centros comerciais de Tokyo, o Sibuya 109, onde as japonesas afluem em massa, por entre roupas, maquilhagens, pestanas postiças, brilhantes, tules, criando um ambiente alucinante e barulhento. As funcionárias das lojas estão vestidas e produzidas de acordo com os cânones da moda de Tokyo e segundo o Tengyo me disse, são uma espécie de starlettes em Tokyo, admiradas por todas as jovens, que querem ser como elas. Tentei tirar fotos das meninas, mas elas disseram não e não. Ele disse-me que elas estão cansadas de ser objecto de curiosidade quer dos turistas quer dos próprios japoneses que as admiram, daí serem tão intolerantes a fotos.
Por fim atravessámos as famosas passadeiras de Shibuya. Fomos até ao Starbucks que fica num 2º andar directamente sobre o mundialmente famoso cruzamento e ficámos ali simplesmente a ver, a ouvir, a respirar, enquanto tomámos um chá. Ele próprio confessou nunca lá ter estado antes. Pediu-me para eu ficar no 2º andar e tirar-lhe uma foto lá em baixo perdido na multidão. Ele queria saber se seria capaz de desaparecer na multidão ou, nas palavras dele "ser apenas mais um deles". Concluímos que sim, que mesmo ele pode ser apenas "mais um deles", mas não para mim. ^_^
Um amigo tinha-me dito que fosse ao Parque Ueno e como ficava a 10 min de metro do meu hostel foi onde decidi ir em primeiro lugar. A entrada por onde cheguei ficava mesmo perto do Museu de Ciência e História Natural. Hesitei bastante quanto a visitá-lo, acho que fui à porta e voltei para trás umas três vezes. Estava na dúvida se era algo que eu queria mesmo fazer, encafuar-me em museus, ou se preferia caminhar no parque e seguir depois para outras bandas. Mas lembrei-me vagamente que o meu amigo me tinha-dito também que no parque havia um museu muito interessante. Não sabia se era este ou o de arte que ficava mais adiante, mas pensei "Que se lixe, mesmo que seja chato, sempre posso dizer que visitei um museu em Tokyo, pelo que nunca será uma perda de tempo." Mas não foi chato, na verdade foi um dos melhores museus de história natural que já visitei, apesar da quantidade de bichos empalhados que lá há - ou talvez mesmo por isso. Toda a história natural e evolutiva está lá condensada e muito bem apresentada. Mas o melhor foi o cinema a 360º que lá está instalado. Sem entrar em grandes detalhes, o cinema consiste numa esfera gigante com uma ponte que a atravessa de um lado ao outro e a partir da qual vemos os filmes projectados em nosso redor e ficamos imersos dentro do filme. Na verdade é impossível ver o filme todo, porque tínhamos que ter uma visão a 360º. Mas o efeito é espectacular e tão realista que tive que me agarrar com força ao corrimão da ponte para não cair ao chão com as tonturas.
Um tipo ocidental com quem já me tinha cruzado na entrada, por outro lado não ligou muito aos filmes porque não tirou os olhos de mim. Tentei ignorá-lo e fora do cinema procurei trocar-lhe as voltas quando via que ele estava a tentar meter conversa comigo. Não me apetecia mesmo nada entrar em conversas e fazer amizades porque as companhias só nos atrasam quando andamos a fazer turismo e eu tinha pouco tempo. Mas ele foi mesmo persistente e lá houve uma ocasião em que simplesmente me barrou o caminho e me perguntou de onde eu era. Quando eu disse Portugal ele fez uma cara desanimada, que mais tarde ele me disse ter sido por julgar que eu não devia falar inglês suficiente para comunicarmos. Mas logo lhe passou o desânimo quando comecei a falar fluentemente com ele. Chamava-se Leo, era americano de Seattle, saxofonista e informático. Visitámos o museu juntos e a conversa correu tão bem que acabámos por ficar amigos. E claro, eu tinha razão, demorei 3 horas a ver um museu que veria numa hora e o resto do dia não fiz mais nada do que tinha programado. Mas valeu a pena pelo que acabou por se suceder graças a este encontro. Falámos de tudo, desde ciência, biologia, evolução, guerra, religião, sonhos... Eram para aí umas 3h da tarde quando finalmente saímos do museu e concluímos que nenhum de nós tinha almoçado e que estávamos ambos esfomeados. Corremos os arredores do parque em busca de um restaurante mas só encontrámos uma pizzeria. Concordámos passar mais alguma fome, mas nem pensar em rendermo-nos à pizza no Japão! Até que numa pequena rua já a caminho da estação de comboio mais próxima, vimos o que parecia ser um pequeno restaurante japonês. Tinha uma porta de vidro de correr. Espreitámos lá para dentro e vimos uns quantos jovens japoneses sentado no chão em redor duma mesa, mas afinal parecia ser apenas uma pastelaria. Íamos já a virar as costas quando um japonesinho de ar adorável e chapéu na cabeça, sentado ao lado duma japonesinha de cabelo curto, nos fez sinal para entrarmos. Olhei para o Leo e o Leo olhou para mim, sem sabermos bem o que fazer, mas entrámos. O japonesinho convidou-nos a sentarmo-nos com eles, mas nós dissemos que estávamos mesmo com fome e a precisar de algo mais do que bolinhos. Ele riu-se e disse que nos podia levar ao sítio certo. Ele e a rapariga (que viemos a saber ser a namorada dele) levantaram-se, pagaram e saíram connosco. O nome dele era Tengyo e era um rapaz super cool, um pouco misterioso, com um inglês perfeito (o que é raro por aqueles lados) e um interesse genuíno em nos fazer sentir em casa. Senti fortemente que queria conhecê-lo melhor e pareceu-me que ele estava também particularmente interessado em conhecer-me a mim, o que podia ser apenas o meu ego a iludir-se, mas quando eu lhe disse que era portuguesa ele ficou absolutamente delirante. Disse-me que tinha estado em Portugal ainda não há muito tempo e que era fascinado pela cultura portuguesa. Eu ri-me e disse-lhe que eu por outro lado era fascinada pela cultura nipónica. O Tengyo revelou-se um fã de Camões e mencionou que esteve no Cabo da Roca, "onde a terra acaba e o mar começa". Falámos das semelhanças entre as nossas culturas, as ligações históricas e foi amizade à primeira vista. Ele deixou-nos à porta de um restaurante onde poderíamos encher a pança apesar de já serem 4h da tarde, trocámos contactos e ele pediu que por favor o incomodássemos nos dias seguintes pois ele estava disponível para nos fazer um tour por Tokyo. Eu prometi que o faria, o Leo também, mas só para parecer bem, porque depois não o fez.
Já no restaurante, um outro japonês com quem metemos conversa sugeriu-nos que fizéssemos um cruzeiro nocturno na baía de Tokyo. Achámos a ideia espectacular e depois de comermos fomos até ao cais de onde supostamente sairiam os barcos. Mas chegámos mesmo na hora de saída do último barco da tarde (a preços razoáveis) e já só sobrava o cruzeiro nocturno, cujo custo rondava os 7500 yens (perto de 70 EUR). Com muita pena, decidimos desistir da ideia. Despedi-me do Leo, trocámos contactos também e ele disse-me que iria passar o fim-de-semana em Kyoto. Eu respondi "Que coincidência, o meu amigo Wen também me convidou e estou a pensar ir". "Então vai e quando lá estiveres avisa". Na verdade ainda não tinha decidido completamente sobre a ida a Kyoto. Queria mesmo estar em Tokyo no domingo, quando os jovens se juntam no parque Yoyogi vestidos a rigor de bonecas, punks, personagens anime, etc. Mas já eram duas pessoas a convidarem-me a ir a Kyoto no fim-de-semana e eu achei que era demasiada coincidência.
Antes de regressar ao hostel decidi passar por Akihabara, que ficava apenas a uma estação de comboio de distância. Akihabara é famosa pelas lojas de electrónica mas também pelas lojas de anime e manga e tinha ouvido dizer que poderia lá dar de caras com algum pessoal do cosplay. Era dia de semana, pelo que as chances eram limitadas, mas fui na mesma. Encontrei várias meninas vestidas de "maids" a distribuir folhetos publicitários dos cafés onde trabalham assim vestidas (outra grande moda de Tokyo, principalmente entre os otaku [geeks] que gostam particularmente de ser servidos por estas "criadas"). A maior parte das lojas já estavam a fechar, mas ainda tive tempo de percorrer uma loja de manga e anime com 10 andares e passar por várias lojas de figurinos de anime e roupas de fantasia - tanto para cosplay como para outros fins mais... digamos, íntimos. Quase comprei um desses fatos de criada, só por graça, mas aguentei-me, porque eram caríssimos.
Por fim, ainda encontrei uma loja que vendia as famosas bonecas japonesas para... digamos... senhores que não arranjam namorada. Na montra só tinham as cabeças e fotografias do corpo inteiro. Mas fiquei mesmo curiosa em vê-las ao vivo e a cores. Não fosse a loja estar a fechar e eu tinha mesmo entrado. O facto de ser turista deu-me mais à-vontade para esse tipo de coisas: também entrei numa loja de hentai e os rapazotes que por lá andavam ficaram todos a olhar para mim, embaraçados e surpresos. Em Portugal teria tido vergonha de entrar num tal sítio, mas ali podia sempre armar-me em turista curiosa que não sabe bem onde está e morder o ambiente.
| Akihabara |
Tinha enviado uma mensagem ao Tengyo e ele respondeu sugerindo-me que nos encontrássemos no dia seguinte para um tour pelas zonas de Harajuku e Shibuya, que eu tanto queria ver. O Leo não disse mais nada durante todo o dia, por isso não pensei mais nele. Encontrei-me com o Tengyo no dia seguinte na estação de Harajuku e lá fomos explorar esta famosa zona de Tokyo onde os jovens expressam a sua criatividade e excentricidade livremente. Confesso que me pareceu mais Ibiza que o Japão, não fossem as lojas de roupas estapafúrdias que só existem em Tokyo e que seriam consideradas péssimo gosto em qualquer outro sítio do mundo.
Ele levou-me a uma espécie de casa de artistas / galeria de arte, com a qual eu já tinha sonhado (o costume...). Ali tive que fazer uns testes de realidade, porque era tudo tão estranho que eu julguei estar outra vez naquele sonho. A casa é toda pintada por dentro e por fora com graffitis psicadélicos e apesar de ter poucas divisões no rés-do-chão, perdi-me do Tengyo, por entre as diversas ligações que há de sala para sala e do corredor e pátio interior para cada sala. Acabei por ir ao 2º andar procurá-lo e encontrei uma espécie de pequena loja de roupas de designer, mas não tinha a certeza se aquilo era de facto uma loja ou o quarto de um dos artistas. Às tantas estava a remexer nas roupas de alguém... Apareceu um casal de japoneses vestidos no melhor estilo clown-punk. Não faço ideia o que chamar ao estilo deles, mas clown-punk parece-me apropriado, pois por um lado vestiam-se de preto, com correntes, espigões e cabelos espetados, mas também usavam meias às riscas fluorescentes, pompons coloridos no lugar de botões, pinturas garridas na cara e saias de tule amarelo. É um dos estilos de street-wear de Tokyo e se alguém souber classificá-lo, agradeço a dica.
| Em Harajuku |
Depois desse episódio abstruso, entrámos numa loja de roupa em 2ª mão e o Tengyo revelou-se o melhor amigo não-gay que uma rapariga pode ter. Incentivou-me a experimentar roupas, esperou com toda a paciência do mundo, pediu-me que desse voltinhas para ver como assentava (sei o que estão a pensar...) , opinava sobre o que me ficava bem ou mal e acabou por me fazer comprar umas bermudas e uma écharpe, escolhida por ele, que segundo ele era simplesmente perfeita para o meu tom de pele e cabelo. Fartei-me de rir e disse-lhe que queria raptá-lo para o levar às compras comigo sempre que precisasse. Depois levou-me a uma loja de chapéus caríssimos, onde me incentivou a experimentar uma série deles. Divertimo-nos à grande a experimentar chapéus e a tirar fotos, até que os empregados já estavam todos a olhar para nós, a desincentivar-nos de o fazer, tipo "ou compram alguma coisa, ou param com isso." Como última escolha peguei num chapéu vermelho que tinha a certeza me iria ficar a matar e o Tengyo ficou boquiaberto: "Uau, tens que comprar esse!", "Tás a brincar, custa 8000 yens!", "Fica perfeito!", "Pagas tu?".
Acontece que ele é professor, actualmente desempregado e não podia mesmo pagar, se não acredito que o teria feito. Depois seguimos a conversar sobre como é estar desempregado numa sociedade tão obcecada com a produtividade como é o Japão. Ele disse ter uma família compreensiva (na verdade os pais dele são noruegueses), mas que no geral é olhado como um inútil pelo resto das pessoas. Rimo-nos e brincámos com essas questões, comparámos países, reduzimos tudo ao absurdo. Lá pelo meio passámos no santuário Meiji, onde me vi apanhada no final de uma cerimónia de casamento japonesa - atravessando o pátio do santuário, a noiva de tradicional fato branco com capuz caminhava na frente, coberta por um gigante chapéu de sol vermelho que alguém atrás dela carregava, os familiares vestidos de preto ou de kimono seguiam-na em absoluto silêncio. O Tengyo abraçava uma árvore. Eu levitava ao nível da copa das árvores. Ou pelo menos assim me pareceu.| Shibuya |
Por fim atravessámos as famosas passadeiras de Shibuya. Fomos até ao Starbucks que fica num 2º andar directamente sobre o mundialmente famoso cruzamento e ficámos ali simplesmente a ver, a ouvir, a respirar, enquanto tomámos um chá. Ele próprio confessou nunca lá ter estado antes. Pediu-me para eu ficar no 2º andar e tirar-lhe uma foto lá em baixo perdido na multidão. Ele queria saber se seria capaz de desaparecer na multidão ou, nas palavras dele "ser apenas mais um deles". Concluímos que sim, que mesmo ele pode ser apenas "mais um deles", mas não para mim. ^_^

