Monday, October 30, 2006

Festa

Não tenho muitas novidades para contar. Já me sinto bruxelense e portanto já não tenho aquela admiração inicial por cada pequena coisa. Todos os dias descubro algo novo, mas no geral o meu quotidiano já começa a ser rotineiro e familiar.
Este sábado a Lena e a colega de apartamento dela organizaram uma festa e convidaram umas 50 pessoas. Tiveram que pedir ao senhorio que lhes emprestasse o sotão, com receio de não terem espaço para toda a gente, mas no final apareceram umas 20 ou 30 e nenhuma parecia muito entusiasmada com a ideia de ir para o sotão. Mas era provavelmente o sítio mais interessante, pois além de ter um terraço com uma vista interessante, elas tiveram um trabalhão a montar lá uma mini-discoteca. Depois de muito insistirem, quando já era perto da 1h30 da manhã, lá houve uns quantos voluntários que se mudaram para o sotão para dançar, mas muitas pessoas por essa hora já se tinham ido embora - fracotes.
Eu fiquei encarregue de cozinhar o bolo, o que é uma grande responsabilidade, pois é a parte mais importante dos comes e bebes duma festa. Do meu ponto de vista o bolo estava mau - o fermento não actuou, a massa não cresceu e ficou mal cozida. Mas toda a gente adorou e todos queriam saber quem tinha preparado aquela tarte. Eu pensei "Tarte, qual tarte?" Era suposto ser um pão-de-ló com uma camada de compota e muesli, mas lá percebi que se como bolo a ideia não tinha resultado, como tarte o resultado era excelente. E lá fui receber os elogios dos convidados. "Sim, sim, fui eu que fiz a tarte! Obrigada. Obrigada."
No convite para a festa a Lena pedia que cada um levasse uma garrafa da sua bebida favorita e escusado será dizer que ninguém levou sumos de fruta. Havia apenas um pacote de sumo de laranja que eu bebi até ao fim, mas depois o francês queria que eu provasse o espumante dele, a búlgara queria que eu provasse o vinho tinto dela, o grego queria que eu provasse o vinho tinto dele, e um alemão que tinha comprado vinho do Porto queria que eu provasse para lhe dizer se era dos bons (como se eu fosse especialista no assunto...). Só bebi um bocadinho de cada, mas mesmo assim comecei a ficar com a cabeça a andar à roda e tive que me deitar um bocado para recuperar do efeito. Depois de recuperada ainda apareceu um belga que queria que eu provasse a cerveja dele, mas foi fácil recusar, porque eu não gosto mesmo nada de cerveja. Depois disso já só me ofereciam copos de água.
Um alemão muito chato engraçou comigo e perseguiu-me toda a noite de sala em sala. No final queria ir dar um passeio comigo e levar-me a casa e talvez casar comigo. Estava convencidíssimo que tinha encontrado o amor da vida dele, mas eu não estava nem aí... Para me livrar dele tive que me colar à Lena e no fim da noite chamar um taxi ao qual ela me acompanhou, não fosse o alemão ter a ideia de querer partilhar o taxi comigo.
No domingo fui conhecer mais uma feira da ladra, na Place Jeu de Balle, que a Lena me recomendou várias vezes e dei umas voltinhas pelo bairro Marolles. Li algo interessante sobre aquela zona. Quando o arquitecto Poealert construiu o Palais de Justice ali perto - um edifício monstruosamente grande - muitas casas do Marolles, na altura a zona dos comerciantes pobres de Bruxelas, tiveram que ser demolidas e as pessoas daquela zona passaram a odiar o famoso arquitecto ao ponto da palavra "arquitecto" se ter tornado um nome feio na língua local. Também consta que o arquitecto ficou louco e morreu cedo por causa duma maldição que uma bruxa dos Marolles lhe lançou. Parece portanto ser uma zona muito interessante e castiça, mas altamente perigosa para os arquitectos ;)

Friday, October 27, 2006

Bom tempo, mau tempo e falta de tempo

Durante a semana passada decorreu a Board Meeting da IFOAM-EU e um seminário sobre o Desenvolvimento Rural e esta semana finalmente tive uma reunião com o Marco em que revimos o meu trabalho até agora e em que me foram dadas mil e uma novas tarefas, por isso começo a não ter tempo para fazer tudo o que desejo fazer. Quero estudar francês, exercitar-me, escrever, pintar, costurar, cozinhar, "bricolagear", fotografar, sair com os amigos, conhecer o país, mas não é fácil conciliar tudo no cada vez menos tempo disponível que tenho. Vou tentar escrever algo este fim-de-semana sobre o que tenho feito, mas não garanto nada :)
Por agora digo apenas que por aqui está um tempo excelente, com muito sol e temperaturas amenas. Parece que em Portugal não têm essa sorte... Diz-se por aqui que os meses de Setembro e Outubro foram anormalmente secos em Bruxelas. Eu bem disse que isto iria acontecer, porque aonde eu vou levo o sol comigo :))) Só não previ que a chuva fosse toda para Portugal. Desculpem lá o mau jeito...

Monday, October 16, 2006

Preconceitos

Quase de certeza que eu tenho algumas ideias pré-concebidas sobre certos países, mas tento não construir cenários à volta delas e esperar pela oportunidade de construir uma imagem correcta a partir de informações fidedignas. Mas é incrível a quantidade de ideias feitas que as pessoas têm sobre Portugal e o quanto romanceiam à volta delas.
Várias pessoas com quem falei sobre Portugal disseram-me sempre a mesma coisa: que Portugal deve ser óptimo para se passar umas férias baratas ao sol, com comidinha exótica e nativos pitorescos, mas que deve ser incrivelmente atrasado em relação ao resto da Europa. Estão sempre a perguntar-se se em Portugal há isto e aquilo e aqueloutro - coisas básicas que talvez em África sejam difíceis de encontrar, mas que em Portugal são coisas normais do dia-a-dia das pessoas faz décadas. E depois ficam muito admirados quando lhes mostro que de facto não há grandes diferenças entre Portugal e os países da "Europa desenvolvida".
Por um lado digo-lhes sem grande pudor que os portugueses são uns atrasos de vida, que têm umas mentalidades tacanhas, que se queixam de tudo mas nunca fazem nada e que só são felizes com a desgraça dos outros. Mas também digo que se não fosse a falta de auto-confiança, a falta de vontade de evoluir e uma grande dose de preguiça, Portugal poderia ser um dos países líderes do mundo, porque quando as capacidades e o pioneirismo dos portugueses de vez em quando se manifestam, conseguem ser bastante impressionantes.
No meu dia-a-dia aqui percebo que Portugal em muitas coisas está à frente da Bélgica (embora em muitas outras esteja anos-luz atrás). Isso demonstra que Portugal tem potencialidades e que poderia ir longe se deixasse de dormir debaixo do chaparro todo o dia e arregaçasse as mangas.
As maiores diferenças são a nível da mentalidade e educação das pessoas, porque quanto a infra-estruturas, Portugal está tanto ou mais evoluído que os países "mais desenvolvidos".
Penso que como consequência de julgarem que Portugal é um país incrivelmente atrasado, as pessoas também tendem a ser condescendentes comigo e depois ficam surpreendidas quando percebem que em termos intelectuais, culturais e práticos, eu não fico atrás deles.
No início o Marco ficava muito surpreendido quando eu mostrava que sabia fazer imensas coisas que ele julgava que teria de me ensinar. Ficou muito impressionado, por exemplo, que eu soubesse configurar o Outlook para receber e-mails. Enfim, não sou atrasadinha... Entretanto ele já percebeu isso e há dias quando foi a Lena que duvidou das minhas capacidades, questionando-o se eu estaria à altura de participar numa certa reunião, ele ficou muito surpreendido com a atitude dela, porque para ele já era óbvio que eu me desenrascaria lindamente. Mesmo assim, recorrentemente, ainda me tratam como se eu fosse uma coitadinha, o que por vezes me aborrece um pouco, mas eu perdoo-lhes.
Os meus colegas também ficaram surpreendidos quando me ouviram falar ao telefone. Disseram que não parecia nada que eu estava a falar português. Eu pensei "Essa agora, desde quando eles sabem melhor do que eu como é que se fala português?". A resposta deles foi que o meu português parecia ser uma "língua séria". Sim, foram estas as palavras exactas! Para eles o português seria muito semelhante ao espanhol, considerada uma língua espalhafatosa e foi com supresa que perceberam que o português é uma língua discreta. Acho que só com base nisso eles já reformularam toda a sua ideia de Portugal e já conseguem imaginá-lo como um país europeu e não do 3º mundo. Espanha terá que mudar de língua ou acho que nunca se verá livre de ser associada às touradas, castanholas e olés.
A propósito disso, os meus colegas espanhóis de EVS fizeram questão de destruir os estereótipos sobre Espanha durante a nossa soirée cultural do Seminário EVS. Todos tínhamos que apresentar algo do nosso país: um traje, um prato, uma dança, uma canção, o que quiséssemos. Eles desenharam um touro e uma sevilhana e cozinharam uma tortilha. Apresentaram cada um desses "símbolos" e depois rasgaram o touro e a sevilhana, dizendo que era tempo de acabar com estas ideias pré-concebidas sobre os espanhóis. Conservaram intacta a tortilha, que disseram ser um símbolo saboroso, mas em substituição dos outros símbolos apresentaram informações culturais de Barcelona, para eles a cidade que representa a nova Espanha que lentamente começa a ganhar terreno, livre de touradas e outras manifestações retrógradas.
Eu vesti-me com as cores nacionais, expliquei que Portugal não é uma região de Espanha, que o Fado é típico de Lisboa e não do país, que o Bacalhau vem do Mar do Norte e que o melhor de Portugal são as paisagens. (E tive que explicar tudo isto em francês, claro!)
Outros que terão que mudar de língua se quiserem ser levados a sério são os gregos. Quando falam conseguem ser ainda mais espalhafatosos que os espanhóis. E parece ser uma daquelas línguas em que se fala, fala, fala e no fim só se disse 2 palavras - mas isso pode ser apenas um dos poucos preconceitos que eu tenho :) Na hora de almoço de 6ª feira decidimos ir tomar um café e um bolinho a um café grego perto do nosso escritório e o Stylianos serviu de intérprete dos nossos pedidos. Ele apenas tinha que pedir 2 cafés e 2 fatias de bolo, no entanto ele e o empregado estiveram à vontade 5 minutos a discutir acaloradamente. A Lena bichanava para mim que não compreendia como pedir 2 cafés e 2 bolos poderia ser uma questão tão complexa que levasse a um tão longo debate. No final, para termos a certeza de que a conversa tinha sido apenas em redor do pedido e que eles não tinham começado a discutir a filosofia grega toda da antiguidade até aos dias modernos, perguntámos ao Stylianos o que tinham eles estado a conversar e ele confirmou que apenas tinha transmitido o nosso pedido e que o empregado apenas confirmou com ele se o pedido estava correcto. Curioso...
Na tarde de sábado fui ao cinema ao Kinepolis. Imaginem o Centro Comercial Vasco da Gama transformado num grande complexo de cinemas e terão uma ideia aproximada do tamanho do Kinepolis.
Julguei que lá iria encontrar uma enchente de pipoqueiros, mas ou algo interessante estava a acontecer do outro lado da cidade ou os bruxelenses não gostam de cinema, porque as 25 salas de cinema estavam praticamente às moscas numa tarde de sábado. Se fosse em Lisboa, estariam apinhadas, atulhadas e abarrotadas.
Falei à Eva na existência do IMAX e ela que vive cá há 2 anos e meio, não sabia disso. Será que esta gente não lê? E será que não saem à rua? E quando saem à rua, será que andam de olhos abertos? Em breve, se houver algum filme interessante, somos capazes de lá ir.
Falando em Eva, no domingo fui com ela ao Festival do Livro. Não queria gastar muito dinheiro, mas queria ver se encontrava dicionários, gramáticas e coisas do género que pudessem ser úteis para o meu estudo de línguas.
Como a Feira é na parte norte da cidade, a maior parte dos livros eram neerlandeses. Lá encontrei uma fila dedicada aos livros francófonos e havia também livros em inglês espalhados um pouco por todo o lado, mas a maioria deles era para mim indecifrável. A Eva focou a sua atenção nas filas de livros infantis, porque diz que o neerlandês dela corresponde ao de uma criança de 6 anos, logo tem que ler livros adequados ao seu nível. Acabou por comprar uns quantos livros do Garfield.
À entrada podíamos escolher cestos ou carrinhos para transportarmos os livros e a maior parte das pessoas parecia optar pelos carrinhos - e que bem que os enchiam! No final (tal não deve ser a tradição das pessoas comprarem toneladas de livros), em vez de nos colocarem os livros em sacos, mandaram-nos passar por uma bancada cheia de caixotes de cartão para escolhermos o mais adequado aos nossos livros. Também nos davam sacos se quiséssemos, mas eu vi mais gente a transportar caixotes do que sacos o que é um sinal do sucesso da feira. Pouco depois pensei: "Ah, então era por causa disto que não havia ninguém no cinema!"
Na feira vi alguns dicionários de português, um mapa de Portugal e Espanha e na secção de guias turísticos, um guia dos campos de golfe em Portugal... É a isto que o nosso país se está a reduzir, não é verdade? Todos os dias mais um pedaço daquilo que realmente valia a pena figurar em guias turísticos desaparece para dar lugar a um novo campo de golfe. Em breve Portugal figurará no livro de records do Guiness como o país com mais campos de golfe por metro quadrado e por habitante.
Depois da feira passámos pelo Atomium (o interior fica para outro dia), atravessámos o Parc D'Osseghem até ao Parc Royal, passámos frente ao Palácio Real, onde tudo o que vi foram os muros, o portão e um vislumbre do palácio ao longe e seguimos até ao Pavilhão Chinês e a Torre Japonesa (os interiores também ficam para outro dia).
Ah, já comprei uma gaiola (em 2ª mão) para o rato! Também arranjei uma solução para o carrinho de compras, digna duma permacultora ;) Comprei (também em 2ª mão) duas mochilas de viagem, daquelas com armação de ferro e estou a adaptá-las a um carrinho de transporte de caixotes que comprei no IKEA - o carrinho custou 5 euros e as duas mochilas outros 5, pelo que o conjunto fica mais barato que o carrinho de compras mais barato que já vi à venda, além de que será mais ecológico (porque estou a reutilizar materiais) e muito mais original que qualquer outro em Bruxelas.

Friday, October 13, 2006

Agenda Cultural

Depois de ter dado água e comida ao rato e de ele ter explorado os 4 cantos à casa, escondeu-se atrás dos móveislá ficou durante 2 dias. Entretanto preparei uma caixa de cartão para lhe servir de casa e quando percebi que ele não se deixaria apanhar tão facilmente como quando estava mais para lá do que para cá, decidi construir uma ratoeira.
Depois de muitas ideias impraticáveis, lá descobri que poderia fazer uma ratoeira eficaz a partir do meu caixote do lixo. Após algumas desconfianças iniciais, o rato lá entrou no caixote e ficou aprisionado. Julguei que não conseguiria manter um rato numa caixa de cartão por muito tempo, mas estranhamente, desde que ele percebeu que foi apanhado, deu-se por vencido e nunca tentou sequer roer a caixa.
No sábado passado passei por uma loja de artigos em 2ª mão, na esperança de encontrar alguma gaiola, mas nada. Vou tentar noutra e depois talvez nas feiras.
Entretanto a minha exploração de Bruxelas continuoou.
No sábado à tarde fui ao Festival India no Palais des Beaux-Arts, tal como tinha prometido. A Mari apareceu com mais duas das nossas colegas de EVS, mas acho que elas não gostaram muito do festival, porque se foram embora passado pouco tempo. Eu tinha avisado que era um festival só para apreciadores de música indiana, porque não é uma música que entre logo no ouvido. É preciso abrirmo-nos completamente a ela para a deixar entranhar-se e então é pura magia, sentimos um arrepio na espinha e somos transportados para um outro mundo.
Drums from Bengal foi uma batucada de tal forma hipnótica e alucinante que um africano de fato e gravata que estava entre o público sentado no chão, levantou-se e começou a dançar freneticamente como se fosse um xamã em transe numa aldeia remota da savana. Os músicos Dagar tocaram o estilo de música mais antiga da Índia - um ritmo completamente diferente, etéreo e místico - que me fez recordar a Índia, não só como se já lá tivesse estado, mas como se lá tivesse raízes profundas.
Arrepender-me-ei sempre de não ter ficado para os espectáculos da noite, mas o bilhete custava 25 euros (ao contrário dos concertos de abertura, que foram gratuitos) e eu decidi não ficar. Mas tenho a certeza de que teria sido uma noite inesquecível: Talvin Singh, State of Bengal, entre outros. Música electrónica e muito Drum'n'Bass misturados com música indiana.
Vagueei um pouco ao acaso pelas ruas, para conhecer melhor a zona do Palais de Beaux-Arts e acabei por encontrar a festa de encerramento da Semaine du Commerce Equitable (Semana do Comércio Justo). Estavam lá os "alternativos" todos a dançar animadamente e barraquinhas vendiam paparoca e bedidas deliciosas de comércio justo. Voltei a encontrar a Mari - sempre é verdade que facilmente tropeçamos em pessoas conhecidas em Bruxelas! - e ela convidou-me para irmos a um Centro Comercial (nada mais adequado quando se sai duma festa que defende um comércio mais justo, lol). Eu aceitei, porque ainda não tinha tido oportunidade de viver o ambiente da baixa bruxelense. Compras feitas e conversa em dia, ela decidiu ir para casa, mas eu ainda fui até ao Jardim Botânico, onde está a decorrer um festival de cinema da ATTAC, ver o filme "The Constant Gardener".
Gostava de poder ver os filmes todos do festival, mas durante a semana tem sido muito difícil conciliar o trabalho com outras actividades, porque o trabalho prolonga-se sempre para lá da hora programada ou porque eu fico tão cansada que só quero ir para casa.
Mas a 3ª feira foi uma excepção: apesar de ter sido o meu dia mais atarefado, ainda tive tempo e disposição para sair à noite. Tinha prometido à Eva acompanhá-la a um bar em Ste. Catherine, onde iria acontecer algo organizado pela namorada dum colega dela. Fiz-lhe a vontade a pensar que seria horrível - gente a beber cerveja, a fumar que nem chaminés e a berrar no meio de muito barulho - mas afinal encontrei exactamente o oposto: uma sala silenciosa, meia dúzia de "meninos bem comportados" e jogos de tabuleiro nas mesas. Ainda fiquei mais aterrorizada: "Socorro, é um convívio de totós!!!!" lol
OK, de certa forma era, mas não tão mau como imaginei de início. O jogo nas mesas era o New Amigos, uma espécie de Trivial Pursuit desenhado especificamente para melhorar o nosso conhecimento de línguas. Todas as 3ª feiras, em várias cidades da Europa (Paris, Berlim, Oslo, Bruxelas, entre outras) decorrem estes jogos do New Amigos. Os participantes escolhem a língua que querem aprender/melhorar e jogam com outras pessoas interessadas na mesma língua. Como resultado acabam por fazer novos amigos, enquanto aprendem alguma coisa útil.
No final da noite (ficámos até às 23h) concluí que tinha sido bastante divertido e que a ideia era excelente. Como companheiras de jogo (além da Eva) tive 3 raparigas, uma chinesa, uma peruviana e uma húngara, todas biólogas(!) a fazerem mestrado aqui em Bruxelas. Mais uma coincidência. Combinámos voltar a encontrar-nos por lá na semana que vem.
A Lena disse-me que quando cá cheguei ela sentia alguma preocupação por eventualmente eu me poder sentir só e aborrecida, mas que entretanto já deixou de se preocupar com a minha vida social, que parece estar a andar a 100 à hora e não precisar de nenhum empurrãozinho. Na verdade, já tenho tanta fama de ser uma agenda cultural ambulante (e páginas amarelas também) que sempre que alguém não sabe onde ir e o que fazer, pergunta-me o que é que está a acontecer em Bruxelas (e também onde pode ir comprar roupa barata, cortar o cabelo, etc). Ao fim de uma semana por cá eu já estava a dar dicas à Lena (que está cá há um ano), sobre bons sítios e eventos aonde ir e participar e estava a dar explicações sobre a história e os monumentos de Bruxelas aos meus colegas.
Eu não tenho uma mente enciclopédica, porque nunca decoro os detalhes todos, apenas as referências gerais. Para pormenores tenho que ir consultar as fontes novamente. Mas além dos muitos guias de Bruxelas que eu tenho, recolho tudo o que é jornal, revista e panfleto que é distribuído gratuitamente em Bruxelas e passo os olhos por tudo em busca de informações importantes. Penso que eles não têm paciência para fazer isso e daí apenas conhecerem uma ponta do grande icebergue que é Bruxelas.

Monday, October 09, 2006

Balanço

Passou um mês desde que aqui cheguei, mas parece-me que sempre cá estive. É uma sensação estranha. Como se toda a minha vida até aqui fosse na verdade uma vida anterior e não houvesse uma continuidade com esta vida presente. A viagem de avião foi literal e figurativamente uma ascensão ao céu e a passagem entre uma vida e a outra.
Desde o início que não me sinto num país estrangeiro. Sinto-me num outro tempo, num outro planeta, num mundo paralelo, numa outra existência?
Nos primeiros dias, penso que o meu cérebro teve algumas dificuldades de adaptação, pois todos os pontos de referência desapareceram de uma vez só. Por causa disso tive sonhos angustiantes de que continuava em Portugal e que tudo o que se passava de dia na Bélgica é que era um sonho do qual eu precisava acordar. Mas não foi nada de mais e já está ultrapassado.

Tenho escrito muito sobre as minhas actividades, mas ainda não falei muito sobre Bruxe1as e os bruxe1enses, porque tenho estado a fazer uma lista de observações das coisas boas, das coisas menos boas e das coisas estranhas ou simplesmente engraçadas que por cá encontrei. Ainda faltam referir imensas coisas, mas decidi apresentar a lista que já tenho.


As coisas boas

Sacos de plástico - Quem quiser sacos de plástico no supermercado, tem que os pagar. Em contrapartida, os supermercados vendem carrinhos e sacos de vários tamanhos, em pano ou tela, para incentivar as pessoas a transportarem as suas compras para casa de forma mais sustentável.

Mercados e feiras - Há mercados e feiras em todo o lado, todos os dias e todo o tipo de pessoas os frequentam, levando consigo os seus carrinhos e sacos de pano. Parece-me a mim que são muito mais concorridos que os supermercados e não são apenas os pobres e os velhos que os frequentam, mas toda a gente (ok, o rei e a rainha e os comissários europeus não contam.

Produtos ecológicos - Não é uma regra geral, mas aqui muitos dos produtos ecológicos são mais baratos que os convencionais - pelo menos o papel reciclado, desde o papel higiénico ao de cadernos e resmas, estavam mais baratos que os convencionais num supermercado a que eu fui.

Produtos biológicos - Os produtos biológicos estão mais ou menos ao mesmo preço que os produtos convencionais no supermercado. Alguns são mais caros, outros são ao mesmo preço e alguns são mais baratos, como o caso dumas ervilhas congeladas bio que eu comprei e que eram mais baratas que as convencionais. Também são fáceis de encontrar e os supermercados têm-nos em abundância e diversidade e não apenas um ou dois num canto, a preços exorbitantes, como acontece em Portugal.

Lojas de 2ª mão - Ainda só conheço 3, mas elas abundam em Bruxe1as. Uma vende roupas dos anos 50, 60 e 70 a preço razoáveis (10-20 euros). Outra vende principalmente móveis, mas também peças de decoração, livros e cds e tem uma secção de antiguidades, mas os preços não são tão modestos, embora ainda assim sejam razoáveis. Doutra já eu falei (aquela que parece a Pollux) e é a mais interessante. Só vende coisas doadas e por isso os preços são incrivelmente baixos - a média dos preços do que eu já trouxe de lá deve rondar 1 euro. Esta loja tem objectivos humanitários. Acho que as pessoas que lá trabalham são todas pessoas carenciadas e os lucros de todas as vendas servem para sustentar uma série de projectos em Bruxe1as para pessoas carenciadas. E parece que têm imenso sucesso, que as pessoas doam imensas coisas - acho que eles vão a casa das pessoas buscar móveis e outros volumes.

Os transportes públicos - A rede de transportes é excelente e como me disse o Marco, não há razão nenhuma para uma pessoa andar de carro em Bruxelas. Comprei um passe anual de metro+bus+tram (metro+autocarro+eléctrico) e em 5 minutos já tinha na minha mão um passe com a minha foto, para poder usar estes 3 transportes livremente durante todo o ano. Alguma vez isto era possível em Portugal?

Eficiência - Ouvi muitas coisas sobre Bruxe1as e a sua burocracia, mas até agora ainda não vi essa burocracia em acção, pelo menos não a um ponto que me fizesse desesperar como acontece tão regularmente em Portugal. As pessoas são muito cuidadosas e fazem tudo "certinho",a bem da transparência e de evitar dúvidas. Mas são também rápidas e eficientes na maioria dos casos. Eu diria que há alguma burocracia, dado que é provavelmente o país com a governação mais complicada do mundo, mas por isso mesmo acho que está de parabéns. Ainda há dias comentei com alguém que Portugal, que fala uma só língua e tem um só governo, é a república das bananas que nós conhecemos, imagino que nunca teria saído da idade da pedra se tivesse a multiplicidade de línguas, comunidades e orgãos governativos que a Bélgica tem. Um destes dias falo um bocado do sistema belga só para verem o caos absoluto que seria se os portugueses tivessem que o pôr a funcionar.

A multi-etnicidade e multi-culturalidade - É muito raro ver por aqui "verdadeiros belgas". Há imensos indianos, chineses, japoneses, africanos, árabes, sul-americanos, franceses, ingleses, alemães, portugueses e tantas outras nacionalidades e etnias, que tenho muitas vezes a sensação de estar numa espécie de ilha no centro do mundo ou numa estação espacial das nações unidas e não num país específico.


As coisas menos boas

Os multibancos - Não há multibancos nesta cidade! Quer dizer, já encontrei um ou dois num espaço de um mês, mas para quem vem da terra dos multibancos, isso corresponde a nada! Quem quer levantar dinheiro tem que ir às caixas do seu próprio banco, caso contrário disseram-me que cada transacção numa outra caixa custa 80 cts (informação por confirmar). O pior é que as sucursais de cada banco também não abundam. Do banco em que abri conta também ainda só vi duas sucursais, felizmente uma delas é na mesma rua que o meu escritório.

Internet - Ciber-cafés nem vê-los. Já me disseram que há lojas onde podemos consultar a internet, em quase cada esquina da cidade, por apenas 20 cts/hora. Pois, isso é muito bonito, mas porque será que eu já corri metade da cidade e ainda não vi nem uma!!! Será que se escondem de mim, será que preciso de óculos? Também me disseram que há Wi-Fi por todo o lado e que só preciso de um portátil para aceder à net em qualquer lado. Mais uma vez, curiosamente, a teoria não se aplica ao meu caso particular porque eu não apanho rede em casa. Contactei o fornecedor de internet e disseram-me que só conseguiria apanhar o sinal a partir dum 6º andar para cima. Serão doidos? Tentei internet móvel (via rede telemóvel) disseram-me que por questões técnicas não podem satisfazer o meu pedido (pedi mais explicações e ainda não me deram), pedi internet via fio de electricidade (é verdade, existe! e é muito inovador!), mas disseram-me que a minha rua ainda não é coberta por este serviço. Se eu estivesse a morar num bairro da lata nos subúrbios da cidade, eu até compreendia tudo isto, mas estou numa avenida duma zona "bem", a dois passos do centro da cidade, como é isto possível? Só me resta internet por cabo e ADSL, que eu andava a evitar, porque envolve instalação de fios. Já pedi à Belgacom que viesse instalar um fio telefónico, mas tenho que esperar quase 2 meses para me fazerem esse favor...

Telemóveis - Comprar um telemóvel foi fácil, o mais difícil é carregá-lo. Habituada a carregar o telemóvel no multibanco, lá fui em busca de uma caixa e passado uma semana sem saldo lá encontrei uma, apenas para saber que as únicas opções disponíveis na caixa eram mudar o pin ou levantar dinheiro. Lá procurei então uma loja da Mobistar (a minha rede) e descobri que há um sistema qualquer que me permite fazer os carregamentos via telemóvel, mas para o activar não aceitam o meu cartão visa e exigem que eu tenha uma conta e um cartão de um banco belga (algo de que já tratei mais ainda estou à espera).

Recolha do lixo - Aqui faz-se recolha porta-a-porta. As pessoas têm que comprar sacos brancos, azuis e amarelos para lixo indiferenciado, embalagens e papel, respectivamente e colocá-los na rua nos dias de recolha de cada um. O desafio está em descobrir em que dias é que é recolhido o quê. Tentei perceber através do que as pessoas faziam - se via sacos amarelos na rua, anotava na agenda "dia de sacos amarelos" e por aí fora - mas depois a coisa complicou-se, porque aparentemente muitas pessoas não respeitam o calendário e põem o lixo na rua quando lhes apetece. Perguntei ao meu vizinho de cima e ele pareceu-me mais perdido nessa questão que eu e só contribuiu para me baralhar mais. Primeiro disse que sacos amarelos eram na 2ª feira, para depois dizer que eram amarelos e azuis, para depois dizer que se calhar era antes à 3ª... Continuo sem saber muito bem, mas como toda a gente põe os sacos amarelos e/ou azuis, às 2ª e às 3ª, eu faço o mesmo. Já procurei a informação na internet e até mesmo em folhetos da comuna sobre a separação do lixo e nem aí indicam o misterioso calendário dos sacos amarelos e azuis. Lá terei que fazer unstelefonemas...

Os aldrabões - Já por duas vezes me tentaram aldrabar com os trocos. Uma vez foi numa feira da ladra - um tipo vendia um ferro de engomar por 2.5 euros, eu dei-lhe 4, ele devolveu-me 50 cts e ficou à espera que eu não reparasse na falta de 1 euro. Mas eu reclamei e ele fez-se de tontinho e pediu muitas desculpas. Pior ainda foi numa banca de comida rápida, onde pedi um "diavoletto vegetariano" que custa 2.80 euros e eu só tinha uma nota de 50. O homem deu-me troco para 10 euros! Olhei para ele com os olhos esbugalhados a pensar que nunca um snack me tinha custado tão caro. Ele percebeu que eu não estava distraída nem era parvinha e também se desfez em desculpas e lá me deu o dinheiro. É preciso ter cuidado com estes tipos. Quando percebem que eu não falo francês muito bem devem achar que com sorte também não faço contas muito bem.

A xenofobia escondida - Ainda não aconteceu nada que me fizesse sentir mal-recebida por aqui, pelo contrário, acho que as diversas comunidades que habitam Bruxe1as vivem harmoniosamente e usufruem ao máximo da troca inter-cultural que aqui se proporciona. Mas há zunzuns de que os belgas não gostam muito dos não-belgas. Em Bruxe1as isso não se sente mas eventualmente é mais notório noutras regiões do país. Aqui os belgas são eles mesmos uma minoria, pelo que mesmo que não gostem, têm que aceitar que Bruxe1as já não é a capital do país deles, mas sim uma nação à parte - uma nação de nações.
Mas mesmo que houvesse xenofobia aberta e às claras, eu seria sempre um alvo improvável. Apenas quando abro a boca eles se apercebem que eu não sou belga e quando isso acontece, na maioria dos casos julgam que eu sou alemã. Quando sou apresentada às pessoas e não lhes é dito que eu sou portuguesa, elas pensam sempre, sempre que eu sou belga. Mesmo que toda a gente esteja a falar inglês no local, comigo tentam sempre começar uma conversa em francês e é engraçadíssimo quando explico que tenho muito gosto em praticar o meu francês, mas que essa não é a minha língua materna. E depois, claro, vem a pergunta inevitável se eu sou alemã. LOL

Os "europeus" - Numa outra categoria de xenofobia, está o desagrado dos belgas para com os "europeus". O Marco aconselhou-me a guardar sempre o crachá do Parlamento Europeu quando sair do seu "espaço protegido" para a "cidade lá fora", porque os belgas não gostam muito dos "europeus". Fiquei boquiaberta quando ele me disse que uma vez ele se esqueceu de guardar o crachá e que só se apercebeu disso quando notou que os belgas o tratavam de maneira diferente, mais rude e grosseira. Eu pensei que também pode ter sido porque achavam que ele se estava a exibir "Eh, olhem para mim! Eu vou ao Parlamento" (lol) e que isso poderia desagradar-lhes por não gostarem de exibicionistas, mas eu sei que os belgas nunca gostaram muito que a União Europeia viesse aterrar na terra deles. Ainda por cima há umas histórias estranhas sobre a construção do Parlamento (ou será da Comissão? Agora não me lembro) ter causado a destruição duma zona com valor arquitectónico ou histórico belga e que isso lhes ficou atravessado - e com toda a razão, penso eu.


As coisas estranhas ou simplesmente engraçadas

Marca branca - Aqui a marca do próprio supermercado nem sempre é mais barata que as outras marcas, por vezes é bastante mais cara, vá-se lá saber porquê...

Madame Pipi - As senhoras que supervisionam as casas de banho públicas e recebem as nossas moedinhas, aqui recebem o carinhoso nome de Madame Pipi.

Plaquinhas com nome - Acho que não é geral, mas por aqui usa-se muito as plaquinhas com os nomes dos residentes, na campaínha e na caixa de correio, em vez da indicação do andar e do dtº ou esqº. Mandar fazer estas plaquinhas, segundo me disseram, além de custar quase 15 euros,também demora algum tempo, tal é o número de encomendas. Já tenho uma plaquinha com o meu nome na campainha, mas felizmente não tive que a pagar, porque o senhorio assumiu essa responsabilidade. Acho que é uma questão de negócio, porque com a quantidade de pessoas que chegam e partem de Bruxe1as todos os anos, há sempre clientes para as plaquinhas. Disseram-me que não, que esquisito é não pôr o nome na porta, pois assim como sabemos que a correspondência chega ao destino? Tentei explicar que tanto se pode perder se indicarmos "nº53 - 3º direito" como se indicarmos "nº53 - Maria Joaquina", porque os erros acontecem na mesma, mas a minha opinião não foi compreendida.

C0uve-de-Bruxe1as - Há por cá couves-de-Bruxe1as e finalmente pude comê-las frescas em vez de congeladas como sempre as conheci. Mas estranhamente, estas couvinhas não são o símbolo vegetal de Bruxe1as, mas sim as endívias. Há por cá uma verdadeira adoração por endívias e os bruxe1enses gabam-se de ter mil e uma receitas com este vegetal. No mercado as senhoras acotovelavam-se numa banca de endívias como se lá estivessem a oferecer dinheiro.

Cães portáteis - Os bruxe1enses adoram cães mas, penso que por razões de economia de espaço, só os têm em tamanho mini, entre 25-50 cms de comprimento. Já vi dezenas e dezenas de pessoas a passearem os seus cãezinhos, mas apenas 3 cães "grandes", dos quais apenas 1 era realmente grande (um pastor-alemão) e os outros 2 eram de tamanho médio (tipo dálmata). Todos os outros cães que vi poderiam ser confundidos com gatos e nalguns casos extremos, com ratos... Nalguns bairros mais bem-equipados, no meio dos jardinzinhos que se encontram ao longo duma avenida, separando as estradas de sentido inverso, encontram-se casas de banho para cães - zonas cercadas, com areia para os cãezinhos fazerem os seus dejectos. Ocorreu-me que em Portugal estes wc caninos poderiam chamar-se Cócãos :)

Carrinhos de compras - Já falei um pouco sobre a necessidade de se ter um carrinho para se ir às compras em Bruxelas, mas ainda não sabia aonde se podiam comprar esses carrinhos. Finalmente descobri-os, nas lojas de malas e sapatos, em vários tamanhos, formas e padrões. O sucesso destes carrinhos é tal que há para todos os gostos e carteiras, desde os mais baratos a 20 euros aos modelos de luxo a 150 euros!!! Infelizmente os que têm a melhor razão qualidade/preço andam em redor dos 50 euros, mas inventiva como sempre sou, já estou a engendrar maneira de construir o meu próprio carrinho por menos de 10 euros ;)

Trocar o carro por uma bicicleta - Está a decorrer em Bruxe1as uma campanha que eu julgava que nunca ninguém teria coragem para lançar a não ser os ecologistas mais radicais que tivessem fumado umas passas. Está a ser proposto aos bruxe1enses que entreguem a placa de matrícula do seu carro, por uma ano, a troco de um passe gratuito anual para os transportes públicos. Quem quiser ser mais ousado, pode entregar o carro todo para ser destruído e nesse caso oferecem além do passe, uma bicicleta topo de gama. Eu pergunto-me, quem no seu perfeito juízo vai destruir o seu automóvel para receber uma bicicleta em troca? Só quem tenha um carro que esteja tão velho e a cair de poder, que o fosse entregar na sucata de qualquer maneira ou alguém que por acaso atingiu a iluminação recentemente e que tenha perdido todo o apego ao dinheiro e bens materiais. Que nos incentivem a não usar o carro exige coragem, mas que nos incentivem a destruí-lo é preciso loucura! Mas eu apoio a campanha, mais não seja porque é revolucionária!

Friday, October 06, 2006

Noites em branco e novos amigos


A semana passada iniciou-se a temporada de Nocturnes, que consta da abertura de museus durante a noite a preços reduzidos. Na noite de arranque dos Nocturnes, ofereceram entrada gratuita em 5 museus na área da Grand Place. Eu tinha pensado chegar às 17h, hora de abertura e vê-los um a um, mas logo por azar este foi também o primeiro dia de mudança do escritório e tive que ficar até tarde a empacotar dossiers e a desmontar móveis, pelo que só consegui chegar à Grand Place por volta das 21h.
Tive que escolher um de entre os dois locais que para mim eram os mais interessantes: o Museu da Cidade (Hôtel de Ville) e a Câmara Municipal (que não é bem um museu, uma vez que é um local de trabalho, mas que é um dos edifícios mais impressionantes de Bruxe1as). A Câmara tinha uma fila bem maior, por isso escolhi o Museu da Cidade, apesar de estar convencida de que estava a fazer uma má escolha. No final não me arrependi, porque a Lena disse-me que foi ver a Câmara e que achou uma seca, porque tudo o que há para ver é a arquitectura interior do edifício. No Museu da Cidade, além de ter aprendido um pouco mais sobre a história da cidade, pude visitar a sala-de-vestir do Manneken Pis. Esta estatuetazinha do menino a fazer xixi é pequena e nada impressionante, mas consegue atrair muitas atenções. De tal forma, que cada vez que alguém vem à Bélgica em visita oficial traz uma fatiota representativa do seu país ou organização para oferecer ao menino. A sala-de-vestir do Manneken Pis é o local onde estão guardadas estas centenas de fatiotas. E é, literalmente, de mijar a rir! Desde um fatinho de Elvis Presley, até um fato completo de samurai, com armadura, capacete e espada japonesa em miniatura, não faltam roupinhas para vestir à estátuazita. Homens crescidos a brincar às bonecas, é o que isto me parece.
Quando terminei a visita, a noite estava fantástica, quente e animada, pelo que decidi dar mais umas voltinhas antes de ir para casa. Passei pelas Galerias Reais de St. Hubert que, segundo li, foi o primeiro centro comercial a ser construído.
Faz sentido que o conceito de centro comercial tenha nascido aqui. A chuva frequente pela qual Bruxe1as é famosa devia ser muito má para o negócio, porque tal como hoje, ninguém devia gostar de ver montras debaixo de chuva. Alguém teve então a brilhante ideia de pôr um telhado de vidro sob as ruas com lojas, et voilá, nasceu o centro comercial.
O ambiente nestas galerias é lindíssimo. As montras são verdadeiras obras de arte e as pessoas páram para tirar fotografias em frente a elas.
Apaixonei-me por uma loja de roupa em particular, de uma estilista com um nome estranho que não consegui fixar. Os preços devem ser exorbitantes, mas hei-de lá voltar para a ver com atenção. Fiquei completamente apaixonada, principalmente pelo vestido vermelho da montra, que eu gostaria de usar todos os dias :)

No sábado foi a Nuit Blache, uma iniciativa que decorreu em diferentes dias em várias grandes cidades da Europa. Basicamente Bruxelas esteve acordada toda a noite, com exposições, concertos, raves e coisas bastante mais exóticas a acontecer por todo o lado. Eu tencionava ter uma noite branca também, mas pela 1h30 da manhã lá estava eu a dormir, porque nem os meus companheiros de aventura (Stylianos e Sevelina) quiseram continuar a pé, nem o clima ajudou pois começou a chover a potes.
Mas ainda tive oportunidade de estar um tempo na Place de Ste Catherine, onde decorreu uma animada festa cubana-brasileira, com capoeira (um dos melhores grupos de capoeira que já vi), batucada, muita caipirinha e picanha (não que eu lhe tenha tocado, claro). Perto da praça encontrei as Créations Spontanées: um grande salão, uma dúzia de estilistas, uma pilha de roupa em 2ª mão até ao tecto, a oportunidade de pedirmos a um dos estilistas que fizesse algo só para nós e uma sessão fotográfica do resultado para mais tarde recordar. Lembrei-me logo que me faziam ali falta as minhas queridas amigas! Teriam adorado isto!!! O Srylianos e a Sevelina limitaram-se a esperar por mim numa esplanada cá fora.
Infelizmente não escolhi o estilista que mais me agradou, mas um dos menos concorridos, porque o tempo de espera era apenas de 1 hora em vez de 2... Peguei em 3 vestidos e disse à estilista "faça qualquer coisa a partir disto". Resultado: fundiu-me os 3 vestidos num só que infelizmente era horripilante, mas que chamou a atenção das centenas de pessoas que estavam naquele pavilhão. Fiz a sessão fotográfica, mas ainda não fui buscar as fotos ao fotógrafo. Seja como for, acho que fiquei com os olhos fechados em metade das fotos e nas que fiquei de olhos abertos, concerteza serão as outras pessoas a fechá-los quando olharem para elas. Ah, participar nesta brincadeira custou 2 euros e mesmo que o resultado final seja impróprio para usar na rua, valeu a pena pela diversão.

De segunda a quarta-feira estive alojada no Centre d'Hébèrgement Waterman, junto ao Canal, onde decorreu o I Seminário do EVS a que eu deveria comparecer como parte do voluntariado. Não foi muito útil em termos de aprendizagem, porque não me disseram lá nada que eu já não soubesse sobre Bruxelas ou sobre o Programa Juventude e o EVS, mas valeu muito a pena pelos amigos que lá encontrei. Especialmente a Eva! Foi amizade à primeira conversa e não nos largámos mais todo o seminário. Além de ser vegetariana-a-dar-para-o-vegan como eu, conhece bem Portugal, pois já lá trabalhou, está a fazer o voluntariado numa organização ligada à defesa das montanhas e do mundo rural, sediada na mesma rua que o meu novo escritório, entre mil e uma outras coincidências interessantes.
Para este fim-de-semana já convidei os meus novos amigos a acompanharem-me à abertura do Festival India que vai animar Bruxelas durante os próximos tempos, mas ainda não sei se alguém me acompanha pois convidei-os em cima da hora. Mas só ou acompanhada, lá estarei. Depois conto como foi :)

Ups, ia-me esquecendo doutra novidade. Ao regressar do seminário, encontrei um rato no meio do passeio, frente à porta do meu prédio. Julgando que ele iria fugir a sete pés aproximei-me devagarinho mas ele não fugiu como previsto. Toquei-lhe ligeiramente com o pé e ele começou a roer o meu sapato. Percebi imediatamente que era um animal domesticado, perdido ou abandonado, esfomeado e desorientado. Depois de praguejar um bocado enquanto dava voltas a pensar no que fazer, lá lhe atirei o casaco para cima e trouxe-o para casa. Dei-lhe pão duro e água e fiquei logo apaixonada - apesar do aspecto arrepiante ele não passa de um hamster em ponto grande. Mede cerca de 15-20 cms, não incluindo a cauda e é albino, branquinho de olhos vermelhos. Espalhei cartazes pelo bairro perguntando se alguém perdeu um rato, mas ainda ninguém o reclamou, ou porque não o quer de volta ou porque ele veio de mais longe. Por isso amanhã vou comprar-lhe uma gaiola, pensar num nome para lhe dar e num veterinário para o levar (convém certificar-me que ele não tem parasitas que possa passar para mim). Depois de hamsters, periquitos, tartarugas, cães e gatos faltava realmente experimentar o que é ter um rato. Depois disto, começo a imaginar que outro animal me irá um dia bater à porta.