Wednesday, December 03, 2008

Vá para fora cá dentro mas lá fora

Já era tempo de visitar também um pouco do que não conheço no meu próprio país, vai daí dei um pulinho aos Açores, à Ilha Terceira.

Sobre os habitantes e os seus estranhos costumes, ninguém melhor para falar do assunto do que a minha amiga Rita, que já faz parte da paisagem daquelas bandas.
Da minha parte só acrescento que:
- tive uma sensação estranha ao voar 2 horas sobre o oceano para aterrar novamente em Portugal. Decididamente tenho que viajar mais para as ilhas e territórios lusófonos...
- por alguma razão igualmente estranha o oceano pareceu-me muito maior visto de uma ilha do que do continente - como hei-de dizer... parecia-me que tinha mais água!!!?
- ao contrário do que pensava que aconteceria, não senti claustrofobia por estar num pedaço de terra ao qual se dá a volta em hora e meia de carro. Afinal, como diz a Rita, a ilha não tem 3 metros por 4, por isso há espaço para esticar as pernas.
- pela 1ª vez fui proibida (mas não impedida, "if you know what I mean") de tirar fotos aéreas quando nos aproximávamos da ilha. Perguntei à hospedeira se era por a paisagem estar protegida por direitos de autor, ao que ela respondeu que era para evitar a espionagem. Não nos esqueçamos que a Terceira é uma base americana rodeada de alguns portugueses, não uma ilha portuguesa com uma base americana ;)
E pronto, que posso dizer mais... Gostei daquilo. Achei pacato, apesar da Rita discordar de mim. As pessoas param os carros abruptamente no meio da via rápida para observarem as vacas a pastar. Fiquei com vontade de ficar por lá e cultivar qualquer coisa. Ou talvez juntar-me às vacas e pastar. Afinal verdura é coisa que não falta por lá.

Tuesday, November 18, 2008

Bruxelloise au coeur

Um ano depois, regressei a Bruxelas. Uma emoção surda instalou-se assim que vi ao longe o perfil da cidade. Enquanto lá estive tentei analisar os porquês daquilo que sinto e excluí coisas concretas como casos mal-resolvidos dentro dos seus limites. Concluí que, para além do sentimento que terei para sempre associado a esta cidade, por ter sido o local do meu renascimento, a cidade tem um je-ne-sais-quoi que se escapa por todos os seus poros e que me invade.


Quando estava pela madrugada na varanda do Palais de Justice sobre os Maroles, a ver a cidade em silêncio e coberta por uma névoa espessa, convenci-me de que estava suspensa numa bolha fora da qual nada mais existia. Naquele momento só a cidade era real e nada mais existia para lá do nevoeiro. Quando estou nesta cidade, não existe nada para lá dela. Apodera-se de mim uma melancolia que nem em Lisboa sinto.
Noutra ocasião sentei-me no parapeito da sala redonda das estufas do Botanique e ali fiquei a ver anoitecer. O jardim oitocentista lá em baixo rodeado pelos prédios altos envidraçados das avenidas que o rodeiam, pareceu-me partilhar comigo os meus sentimentos. Sentimentos de nostalgia pela inevitabilidade do passar do tempo, da mudança, do adeus, dum romantismo sempre ansiado mas nunca vivido.
No metro do Botanique há um painel de azulejos de homenagem a Fernando Pessoa. Um esboço dele meio pensativo, debruçado sobre um rapaz que lhe engraxa os sapatos. Sempre achei muito adequado encontrá-lo ali quando saio do Botanique. Porque ali a poesia torna-se real.

Les feuilles jaunes des arbres tombent l'une après l'autre, comme je tombe d'amour et ensuite je tombe du haut de mes illusions.

Soube que nas Caves de Cureghem estava a exposição Körperwelten e não resisti a ir dar uma espreitadela. Tinha ouvido rumores de que o mentor da exposição era um tipo um bocado manhoso - tem fama de nazi e de usar corpos de chineses executados para as suas experiências de plastinação de corpos - mas apesar disso achei que devia ir ver com os meus próprios olhos tão polémica exibição.
Ao longo da exposição é repetido incessantemente o quanto esta revela a beleza escondida por baixo da nossa pele. É discutível. Há quem diga que "beauty is skin deep". De facto não somos tão atraentes sem pele e com os orgãos à mostra, mas também não senti qualquer tipo de repulsa. Somos como somos, tão bonitos ou tão repulsivos, por dentro ou por fora, consoante mudemos de perspectiva e nos desprendamos de preconceitos.
A maior parte das pessoas que vê esta exposição de certeza que fica uma semana sem vontade de comer carne, mas no meu caso, ao olhar para uma coluna vertebral com os músculos e tendões agarrados, de repente senti desejo de costeletas. Tudo é relativo.

Estive em casa da Sevelina, num dos inúmeros e memoráveis jantares que se realizam na rua Hôtel de la Monnaie e ela disse que não queria ver tal coisa, que se sentiria mal. Eu disse-lhe que é importante confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade e aceitá-la com naturalidade, mas um coro de vozes se levantou - ninguém em meu redor parecia querer sequer pensar nisso. É mesmo verdade que estamos cada vez mais desligados da morte e convencidos de que vamos viver para sempre, frescos e radiantes. Apercebi-me de que nunca vi nenhuma pessoa morrer. Já morreram nos meus braços animais não-humanos, mas nunca vi sequer um cadáver humano - excepto agora os plastinados. Fazemos de tudo para afastar e esconder a morte que ela já nem sequer faz parte da equação da vida. É algo de que não queremos falar até ao dia em que nos acontecer. E porquê? Porque as pessoas acomodaram-se à ideia de que a matéria, tal como os seus sentidos iludidos a apercebem, é tudo o que existe e sentem-se agoniadas perante a perspectiva do vazio da não-existência. Esse é o triste legado da nossa civilização materialista. Felizmente eu não herdei esse legado e tenho uma perspectiva diferente, logo a morte não me angustia.
Muitas vezes penso que a única coisa que me faria agarrar com unhas e dentes à vida se me visse às portas da morte, seria o querer evitar a todo o custo o sofrimento daqueles que deixaria para trás. Porque sei que eles sentiriam imensa agonia e é só isso que eu não suporto.

Também fui ver a exposição "Le sourire de Bouddha" no BOZAR. Como sempre no BOZAR, uma exposição lindíssima. Uma viagem pela história do budismo na Coreia através de estátuas e pinturas impressionantes.
Durante a minha estadia em Bruxelas tive ainda possibilidade de jantar no trendy Belgo-belge, almoçar no acolhedor Imagin'air, beber kriek num pub anónimo, tomar vodka com ananás no Calabriego e viver um serão multicultural com um artesão argentino, um dançarino do Burkina Faso, uma escriturária alemã e uma empregada de bar espanhola. L'habituel à Bruxelles

Wednesday, November 12, 2008

Vi-me grega

No momento em que escrevo isto já estou sentadinha em Bruxelas, mas há poucas horas atrás ainda deambulava por Atenas. Não fui com muitas expectativas, pois já me tinha constado que o tamanho das minhas expectativas corresponderia ao tamanho das minhas desilusões, daí que a minha desilusão é moderada.
Gostei de visitar a Acrópole, a Ágora, o Museu Arqueológico de Atenas e a parte velha da cidade nas encostas da Acrópole, mas a cidade em si é feia, suja e os gregos não são propriamente parecidos àqueles das estátuas.
Na minha sincera opinião, acho que o Sócrates (o filósofo e não o engenheiro) ficaria muito desiludido se visse a Atenas de hoje. Pensaria "como é possível que esta gente se considere civilizada - pior ainda, se considere mais civilizada que no meu tempo!?" É deprimente ver que de uma civilização grandiosa, monumental, filosófica e democrática, evoluímos para uma (in)civilização comercial, engarrafada, adormecida e embrutecida. Atenas é bonita vista da Acrópole, porque não se vêem os detalhes, mas lá em baixo é uma selva.


O ambiente é caótico e temi pela minha saudínha cada vez que tive que atravessar uma passadeira. Mesmo nas avenidas movimentadas do centro da cidade, ou não existem semáforos para os peões ou mesmo quando existem, estarem lá é o mesmo que não estarem. Certa vez foi necessário que um grego mais expedito e conhecedor do sistema se metesse à frente dos carros com os braços abertos, caso contrário eu poderia ter ficado à espera todo o dia que os condutores me fizessem o favorzinho de parar ao sinal vermelho.
Ruas de sentido único? “Eh pá, mas o hotel fica já ali a 10 metros, não vou dar meia volta à cidade para entrar no sentido certo.”
Há engarrafamentos às 10 da manhã, às 15h da tarde, à uma da manhã... Disseram-me os amigos gregos que as pessoas saem a essa hora para irem tomar café (!)
Tive problemas com a comida logo desde o 1º dia. Caí na asneira de comer uma salada e muito queijo feta e andei com vómitos, diarreia e dores de estômago durante 4 dias. Daí para a frente só consegui beber água e comer alguma fruta só para não cair para o lado.
Tudo começou porque os meus anfitriões gregos andaram a passear-me pela feira Bio de Atenas por volta da hora de almoço. Eu já estava com fome e por isso aceitei que me levassem de banca em banca a provar as especialidades gregas. Queijo feta, queijo feta, mais queijo feta, azeite, mais queijo feta. Às tantas perguntei “Só têm queijo feta? Que outras especialidades têm?”. Feta com pimenta, outro queijo que não é feta mas que se fosse ia dar no mesmo e mais azeite e mais feta. "OK, ok, chega de feta, vamos comer qualquer coisa diferente!"
À uma e meia ainda andavam a mostrar-me as vistas e quando perguntei se íamos a algum sítio almoçar, olharam para mim espantados: ”Ah, mas queres comer agora?” Ya...?
Lá me levaram ao restaurante do centro de congressos – “Desculpe, mas só abrimos às 14h, tudo o que lhe podemos arranjar agora é uma salada”. “Às 14h??? Que restaurante é que só abre às 14h??? OK, venha de lá a salada, que eu recuso-me a conferenciar de barriga vazia.” Talvez o devesse ter feito, porque o mais provável é que a salada estivesse contaminada com microrganismos gregos para os quais eu não estava vacinada.
Os queridos amigos gregos diziam-me que as dores de estômago eram nervos, saudades de casa... Mas quem queriam eles enganar? Já lá vai o tempo em que isso me acontecia, agora estes sintomas só poderiam indiciar intoxicação alimentar. Finalmente lá se ofereceram para me levar ao hospital se eu quisesse, mas senti que isso seria ainda mais perigoso e optei antes por passar umas 12 horas de cama no hotel e beber muitos líquidos. Demorei uns 5 dias a recuperar totalmente, mas a verdade é que ao fim dessas 12 horas já estava suficientemente bem para sair e ver as vistas.
E será que os gregos primam pela simpatia e honestidade? Tive que mudar de hotel e pedi ao recepcionista que me chamasse um táxi pois eu estava fraca e adoentada e não conseguia meter-me a caminho do metro cheia de malas. Da central disseram que não se davam ao trabalho de me ir buscar para me levar uma distância tão curta. Disseram-me para ir para a rua e esperar que passasse um táxi. OK, eles até passam frequentemente, mas bolas, não há um bocadinho de compaixão por alguém que se sente em baixo? Perguntei se viriam se eu pagasse o dobro, o recepcionista encolheu os ombros e nem sequer lhes perguntou.
Na minha partida de Atenas acabei por ir de táxi até ao aeroporto, porque só a ideia de subir e descer metro, mudar de linha, etc, já me deixava de rastos. Quando cheguei ao destino o condutor pediu-me 27 EUR mas o taxímetro marcava 17 EUR. Ele balbuciou que não sabia meter no taxímetro as "outras coisas, como a taxa de bagagem, impostos...". Ya, claro, a "taxa de meter ao bolso"... Mas que podia eu fazer: era o táxi dele, a terra dele, as regras dele. Há que ter compaixão pelos seres humanos mesmo quando eles não têm por nós.
Ei, mas nem tudo foi mau! Pelo meio diverti-me. Assisti ao fim da famosa maratona no Stadium de Atenas, fui até ao porto de Pireu ver o pôr-do-sol, aprendi uns passinhos das danças tradicionais gregas, recebi um convite para voltar no Verão e visitar as ilhas gregas, um convite para ir a Chipre...
Para terminar falta-me referir os cães de Atenas. Devem ser as vacas sagradas lá do sítio, pois há um bem gordinho a dormir em cada esquina, saída de metro, porta de loja, entrada de monumentos... Por vezes é preciso cuidado para não se tropeçar num quando se vai mais distraído a ler um mapa.

Thursday, October 02, 2008

I'm going deeper underground

Tenho estado ocupada. Entre a natação, curso de alemão e agora dança oriental, lá vou trabalhando e tentando estar a par do que acontece no mundo. Uma vez que dificilmente consigo fazer tudo o que quero - desenhar, escrever, meditar mais, ler mais, desenvolver projectos megalómanos para salvar o ser humano de si próprio - tomei a decisão de cortar nas coisas que além de consumirem o meu tempo precioso, contribuem para a minha alienação do "mundo real", ao mesmo tempo que me expõem demasiado a ele.
Falo da minha participação na web. Facebooks, hi5s, last.fms, iReads, iGoogles, Yahoos, Flixters,... chega! Vou manter apenas o útil e indispensável à comunicação com amigos distantes e o resto vai às urtigas. Estou farta de voluntariamente esparramar informação pessoal na internet.
Há dias um homem comentava num fórum que o Google sabe mais sobre ele do que a sua própria mulher alguma vez saberá. E eu senti o mesmo: não tenho nenhum amigo ou familiar que me conheça tão bem como a internet me conhece. A internet sabe a história da minha vida, que filmes vejo, que música ouço, que personalidade tenho, em que causas me envolvo, as minhas opiniões sobre tudo e sobre nada... Quase tenho inveja das pessoas sobre as quais o Google encontra "0 resultados". É como se não existissem, deveriam sentir-se tão livres!
Até aqui tive algum gozo em experimentar as redes sociais e as milhentas ferramentas online que hoje existem para o nosso entretenimento, mas não só começo a sentir que perco demasiado tempo com isto, como atingi o meu limite de aceitação da exposição pública. Além dos malefícios óbvios, a exposição também tem o inconveniente de alimentar o meu ego, algo no qual não quero de forma alguma investir o meu tempo.
Um amigo entendido nas artes da internet descobriu que a maior fatia de tráfego que vai parar ao site dele é reencaminhado a partir dum link num dos meu blogs e após mais alguma pesquisa sobre as origens dessas pessoas concluiu que muitas vão ter aos meus blogs googlando pelo meu nome. Diz ele com um sorriso sarcástico que isso não é muito comum e que tudo indica que eu sou famosa.
Até agora foi útil estar disponível para ser encontrada e fiz uns quantos amigos novos por causa dos blogs e redes sociais, mas acho que as desvantagens superam as vantagens. É giro ouvir constantemente "Ah, tu é que és a Irina!" quando conheço alguém que já "ouviu falar de mim" na net, mas eu não quero ser "célebre", quero apenas paz de espírito e o amor dos amigos que me foram conhecendo aos poucos, em carne e osso e olhos nos olhos.

Thursday, August 28, 2008

Fotonovela felina versão 3.0



Depois de continuados pedidos de pessoas que se queixaram da rapidez das imagens, aqui fica a versão 3.0 do filme, com tempo de sobra para lerem as legendas e aborrecerem-se à espera da próxima imagem, ou assim espero, senão lá terei que tratar da versão 4.0 ...

Wednesday, August 27, 2008

Procrastinação estruturada

Hoje vou revelar um segredo àqueles que me vêem como a mulher dos sete ofícios, que conhece tudo e todos, que está metida em tudo e mais alguma coisa, que é um sucesso profissional, etc e tal. Wrong! O que eu sou verdadeiramente é uma procrastinadora estruturada.
Descobri este belo conceito e imediatamente me reconheci nele.


Meto-me em tudo e conheço tudo, porque passo horas a inventar actividades paralelas e a ler tudo o que é livros, revistas, blogs, etc, para fugir de forma airosa a qualquer outra coisa verdadeiramente importante que tenha para fazer.
Como por exemplo agora, que tenho que responder a uma entrevista que me foi requisitada, mas como não estou nada inspirada e o prazo apertado me está a pôr nervosa, comecei antes a pensar nisto de fugir ao trabalho e acabei a escrever no blog sobre o assunto.
O que acho fascinante neste conceito de procrastinador estruturado é a afirmação de que é possível fugir ao trabalho e ainda assim construir-se uma imagem de sucesso. Eu diria que sou uma prova viva disso. Basta saber escolher bem as actividades que se fazem para fugir ao trabalho, de modo a parecerem elas próprias um trabalho importante. Não há nada como preguiçar de forma inteligente e construir uma carreira a partir disso!
Mas o melhor mesmo é deixar de procrastinar. Aqui ficam umas dicas para quem quer combater esse mau hábito.

Monday, August 25, 2008

Entre um pézinho de dança e uma remadela

As minhas férias foram curtas mas enriquecedoras. Depois de tanta indecisão quanto aos festivais (vou? não vou?), lá acabei por - numa decisão de última hora - ir ao Festival Andanças com a Rita.
Confesso que o que pesou mais na minha decisão foi o facto de pelo menos para o Andanças eu ter companhia e a certeza de lá encontrar mais umas quantas caras conhecidas, enquanto que se tivesse ido ao Sudoeste sozinha ia acabar por ser invadida pela melancolia entre um concerto e outro, desperdiçando o gozo sentido pelo meio.
O Andanças é mesmo fixe. O ambiente é electrizante, as pessoas irradiam alegria, mesmo o mais tímido dá por si a suar em bica ao som de ritmos tribais africanos ou a dançar músicas belgas com um perfeito estranho que lhe surgiu pela frente, para depois dar por si numa roda a fazer dança do ventre.
Desconfio que vou passar a ser frequentadora habitual destas "andanças".



Logo de seguida passei uns diazinhos com o Pedro em Belver/Gavião, perto de Abrantes, e em Coutada, perto da Covilhã. Quanto à Coutada, nada a assinalar - terra de emigrantes, chalés kitsch em cada colina, língua oficial: frantuguês, paisagem totalmente degradada à base de plantações de eucalipto e pinheiro alternadas por áreas queimadas e desertificadas... Nem me dei ao trabalho de tirar fotos. Já a zona de Belver e Gavião vale bem a pena uma visitinha. Até canoagem fizémos.


Tuesday, July 22, 2008

Pastel Cultural de Belém

Para aí há duas semanas fui com a minha mãe ao CCB para o aniversário do Museu Colecção Berardo. Ainda não tinha lá ido e como anunciavam entrada gratuita e festa toda a noite achei que devia aproveitar. Mas afinal era golpe publicitário porque só me deixaram ver a primeira e a última sala do museu - trial-version com limitações...
Mesmo assim foi instrutivo porque, do pouco que vi, pude aperceber-me que, ao contrário das minhas expectativas - de que iria achar tudo demasiado "artístico" (meaning: sem pés nem cabeça, nem ponta por onde se lhe pegasse) - até apreciei grande parte das obras. Mesmo o bizarro espectáculo silencioso de dança moderna em câmara lenta que se repetia ad infinitnum numa das salas, me pareceu estranhamente hipnotizante.
Penso que tenho sido muito influenciada pelos quantos amigos artistas que fui arranjando neste último ano - estava a precisar duns e foram-me providenciados ;)
Graças a eles, começo a apreciar mais a arte, mesmo aquela que me parecia totalmente absurda e/ou ridícula. Mas atenção, ainda tenho os meus limites - guinchos de violino com ruídos electrónicos dum laptop (memória duma tarde de Verão no Bacalhoeiro) sai um bocado fora do meu conceito de música e nem todos os riscos pretos numa tela vazia conquistam o meu respeito.
Voltando ao CCB, o ambiente estava quente, havia boa música no ar, mas eu estava com a mãezinha e por isso não fiquei a curtir a night. Tirei umas quantas fotos (espero eu) artísticas e fui comer uns pastéis de Belém por volta da meia-noite. Não sou fã de Pastéis de Belém, mas estes souberam-me especialmente bem.


Thursday, June 12, 2008

O fim do mundo em cuecas

Anda tudo doido por causa dos combustíveis e como hoje de manhã experimentei em 1ª mão o ambiente de nervos que se vive nas bombas de gasolina, não me escapo a ir na onda de escrever umas quantas palavras sobre o assunto, como toda a gente...
É doloroso ver que as pessoas estão tão iludidas quanto ao mundo em que vivem que assim que ele é um bocadinho abalado, sentem logo que é toda a realidade que se desmorona.
Eu, pessoalmente, já espero um colapso da nossa civilização desde há muitos e bons anos e fiz um esforço para me preparar para ele, pelo menos psicologicamente. Perante a hipótese de passar alguma fome, ter energia racionada ou não poder andar de carro, sinto-me bastante serena. (Só me perturba não poder andar de avião - efeitos perversos de se subir na vida. lolol)
Mas preocupa-me o grau de ignorância das pessoas, que reagem desproporcionadamente às crises normais da existência num mundo impermanente. Uma reacção exagerada por parte das pessoas pode despoletar o colapso do mundo tal como o conhecemos, muito antes de haver razões incontornáveis para isso. Se juntarmos o sangue que ferve ao aquecimento global, este pode muito bem vir a ser o tão anunciado fim-do-mundo em cuecas.
Por exemplo, esta paralisação dos camionistas... OK, os combustíveis estão caros e muitas empresas vão à falência com isso e as que sobrevivem deixam de ter os lucros que tiveram até aqui, mas o mundo continua, funcionando de modo mais modesto e ajustado aos recursos que temos. Mas o apego das pessoas ao mundo que conhecem é de tal ordem que as leva a exigir que o governo faça desaparecer por magia uma crise profunda mundial que só se resolve com uma mudança de paradigma de desenvolvimento da humanidade. C'mon!
Se a paralisação continuar, em breve as pessoas não terão combustível para se deslocar de carro para o trabalho, os transportes públicos não vão dar conta do recado, muita gente não vai poder ir trabalhar, a comida não vai chegar aos supermercados - ficam todos em casa agarrados ao estômago e a ver televisão ou, num pior cenário, vão para a rua e começam a matar-se uns aos outros por um litro de gasolina ou um papo-seco.
Por acaso acho que não se chegará a isso. O colapso civilizacional ainda não é desta.
O governo vai chegar a um acordo qualquer com os camionistas, eles vão voltar à estrada, as pessoas vão continuar a ter disponíveis os bens de consumo que tanto prezam (embora dos preços galopantes não se livrem) e o mundo vai continuar a girar.
Estas crises que estamos a passar são apenas avisos à navegação - early warnings, wake up calls, eye-openers - daquilo que nos espera se não arrepiarmos caminho.
Compreendo o sofrimento e desespero das pessoas, que não têm capacidade para mudar de vida dum dia para o outro, mas todos tivémos hipóteses de escutar os avisos, de mudar aos poucos, de contribuir com pequenos esforços pessoais para se evitar estas crises maiores. Todos temos culpa e merecemos o castigo. Se uns são subsidiados e outros não e há aí injustiça, a solução é não subsidiar ninguém! Welcome to the real world!


P.S.: Quanto às minhas deslocações de carro para Lisboa, encontrei uma solução! Vou de boleia dum colega que vem das mesmas bandas. Viva o car-sharing!

Tuesday, June 03, 2008

Luzes da cidade

Estou a frequentar um curso de Agricultura Biológica da AGROBIO, que já andava há anos para fazer. Até agora não aprendi muito - ainda andam a explicar a fotossíntese, as características dos solos, enfim, "basic stuff" - mas eu insisti em fazer este curso porque sinto necessidade de sistematizar os conhecimentos livrescos e dispersos que tenho, num todo coerente.
Vou e venho no carro da minha mãe todos os dias, o que me pesa na consciência, mas considerando que saio do curso lá pelas 22h00-22h30, nem pensem que vou sozinha apanhar comboio a Alcântara-Terra a essas horas da noite para reduzir a minha pegada ecológica. Espero que os conhecimentos adquiridos me permitam um dia mais tarde cultivar hectares e hectares biológicos e compensar estas emissões de CO2 ;)
Estou a falar nisto porque ultimamente penso muito no impacto que passei a ter com as minhas viagens regulares de avião. Já ouvi umas bocas duns amigos puristas que atravessam o mundo de comboio e autocarro se for caso disso, mas outros há que argumentam que o meu trabalho em prol de um mundo melhor é suficientemente compensador das emissões de CO2 que emito para a atmosfera. É um argumento discutível. Eu diria que é mais na base do potencial do meu trabalho em contribuir para um mundo melhor que os impactos poderão vir a ser compensados, mas se falarmos em termos imediatos, então de facto não estou a compensá-los muito.
Mas quando os meus amigos anti-avião me apertam os calos, eu digo que antes de se pedir aos ecologistas que deixem de viajar de avião para defenderem o ambiente global, devem pedir isso a quem viaja de avião de Nova Iorque à China apenas para apertar a mão a alguém e fechar um qualquer negócio poluidor. Não estou a sacudir a água do capote dizendo que outros se esforcem em vez de mim, apenas estou a dizer que se o esforço que me pedem para fazer me impede de fazer o meu trabalho em prol dum melhor ambiente, então nesse ponto deveriam passar a pedir esforço semelhante a alguém que possa fazê-lo sem prejuízo para o mundo e chatear-me um pouco menos com o assunto. Busco alternativas, mas para mim não é alternativa gastar 500 EUR e vários dias em vários comboios, numa viagem de trabalho, quando de avião gastaria 200 EUR e 4-5 horas para chegar ao mesmo destino. O que achas, Ritinha?



Quando venho de carro à noitinha - o brilho das luzes da cidade, o reflexo dos vidros e espelhos, a beleza crua dos prédios iluminados contra o céu escuro - ao som de swing e blues da Marginal ;), não consigo evitar amar a beleza deste mundo artificial, denso, complexo e musical que criámos. Uma das imagens mais belas que povoam a minha memória é a das luzes da cidade de Lisboa vistas de avião. Parece algo tirado dum livro de ficção científica, um monumento às capacidades sobre-humanas do ser humano. É pena que tenhamos enveredado por um caminho em que temos tudo isto às custas de um anunciado fim-do-mundo tal como o conhecemos. Podíamos ter tudo isto de forma sustentável. A única razão porque não o temos é o facto da ignorância de alguns prevalecer sobre o engenho de muitos. Oxalá as luzes da cidade iluminem as mentes obscurecidas deste mundo e as coisas mudem. Até lá faço o que posso, mas não me peçam para ser perfeita.

Friday, May 23, 2008

Diversidade planetária

Foi para mim um momento especial estar em Bonn, no Festival Planet Diversity e ouvir a Vandana Shiva em palco falar de um dia, há um ano atrás, em que um grupo de pessoas ambicionaram realizar este evento sentadas na relva do convento Chant d'Oiseau em Bruxelas.
Há um ano atrás eu estava sentada nessa mesma relva, observando esse mesmo grupo, pensando no privilégio que era estar entre aquelas pessoas e desejando dali a um ano estar a participar nesse evento também.
Nunca me ocorreu gastar do meu dinheiro para isso. Teriam que ser as circunstâncias da vida a conspirar para que eu fosse lá como parte do meu trabalho. Et voilá! If you believe, you can achieve!
Como quando noite dentro numa esplanada em Bonn com colegas, eu disse que tinha fome, mas nada do que me sugeriam comprar ali em redor era aquilo que eu queria. "O que eu quero mesmo é uma maçã!" e alguém mete a mão à mala e diz "Olha, eu por acaso tenho aqui uma maçã. Toma."
A vida é assim mágica, dá-nos tudo aquilo que desejamos e precisamos, desde que não tenhamos sombras de dúvida no nosso coração.
A maior parte do tempo desta viagem estive ocupada com preparativos do Congresso e Festival Planet Diversity em Bonn e com uma reunião da UNECE em Köln. Aconteceu tanta coisa! Impossível resumir.
Mas como sempre, reservei algum tempo para turismo, pois queria conhecer melhor estas duas cidades, que afinal são mais bonitas do que me pareceram da outra vez.
Visitei os Jardins Botânicos de Bonn e Köln (o de Bonn tem exemplares do famoso Amorphophalus titanum!!!! Biólogos, sabem do que estou a falar! O raio do coiso é mesmo grande!).
Em Bonn visitei a casa onde nasceu e viveu alguns aninhos o menino Beethoven, comprei uma linda estatueta de Buda numa feira da ladra em Rheinauer Freizeitpark, apaixonei-me pelos quadros de James Rizzi que vi no museu de arte.
Em Köln vi 4 coelhos a saltitar num pequeno terreno entalado entre 3 vias rápidas e 2 linhas de comboio e junto ao Reno, ovelhas pastando bucolicamente ao lado da ponte do tram e das pessoas que patinavam, corriam e andavam de bicicleta no parque ali ao lado. Fui apanhada numa festa popular na Frankfurter strasse onde ficava o hotel e procurei infrutiferamente por todo o lado sandálias Birkenstocks (a pedido de alguém obcecado pelas ditas cujas...) para as encontrar numa loja que tinha fechado 2 minutos antes, na minha última noite na cidade.
Um casal alemão meteu-se comigo por eu estar vestida com as cores da Alemanha. Ri-me, porque não tinha reparado nisso. Parecia a bandeira alemã com pernas. Disse-lhes que estava a prestar homenagem ao seu maravilhoso país, mas a verdade é que não teria notado se eles não me tivessem dito.
Cheguei há dois dias, mas ainda estou cansada. Preciso de processar centenas de fotografias. Ambiciono o dia em que possa fazer download das minhas memórias directamente para o computador.

Thursday, May 01, 2008

Gato escritor

Solução para quem tem bloqueio de escritor: deixem o gato no escritório e em pouco tempo irão encontrá-lo sentado em cima do teclado do computador e 106 páginas cheias de letras aleatoriamente dispostas no vosso ecrã. Se o vosso gato ainda por cima for activista dos direitos dos animais, arriscam-se a encontrar no final do texto a frase "we need to bring more attention to the animal issues." Não é um mito urbano, aconteceu comigo.
(Claro que a frase já estava escrita antes do gato dar o seu contributo, ele apenas a retirou do contexto e lhe deu projecção, mas isso tira a piada toda à história.)

Wednesday, April 30, 2008

Eu-ropeia

Como diz a Fernanda, ser europeu pode ser muito bem resumido na minha experiência de ter provado verdadeiro mozzarella pela primeira vez em Bruxelas através duma amiga búlgara. Ser europeu é excitante, é fashion e tem "montes" de estilo ;)
Mas eu interrogo-me por quanto tempo se conseguirá ser europeu assim.
Por agora encontram-se muitos italo-gregos casados com alemãs-belgas, cujos amigos mais chegados vivem todos no mínimo a 2h de avião de distância e cujos filhos nascidos na França falam pelo menos quatro línguas e não sabem bem que nacionalidade preencher nos formulários.
Esta diversidade tenderá a desvanecer-se com o desvanecimento das fronteiras e o alargamento dos nossos horizontes. Ser europeu terá tendência a tornar-se um bocado amorfo - uma só eurolíngua, uma só eurogastronomia, uma só eurocultura.
Deixaremos de poder gozar com os franceses dizendo que são uns enfants terribles, com os italianos que são uns engatatões, com os espanhóis que são uns egocêntricos e com os alemães que são uma experiência de condicionamento mal acabada. Seremos todos europeus e teremos todos esses defeitos.
Eu sinto-me felizarda por estar a viver o momento em que a osmose começou e o equilíbrio ainda não foi atingido. Mas quando o "equilíbrio" for atingido e nos tornarmos os Estados Unidos da Europa, muito terá sido perdido. Mas a vida é impermanência, não podemos esperar que as coisas se mantenham sempre no mesmo estado. Há é que aproveitar o melhor possível cada estado enquanto duram.

Tuesday, April 22, 2008

A história das coisas

Celebrem o dia da Terra libertando-se da tralha que consome as vossas vidas. Dêem o que não precisam, reutilizem o que pode ser reutilizado, reciclem o que não tiver mais uso, não vivam para comprar, não desejem possuir, vivam vidas simples e preenchidas com "valores" em vez de "bens".


Thursday, April 10, 2008

Arrivederci Roma

A semana passada estive em Roma. Passei a maior parte do tempo em reunião, enfiada numa sala que nem janelas tinha, mas assim que tive um tempinho livre, pernas para que vos quero!
Passeei com uns novos amigos franceses, jantei em casa dum novo amigo italiano, conheci o lado urbano e caseiro de Roma, mas também vi finalmente o Coliseu por dentro, o museu do Vaticano, a Capela Sistina e a Basílica de São Pedro.
Diz-se que não se pode ir a Roma e não se ver o Papa. Eu dispenso ver o Papa, não é propriamente um deleite para os olhos, mas achava que não se podia ir a Roma e não se ver o Vaticano e a Basílica. Não é que tenha grande respeito por aquilo que representam, muito pelo contrário, mas apesar disso (ou talvez mesmo por isso) não podia deixar de ir ver aquilo por dentro.
Paguei a módica quantia de 15 euros para poder ver o museu e a Capela Sistina e mais 5 euros para poder subir à cúpula da Basílica.
Governam-se bem estes senhores! O que aliás é bem notório quando se entra lá dentro e nos deparamos com aquela obscenidade opulenta, aquela pornografia ostentatória, enfim, aquele exagero palaciano cujas únicas palavras capazes de o descrever são as que usaríamos para descrever uma náusea causada por saturação dos sentidos.
A subida à Cúpula custava 7 euros para quem quisesse subir de elevador, mas eu fui estóica (ou terei sido forreta?) e decidi subir a pé. Já subi muitas torres, algumas bem mais altas, como a da Catedral de Köln, mas por alguma razão esta foi a que me pareceu mais interminável.
Eu já estava a alucinar, ali sozinha (todos os outros milhares de visitantes parecem preferir pagar mais 2 euros), sempre a subir, à roda, à roda, à roda... Às tantas já não sabia quem era nem onde estava, apenas que tinha de continuar a andar à roda, à roda... A vista lá de cima compensa o esforço, mas acho que acabei por apreciar mais o ar fresco do que propriamente a vista, uma vez que esta também tirava o fôlego.
Ao contrário dos museus habituais, no museu do Vaticano são as paredes e os tectos as verdadeiras obras de arte enquanto que as esculturas e quadros não passam de acessórios secundários. Os turistas atropelam-se todos para a Capela Sistina que só surge no fim do percurso, o que deixa bastante espaço para vermos o museu nas calmas. É vê-los passar aos magotes, atropelando-se corredores fora na esperança de lá chegarem antes dos outros todos e deixando as restantes salas praticamente a pedirem "por favor, visitem-nos". Curiosamente, depois de ter feito todo o percurso nas calmas e de ter ficado boquiaberta com cada uma das salas e corredores - e com um torcicolo de olhar para os tectos - ao chegar à Capela Sistina, a minha reacção foi "Ya, mais um tecto pintado. E então?"
Depois de toda aquela agitação de turistas chineses e japoneses a atropelarem-se com as máquinas fotográficas em punho, foi uma sensação bizarra entrar na Capela Sistina quase sem luz nenhuma e ver um mar de gente totalmente imóvel, silenciosa e compactada. Pareciam totalmente esmagados por uma força superior, totalmente rendidos. De vez em quando ouvia-se uma voz gritar "No noise! No pictures!" e lá estava toda aquela gente na semiobscuridade, quase que com medo de respirar, quanto mais sair do lugar e desafiar as ordens proferidas.
Eu confesso que tenho um problema com a autoridade, especialmente quando a autoridade é a igreja católica (lolol) e por isso tirei fotos (sem flash, que sei que isso danifica as pinturas) perante os olhares incrédulos dos outros turistas cumpridores. Até tirei uma com o telemóvel para ter a Capela Sistina como fundo do dito cujo. Sim, não tenho respeito nenhum e vou certamente parar ao Inferno ;) De facto aquilo é bonito, mas quando as pessoas levam as coisas demasiado a sério, perdem-se. Afinal de contas, é só um tecto pintado :)
Já na Basílica fiquei encantada com a zona dedicada às confissões. Afinal a igreja católica anda a modernizar-se! Dispostos em semi-círculo estão diversos confessionários, cada um com uma luzinha verde ou vermelha indicando a sua disponibilidade e com plaquinhas referindo as línguas em que cada um dos respectivos padres pode ouvir a confissão. Eu tentei fotografar um que estava com luzinha verde, a portinha entreaberta e um padre lá dentro com um livro (O Livro?) na mão e que anunciava "Espanhol/Inglês/Italiano". Infelizmente logo fui impedida por um segurança que me pediu com ar de poucos amigos que mostrasse um pouco de respeito. Ok, ok, porque será que ficam tão ofendidos com umas fotozinhas? Será que é porque receiam admitir a ironia de tudo aquilo ao deixarem que alguém o capte em imagem?
Quando saí do Vaticano admirei-me de não ter sido levada por uns guardazinhos suiços para os calabouços da Inquisição depois dos meus comportamentos tão inusitados.
Que mais posso dizer? O Astérix tinha razão, os romanos são loucos. Apesar disso, pizza de batata é uma surpresa surpreendentemente boa.
Baci a tutti!

Monday, March 31, 2008

Jesus Christ Superstar

Ao fim de muitas semanas de negociações, a minha mãe conseguiu arrastar-me para ver o "Jesus Cristo Superstar" no Politeama. Eu não queria ir nem por nada, porque não suporto o La Féria e porque sendo fã do musical original, tinha receio de ficar com náuseas com a versão portuguesa.
Devo dizer que até não foi muito mau. Surpreendentemente, até foi bastante bom. Mais ou menos fiel à versão original e com interpretações excelentes. O Judas é o verdadeiro superstar do palco (como aliás na versão original) e os padres estão de se lhe tirar o chapéu.
Esta versão teve o condão de conseguir retratar os seguidores de Jesus como revolucionários de esquerda - a última ceia parecia uma espécie de reunião do PC - e os romanos como ditadores fascistas ao estilo capitalista.
Como eu sei as letras do musical original todas de cor (ya, que querem que vos diga, as músicas são mesmo boas ;)), notei que a versão do la Féria estava um pouquinho mais contida, talvez para não chocar tanto as velhinhas que vão lá ver aquilo e evitar uns quantos AVC entre o público mais beato.
Se o JC Superstar fosse escrito hoje, se calhar já retrataria a Madalena como principal apóstola em vez de prostituta e, quem sabe, em vez da crucificação, teríamos o Jesus e a Madalena com filhotes e a viverem felizes para sempre. Seria interessante.
Anyway, vejam o filme de 1973, que para a época já era bastante provocador. Aqui fica um cheirinho: depois de se enforcar, Judas encontra-se com Jesus no céu.


Tuesday, March 18, 2008

E eta, hein?

Estive 4 dias no País Basco. Fui ao encontro ibérico "Soberania Alimentar, Sem Transgénicos" que decorreu em Derio, nos arredores de Bilbao, mas também tive tempo de fazer um pouco de turismo pela cidade de Bilbao e dar um pulinho a uma vila nos arredores que tem o castiço nome de Portugalete.
Encontrei nesta terra algo que julgava ser uma fantasia de preguiçosos que jamais alguém iria pôr em prática: passadeiras rolantes nas ruas íngremes!!!
Passei pelo museu Guggenheim de Bilbao, mas só tive tempo de visitar a casa-de-banho - komunak, em basco. Obras de arte terão que ficar para uma visita mais prolongada.
Para desapontamento duns e descanso de outros, não conheci nenhum terrorista. No entanto cruzei-me com algumas pessoas que tinham ar disso ;)
Em todo o lado se vê a palavra "eta", não em referência ao grupo terrorista mas porque é o equivalente ao nosso "e" e ao francês "et". Demorei algum tempo a chegar lá :)
Tudo em Bilbao é escrito em castelhano e basco, mas tal como o neerlandês em Bruxelas é uma língua em vias de extinção, também o Basco não se faz ouvir em Bilbao. Só fora da cidade - especialmente em Portugalete - ouvi pessoas a usá-lo. É giríssimo, não se parece com nada. Parece uma daquelas línguas que eu inventava com os amigos nas nossas brincadeiras de criança.
O desejo de independência dos bascos faz-se notar através dos autocolantes, dos graffitis e dos eventos musicais e culturais promovidos pelos jovens em prol da "Independentzia". Felizmente a maior parte das pessoas que gostariam de um País Basco independente parecem preferir os métodos não-violentos de expressão.
Não sei porque as pessoas vivem tão obcecadas com fronteiras e territórios e se sentem tão perdidos e ameaçados quando regiões de países querem ter a sua autonomia. Deixem-nos ser livres. As fronteiras dos países são convenções artificiais que em muitos casos separam pessoas, culturas e paisagens que deveriam estar unidos e juntam outras que nada têm em comum entre si, gerando tensões e conflitos desnecessários. Eu cá apoio a Independência de todos os povos com uma cultura própria que vivem sob o domínio de outros. Apoio a abolição das fronteiras e a criação de bioregiões. De modo pacífico, voluntário e cooperativo. Mas primeiro temos todos que encontrar a paz de espírito e a sabedoria que nos permita fazê-lo sem impôr ou agredir.
Bem, mas voltando à minha história, durante estes dias fiquei alojada na Kukutza Gaztextea, uma fabulosa casa okupada (melhor seria dizer, fábrica okupada) com cinco amigos portugueses que também participaram no encontro de Derio.
A Kukutza não tem suites nem jacuzzi, mas para mim foi 5 estrelas. A primeira noite foi complicada. A Marta (o nosso contacto) não estava por lá e mais ninguém nos abria a porta. Felizmente apareceu um rapaz vindo não sei de onde que tinha a chave e nos deixou entrar, mas como não sabia quem éramos, não deixou instalarmo-nos nos quartos do 5º andar. Teríamos de nos contentar em ficar no rés-do-chão, a dormir no chão do bar/discoteca/zona de concertos. Após alguma exploração do espaço, encontrámos umas escadas que conduziam a uma zona mais elevada, onde havia uma pequena biblioteca e sala de computadores e onde decidimos aconchegar-nos.
A Marta lá apareceu no dia seguinte e pudemos finalmente visitar a Kukutza em todo o seu esplendor e ficar de boca aberta com o tamanho daquilo. Curiosamente, apesar dos vários quartos livres e do tamanho monstruoso da Kukutza, a Marta meteu-nos a todos no mesmo quarto minúsculo. Bem, pelo menos não tivemos tanto frio! Arrumámos os nossos colchões e sacos-cama o melhor que pudemos, uns na vertical outros na horizontal, pés com caras... Como disse a Rita no nosso último dia por lá, a experiência serviu acima de tudo para "team building". Sem dúvida que estreitámos laços, tanto quanto nos estreitámos naquele quarto para conseguirmos lá caber ;)
Não queria cair na asneira de dizer mal dos espanhóis - eles são tão bons ou tão maus como qualquer outro ser humano e todos eles são diferentes entre si, mas durante este encontro alguns traços caricaturais da sua personalidade deram o ar de sua graça.
Os espanhóis tendem a esquecer-se de que há um mundo para lá da Espanha - o encontro era ibérico, mas os portugueses foram completamente ignorados!
Os espanhóis não são grandes cozinheiros - tivemos que esperar horas pela comida e no fim, apesar de esfomeados, acabávamos por ter que a recusar com receio de ter uma indigestão (pimentos vermelhos cozidos com molho de mostarda - isso lá é almoço?). Enquanto que 6 dos 8 portugueses quiseram refeições vegetarianas e se queixaram da gigantesca dívida ecológica da comida servida (não biológica, à base de carne com batatas e lagostins para a maior parte das pessoas) contra talvez 10 em 200 espanhóis que fizeram o mesmo. Teria sido importante colocarem em prática os princípios de agricultura sustentável e soberania alimentar que tão veementemente defenderam durante o encontro!
Os espanhóis acham que se nós percebemos perfeitamente castelhano então eles também percebem perfeitamente português - mas não percebem, por mais que falemos devagar e nos esforcemos por falar portinhol!
Os espanhóis são excelentes a organizar festas e momentos culturais, mas não fazem o trabalho de casa antes de irem para um encontro deste género e passaram 2 dias que se esperavam de troca de conhecimentos e experiência, em discussões sem fim sobre a lógica da batata. Claro que o baile, os teatrinhos e a declamação de poesia foram excelentes!
Como disse a Margarida, também no último dia, este encontro serviu acima de tudo para alimentar o nosso ego, pois percebemos claramente que neste tema temos muito mais experiência e estamos melhor organizados do que eles. Mas para crédito deles, temos que ser honestos e reconhecer que eles ainda agora começaram e estão a dar os primeiros passos. Nós é que íamos cheios de expectativas de que iríamos aprender imenso com eles. No fundo a culpa é toda nossa :)

Monday, March 10, 2008

Lisboa

Ah, Lisboa.
Voltei a sentir-te.
Como uma estaca no coração.
Quero chorar contigo.
O fado. O nosso triste fado.
Abandonada à amargura doce do amor sentido, adiado, reprimido, renunciado.
Assistes indolente ao nascer e ao pôr-do-sol.
Anseias por algo prisioneiro na matriz da melancolia e da saudade.
E o meu coração é o teu.

Friday, February 22, 2008

Almstadtstrasse 24

Como prometido, voltei a Berlim. Infelizmente, devido ao temporal que atingiu a zona de Lisboa há alguns dias, perdi o avião que me ia dar um dia inteiro para turismo e tive que me contentar com poucas horinhas livres para passear por zonas ainda não exploradas e visitar o Deutsche Bundestag
Além da impressionante e inovadora cúpula que se encontra no topo deste edifício, a vista de Berlim que de lá se vê é um "müss sehen".
Apesar de curta, esta viagem foi mais produtiva que a anterior no que toca a mergulhar no espírito de Berlim. Fiquei alojada numa casa comunitária, die Hausprojekt ALMstadtstr. 24, muito "berliner" segundo me explicaram, com mais 14 habitantes trabalhadores independentes, estudantes Erasmus e aventureiros de toda a espécie.
A Charlotte e o Christophe, dois franceses temporariamente a ganhar a vida em Berlim, convidaram-me a ficar por lá. Convidaram-me também a entrar mais no espírito da casa juntando-me à reunião semanal das 4ªs feiras na sala comum. As línguas oficiais da reunião foram o alemão e o castelhano, mas também se lhe misturavam o francês, o português (havia lá um espanhol que falava português!), o italiano e raramente um pouco de inglês. Como pano de fundo ouvia-se chanson française e música senegalesa. Alguns dos espanhóis menos envolvidos na discussão surpreenderam-nos com uma enorme tortilla feita ali ao lado na cozinha sem que ninguém tivesse dado por isso e um italiano (presumo eu) fez umas massas com molho de tomate e ali se improvisou uma refeição que dificilmente encheu a barriga a alguém e que gerou olhares recriminatórios por parte dos que não tiveram coragem de se alambazar como outros menos preocupados com o que pensariam deles.
A minha passagem por Almstadtstr aconteceu num momento chave, uma vez que todos os seus habitantes tinham acabado de receber ordem de despejo, dando-se assim por terminado aquele projecto de 15 anos.
Explicaram-me que os prédios daquela zona, anteriormente propriedade da RDA, ficaram entregues às comunidades que os habitavam após a queda do muro de Berlim, até lhes serem encontrados os donos originais. Aqueles que demoraram a aparecer permitiram que comunidades como esta continuassem a existir e a renovar-se. Mas aos poucos foram sendo devolvidos aos donos ou comprados por meia dúzia de patacas. Agora que dão por si inseridos em Berlim-Mitte (centro de Berlim) cada vez mais uma zona chique e cara, estas comunidades que pagam rendas reduzidas estão a ser postas a andar para dar lugar a quem possa pagar preços exorbitantes.
Na reunião discutiam-se conhecimentos de outras comunidades em Berlim ou de locais para onde esta se pudesse mudar, mas o desânimo era grande perante a falta de perspectivas. Haverão muitas casas partilhadas por grupos de jovens, mas esta parece ser a última do seu género e dimensão. E eu tive a honra de assistir aos seus últimos momentos.

Friday, January 25, 2008

Ich war ein Berliner

Tanta água passou por baixo da ponte desde o meu último contacto.
Já não estou no Porto. O meu estágio por lá não foi além dos 2 meses.

Em compensação comecei um novo trabalho para a GENET. É o emprego que eu andava a desejar: pode ser feito onde quer que que tenha acesso à net, o horário sou eu que defino, assim como o tempo que trabalho, tenho que viajar frequentemente pela Europa, cooperar com todas as pessoas interessantes que comecei a admirar durante o meu ano em Bruxelas e a quem eu aspiro igualar profissionalmente. Só espero fazer tudo por merecer esta oportunidade.
O primeiro docinho do meu trabalho foi a oportunidade de ir a Berlim. Curiosamente (há muitos curiosamentes na minha vida, n'est-ce pas?) Berlim era a cidade europeia que eu queria visitar em seguida. Tinha ficado triste de não ter conseguido lá ir durante as férias.
Berlim não é linda, em termos arquitectónicos não tem muito que se veja, mas a história dela assalta-nos em cada esquina. Estranhamente não senti a opressão de todos os acontecimentos que lá tiveram lugar. É uma cidade completamente nova que nasceu por cima dos escombros das guerras e conflitos, sem sentimentos de culpa ou de recriminação. Ou pelo menos assim me pareceu.
Daqui a menos de um mês tenho que lá voltar. Mais uma cidade na qual me sinto em casa.