Saturday, November 17, 2007

Conexões

As pessoas no Porto são mais simpáticas. Pelo menos diz-se que sim e eu também tenho essa impressão. Mas ainda ontem ajudei um senhor a carregar as suas pesadas malas até à hospedaria onde ia ficar instalado e ele agradeceu-me, dizendo precisamente que as pessoas aqui são mais simpáticas, não são como em Lisboa. Ao que eu lhe respondi "Pois, mas eu não sou de cá, eu sou de Lisboa." O senhor ficou sem resposta para me dar.
Às tantas a ideia de que por aqui se é mais simpático acaba por contagiar quem cá chega e a simpatia cresce e multiplica-se, não é que esteja de facto incutida nos genes.
Por falar em pessoas simpáticas... o António descobriu que o café da esquina, aqui perto de casa, tem wi-fi gratuito. Que simpáticos! Pelo que agora somos frequentadores habituais do sítio, juntamente com os nossos laptops. Claro que tenho que consumir alguma coisa para poder cá estar, mas mesmo assim sai mais barato do que ir a um ciber-café. E é sem dúvida mais agradável. O espaço é amplo e quando consigo lugar junto à janela, apanho um belo solinho e tenho uma vista bastante interessante sobre a rua.
Só tem um problema, as opções de bebida e comida não são muito veggie-friendly. Perguntei à senhora do café se tinha leite de soja e ela disse "Não menina, eu só uso meio-gordo." Achei adorável a sua candura :) Resolvi pedir um chá, mas perante a minha pergunta sobre que chás tinham, ela disse que não sabia, porque os nomes estavam todos em inglês. Por isso tive que ser eu a informá-la sobre os chás que tinha. Será que nunca ninguém pediu um chá neste café antes de mim?
Aaaaah, sábado à tarde, sentada no café, ligada à net. Pode parecer estúpido, mas sinto-me bem com isso. Já me tinha adaptado a uma vida "desligada", mas confesso que o vício é grande e agora que o recuperei, sinto-me nas nuvens :) Ontem li cerca de 500 emails que deixei acumular na mailbox e percebi o quanto me faz falta estar "ligada" para manter aquela minha tão característica capacidade de "saber tudo" antes dos outros :) Já andava a ouvir bocas do tipo "então não leste o email que eu te mandei?", "então não soubeste do que se passou?". Isso não costumava acontecer! Senti que estava a ficar para trás. Maldita sociedade da informação! Se quero desligar-me, tenho mesmo que me refugiar numa gruta na montanha...

Thursday, November 15, 2007

B@B

Na 2ª e 3ª feira estive em Lisboa na Gulbenkian, a participar na “High Level Conference of Business and Biodiversity”, organizada pela Presidência Europeia do Conselho da EU e pela Comissão Europeia.
Era mesmo “high level” pois não era qualquer um que lá conseguia entrar, apenas aqueles que fizeram por o merecer ou que lóbiaram/subornaram alguém :) Eu consegui lá entrar porque tenho “contactos” ;) OK, também houve pessoal que conseguiu entrar à socapa, porque nem sempre se fazia controlo à porta.
Aquilo estava a abarrotar de ministros, secretários de estado, banqueiros e belmiros de azevedo. Aliás, O Belmiro de Azevedo original esteve mesmo lá, para aí durante 10 minutos enquanto fez o seu discurso e depois pirou-se e já não ouviu a boca que o orador seguinte lhe mandou por não ficar para participar na discussão.
Esta conferência foi mais uma excelente ocasião para se observar várias coisas:
- O quanto “esta gente” tem tão pouca noção do “estado de emergência” em que estamos metidos, que ainda vêem estas iniciativas para se tornarem verdes, como uma estratégia de marketing e não como uma necessidade para a sua própria sobrevivência. A maior parte das empresas que começam a desenvolver produtos verdes, fazem-no para explorar um novo nicho de mercado (os maluquinhos que gostam de comprar coisas “verdes”) ou para poderem usar isso como bandeira e não como um ensaio para mudança do seu modus operandi.
- O quanto se perdem tempos infinitos discutindo possíveis soluções, quando já tudo foi descoberto e inventado – só que como as soluções são trabalhosas e/ou inconvenientes de aplicar, é melhor continuar a organizar conferências e workshops durante anos a fio, discutindo eternamente as vantagens e desvantagens de todas as propostas que claramente não levem a lado nenhum, até se decidir pôr em prática uma que “pareça bem” mas não seja muito chata de implementar.
- O quanto estes eventos são manipulados para se passarem determinadas mensagens e se fazer auto-promoção e greenwashing. Para mim, os vencedores do “óscar greenwash” deste evento foram a Syngenta ex aequo com a Bayer CropScience, pelo melhor filme, argumento e actores. A Syngenta, por ter a coragem desmesurada de oferecer “os seus conhecimentos e experiência na protecção da biodiversidade” e a Bayer por afirmar “que as suas soluções tecnológicas para a agricultura são a única solução séria para se proteger a biodiversidade” e ambas pela actuação inspirada dum dramatismo intenso dos seus “actores” no papel de mártires – “a Syngenta, a Bayer, a Dupont e a Monsanto têm investido milhões no desenvolvimento de soluções para salvar o mundo da destruição e só recebem rejeição das pessoas ignorantes que têm medo da ciência e que se pudessem impediriam o mundo de ter aviões e telemóveis”. Snif, snif, toda a gente estava marejada de lágrimas e com o coração detroçado de pena pelas pobres corporações incompreendidas.
- O quanto os portugueses são saloios a falar inglês (excepto os que trabalham no estrangeiro em ambiente internacional) e precisam desesperadamente de dizer coisas, mesmo que fora de contexto, desactualizadas ou que nada acrescentem à conversa, apenas para mostrarem que existem.
- O quanto os ecologistas portugueses são pouco profissionais e continuam a dar tiros nos pés cada vez que têm oportunidade para isso – mesmo assim merecem todo o meu respeito e admiração, pois tudo o que fazem é por dedicação voluntária à causa e conseguem ter quase sempre a razão do seu lado. Infelizmente irritam-se muito facilmente e passam para as atitudes sensacionalistas, para os insultos e para os argumentos balofos em vez de manterem uma postura respeitável e coerente.
Para finalizar, gostei de rever muitas caras conhecidas de Bruxelas, de voltar a falar "estrangeiro", de falar com pessoal dos ministérios do ambiente de vários países, de voltar a comer de borla grandes jantaradas com 5 pratos, 5 pares de talheres e 3 copos. O “high level” sobe facilmente à cabeça, é o que é…
À hora de almoço aproveitei para passear pelo jardim (hum, que recordações felizes tenho ali passadas) e deitei-me na relva a apanhar sol, para descer lá do “high level” de volta à terra.