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Tuesday, November 09, 2010

Nagoya

Nos meus últimos dias no Japão, regressei a Nagoya, onde fiquei alojada em casa de um casal super querido - o Daul e a Sayaka, ele coreano, ela japonesa - que conheci no couchsurfing. Cheguei a Nagoya ao fim do dia e liguei para o Daul como combinado. Ele tinha mudado de ideias quanto a ir-me buscar à estação de comboio e deu-me instruções para chegar a casa deles de autocarro, mas só tinha 10 minutos para encontrar o terminal, a plataforma certa e o autocarro certo. Com as malas às costas através de um mar de gente e vários níveis e túneis e saídas, lá consegui (miraculosamente) encontrar o dito terminal e numa correria entrei no autocarro que estava mesmo a partir. Estava orgulhosa do meu feito, quando me apercebi que em vez de ter entrado no autocarro 10 da linha 11, tinha entrado no autocarro 13 da linha 10. Fiz uma exclamação em voz alta que não vou aqui repetir e carreguei no stop para sair do autocarro antes dele avançar mais e eu ficar completamente perdida. Ainda não estava muito longe da estação e felizmente não perdi o norte pelo que caminhei em direcção à estação, aonde consegui regressar 15 minutos depois, arrastando pesadamente a mala atrás de mim. Novo telefonema para o Daul: "Olha, parece-me que perdi o autocarro (o último do dia que lá ia ter), por isso vou tentar ir de metro o mais perto possível daí e depois apanho um táxi." OK, disse ele, mas avisou-me que geralmente os taxistas não encontram a casa deles. Que bom saber isso! Mas que opções eu tinha? Após uma cansativa passagem pelo metro (só há escadas rolantes e elevadores em poucas estações), lá saí para a superfície e chamei um táxi. O taxista não falava uma palavra de inglês. Dei-lhe a morada, ele introduziu no GPS e acenou que estava tudo pronto para me deixar no meu destino. Passados cerca de 10 minutos tínhamos deixado o centro da cidade e estávamos numa zona residencial suburbana, labiríntica e com pouca iluminação. Ele parou no meio de uma rua, disse algo como "é aqui" e tirou a minha mala do porta-bagagens. A morada que eu tinha indicava nº 5-27, mas à minha frente eu só via 27-100, 27-103, etc... Fiz ar de quem não estava a entender nada daquilo e o senhor fez um gesto vago de que a morada correspondia a "algures ali". Olha que lindo, e agora? Ia ter que ir de rua em rua, porta a porta, arrastando a mala atrás de mim, até encontrar o número certo. Felizmente o taxista era um senhor extremamente simpático que me fez sinal que não se iria embora dali enquanto eu não encontrasse o sítio. Felizmente passados apenas 5 minutos de deambulação sem sentido, ouvi alguém gritar o meu nome e apesar de não estar a ver quem me estava a chamar, senti que me tirava um peso de cima dos ombros. Era o Daul, em bicicleta. Lá lhe ocorreu que talvez eu não desse com a casa e por isso andou às voltas a ver se me via por ali perdida. Despedi-me do senhor taxista e finalmente cheguei a casa do Daul. Acontece que só as ruas principais têm nomes, estas ruelas secundárias são simplesmente numeradas e nem sempre de forma lógica. Acontece também que concluímos que eu não tinha o último número - de uma sequência de três - que corresponderia ao número da porta. Os dois números que eu tinha, apenas indicavam a zona e um bairro específico, mas não o número da porta.  Podia ter andado a noite toda a bater às portas...
Castelo de Nagoya
Felizmente todos esses percalços foram compensados pela estadia na casa deste casal simpático. Ambos trabalham num gabinete das Nações Unidas e tínhamos imensas ideias para trocar. Eles sacrificaram algum do seu sono para ficarmos a conversar até um pouco mais tarde. Curiosamente acabei por lhes dar a conhecer pelo menos uma coisa da sua cidade que eles desconheciam. No caminho do aeroporto para o centro de Nagoya, reparei numa estátua de Buda gigante a espreitar por entre as árvores no topo de uma colina e perguntei-lhes o que era. Eles não só desconheciam por completo como nunca tinham reparado na estátua, apesar de já terem passado naquela linha de comboio inúmeras vezes. Fizeram uma pesquisa na net e ficaram a saber da existência de um Buda gigante no templo Togan-ji. Infelizmente acabei por não ter tempo de ir vê-la ao vivo e a cores, mas eles talvez se sintam tentados a ir lá dar uma espreitadela em breve.
A casinha deles era muito simpática. Pequenina, como ditam as regras - talvez 1/3 da minha casa (e ainda nos queixamos com falta de espaço...) - mas muito acolhedora. Um dos meus desejos antes de partir do Japão era experimentar a vida quotidiana de uma família japonesa numa casinha dos subúrbios e eles proporcionaram-me isso.
Oasis 21
Pela manhã serviram-me um típico pequeno-almoço japonês. Até então basicamente ou tinha comprado algo de véspera no supermercado ou  tinha ido a um café tomar um pequeno-almoço ocidental. Mas seria imperdoável regressar a casa sem provar um pequeno-almoço à japonesa. Por isso fiquei muito contente com a oferta. Comemos batata-doce, abóbora e cebola cozida com tomate cru e bebemos um chá japonês. Deram-me os parabéns por eu ter comido tudo sem queixas, mas depois apresentaram-me a "pièce de rèsistance" e disseram-me: "Se disseres aos japoneses que comeste legumes ao pequeno-almoço eles dir-te-ão "que bom para ti", mas se lhes disseres que comeste isto, vão-te respeitar toda a tua vida!". Olhei curiosa para uma caixa pequenina branca que me colocaram à frente e perguntei "O que é isto?". "Isto é natto!" basicamente consiste em feijão fermentado por bactérias, que se mistura com molho de soja e mostarda. Parte do gozo do consumo disto está na sua preparação, que deixa os feijões envoltos num molho filamentoso. O cheiro é... intenso e o sabor... bem... é exótico. Pensei em desistir ao primeiro contacto, mas decidi aguentar e comer tudo. Queria conquistar o respeito dos japoneses, ou pelo menos o do Daul e da Sayaka. Eles disseram-me que  tinha sido a primeira ocidental, dentre os vários a quem eles deram aquilo a provar, que tinha conseguido comer tudo até ao fim e sem caretas! Na verdade já provei coisas piores e além disso sou fã de coisas bizarras como tempeh, que eles desconheciam e que eu fiquei agora a saber que é por ser indonésio e não japonês como eu sempre julgara.
Teatro Noh
Em Nagoya não visitei muita coisa, porque na verdade já estava bastante cansada e não consegui esticar as horas do dia. Mas tive tempo de visitar o imponente castelo, passear pelos seus jardins e ver uma exibição lindíssima de bonsai. Passei pelo Teatro Noh, onde visitei uma exposição sobre esta arte e tirei umas fotografias com as famosas máscaras Noh. Quase não se nota que estou de máscara, pois não?
Gostava de ter visitado o  parque Tokugawaen, mas fechava muito cedo, pelo que fiquei a meio caminho em Sakae, onde  o Oasis 21, uma espécie de jardim suspenso futurista, me transportou a um sonho que tive há meses, sobre um lago no topo de um prédio com torres e arranha-céus em redor.
Vi o pôr-do-sol no porto de Nagoya e terminei o dia em Osu. Tinha mencionado ao  Daul e à Sayaka que gostava de ter visto a Cimeira Mundial de Cosplay que tem lugar em Nagoya, mas que tinha vindo na altura do ano errado. Eles disseram-me que se eu fosse a Osu talvez visse por lá alguns "personagens", que simplesmente gostam de se passear por lá sem nenhuma razão especial. Por isso fui espreitar Osu, que consiste num quadriculado de ruas, muitas delas cobertas, com um sem fim de bazares e lojas. Encontrei muitas lojas de figurinos anime e roupas bizarras como as que se usam em Tokyo, mas não encontrei nenhum cosplayer.
Porto de Nagoya
No meio deste emaranhado templo do consumo, encontrei um pequeno templo budista embutido entre lojas e banquinhas de fast-food japonesa. Um monge fazia orações frente a um altar e a três metros dele ouviam-se gritos de pessoas que vendiam todo o tipo de mercadorias fúteis e risos dos jovens que por lá se passeavam ruidosamente. Na minha mente surgiu a imagem de Jesus a irromper por ali adentro e a destruir as bancas dos vendedores, furioso pela falta de respeito por tal lugar tão sagrado e ri-me sozinha. Parece que os japoneses têm menos prurido com esta mistura entre o sagrado e o profano.
E pronto, lá tive que voltar a casa.

Thursday, October 07, 2010

Lost in jet lag

Tive uma série de sonhos em que estava num avião a caminho do Japão. Como estava cheia de sede e consciente de estar a sonhar, tentei acordar para beber água mas sempre que abria os olhos, dava comigo a reviver exactamente o mesmo sonho do princípio - nuns era de noite, noutros a luz entrava pelas janelas do avião, mas o cenário era sempre o mesmo e a sequência de acontecimentos também. Após 3 ou 4 tentativas de acordar ou pelo menos mudar de sonho para quebrar aquele "loop", tive um sonho em que finalmente bebi a minha água e acabei mesmo por aterrar no Japão... E ainda cá estou, com o ouvido interno a flutuar a 11.000 metros e com o relógio biológico a dizer-me que eram horas de dormir durante todo o dia e agora que é noite é que é tempo de acordar.
Estou numa Ryokan (estalagem tradicional japonesa), já descansei no meu futon e agora estou no meu quimono sentadinha ao estilo seiza com o laptop numa mesa baixinha,.
Ainda não experimentei o onsen (banho público) aqui na Ryokan, mas parece-me delicioso. Sò tenho que perder a vergonha de estar em pelota a partilhar a banheira com outras senhoras - felizmente este aqui tem separação de sexos, mas há locais onde são unisexo e isso para mim já seria esticar a corda.
Tomei um duche na casa de banho super-engraçada do quarto - é um módulo único tipo WC portátil instalado no quarto. Parece uma casa de banho de avião ou comboio, mas com chuveiro incluído e claro, daquelas sanitas que nos lavam o rabinho (que também ainda não experimentei).
Neste momento estou fascinada com as regras matemáticas por trás dos tatami: as salas são feitas à medida de um certo número de tatami  (e não o contrário) e o tamanho dos tatami varia de região para região. Imaginem se fôssemos assim tão rigorosos com os tamanho dos nossos tapetes.
Entre as inúmeras regras de etiqueta que estudei antes de vir, já falhei na aplicação de algumas. Cometi o erro grave de ao acordar no avião assoar o nariz ruidosamente, o que parei imediatamente de fazer assim que vi várias cabeças a virarem-se para ver quem tinha sido o sacrilego. Por outro lado o rapaz sentado ao meu lado fartou-se de libertar flatulências, com alguns efeitos sonoros (eu tinha tampões nos ouvidos e mesmo assim ouvi) e ninguém pareceu demasiado incomodado com isso.
Outra regra que quebrei foi pousar a nota para pagar o alojamento, em cima do balcão e o senhor que me atendia fez uma exclamação qualquer muito aguda, que me fez sentir extremamente culpada não sei bem de quê. O senhor pegou na nota com as duas mãos, fez uma vénia enquanto dizia algo em japonês e levou a nota com as duas mãos estendidas até à sala do lado, voltando com o troco  que me entregou da mesma forma, com muita reverência. Dessa vez já peguei com as duas mãos, com um ar  muito humilde e agradecido e muitas vénias à mistura.
Ainda não percebi muito bem a filosofia por trás disto, apenas sei que devemos sempre dar e receber seja o que for com as duas mãos e que as vénias nunca são demais.
Agora vou recuperar mais um pouco do jet lag e comer qualquer coisa, de preferência nada demasiado esquisito para começar.