Saturday, December 16, 2006

É uma casa portuguesa, concerteza

Já estou em Portugal!
Na verdade comecei a estar em Portugal no momento em que entrei no vôo da TAP e tive que aturar um grupo de portugueses que passaram a viagem toda a atirar chocolates, guardanapos e jornais por cima da cabeça das outras pessoas, a comunicarem aos berros duma ponta para a outra do avião, a beberem cervejas umas atrás das outras, a discutirem futebol fervorosamente, a queixarem-se que somos um país de falhados (percebe-se porquê) e a desrespeitarem todas as regras de segurança e pedidos insistentes das hospedeiras ao passearem pelo corredor nos momentos de descolagem e aterragem. Sim, comecei aí a lembrar-me do que era estar em Portugal...

Não falei ainda da festa da Sevelina, mas foi uma noite completamente doida. Depois de muitos copos e muita cavaqueira na casa dela, decidimos ir dançar noite dentro. Começámos por ir a um clube de salsa, mas passado nem meia hora fomos expulsos, porque só eu é que estava a beber (uma coca-cola!) e duas das outras raparigas adormeceram nos sofás (o que não estava a dar muito bom aspecto...). Mas depois disso ainda encontrámos um bar africano de onde conseguimos não ser expulsos e lá abanámos o traseiro com a batucada até de manhã. Pelo meio tivémos mil oportunidades de nos rirmos que nem perdidos e acabou por ser uma das noites mais divertidas de que tenho memória.

Ah, ia-me esquecendo! Participei num casting para um filme! Mas dessa brilhante experiência não tenho fotos para mostrar.
No mesmo bar onde me encontro com a Eva para jogarmos o New Amigos estavam a decorrer audições para um filme e depois de muito discutirmos e nos incentivarmos mutuamente, eu e os meus companheiros de jogo (éramos 4 naquela mesa) decidimos tentar a nossa sorte (a Eva recusou-se...diz que é tímida; eu pelos vistos já não sou!!?).
A audição era para uma curta-metragem em língua inglesa, supostamente a propósito da comemoração dos 50 anos da União Europeia. Queriam que improvisássemos um conflito entre 4 passageiros numa carruagem de comboio. O Stuart deveria fazer o papel dum fumador que não respeitava os outros passageiros e eu era uma passageira muito nervosa que lhe atirava os cigarros janela fora. A partir daí improvisámos uma bela duma guerra, mas os meus colegas de improviso estavam sempre a lixar-me em vez de entrarem no jogo de faz de conta comigo. Foi difícil manter-me séria e apesar de ter começado muito bem, às tantas já não conseguia parar de rir.
Está bem que fomos lá pelo gozo de termos esta história para contar aos nossos netos, mas mesmo assim não custava muito eles terem levado a experiência mais a sério. Quem sabe não nos revelámos excelentes actores e começávamos ali uma brilhante carreira? ;)
Já foi quase há duas semanas e não me telefonaram, por isso acho que posso dizer que não gostaram da minha representação :)

Regresso!

É difícil de acreditar, mas hoje ainda estarei de regresso a Portugal por 3 semanas. É difícil também dormir, porque as emoções são muitas e intensas. Hoje ao deixar o escritório, depois de termos feito uma pequena celebração de Natal, vieram-me lágrimas aos olhos. Assim se vê como gosto do meu trabalho, ehehe.
Eu não desenvolvo apego aos locais e pessoas, mas desenvolvo laços emocionais fortes e não preciso de muito tempo para isso. Já sinto que aqui é a minha casa e custa-me deixá-la. Por outro lado também sinto algum desejo em rever Portugal e reencontrar os meus portugueses favoritos!
"Vemo-nos" em Portugal!

Sunday, December 10, 2006

Portugal genuíno

A Sevelina acha que eu tenho algo contra Portugal, porque estou sempre a criticá-lo. E eu reconheci que "Sim, tenho algo contra Portugal, mas apenas contra um certo Portugal, pois há um outro Portugal que eu amo, mas esse quase não se vê nem se ouve."
Fui até Antuérpia com ela e uma amiga dela espanhola, a Elena, e encontrámos por lá um Café-Restaurante Lisboa que elas quiseram conhecer por dentro. Eu não percebo nada de café, pelo que pedi no balcão um café e um café com leite para elas, mas a senhora que me atendeu fez questão de me corrigir que o que eu queria era uma bica e uma meia-de-leite. "Sim, isso..."
Sentámo-nos a beber a bica e discutimos sobre a cultura portuguesa. A Sevelina adora o "ordinary" e fica fascinada com sítios como aquele, tipicamente portuga, com uma árvore de Natal de plástico numa ponta do balcão e uma águia gigante na outra, Pais-Natal da loja dos trezentos a espreitar por entre garrafas de vinho tinto, posters do SLB por todo o lado e uma televisão gigante de plasma a passar um filme na SIC. Ela acha que isto é o Portugal genuíno e eu tenho que reconhecer que infelizmente ela está correcta. Mas disse-lhe que apesar de genuíno, não é o tradicional, é apenas a versão moderna da cultura portuguesa, despida de profundidade, assente nos valores do futebol, do mal-dizer, da conformidade e da quadrilhice.
Eu não detesto Portugal, gosto do Alentejo e de Trás-os-Montes, da tristeza amargurada de Lisboa e da vivacidade do Porto, da luz e da cor de Portugal, dos pastéis de feijão e de noz (não sou fã de pastéis de nata), da couve-portuguesa e das sopas portuguesas, do azeite e da cortiça, dos Madredeus e do Sérgio Godinho, do Fernando Pessoa e da Florbela Espanca e das pessoas maravilhosas que aí habitam e que eu tive a sorte imensa de terem cruzado a minha vida. Mas não gosto da mentalidade dominante do povo português, nem das expressões dessa mentalidade que decoram um café ou uma tasca perdidos algures numa Antuérpia ou numa Bruxelas. Acho vulgares e de mau gosto.
Mas compreendo que para alguém doutro país possam ser fascinantes. Acho que ficamos sempre fascinados com o kitsch doutros povos e culturas, porque não levámos com uma dose maciça dele ao longo de toda a nossa vida. Por exemplo, ando fascinada com o folclore búlgaro, que acho místico e profundo, mas a Sevelina torce-lhe o nariz.

Thursday, December 07, 2006

Satori

Retirado da web: "Satori significa literalmente entender, em japonês. É uma iluminação, uma expansão da Consciência equivalente aos termos sânscritos Nirvana e Samadhi, usados na Índia. A consciência se projeta no plano mental, além do espiritual, se fundindo ao TODO, liberando-se do conceito de tempo, espaço e forma.
Geralmente usa-se os termos Satori ("entender") e Kensho ("despertar") para definir a mesma experiência. O Kensho é uma breve expansão da consciência, onde temos um pequeno vislumbre da verdadeira natureza das coisas. Terminado o Kensho, retornamos ao adormecimento profundo na nossa mente, que em si forma o EGO. Já o Satori é usado para um estado de iluminação mais profundo e duradouro.(...)"


A minha primeira experiência "kensho" (pelo menos a primeira de que tenho memória) foi aos 6 anos. Estava a brincar com a minha prima Sara, então com poucos meses de idade, no quarto dos meus pais e algo extraordinário aconteceu: ao observá-la, tão pequenina e frágil, tão dependente dos meus cuidados, de repente percebi quão longe ia a profundidade dessa ligação e interdependência. Ela existia através de mim e eu existia através dela. Num instante parado no tempo eu fui transportada para dentro dela, vi o seu passado e o seu futuro e vi o meu passado e o meu futuro, vi todos os seres humanos e todos os seres vivos, senti todos os pensamentos e sentimentos, vi os planetas habitados e desabitados, vi o Universo todo ao mesmo tempo e não mais me consegui distinguir de tudo isso, não mais fui capaz de sentir que eu sou a Irina. A partir daquele instante eu passei a ser Tudo e essa sensação não mais me abandonou.
A emoção duma experiência tão intensa fez-me chorar e quando a minha mãe entrou no quarto, ficou intrigada por isso. Mas como podia eu explicar verdadeiramente o que se passava comigo? Não saberia usar as palavras certas e mesmo que soubesse, de qualquer maneira não seria compreendida. Disse-lhe então que tinha dor de barriga e ela fez tudo o que pôde para me tentar tirar a dor, com muito amor e carinho, mas a "dor" era mais profunda e não havia massagem que a fizesse desaparecer :)
Desde essa altura que tive outras experiências semelhantes e apesar de não conseguir manter essa expansão da Consciência por muito tempo, sinto que vivo o meu dia-a-dia nesse limiar, uns dias mais livre, outros dias mais presa às ilusões. O desafio está em ultrapassar esse limiar, que é semelhante a encontrar um canto numa sala redonda. Mas sinto que um dia não muito distante o conseguirei.

Thursday, November 16, 2006

Conectada!

Finalmente tenho internet em casa! E estou tão contente que a ocasião merece um "post" dedicado exclusivamente a ela.
Depois de um mês à espera de linha telefónica da Belgacom, lá vieram os técnicos instalá-la depois de muitas peripécias. Depois de mais 15 dias à espera da activação da internet da EDPNET, ontem lá a activaram. Mas eu ainda não tinha modem, porque o que a EDPNET vendia custava cerca de 70 euros e eu resolvi que isso era caro demais para mim. Procurei na MediaMarkt e na FNAC, mas ou só haviam routers wireless (parece que anda tudo a mudar-se para o sem-fios) ou eram tão caros como o da EDPNET. Então lembrei-me de ir ver ao ebay se havia alguma pechincha de ocasião e não é que havia mesmo? Alguém de Etterbeek (!) a leiloar um exactamente como eu queria (!!), pelo preço base de 10 euros (!!!) e cujo leilão acabava dali a 3 horas (!!!!!!!!). Claro que eu licitei, ganhei pelo preço final de 16.75 euros, marquei encontro com a pessoa, fizémos o negócio e vim a correr para casa instalar o modem. Em 5 minutos a net já estava a funcionar. E em 10 minutos estava a escrever-vos estas linhas.
Quando tudo se encaixa assim tão perfeitamente, sinto-me feliz :)
Mas comigo este tipo de coisas acontece muito frequentemente. Tenho pena que não muitas pessoas conheçam a sensação de se viver imerso em coincidências.
Ainda ontem o meu colega Damien ficou curioso sobre algo de que lhe falei e lhe prometi arranjar mais informação. Entretanto eu tinha comigo uma revista que não tinha ainda aberto e cujo conteúdo desconhecia e ele pediu-ma emprestada. No dia seguinte ele estava espantadíssimo com a coincidência de que nessa revista vinha um artigo precisamente sobre aquilo de que tínhamos falado e que lhe esclareceu as dúvidas todas. Ele estava abismado com a coincidência, porque sabia que eu não tinha olhado sequer para a revista e por isso foi mesmo pura coincidência que tenhamos falado do assunto, mas para mim foi perfeitamente normal e por isso sorri com um ar compreensivo "Sim, é giro não é, quando elas acontecem." Mas para mim as coincidências já não são apenas acasos engraçados, são sinal de que estou no caminho certo para chegar aonde é suposto chegar. Mas isso já é muito filosófico para hoje. Hoje só queria falar da internet...

And now for something completely different!

Os meus "posts" têm sido muito "light" e sinceramente nem tenho ligado muito à qualidade do meu português quando os escrevo. Mas na minha cabeça passam-se coisas mais sérias e complexas do que apenas os olhares que se cruzam no metro e as músicas que tocam na rádio. Por isso hoje deixo aqui um "post" completamente diferente.
No sábado à noite vi o filme "Children of Men" e fiquei em estado de choque. É demasiado verosímil e coincidente com as minhas piores previsões do futuro próximo.
Ainda nessa tarde tinha lido uma brochura duma associação belga de direitos humanos denunciando histórias terríveis de detenção de imigrantes ilegais e a situação crescente e grave de atropelos dos direitos humanos que estão a ocorrer em toda a Europa (e no mundo) sob o pretexto de combate à imigração ilegal. É apenas uma questão de escalada dos acontecimentos, porque as bases já foram assentes.
Os atentados à liberdade em todos os campos das nossas vidas sucedem-se e é uma questão de tempo até sermos prisioneiros neste mundo que de democrático já só começa a ter a aparência.
Outro exemplo de que tive conhecimento na 6ª feira: os EUA estão prestes a aprovar uma lei que diz que toda e qualquer pessoa que cometa actos que prejudiquem o negócio de produção de animais para qualquer fim (carne, peles, cobaias, etc) serão consideradas terroristas e punidas de acordo com isso. Em teoria, isso implica que se activistas dos direitos dos animais protestarem frente a uma loja, fábrica, laboratório por causa da forma como os animais são aí tratados, e se se considerar que isso "prejudica o negócio" vão todos de cana por uma boa temporada. Mesmo defender uma dieta vegetariana poderá ser considerado terrorismo, uma vez que isso prejudica o negócio da carne. Não só é ridículo como é bastante sério, pois abre um precedente para se generalizar a caça a todos quantos se oponham e se manifestem contra qualquer coisa neste mundo.
O mais provável é que daqui a poucos anos todos sejamos muito bem controlados e que quem não se portar de acordo com os padrões estabelecidos será estigmatizado e perseguido. E claro, quem não aceitar ter um chip debaixo da pele vai ser excluído da sociedade. Parece que na França já funciona tudo com chip - um cartão bancário magnético já não é aceite em praticamente lado nenhum, só com chip. Na Bélgica parece que há planos para fazer o mesmo para breve. OK, o chip em si não parece muito mau, o problema é que ele armazena toda a informação sobre os sítios por onde passámos, o que comprámos, etc, que depois pode ser lida por máquinas, à distância (nem precisamos de inserir lá o cartão), para que por exemplo ao entrarmos numa loja já saibam o tipo de cliente que nós somos, para que ao passarmos numa rua, a publicidade em ecrãs digitais se adapte ao nosso perfil de consumidor, etc. Lembram-se de ver isso no filme Relatório Minoritário? Pois é isso que andam a planear fazer aqui na Bélgica e um pouco por todo o lado. Por enquanto as pessoas vêem isso como uma curiosidade, algo divertido até, mas as consequências serão bastante sérias.
Eu e o Pedro costumamos dizer "na brincadeira" (na verdade é bem a sério) que daqui a uns anos quem ousar ter uma horta, guardar sementes, cultivar plantas medicinais, querer comer alimentos saudáveis, levar uma vida simples e ecológica, etc, será considerado terrorista, porque tudo isso é prejudicial para "o negócio" das indústrias agro-alimentares, farmacêuticas e por aí fora. Essa perseguição já começou, com as Monsantos deste mundo a processarem agricultores que "ousam" reproduzir sementes tradicionais e vendê-las aos seus vizinhos ou que vêem as suas culturas contaminadas por OGM e são acusados de violar a propriedade intelectual; com a proibição do uso de plantas pelos povos que durante milénios usufruíram e dependeram delas para a sua sobrevivência, porque de repente passaram a ser consideradas "drogas perigosas" ou porque alguma empresa decidiu patenteá-las e reclamá-las como suas. Basta estar atento para ver como cada dia perdemos um pouco mais da nossa liberdade e como a informação do passado e das alternativas do presente está a ser apagada a um ritmo alucinante. Não sei se é uma conspiração global bem planeada ou apenas uma tendência que se alimenta de si própria, mas os poderosos deste mundo estão a fazer tudo o que podem para que sejamos cada vez mais ignorantes da história, da realidade, das consequências e nos tornemos apenas e simplesmente consumidores apáticos e acéfalos.
É tão simples não pensar, não procurar saber, não querer saber! Mas é preciso resisitir, é preciso lutar. É preciso consciência de que há uma guerra silenciosa a decorrer e que estamos a perdê-la, porque quem pode mudar-lhe o rumo ignora que ela está a decorrer. Se ainda não se aperceberam dela ou acham que não é assim tão grave é porque ainda não viram o quadro completo. Investiguem, vejam com os vossos próprios olhos, juntem todas as peças e quando virem o puzzle completo, juntem-se à resistência, ousem não seguir a corrente!
Por coincidência (embora não por acaso) descobri este filme "America - Freedom to Fascism".

Não sei como, onde e quando o poderão ver, mas se puderem não deixem de o fazer. vejam também o "Inconvenient Truth", já agora e o "Children of Men", claro.

Tuesday, November 14, 2006

Música

Nos primeiros dias que ouvi rádio por aqui, não suportava ouvir canções em francês. Pareciam-me todas tão lamechas. Assim que começavam a tocar, mudava logo de estação. Mas aos poucos comecei a descobrir coisas interessantes e agora já cantarolo algumas chansons. Por exemplo, descobri esta menina - Olivia Ruiz - que tem umas cançõezinhas deliciosas e apaixonei-me assolapadamente pela Charlotte Gainsbourg. Há outras músicas porreiras em francês a passar na rádio, o problema é que raramente os locutores radiofónicos dizem quem é quem e eu fico sem saber o nome dos cantores ou grupos. Lá descobri a Olivia Ruiz, porque procurei pelo nome duma canção dela, que extrapolei a partir do refrão da canção - puro acaso, portanto.
Costumo ouvir a BXL La City Radio (Bê Ix Éle, Lá Cití Rádiôô!), que é uma espécie de Antena 3 belga, mas com mais bom gosto. Também há por cá a Radio Nostalgie, que é exactamente como a Rádio Nostalgia em Portugal - até o jingle da rádio é o mesmo (Nôôôs-tál-giiii!). Todos os dias em que não vou ao Friskis-Svettis, oiço a Radio Vibration ao fim da tarde, pois só passa música de dança e é por isso excelente para fazer exercício de forma divertida, dançando até cair pó lado ;)

Monday, November 13, 2006

Portuguesa ou assim-assim

O meu francês melhorou um pouco, já não tenho receio de ir ter com as pessoas e falar com elas se for necessário. Nos primeiros dias tinha de estudar bem as deixas e consultar o dicionário mil vezes antes de sair de casa para ter a certeza daquilo que ia dizer quando ia aos correios, ao cinema ou ao supermercado. Pelo menos isso já ultrapassei, mas ainda estou longe de conseguir ter grandes conversas em francês. Se for sobre algum tema em que esteja à vontade, como quando tive que explicar o meu trabalho no seminário EVS, consigo arranhar uma conversa, mas se tiver que pensar depressa para responder a alguma questão sobre um tema inesperado, geralmente bloqueio.
Para compensar, toda a gente acha que o meu inglês é perfeito. Enfim, está longe de ser perfeito, mas desenrasco-me. E ficam sempre surpreendidos quando sabem que é a primeira vez que estou a viver fora do meu país, porque parece que não é habitual alguém falar bem inglês ou francês quando nunca teve que o praticar diariamente num país estrangeiro. Mas já há anos que eu penso em inglês e por vezes até sonho em inglês. Devo ter falado inglês numa vida anterior... Para mim é tão mais natural falar inglês que agora quando tenho que falar português com alguém, soa-me a língua estrangeira.
No sábado conheci a Vanessa, uma portuguesa colega de apartamento da Sevelina. Falámos um bocado e às tantas dei por ela a olhar para mim com ar estranho e lá percebi que estava a responder-lhe em inglês e nem me estava a aperceber disso. Não tive nenhuma consciência de que o estava a fazer. Pedi-lhe muitas desculpas e ela acabou por achar piada. Uma outra portuguesa, a Fernanda, tem estado estes últimos dias a ajudar-nos com a candidatura a uns financiamentos e sempre que ela começa a falar português comigo eu não a entendo, porque não estou à espera de ouvir português e o meu cérebro demora algum tempo a desligar do modo inglês. Voltando ao sábado, um senhor que estava a pintar as paredes interiores do prédio da Sevelina, queria pendurar um quadro na parede da sala-de-jantar, mas nós estávamos a almoçar e, como eu disse, o meu francês ainda não me permite grandes argumentações, pelo que foi difícil chegarmos a acordo. Depois de termos acabado o almoço ele lá veio pendurar o quadro e ouviu-me falar portugês com a Vanessa. Então virou-se para mim com um ar quase escandalizado "Atão, mas tu também falas português!!?"
É costume por aqui as pessoas fazerem esforços incríveis para se entenderem em inglês ou francês para no fim chegarem à conclusão de que falam ambos português, espanhol ou alemão.
Outro dia um brasileiro passou por mim e atirou-me um piropo original, tipo "Ai que lindo passarinho!". Eu desatei-me a rir e ele ficou embaraçado, porque não devia estar à espera que eu o entendesse.
Se calhar devíamos passar a usar bandeirinhas do nosso país para os outros saberem de onde somos e evitavam-se muitas confusões e embaraços.
Curiosamente, há dias pela primeira vez, alguém me identificou imediatamente como sendo mediterrânica. Um homem no metro aproximou-se de mim, muito muito sorridente. Primeiro fitou-me algum tempo sem me dizer nada e eu troquei uns olhares com um belga ao meu lado que se mostrou solidário, pensando como eu que o homem era maluquinho. Mas por fim ele lá abriu a boca para me perguntar "Ah! Tu es itallienne!?", ao que eu respondi "Non...". "Espagnole?", "Non...", "Ah, je sais! Morocaine!!!". Eh eh eh, acabei por lhe achar piada e lá lhe disse que era "portugaise". Ele ficou com um ar satisfeito, pois parecia ter a certeza de que eu era algures do mediterrâneo.
Depois fiquei intrigada, a pensar no que teria ele visto em mim para ter esse pressentimento certeiro. Concerteza que não foi pela minha pele bronzeada... Mas não tive tempo para mais conversas porque o metro chegou, eu entrei e ele ficou para trás.

Wednesday, November 08, 2006

Viver mais saudável

Outra razão (além da falta de tempo), porque não tenho escrito tanto, é que desde o aumento do nosso grupo de trabalho, eu tenho usado o meu portátil no escritório para trabalhar (por questões orçamentais, só no fim deste mês vão comprar um computador novo para mim) e por isso nos meus tempos livres em casa não tenho o portátil disponível para escrever. Só posso escrever emails e blogs se vier mais cedo para o escritório ou ficar mais tarde depois do trabalho, mas geralmente não tenho muita disposição para isso.
Comecei a frequentar aulas de Jimpa - é ginástica como outra qualquer, mas com um nome muito mais cool - da Friskis Svettis, uma organização sueca que pretende que todos tenham acesso ao exercício físico de qualidade por pouco dinheiro. E de facto é bem baratinho: 85 euros por 5 meses ou 170 euros por 10 meses. Em muitos sítios isso é o que se paga por um ou dois meses. A Lena é "hostess" (não estou a ver qual a melhor tradução para a palavra) da Friskis-Svettis e convidou-me para participar. Fui um bocado desconfiada, porque a Jimpa é basicamente aeróbica e eu estou farta de aeróbica, mas há uma turma de Ki-Jimpa, dada por uma professora japonesa, que mistura movimentos de yoga, tai-chi e artes marciais em geral no meio da aeróbica e eu decidi experimentar para ver se era realmente diferente. Foi bastante divertido e não me custou por aí além, embora a Lena pensasse que eu ia ficar de rastos, porque a turma é de nível de dificuldade médio. Mas eu tenho feito ginástica em casa todos os dias de manhã e por isso não estava completamente enferrujada pelo que aguentei perfeitamente a aula e nada me doía no dia seguinte.
Este fim-de-semana conheci o Parc Wolluwe e o Parc du Cinquantenaire (por onde só tinha passado de fugida), fui ao Musée Royal d'Art et Histoire, participei na Global Action On Climate Change, conheci uma biblioteca pública perto da Place de la Monnaie e fui à Bioshop fazer umas comprinhas. No resto do tempo fartei-me de dormir - 12 horas de sábado para domingo e 11 horas de domingo para 2ª. Devia estar mesmo cansada!
Para terminar, quero só informar duma decisão que tomei para começar este mês (espero que para continuar, mas isso só depois de um balanço o saberei): comprar apenas produtos ecológicos e biológicos. os mercados de pechinchas são óptimos, mas decidi continuar a frequentá-los apenas para roupas e outros bens em 2ª mão, pois a comida, produtos de limpeza e cosmética são algo demasiado importante para serem de má qualidade e cheios de químicos. Já tinha esta ideia quando cá cheguei, mas comecei a pensar mais seriamente nisto quando ao dar restos de comida ao meu rato, ele se recusava sempre a comer a comida do mercado, até estar mesmo a morrer de fome obviamente, mas comia sempre com gosto os meus restos de comida biológica. Há estudos e relatos anedóticos sobre o instinto dos animais para a qualidade dos alimentos, mas é sempre mais marcante quando vemos com os nossos próprios olhos isso acontecer à nossa frente. Pensei "Se o rato se recusa a comer estes vegetais, porque haveriam de ser bons para mim?" Então tomei a decisão de tentar comer apenas biológico.
OK, sei o que vão pensar "És maluca, não tens dinheiro para isso! Sai muito caro!", mas eu só tomei esta decisão depois de comparar os preços dos alimentos ao longo de 2 meses e de ver que a diferença é suportável e que os benefícios para mim e para o mundo são incalculáveis. Claro que serei obrigada a comprar apenas o estritamente necessário - ou seja, o que realmente alimenta e não pizzas e lasanhas congeladas e sanduíches no fast-food - mas isso não é um ponto negativo, é apenas mais um ponto positivo a favor desta opção. Já passou uma semana em que só comi biológico (no fim do mês apresento a conta) e além de não ter sido muito caro, reparei que me alimentei muito melhor do que habitualmente já tento fazer, porque me esforcei muito mais para não comer "porcarias" em snacks e cafés. Se lá pelas 3 semanas vir que começo a não ter dinheiro para o resto do mês, que remédio senão ir ao mercado, mas eu estou convencidíssima que isso não irá acontecer e vou prová-lo a toda a gente.

Monday, October 30, 2006

Festa

Não tenho muitas novidades para contar. Já me sinto bruxelense e portanto já não tenho aquela admiração inicial por cada pequena coisa. Todos os dias descubro algo novo, mas no geral o meu quotidiano já começa a ser rotineiro e familiar.
Este sábado a Lena e a colega de apartamento dela organizaram uma festa e convidaram umas 50 pessoas. Tiveram que pedir ao senhorio que lhes emprestasse o sotão, com receio de não terem espaço para toda a gente, mas no final apareceram umas 20 ou 30 e nenhuma parecia muito entusiasmada com a ideia de ir para o sotão. Mas era provavelmente o sítio mais interessante, pois além de ter um terraço com uma vista interessante, elas tiveram um trabalhão a montar lá uma mini-discoteca. Depois de muito insistirem, quando já era perto da 1h30 da manhã, lá houve uns quantos voluntários que se mudaram para o sotão para dançar, mas muitas pessoas por essa hora já se tinham ido embora - fracotes.
Eu fiquei encarregue de cozinhar o bolo, o que é uma grande responsabilidade, pois é a parte mais importante dos comes e bebes duma festa. Do meu ponto de vista o bolo estava mau - o fermento não actuou, a massa não cresceu e ficou mal cozida. Mas toda a gente adorou e todos queriam saber quem tinha preparado aquela tarte. Eu pensei "Tarte, qual tarte?" Era suposto ser um pão-de-ló com uma camada de compota e muesli, mas lá percebi que se como bolo a ideia não tinha resultado, como tarte o resultado era excelente. E lá fui receber os elogios dos convidados. "Sim, sim, fui eu que fiz a tarte! Obrigada. Obrigada."
No convite para a festa a Lena pedia que cada um levasse uma garrafa da sua bebida favorita e escusado será dizer que ninguém levou sumos de fruta. Havia apenas um pacote de sumo de laranja que eu bebi até ao fim, mas depois o francês queria que eu provasse o espumante dele, a búlgara queria que eu provasse o vinho tinto dela, o grego queria que eu provasse o vinho tinto dele, e um alemão que tinha comprado vinho do Porto queria que eu provasse para lhe dizer se era dos bons (como se eu fosse especialista no assunto...). Só bebi um bocadinho de cada, mas mesmo assim comecei a ficar com a cabeça a andar à roda e tive que me deitar um bocado para recuperar do efeito. Depois de recuperada ainda apareceu um belga que queria que eu provasse a cerveja dele, mas foi fácil recusar, porque eu não gosto mesmo nada de cerveja. Depois disso já só me ofereciam copos de água.
Um alemão muito chato engraçou comigo e perseguiu-me toda a noite de sala em sala. No final queria ir dar um passeio comigo e levar-me a casa e talvez casar comigo. Estava convencidíssimo que tinha encontrado o amor da vida dele, mas eu não estava nem aí... Para me livrar dele tive que me colar à Lena e no fim da noite chamar um taxi ao qual ela me acompanhou, não fosse o alemão ter a ideia de querer partilhar o taxi comigo.
No domingo fui conhecer mais uma feira da ladra, na Place Jeu de Balle, que a Lena me recomendou várias vezes e dei umas voltinhas pelo bairro Marolles. Li algo interessante sobre aquela zona. Quando o arquitecto Poealert construiu o Palais de Justice ali perto - um edifício monstruosamente grande - muitas casas do Marolles, na altura a zona dos comerciantes pobres de Bruxelas, tiveram que ser demolidas e as pessoas daquela zona passaram a odiar o famoso arquitecto ao ponto da palavra "arquitecto" se ter tornado um nome feio na língua local. Também consta que o arquitecto ficou louco e morreu cedo por causa duma maldição que uma bruxa dos Marolles lhe lançou. Parece portanto ser uma zona muito interessante e castiça, mas altamente perigosa para os arquitectos ;)

Friday, October 27, 2006

Bom tempo, mau tempo e falta de tempo

Durante a semana passada decorreu a Board Meeting da IFOAM-EU e um seminário sobre o Desenvolvimento Rural e esta semana finalmente tive uma reunião com o Marco em que revimos o meu trabalho até agora e em que me foram dadas mil e uma novas tarefas, por isso começo a não ter tempo para fazer tudo o que desejo fazer. Quero estudar francês, exercitar-me, escrever, pintar, costurar, cozinhar, "bricolagear", fotografar, sair com os amigos, conhecer o país, mas não é fácil conciliar tudo no cada vez menos tempo disponível que tenho. Vou tentar escrever algo este fim-de-semana sobre o que tenho feito, mas não garanto nada :)
Por agora digo apenas que por aqui está um tempo excelente, com muito sol e temperaturas amenas. Parece que em Portugal não têm essa sorte... Diz-se por aqui que os meses de Setembro e Outubro foram anormalmente secos em Bruxelas. Eu bem disse que isto iria acontecer, porque aonde eu vou levo o sol comigo :))) Só não previ que a chuva fosse toda para Portugal. Desculpem lá o mau jeito...

Monday, October 16, 2006

Preconceitos

Quase de certeza que eu tenho algumas ideias pré-concebidas sobre certos países, mas tento não construir cenários à volta delas e esperar pela oportunidade de construir uma imagem correcta a partir de informações fidedignas. Mas é incrível a quantidade de ideias feitas que as pessoas têm sobre Portugal e o quanto romanceiam à volta delas.
Várias pessoas com quem falei sobre Portugal disseram-me sempre a mesma coisa: que Portugal deve ser óptimo para se passar umas férias baratas ao sol, com comidinha exótica e nativos pitorescos, mas que deve ser incrivelmente atrasado em relação ao resto da Europa. Estão sempre a perguntar-se se em Portugal há isto e aquilo e aqueloutro - coisas básicas que talvez em África sejam difíceis de encontrar, mas que em Portugal são coisas normais do dia-a-dia das pessoas faz décadas. E depois ficam muito admirados quando lhes mostro que de facto não há grandes diferenças entre Portugal e os países da "Europa desenvolvida".
Por um lado digo-lhes sem grande pudor que os portugueses são uns atrasos de vida, que têm umas mentalidades tacanhas, que se queixam de tudo mas nunca fazem nada e que só são felizes com a desgraça dos outros. Mas também digo que se não fosse a falta de auto-confiança, a falta de vontade de evoluir e uma grande dose de preguiça, Portugal poderia ser um dos países líderes do mundo, porque quando as capacidades e o pioneirismo dos portugueses de vez em quando se manifestam, conseguem ser bastante impressionantes.
No meu dia-a-dia aqui percebo que Portugal em muitas coisas está à frente da Bélgica (embora em muitas outras esteja anos-luz atrás). Isso demonstra que Portugal tem potencialidades e que poderia ir longe se deixasse de dormir debaixo do chaparro todo o dia e arregaçasse as mangas.
As maiores diferenças são a nível da mentalidade e educação das pessoas, porque quanto a infra-estruturas, Portugal está tanto ou mais evoluído que os países "mais desenvolvidos".
Penso que como consequência de julgarem que Portugal é um país incrivelmente atrasado, as pessoas também tendem a ser condescendentes comigo e depois ficam surpreendidas quando percebem que em termos intelectuais, culturais e práticos, eu não fico atrás deles.
No início o Marco ficava muito surpreendido quando eu mostrava que sabia fazer imensas coisas que ele julgava que teria de me ensinar. Ficou muito impressionado, por exemplo, que eu soubesse configurar o Outlook para receber e-mails. Enfim, não sou atrasadinha... Entretanto ele já percebeu isso e há dias quando foi a Lena que duvidou das minhas capacidades, questionando-o se eu estaria à altura de participar numa certa reunião, ele ficou muito surpreendido com a atitude dela, porque para ele já era óbvio que eu me desenrascaria lindamente. Mesmo assim, recorrentemente, ainda me tratam como se eu fosse uma coitadinha, o que por vezes me aborrece um pouco, mas eu perdoo-lhes.
Os meus colegas também ficaram surpreendidos quando me ouviram falar ao telefone. Disseram que não parecia nada que eu estava a falar português. Eu pensei "Essa agora, desde quando eles sabem melhor do que eu como é que se fala português?". A resposta deles foi que o meu português parecia ser uma "língua séria". Sim, foram estas as palavras exactas! Para eles o português seria muito semelhante ao espanhol, considerada uma língua espalhafatosa e foi com supresa que perceberam que o português é uma língua discreta. Acho que só com base nisso eles já reformularam toda a sua ideia de Portugal e já conseguem imaginá-lo como um país europeu e não do 3º mundo. Espanha terá que mudar de língua ou acho que nunca se verá livre de ser associada às touradas, castanholas e olés.
A propósito disso, os meus colegas espanhóis de EVS fizeram questão de destruir os estereótipos sobre Espanha durante a nossa soirée cultural do Seminário EVS. Todos tínhamos que apresentar algo do nosso país: um traje, um prato, uma dança, uma canção, o que quiséssemos. Eles desenharam um touro e uma sevilhana e cozinharam uma tortilha. Apresentaram cada um desses "símbolos" e depois rasgaram o touro e a sevilhana, dizendo que era tempo de acabar com estas ideias pré-concebidas sobre os espanhóis. Conservaram intacta a tortilha, que disseram ser um símbolo saboroso, mas em substituição dos outros símbolos apresentaram informações culturais de Barcelona, para eles a cidade que representa a nova Espanha que lentamente começa a ganhar terreno, livre de touradas e outras manifestações retrógradas.
Eu vesti-me com as cores nacionais, expliquei que Portugal não é uma região de Espanha, que o Fado é típico de Lisboa e não do país, que o Bacalhau vem do Mar do Norte e que o melhor de Portugal são as paisagens. (E tive que explicar tudo isto em francês, claro!)
Outros que terão que mudar de língua se quiserem ser levados a sério são os gregos. Quando falam conseguem ser ainda mais espalhafatosos que os espanhóis. E parece ser uma daquelas línguas em que se fala, fala, fala e no fim só se disse 2 palavras - mas isso pode ser apenas um dos poucos preconceitos que eu tenho :) Na hora de almoço de 6ª feira decidimos ir tomar um café e um bolinho a um café grego perto do nosso escritório e o Stylianos serviu de intérprete dos nossos pedidos. Ele apenas tinha que pedir 2 cafés e 2 fatias de bolo, no entanto ele e o empregado estiveram à vontade 5 minutos a discutir acaloradamente. A Lena bichanava para mim que não compreendia como pedir 2 cafés e 2 bolos poderia ser uma questão tão complexa que levasse a um tão longo debate. No final, para termos a certeza de que a conversa tinha sido apenas em redor do pedido e que eles não tinham começado a discutir a filosofia grega toda da antiguidade até aos dias modernos, perguntámos ao Stylianos o que tinham eles estado a conversar e ele confirmou que apenas tinha transmitido o nosso pedido e que o empregado apenas confirmou com ele se o pedido estava correcto. Curioso...
Na tarde de sábado fui ao cinema ao Kinepolis. Imaginem o Centro Comercial Vasco da Gama transformado num grande complexo de cinemas e terão uma ideia aproximada do tamanho do Kinepolis.
Julguei que lá iria encontrar uma enchente de pipoqueiros, mas ou algo interessante estava a acontecer do outro lado da cidade ou os bruxelenses não gostam de cinema, porque as 25 salas de cinema estavam praticamente às moscas numa tarde de sábado. Se fosse em Lisboa, estariam apinhadas, atulhadas e abarrotadas.
Falei à Eva na existência do IMAX e ela que vive cá há 2 anos e meio, não sabia disso. Será que esta gente não lê? E será que não saem à rua? E quando saem à rua, será que andam de olhos abertos? Em breve, se houver algum filme interessante, somos capazes de lá ir.
Falando em Eva, no domingo fui com ela ao Festival do Livro. Não queria gastar muito dinheiro, mas queria ver se encontrava dicionários, gramáticas e coisas do género que pudessem ser úteis para o meu estudo de línguas.
Como a Feira é na parte norte da cidade, a maior parte dos livros eram neerlandeses. Lá encontrei uma fila dedicada aos livros francófonos e havia também livros em inglês espalhados um pouco por todo o lado, mas a maioria deles era para mim indecifrável. A Eva focou a sua atenção nas filas de livros infantis, porque diz que o neerlandês dela corresponde ao de uma criança de 6 anos, logo tem que ler livros adequados ao seu nível. Acabou por comprar uns quantos livros do Garfield.
À entrada podíamos escolher cestos ou carrinhos para transportarmos os livros e a maior parte das pessoas parecia optar pelos carrinhos - e que bem que os enchiam! No final (tal não deve ser a tradição das pessoas comprarem toneladas de livros), em vez de nos colocarem os livros em sacos, mandaram-nos passar por uma bancada cheia de caixotes de cartão para escolhermos o mais adequado aos nossos livros. Também nos davam sacos se quiséssemos, mas eu vi mais gente a transportar caixotes do que sacos o que é um sinal do sucesso da feira. Pouco depois pensei: "Ah, então era por causa disto que não havia ninguém no cinema!"
Na feira vi alguns dicionários de português, um mapa de Portugal e Espanha e na secção de guias turísticos, um guia dos campos de golfe em Portugal... É a isto que o nosso país se está a reduzir, não é verdade? Todos os dias mais um pedaço daquilo que realmente valia a pena figurar em guias turísticos desaparece para dar lugar a um novo campo de golfe. Em breve Portugal figurará no livro de records do Guiness como o país com mais campos de golfe por metro quadrado e por habitante.
Depois da feira passámos pelo Atomium (o interior fica para outro dia), atravessámos o Parc D'Osseghem até ao Parc Royal, passámos frente ao Palácio Real, onde tudo o que vi foram os muros, o portão e um vislumbre do palácio ao longe e seguimos até ao Pavilhão Chinês e a Torre Japonesa (os interiores também ficam para outro dia).
Ah, já comprei uma gaiola (em 2ª mão) para o rato! Também arranjei uma solução para o carrinho de compras, digna duma permacultora ;) Comprei (também em 2ª mão) duas mochilas de viagem, daquelas com armação de ferro e estou a adaptá-las a um carrinho de transporte de caixotes que comprei no IKEA - o carrinho custou 5 euros e as duas mochilas outros 5, pelo que o conjunto fica mais barato que o carrinho de compras mais barato que já vi à venda, além de que será mais ecológico (porque estou a reutilizar materiais) e muito mais original que qualquer outro em Bruxelas.

Friday, October 13, 2006

Agenda Cultural

Depois de ter dado água e comida ao rato e de ele ter explorado os 4 cantos à casa, escondeu-se atrás dos móveislá ficou durante 2 dias. Entretanto preparei uma caixa de cartão para lhe servir de casa e quando percebi que ele não se deixaria apanhar tão facilmente como quando estava mais para lá do que para cá, decidi construir uma ratoeira.
Depois de muitas ideias impraticáveis, lá descobri que poderia fazer uma ratoeira eficaz a partir do meu caixote do lixo. Após algumas desconfianças iniciais, o rato lá entrou no caixote e ficou aprisionado. Julguei que não conseguiria manter um rato numa caixa de cartão por muito tempo, mas estranhamente, desde que ele percebeu que foi apanhado, deu-se por vencido e nunca tentou sequer roer a caixa.
No sábado passado passei por uma loja de artigos em 2ª mão, na esperança de encontrar alguma gaiola, mas nada. Vou tentar noutra e depois talvez nas feiras.
Entretanto a minha exploração de Bruxelas continuoou.
No sábado à tarde fui ao Festival India no Palais des Beaux-Arts, tal como tinha prometido. A Mari apareceu com mais duas das nossas colegas de EVS, mas acho que elas não gostaram muito do festival, porque se foram embora passado pouco tempo. Eu tinha avisado que era um festival só para apreciadores de música indiana, porque não é uma música que entre logo no ouvido. É preciso abrirmo-nos completamente a ela para a deixar entranhar-se e então é pura magia, sentimos um arrepio na espinha e somos transportados para um outro mundo.
Drums from Bengal foi uma batucada de tal forma hipnótica e alucinante que um africano de fato e gravata que estava entre o público sentado no chão, levantou-se e começou a dançar freneticamente como se fosse um xamã em transe numa aldeia remota da savana. Os músicos Dagar tocaram o estilo de música mais antiga da Índia - um ritmo completamente diferente, etéreo e místico - que me fez recordar a Índia, não só como se já lá tivesse estado, mas como se lá tivesse raízes profundas.
Arrepender-me-ei sempre de não ter ficado para os espectáculos da noite, mas o bilhete custava 25 euros (ao contrário dos concertos de abertura, que foram gratuitos) e eu decidi não ficar. Mas tenho a certeza de que teria sido uma noite inesquecível: Talvin Singh, State of Bengal, entre outros. Música electrónica e muito Drum'n'Bass misturados com música indiana.
Vagueei um pouco ao acaso pelas ruas, para conhecer melhor a zona do Palais de Beaux-Arts e acabei por encontrar a festa de encerramento da Semaine du Commerce Equitable (Semana do Comércio Justo). Estavam lá os "alternativos" todos a dançar animadamente e barraquinhas vendiam paparoca e bedidas deliciosas de comércio justo. Voltei a encontrar a Mari - sempre é verdade que facilmente tropeçamos em pessoas conhecidas em Bruxelas! - e ela convidou-me para irmos a um Centro Comercial (nada mais adequado quando se sai duma festa que defende um comércio mais justo, lol). Eu aceitei, porque ainda não tinha tido oportunidade de viver o ambiente da baixa bruxelense. Compras feitas e conversa em dia, ela decidiu ir para casa, mas eu ainda fui até ao Jardim Botânico, onde está a decorrer um festival de cinema da ATTAC, ver o filme "The Constant Gardener".
Gostava de poder ver os filmes todos do festival, mas durante a semana tem sido muito difícil conciliar o trabalho com outras actividades, porque o trabalho prolonga-se sempre para lá da hora programada ou porque eu fico tão cansada que só quero ir para casa.
Mas a 3ª feira foi uma excepção: apesar de ter sido o meu dia mais atarefado, ainda tive tempo e disposição para sair à noite. Tinha prometido à Eva acompanhá-la a um bar em Ste. Catherine, onde iria acontecer algo organizado pela namorada dum colega dela. Fiz-lhe a vontade a pensar que seria horrível - gente a beber cerveja, a fumar que nem chaminés e a berrar no meio de muito barulho - mas afinal encontrei exactamente o oposto: uma sala silenciosa, meia dúzia de "meninos bem comportados" e jogos de tabuleiro nas mesas. Ainda fiquei mais aterrorizada: "Socorro, é um convívio de totós!!!!" lol
OK, de certa forma era, mas não tão mau como imaginei de início. O jogo nas mesas era o New Amigos, uma espécie de Trivial Pursuit desenhado especificamente para melhorar o nosso conhecimento de línguas. Todas as 3ª feiras, em várias cidades da Europa (Paris, Berlim, Oslo, Bruxelas, entre outras) decorrem estes jogos do New Amigos. Os participantes escolhem a língua que querem aprender/melhorar e jogam com outras pessoas interessadas na mesma língua. Como resultado acabam por fazer novos amigos, enquanto aprendem alguma coisa útil.
No final da noite (ficámos até às 23h) concluí que tinha sido bastante divertido e que a ideia era excelente. Como companheiras de jogo (além da Eva) tive 3 raparigas, uma chinesa, uma peruviana e uma húngara, todas biólogas(!) a fazerem mestrado aqui em Bruxelas. Mais uma coincidência. Combinámos voltar a encontrar-nos por lá na semana que vem.
A Lena disse-me que quando cá cheguei ela sentia alguma preocupação por eventualmente eu me poder sentir só e aborrecida, mas que entretanto já deixou de se preocupar com a minha vida social, que parece estar a andar a 100 à hora e não precisar de nenhum empurrãozinho. Na verdade, já tenho tanta fama de ser uma agenda cultural ambulante (e páginas amarelas também) que sempre que alguém não sabe onde ir e o que fazer, pergunta-me o que é que está a acontecer em Bruxelas (e também onde pode ir comprar roupa barata, cortar o cabelo, etc). Ao fim de uma semana por cá eu já estava a dar dicas à Lena (que está cá há um ano), sobre bons sítios e eventos aonde ir e participar e estava a dar explicações sobre a história e os monumentos de Bruxelas aos meus colegas.
Eu não tenho uma mente enciclopédica, porque nunca decoro os detalhes todos, apenas as referências gerais. Para pormenores tenho que ir consultar as fontes novamente. Mas além dos muitos guias de Bruxelas que eu tenho, recolho tudo o que é jornal, revista e panfleto que é distribuído gratuitamente em Bruxelas e passo os olhos por tudo em busca de informações importantes. Penso que eles não têm paciência para fazer isso e daí apenas conhecerem uma ponta do grande icebergue que é Bruxelas.

Monday, October 09, 2006

Balanço

Passou um mês desde que aqui cheguei, mas parece-me que sempre cá estive. É uma sensação estranha. Como se toda a minha vida até aqui fosse na verdade uma vida anterior e não houvesse uma continuidade com esta vida presente. A viagem de avião foi literal e figurativamente uma ascensão ao céu e a passagem entre uma vida e a outra.
Desde o início que não me sinto num país estrangeiro. Sinto-me num outro tempo, num outro planeta, num mundo paralelo, numa outra existência?
Nos primeiros dias, penso que o meu cérebro teve algumas dificuldades de adaptação, pois todos os pontos de referência desapareceram de uma vez só. Por causa disso tive sonhos angustiantes de que continuava em Portugal e que tudo o que se passava de dia na Bélgica é que era um sonho do qual eu precisava acordar. Mas não foi nada de mais e já está ultrapassado.

Tenho escrito muito sobre as minhas actividades, mas ainda não falei muito sobre Bruxe1as e os bruxe1enses, porque tenho estado a fazer uma lista de observações das coisas boas, das coisas menos boas e das coisas estranhas ou simplesmente engraçadas que por cá encontrei. Ainda faltam referir imensas coisas, mas decidi apresentar a lista que já tenho.


As coisas boas

Sacos de plástico - Quem quiser sacos de plástico no supermercado, tem que os pagar. Em contrapartida, os supermercados vendem carrinhos e sacos de vários tamanhos, em pano ou tela, para incentivar as pessoas a transportarem as suas compras para casa de forma mais sustentável.

Mercados e feiras - Há mercados e feiras em todo o lado, todos os dias e todo o tipo de pessoas os frequentam, levando consigo os seus carrinhos e sacos de pano. Parece-me a mim que são muito mais concorridos que os supermercados e não são apenas os pobres e os velhos que os frequentam, mas toda a gente (ok, o rei e a rainha e os comissários europeus não contam.

Produtos ecológicos - Não é uma regra geral, mas aqui muitos dos produtos ecológicos são mais baratos que os convencionais - pelo menos o papel reciclado, desde o papel higiénico ao de cadernos e resmas, estavam mais baratos que os convencionais num supermercado a que eu fui.

Produtos biológicos - Os produtos biológicos estão mais ou menos ao mesmo preço que os produtos convencionais no supermercado. Alguns são mais caros, outros são ao mesmo preço e alguns são mais baratos, como o caso dumas ervilhas congeladas bio que eu comprei e que eram mais baratas que as convencionais. Também são fáceis de encontrar e os supermercados têm-nos em abundância e diversidade e não apenas um ou dois num canto, a preços exorbitantes, como acontece em Portugal.

Lojas de 2ª mão - Ainda só conheço 3, mas elas abundam em Bruxe1as. Uma vende roupas dos anos 50, 60 e 70 a preço razoáveis (10-20 euros). Outra vende principalmente móveis, mas também peças de decoração, livros e cds e tem uma secção de antiguidades, mas os preços não são tão modestos, embora ainda assim sejam razoáveis. Doutra já eu falei (aquela que parece a Pollux) e é a mais interessante. Só vende coisas doadas e por isso os preços são incrivelmente baixos - a média dos preços do que eu já trouxe de lá deve rondar 1 euro. Esta loja tem objectivos humanitários. Acho que as pessoas que lá trabalham são todas pessoas carenciadas e os lucros de todas as vendas servem para sustentar uma série de projectos em Bruxe1as para pessoas carenciadas. E parece que têm imenso sucesso, que as pessoas doam imensas coisas - acho que eles vão a casa das pessoas buscar móveis e outros volumes.

Os transportes públicos - A rede de transportes é excelente e como me disse o Marco, não há razão nenhuma para uma pessoa andar de carro em Bruxelas. Comprei um passe anual de metro+bus+tram (metro+autocarro+eléctrico) e em 5 minutos já tinha na minha mão um passe com a minha foto, para poder usar estes 3 transportes livremente durante todo o ano. Alguma vez isto era possível em Portugal?

Eficiência - Ouvi muitas coisas sobre Bruxe1as e a sua burocracia, mas até agora ainda não vi essa burocracia em acção, pelo menos não a um ponto que me fizesse desesperar como acontece tão regularmente em Portugal. As pessoas são muito cuidadosas e fazem tudo "certinho",a bem da transparência e de evitar dúvidas. Mas são também rápidas e eficientes na maioria dos casos. Eu diria que há alguma burocracia, dado que é provavelmente o país com a governação mais complicada do mundo, mas por isso mesmo acho que está de parabéns. Ainda há dias comentei com alguém que Portugal, que fala uma só língua e tem um só governo, é a república das bananas que nós conhecemos, imagino que nunca teria saído da idade da pedra se tivesse a multiplicidade de línguas, comunidades e orgãos governativos que a Bélgica tem. Um destes dias falo um bocado do sistema belga só para verem o caos absoluto que seria se os portugueses tivessem que o pôr a funcionar.

A multi-etnicidade e multi-culturalidade - É muito raro ver por aqui "verdadeiros belgas". Há imensos indianos, chineses, japoneses, africanos, árabes, sul-americanos, franceses, ingleses, alemães, portugueses e tantas outras nacionalidades e etnias, que tenho muitas vezes a sensação de estar numa espécie de ilha no centro do mundo ou numa estação espacial das nações unidas e não num país específico.


As coisas menos boas

Os multibancos - Não há multibancos nesta cidade! Quer dizer, já encontrei um ou dois num espaço de um mês, mas para quem vem da terra dos multibancos, isso corresponde a nada! Quem quer levantar dinheiro tem que ir às caixas do seu próprio banco, caso contrário disseram-me que cada transacção numa outra caixa custa 80 cts (informação por confirmar). O pior é que as sucursais de cada banco também não abundam. Do banco em que abri conta também ainda só vi duas sucursais, felizmente uma delas é na mesma rua que o meu escritório.

Internet - Ciber-cafés nem vê-los. Já me disseram que há lojas onde podemos consultar a internet, em quase cada esquina da cidade, por apenas 20 cts/hora. Pois, isso é muito bonito, mas porque será que eu já corri metade da cidade e ainda não vi nem uma!!! Será que se escondem de mim, será que preciso de óculos? Também me disseram que há Wi-Fi por todo o lado e que só preciso de um portátil para aceder à net em qualquer lado. Mais uma vez, curiosamente, a teoria não se aplica ao meu caso particular porque eu não apanho rede em casa. Contactei o fornecedor de internet e disseram-me que só conseguiria apanhar o sinal a partir dum 6º andar para cima. Serão doidos? Tentei internet móvel (via rede telemóvel) disseram-me que por questões técnicas não podem satisfazer o meu pedido (pedi mais explicações e ainda não me deram), pedi internet via fio de electricidade (é verdade, existe! e é muito inovador!), mas disseram-me que a minha rua ainda não é coberta por este serviço. Se eu estivesse a morar num bairro da lata nos subúrbios da cidade, eu até compreendia tudo isto, mas estou numa avenida duma zona "bem", a dois passos do centro da cidade, como é isto possível? Só me resta internet por cabo e ADSL, que eu andava a evitar, porque envolve instalação de fios. Já pedi à Belgacom que viesse instalar um fio telefónico, mas tenho que esperar quase 2 meses para me fazerem esse favor...

Telemóveis - Comprar um telemóvel foi fácil, o mais difícil é carregá-lo. Habituada a carregar o telemóvel no multibanco, lá fui em busca de uma caixa e passado uma semana sem saldo lá encontrei uma, apenas para saber que as únicas opções disponíveis na caixa eram mudar o pin ou levantar dinheiro. Lá procurei então uma loja da Mobistar (a minha rede) e descobri que há um sistema qualquer que me permite fazer os carregamentos via telemóvel, mas para o activar não aceitam o meu cartão visa e exigem que eu tenha uma conta e um cartão de um banco belga (algo de que já tratei mais ainda estou à espera).

Recolha do lixo - Aqui faz-se recolha porta-a-porta. As pessoas têm que comprar sacos brancos, azuis e amarelos para lixo indiferenciado, embalagens e papel, respectivamente e colocá-los na rua nos dias de recolha de cada um. O desafio está em descobrir em que dias é que é recolhido o quê. Tentei perceber através do que as pessoas faziam - se via sacos amarelos na rua, anotava na agenda "dia de sacos amarelos" e por aí fora - mas depois a coisa complicou-se, porque aparentemente muitas pessoas não respeitam o calendário e põem o lixo na rua quando lhes apetece. Perguntei ao meu vizinho de cima e ele pareceu-me mais perdido nessa questão que eu e só contribuiu para me baralhar mais. Primeiro disse que sacos amarelos eram na 2ª feira, para depois dizer que eram amarelos e azuis, para depois dizer que se calhar era antes à 3ª... Continuo sem saber muito bem, mas como toda a gente põe os sacos amarelos e/ou azuis, às 2ª e às 3ª, eu faço o mesmo. Já procurei a informação na internet e até mesmo em folhetos da comuna sobre a separação do lixo e nem aí indicam o misterioso calendário dos sacos amarelos e azuis. Lá terei que fazer unstelefonemas...

Os aldrabões - Já por duas vezes me tentaram aldrabar com os trocos. Uma vez foi numa feira da ladra - um tipo vendia um ferro de engomar por 2.5 euros, eu dei-lhe 4, ele devolveu-me 50 cts e ficou à espera que eu não reparasse na falta de 1 euro. Mas eu reclamei e ele fez-se de tontinho e pediu muitas desculpas. Pior ainda foi numa banca de comida rápida, onde pedi um "diavoletto vegetariano" que custa 2.80 euros e eu só tinha uma nota de 50. O homem deu-me troco para 10 euros! Olhei para ele com os olhos esbugalhados a pensar que nunca um snack me tinha custado tão caro. Ele percebeu que eu não estava distraída nem era parvinha e também se desfez em desculpas e lá me deu o dinheiro. É preciso ter cuidado com estes tipos. Quando percebem que eu não falo francês muito bem devem achar que com sorte também não faço contas muito bem.

A xenofobia escondida - Ainda não aconteceu nada que me fizesse sentir mal-recebida por aqui, pelo contrário, acho que as diversas comunidades que habitam Bruxe1as vivem harmoniosamente e usufruem ao máximo da troca inter-cultural que aqui se proporciona. Mas há zunzuns de que os belgas não gostam muito dos não-belgas. Em Bruxe1as isso não se sente mas eventualmente é mais notório noutras regiões do país. Aqui os belgas são eles mesmos uma minoria, pelo que mesmo que não gostem, têm que aceitar que Bruxe1as já não é a capital do país deles, mas sim uma nação à parte - uma nação de nações.
Mas mesmo que houvesse xenofobia aberta e às claras, eu seria sempre um alvo improvável. Apenas quando abro a boca eles se apercebem que eu não sou belga e quando isso acontece, na maioria dos casos julgam que eu sou alemã. Quando sou apresentada às pessoas e não lhes é dito que eu sou portuguesa, elas pensam sempre, sempre que eu sou belga. Mesmo que toda a gente esteja a falar inglês no local, comigo tentam sempre começar uma conversa em francês e é engraçadíssimo quando explico que tenho muito gosto em praticar o meu francês, mas que essa não é a minha língua materna. E depois, claro, vem a pergunta inevitável se eu sou alemã. LOL

Os "europeus" - Numa outra categoria de xenofobia, está o desagrado dos belgas para com os "europeus". O Marco aconselhou-me a guardar sempre o crachá do Parlamento Europeu quando sair do seu "espaço protegido" para a "cidade lá fora", porque os belgas não gostam muito dos "europeus". Fiquei boquiaberta quando ele me disse que uma vez ele se esqueceu de guardar o crachá e que só se apercebeu disso quando notou que os belgas o tratavam de maneira diferente, mais rude e grosseira. Eu pensei que também pode ter sido porque achavam que ele se estava a exibir "Eh, olhem para mim! Eu vou ao Parlamento" (lol) e que isso poderia desagradar-lhes por não gostarem de exibicionistas, mas eu sei que os belgas nunca gostaram muito que a União Europeia viesse aterrar na terra deles. Ainda por cima há umas histórias estranhas sobre a construção do Parlamento (ou será da Comissão? Agora não me lembro) ter causado a destruição duma zona com valor arquitectónico ou histórico belga e que isso lhes ficou atravessado - e com toda a razão, penso eu.


As coisas estranhas ou simplesmente engraçadas

Marca branca - Aqui a marca do próprio supermercado nem sempre é mais barata que as outras marcas, por vezes é bastante mais cara, vá-se lá saber porquê...

Madame Pipi - As senhoras que supervisionam as casas de banho públicas e recebem as nossas moedinhas, aqui recebem o carinhoso nome de Madame Pipi.

Plaquinhas com nome - Acho que não é geral, mas por aqui usa-se muito as plaquinhas com os nomes dos residentes, na campaínha e na caixa de correio, em vez da indicação do andar e do dtº ou esqº. Mandar fazer estas plaquinhas, segundo me disseram, além de custar quase 15 euros,também demora algum tempo, tal é o número de encomendas. Já tenho uma plaquinha com o meu nome na campainha, mas felizmente não tive que a pagar, porque o senhorio assumiu essa responsabilidade. Acho que é uma questão de negócio, porque com a quantidade de pessoas que chegam e partem de Bruxe1as todos os anos, há sempre clientes para as plaquinhas. Disseram-me que não, que esquisito é não pôr o nome na porta, pois assim como sabemos que a correspondência chega ao destino? Tentei explicar que tanto se pode perder se indicarmos "nº53 - 3º direito" como se indicarmos "nº53 - Maria Joaquina", porque os erros acontecem na mesma, mas a minha opinião não foi compreendida.

C0uve-de-Bruxe1as - Há por cá couves-de-Bruxe1as e finalmente pude comê-las frescas em vez de congeladas como sempre as conheci. Mas estranhamente, estas couvinhas não são o símbolo vegetal de Bruxe1as, mas sim as endívias. Há por cá uma verdadeira adoração por endívias e os bruxe1enses gabam-se de ter mil e uma receitas com este vegetal. No mercado as senhoras acotovelavam-se numa banca de endívias como se lá estivessem a oferecer dinheiro.

Cães portáteis - Os bruxe1enses adoram cães mas, penso que por razões de economia de espaço, só os têm em tamanho mini, entre 25-50 cms de comprimento. Já vi dezenas e dezenas de pessoas a passearem os seus cãezinhos, mas apenas 3 cães "grandes", dos quais apenas 1 era realmente grande (um pastor-alemão) e os outros 2 eram de tamanho médio (tipo dálmata). Todos os outros cães que vi poderiam ser confundidos com gatos e nalguns casos extremos, com ratos... Nalguns bairros mais bem-equipados, no meio dos jardinzinhos que se encontram ao longo duma avenida, separando as estradas de sentido inverso, encontram-se casas de banho para cães - zonas cercadas, com areia para os cãezinhos fazerem os seus dejectos. Ocorreu-me que em Portugal estes wc caninos poderiam chamar-se Cócãos :)

Carrinhos de compras - Já falei um pouco sobre a necessidade de se ter um carrinho para se ir às compras em Bruxelas, mas ainda não sabia aonde se podiam comprar esses carrinhos. Finalmente descobri-os, nas lojas de malas e sapatos, em vários tamanhos, formas e padrões. O sucesso destes carrinhos é tal que há para todos os gostos e carteiras, desde os mais baratos a 20 euros aos modelos de luxo a 150 euros!!! Infelizmente os que têm a melhor razão qualidade/preço andam em redor dos 50 euros, mas inventiva como sempre sou, já estou a engendrar maneira de construir o meu próprio carrinho por menos de 10 euros ;)

Trocar o carro por uma bicicleta - Está a decorrer em Bruxe1as uma campanha que eu julgava que nunca ninguém teria coragem para lançar a não ser os ecologistas mais radicais que tivessem fumado umas passas. Está a ser proposto aos bruxe1enses que entreguem a placa de matrícula do seu carro, por uma ano, a troco de um passe gratuito anual para os transportes públicos. Quem quiser ser mais ousado, pode entregar o carro todo para ser destruído e nesse caso oferecem além do passe, uma bicicleta topo de gama. Eu pergunto-me, quem no seu perfeito juízo vai destruir o seu automóvel para receber uma bicicleta em troca? Só quem tenha um carro que esteja tão velho e a cair de poder, que o fosse entregar na sucata de qualquer maneira ou alguém que por acaso atingiu a iluminação recentemente e que tenha perdido todo o apego ao dinheiro e bens materiais. Que nos incentivem a não usar o carro exige coragem, mas que nos incentivem a destruí-lo é preciso loucura! Mas eu apoio a campanha, mais não seja porque é revolucionária!

Friday, October 06, 2006

Noites em branco e novos amigos


A semana passada iniciou-se a temporada de Nocturnes, que consta da abertura de museus durante a noite a preços reduzidos. Na noite de arranque dos Nocturnes, ofereceram entrada gratuita em 5 museus na área da Grand Place. Eu tinha pensado chegar às 17h, hora de abertura e vê-los um a um, mas logo por azar este foi também o primeiro dia de mudança do escritório e tive que ficar até tarde a empacotar dossiers e a desmontar móveis, pelo que só consegui chegar à Grand Place por volta das 21h.
Tive que escolher um de entre os dois locais que para mim eram os mais interessantes: o Museu da Cidade (Hôtel de Ville) e a Câmara Municipal (que não é bem um museu, uma vez que é um local de trabalho, mas que é um dos edifícios mais impressionantes de Bruxe1as). A Câmara tinha uma fila bem maior, por isso escolhi o Museu da Cidade, apesar de estar convencida de que estava a fazer uma má escolha. No final não me arrependi, porque a Lena disse-me que foi ver a Câmara e que achou uma seca, porque tudo o que há para ver é a arquitectura interior do edifício. No Museu da Cidade, além de ter aprendido um pouco mais sobre a história da cidade, pude visitar a sala-de-vestir do Manneken Pis. Esta estatuetazinha do menino a fazer xixi é pequena e nada impressionante, mas consegue atrair muitas atenções. De tal forma, que cada vez que alguém vem à Bélgica em visita oficial traz uma fatiota representativa do seu país ou organização para oferecer ao menino. A sala-de-vestir do Manneken Pis é o local onde estão guardadas estas centenas de fatiotas. E é, literalmente, de mijar a rir! Desde um fatinho de Elvis Presley, até um fato completo de samurai, com armadura, capacete e espada japonesa em miniatura, não faltam roupinhas para vestir à estátuazita. Homens crescidos a brincar às bonecas, é o que isto me parece.
Quando terminei a visita, a noite estava fantástica, quente e animada, pelo que decidi dar mais umas voltinhas antes de ir para casa. Passei pelas Galerias Reais de St. Hubert que, segundo li, foi o primeiro centro comercial a ser construído.
Faz sentido que o conceito de centro comercial tenha nascido aqui. A chuva frequente pela qual Bruxe1as é famosa devia ser muito má para o negócio, porque tal como hoje, ninguém devia gostar de ver montras debaixo de chuva. Alguém teve então a brilhante ideia de pôr um telhado de vidro sob as ruas com lojas, et voilá, nasceu o centro comercial.
O ambiente nestas galerias é lindíssimo. As montras são verdadeiras obras de arte e as pessoas páram para tirar fotografias em frente a elas.
Apaixonei-me por uma loja de roupa em particular, de uma estilista com um nome estranho que não consegui fixar. Os preços devem ser exorbitantes, mas hei-de lá voltar para a ver com atenção. Fiquei completamente apaixonada, principalmente pelo vestido vermelho da montra, que eu gostaria de usar todos os dias :)

No sábado foi a Nuit Blache, uma iniciativa que decorreu em diferentes dias em várias grandes cidades da Europa. Basicamente Bruxelas esteve acordada toda a noite, com exposições, concertos, raves e coisas bastante mais exóticas a acontecer por todo o lado. Eu tencionava ter uma noite branca também, mas pela 1h30 da manhã lá estava eu a dormir, porque nem os meus companheiros de aventura (Stylianos e Sevelina) quiseram continuar a pé, nem o clima ajudou pois começou a chover a potes.
Mas ainda tive oportunidade de estar um tempo na Place de Ste Catherine, onde decorreu uma animada festa cubana-brasileira, com capoeira (um dos melhores grupos de capoeira que já vi), batucada, muita caipirinha e picanha (não que eu lhe tenha tocado, claro). Perto da praça encontrei as Créations Spontanées: um grande salão, uma dúzia de estilistas, uma pilha de roupa em 2ª mão até ao tecto, a oportunidade de pedirmos a um dos estilistas que fizesse algo só para nós e uma sessão fotográfica do resultado para mais tarde recordar. Lembrei-me logo que me faziam ali falta as minhas queridas amigas! Teriam adorado isto!!! O Srylianos e a Sevelina limitaram-se a esperar por mim numa esplanada cá fora.
Infelizmente não escolhi o estilista que mais me agradou, mas um dos menos concorridos, porque o tempo de espera era apenas de 1 hora em vez de 2... Peguei em 3 vestidos e disse à estilista "faça qualquer coisa a partir disto". Resultado: fundiu-me os 3 vestidos num só que infelizmente era horripilante, mas que chamou a atenção das centenas de pessoas que estavam naquele pavilhão. Fiz a sessão fotográfica, mas ainda não fui buscar as fotos ao fotógrafo. Seja como for, acho que fiquei com os olhos fechados em metade das fotos e nas que fiquei de olhos abertos, concerteza serão as outras pessoas a fechá-los quando olharem para elas. Ah, participar nesta brincadeira custou 2 euros e mesmo que o resultado final seja impróprio para usar na rua, valeu a pena pela diversão.

De segunda a quarta-feira estive alojada no Centre d'Hébèrgement Waterman, junto ao Canal, onde decorreu o I Seminário do EVS a que eu deveria comparecer como parte do voluntariado. Não foi muito útil em termos de aprendizagem, porque não me disseram lá nada que eu já não soubesse sobre Bruxelas ou sobre o Programa Juventude e o EVS, mas valeu muito a pena pelos amigos que lá encontrei. Especialmente a Eva! Foi amizade à primeira conversa e não nos largámos mais todo o seminário. Além de ser vegetariana-a-dar-para-o-vegan como eu, conhece bem Portugal, pois já lá trabalhou, está a fazer o voluntariado numa organização ligada à defesa das montanhas e do mundo rural, sediada na mesma rua que o meu novo escritório, entre mil e uma outras coincidências interessantes.
Para este fim-de-semana já convidei os meus novos amigos a acompanharem-me à abertura do Festival India que vai animar Bruxelas durante os próximos tempos, mas ainda não sei se alguém me acompanha pois convidei-os em cima da hora. Mas só ou acompanhada, lá estarei. Depois conto como foi :)

Ups, ia-me esquecendo doutra novidade. Ao regressar do seminário, encontrei um rato no meio do passeio, frente à porta do meu prédio. Julgando que ele iria fugir a sete pés aproximei-me devagarinho mas ele não fugiu como previsto. Toquei-lhe ligeiramente com o pé e ele começou a roer o meu sapato. Percebi imediatamente que era um animal domesticado, perdido ou abandonado, esfomeado e desorientado. Depois de praguejar um bocado enquanto dava voltas a pensar no que fazer, lá lhe atirei o casaco para cima e trouxe-o para casa. Dei-lhe pão duro e água e fiquei logo apaixonada - apesar do aspecto arrepiante ele não passa de um hamster em ponto grande. Mede cerca de 15-20 cms, não incluindo a cauda e é albino, branquinho de olhos vermelhos. Espalhei cartazes pelo bairro perguntando se alguém perdeu um rato, mas ainda ninguém o reclamou, ou porque não o quer de volta ou porque ele veio de mais longe. Por isso amanhã vou comprar-lhe uma gaiola, pensar num nome para lhe dar e num veterinário para o levar (convém certificar-me que ele não tem parasitas que possa passar para mim). Depois de hamsters, periquitos, tartarugas, cães e gatos faltava realmente experimentar o que é ter um rato. Depois disto, começo a imaginar que outro animal me irá um dia bater à porta.

Monday, September 25, 2006

Ir com calma

Nota para os ecologistas não-vegetarianos (para evitar confusoes): eu não disse no post anterior que todos os ecologistas deveriam ser vegetarianos (embora não vos fizesse mal nenhum e só trouxesse bem ao mundo), eu apenas disse que deveriam pensar naquilo que põem no prato, assim como deveriam pensar em poupar luz e poupar água e separar os vossos resíduos. O que concluem dessa reflexão é com cada um, mas de certeza que vão mudar alguma coisa na alimentação e não tem que ser necessariamente tornarem-se vegetarianos: comerem mais vegetais e fruta, reduzirem substancialmente os produtos animais, comprarem mais produtos biológicos e locais, já são passos de gigante. Era a isso que eu me referia.

......................

Este fim-de-semana comecei a pôr em prática a política de "ir com calma".
No sábado de manhã dediquei-me às limpezas, porque ainda não tinha tido tempo de limpar esta casa desde que cá cheguei.
Depois de almoço adormeci no sofá, mas felizmente tinha ligado o alarme do telemóvel para me acordar, pois combinei com a Lena irmos à Welcome Fair no Autoworld, no Parc du Cinquantenaire. Era apenas um conjunto de bancas com informação aos "newcomers" de Bruxe1as. Como bónus, pudémos apreciar os carros antigos do Autoworld (museu do automóvel) e ver uma actuação dum grupo Gospel, mas para mim a visita valeu a pena pela quantidade de brochuras, folhetos e revistas que trouxe. Levei um saco grande, pois já esperava trazer muita papelada, mas nunca pensei que fosse assim tanta: 5 kilos de papel! Tive que vir directa para casa depois da feira, porque não aguentava andar a passear com aquele peso. Fiquei o resto da tarde e da noite a ler a literatura recolhida.
De tudo o que li, além de ter retirado imensa programação cultural que já coloquei na minha agenda e me vai ocupar durante os próximos meses, trouxe algumas brochuras propondo actividades físicas a preços modestos, das quais vou decididamente escolher uma.
Para o domingo tinha 5 coisas programadas na agenda: uma feira marroquina em St.Lambert-Woluwe, uma feira da Gasconha na Place du Grand Sablon, uma feira de produtos de design artesanais em Ste.Catherine, um mercado na Gare du Midi e uma ida ao cinema no Kinepolis, mas tive que (mais uma vez) chamar-me à razão e escolher apenas uma ou duas coisas para fazer.
Por questões de proximidade, escolhi a feira em St.Catherine e aproveitei para conhecer a zona e depois fui ao mercado na Gare du Midi, porque precisava mesmo de provisões e a Lena dissera-me que aquele era um bom mercado para comprar fruta e vegetais.
A feira de artesanato não era para a minha bolsa, mas o mercado na Gare du Midi decididamente tinha preços do meu agrado.
Encontram-se por lá verdadeiros negócios da China: 1 euro o kilo de pêssegos, maçãs, pêras, nectarinas ou 3 por ananazes! Um vendedor vendia caixas inteiras de legumes, com menos bom aspecto ou de "fim de coleccao" mas ainda perfeitamente bons, por apenas 1 euro. Escolhi uma caixa com: 1 couve, 1 ramo grande de salsa, 1 pimento-vermelho, 1 beringela, 2 batatas-doces, 3 alhos-francês, 1 rábano, 5 cenouras, 3 mini-courgettes e 1 enorme pepino. Eu queria trazer as caixas todas que ele lá tinha, mas já estava tão carregada que era impossível trazer mais alguma coisa. No final vim de lá com cerca de 10 kilos de fruta e vegetais, por menos de 10 euros.
Eu sei que volto sempre a falar disto, mas é que eu acho incrível como se pode viver por tão pouco em Bruxelas, se se souber onde estão as pechinchas! Pessoalmente, preferia comer biológico todos os dias, mas como ainda nao me posso dar a esse luxo, tenho que alternar biológico com baratezas. No entanto, há dias vi a referência a um estudo no Reino Unido que demonstrou que apesar de os produtos biológicos custarem em média 30% mais caro que os convencionais, quem tem uma allimentação biológica gasta menos 8% em alimentação que os que não a têm. Tenho que tirar isto a limpo, porque se assim for, eu quero experimentar para crer.
Como ando sempre tão carregada de compras, há dias pensei em arranjar um daqueles carrinhos que as senhoras levam ao mercado, mas hesitei por causa do preconceito de que é foleiro e acabei por comprar antes dois sacos de pano. Mas quando cheguei a casa com as mãos roxas e os braços doridos de carregar os sacos de compras e depois de ter visto a quantidade abismal de homens e mulheres de todas as idades e estilos, com o seu carrinho cheio de compras, na estação de comboios, na estação de metro, em todo o lado, decidi que tinha que deixar de ser tola e comprar um também. Em Bruxelas, usar carrinho para ir às compras não é foleiro, é mesmo uma necessidade.

Thursday, September 21, 2006

Cocktail

Hoje acompanhei o Marco a um cocktail de inauguração do novo escritório doutra organizacao com quem colaboramos. Ele não me deu quaisquer tipo de instruções em relação a indumentária, por isso fui com roupa normal. Nem hippie, nem formal, apenas calças e camisola, púrpura claros, normais - e que para os meus conceitos já seriam demasiado formais. Mas nunca me lembro que há conceitos estranhos na cabeça das pessoas, como o facto de considerarem o preto uma cor formal e portanto, mesmo que estejam de t-shirt e calças de ganga, se estes forem pretos, já consideram estar vestidos de forma formal. Portanto o que eu encontrei, basicamente, foi um funeral. Vinte a trinta pessoas todas vestidas de preto, nem por isso com roupas formais, apenas todos de preto. Vestida de púrpura dos pés à cabeça, não podia ter dado mais nas vistas. Senti-me logo extraterrestre.
Depois como não conhecia absolutamente ninguém, o Marco tentava integrar-me nas conversas que ele tinha com as pessoas, mas como ele tem 2 metros de altura, deve sentir algum apelo especial por falar pessoas com a mesma estatura, portanto vi-me rodeada de 3 ou 4 homens de 2 metros de altura que eu mal conseguia ouvir, pois as vozes deles nem sequer atingiam o meu rés-do-chão.
Então ofereceram-me canapés, mas eram todos de camarão, patés, queijos, coisas animais, pelo que eu perguntei se não teriam nada vegetariano. Lá havia umas rodelas de pepino com um molho qualquer por cima e eu arrisquei. Mas no meio do molho havia delícias-do-mar. Enfim, desisti de comer fosse o que fosse. Também por essa altura já não tinha fome nenhuma.
Sendo eles protectores de aves (nao digo qual é a organizacao, mas posso dizer que protege aves), fazia sentido que pelo menos aves não comessem, mas claro que eles só protegem as aves que não são boas para comer. Estranho sempre estes ecologistas, conservacionistas, que no momento de encher a barriga deixam imediatamente de se preocupar com a ecologia e a protecção dos animais. Mas claro que isto é uma questão complexa e eu estou a simplificar.
O Marco disse-me que quando chegou a Bruxelas era praticamente um hippie vegan e que agora come tudo o que lhe põem à frente e anda de fato e gravata, porque é muito difícil fazer lobby e ir a este e àquele cocktail, evento, jantar, etc, se não se alinhar com os hábitos irracionais das pessoas que estamos a tentar trazer para o nosso lado (embora ele diga que detesta ter de o fazer). Não é nada que eu já não soubesse quando vim para cá e vim disposta a experimentar esse teatro. Mas há limites até onde estou disposta a ir. Posso vestir-me mais ou menos como é esperado, fazer conversa da treta como é esperado, dar alguma manteiga como é esperado, mas não abdico da minha alma.
Sinto que estou a viver uma espécie de "My Fair Lady". O Marco viu qualquer potencial em mim e agora está a mostrar-me como ser uma "lady" para dar uso a esse potencial. Eu aceito até certo ponto essa transformacao, pois sinto que é benéfico para mim e quando vim para cá já contava com ela, mas há princípios dos quais não abdico. Não quero ser apenas mais uma qualquer vestida de preto, bebendo champanhe e comendo um camarãozinho, muito vermelhusca e a dar risadinhas porque o Comissário X me deu a honra de me dirigir uma palavra. Quero ser capaz de me integrar e deixar de me sentir um ET, mas quero manter a minha identidade.
Por exemplo, eu tenho a certeza que é possível fazer lobby e ser-se vegetariano, o Marco é que não se quis dar ao trabalho de ser firme nisso, quando as opcoes sao mais reduzidas. Afinal a cantina do Parlamento tem uma seccao de comida vegetariana. Deve haver deputados vegetarianos. E quando nao há comida especificamente dirigida a vegetarianos, arranja-se sempre algo vegetariano para comer, nem que seja arroz com salada.
Estive a observar o Marco uma boa parte do tempo e a pensar curiosa como seria ele há 3 anos atrás quando cá chegou. É que olhando para ele agora, parece que sempre fez isto.
Curiosamente, a Lena e o Stylanos comentaram comigo que ele só continua a ser rígido em relação ao álcool, que não bebe nunca. Pois, pois,... então eu assisti à queda do império, porque ao fim de 2 sumos de laranja, ele lá aceitou um champanhezito e depois disso perdi-lhes a conta. Quando me vim embora ele estava visivelmente... digamos que...animado ;) Eu só bebi sumo de laranja, cerca de 5 copos.
A noite estava a ser uma seca, até que conheci um amigo grego do Stylanos. É engraçado como o mundo é pequeno. Vieram os dois da Grécia e conheceram-se na Holanda, onde eram colegas na Universidade de Wagenigen e um dia mais tarde, por acaso, encontraram-se em Bruxelas, os dois a estagiar em organizações que colaboram entre si. E agora fui eu que tive a oportunidade de os conhecer em separado. Tivémos uma conversa animada de 1 hora até que eu lhe disse que tinha mesmo que me ir embora, porque já era tarde e porque eu já estava a ficar sem voz. Mas combinámos voltar a encontrar-nos, juntamente com o Stylanos, já que nos conhecemos todos e temos tanto em comum. Começo a gostar muito dos gregos, pelo menos os que são ecologistas, gostam de agricultura biológica e estagiam em Bruxelas ;)

Tuesday, September 19, 2006

Cansada mas feliz

Na 5ª feira à tarde comecei a sentir-me mal e ao fim do dia já não me aguentava em pé. Depois de uma reunião à qual não podia mesmo faltar, tive que ir para casa e pelas 19h já estava na cama a dormir.
Os sintomas que sentia eram os de uma gripe: febre, náuseas, fadiga, falta de força, dor de cabeça e de garganta. Decidi dar descanso absoluto ao organismo e dormi 14 horas.
Pela manhã já me sentia melhor, mas mesmo assim achei que era melhor ficar em casa para não ter uma recaída. A Lena disse-me que não fazia mal e concordou que eu precisava de descansar. O Marco também iria estar fora todo o dia e não teria tarefas urgentes para me dar.
No sábado já me sentia bem e o Stylanos passou por minha casa para me ajudar a montar a minha nova cama. Fiquei tão contente por finalmente poder arrumar a barafunda em que me encontrava e ter espaço para me mexer, que melhorei um pouco mais depois disso. Foi aí que pensei a sério que podia haver muito de psicossomático na minha doença súbita.
O rápido aparecimento e desaparecimento dos sintomas de gripe foram tão rápidos, que os meus colegas não acreditaram muito nesse diagnóstico inicial. Para eles estes sintomas foram apenas uma manifestação de exaustão do meu organismo. Acusaram-me de querer fazer demasiadas coisas num intervalo de tempo muito curto e que eu não podia continuar a viver àquele ritmo.
O factor vírus pode ou não ter entrado na equação, mas não faltaram outros factores que combinados podem ter levado a estes sintomas e nisso concordo com eles: o excesso de informação nova para assimilar, o calor extremo que se tem sentido e eu só com roupas de outono-inverno, a falta de rotina no meu dia-a-dia, a comida improvisada, o sono de má qualidade no sofá-cama, passeios e mais passeios, carregar compras e móveis até ficar de rastos, etc, etc.
No domingo a Lena tirou-me uma fotografia, mas eu estava com tão mau aspecto que nem a vou mostrar. Só então é que me apercebi do meu ar exausto, com umas olheiras 3 vezes piores que as habituais e uns papos debaixo dos olhos como se não dormisse há 3 noites.
Decididamente tenho que abrandar. Afinal vou estar cá um ano e ando a correr tudo como se só estivesse aqui a passar umas férias curtas.
Mas ainda não comecei a abrandar este fim-de-semana. Iam acontecer tantas coisas interessantes que eu não consegui simplesmente ficar em casa a descansar. Decidi abusar só um pouquinho mais de mim própria, mas juro que foi a última vez!
No sábado, encontrei outra feira da ladra - aqui há-as em todas as esquinas - três vezes maior que a da semana passada e percorri-a de fio a pavio. Comprei um ferro de engomar, uma varinha mágica, um candeeiro e uns sapatos, tudo pela módica quantia de 10 euros.
No domingo era o dia sem carros em Bruxelas e a Lena convidou-me para participar com ela numa série de actividades que iriam decorrer. Novamente ocorreu-me que devia descansar, mas como é que podia perder a oportunidade? Fomos ver Bruxelles Champêtre, uma espécie de feira de produtos agrícolas com animais da quinta e barraquinhas de todo o tipo de associações ligadas ou não à agricultura. Chegámos lá entusiasmadas, mas acabámos por achar aquilo deprimente. O Marché Biologique anunciado numa placa era afinal um grupo diminuto de barraquinhas que vendiam queijos e carnes grelhadas - aparentemente não produzem frutas e legumes biológicos na Bélgica. Lá havia uma barraquinha que vendia maçarocas de milho biológico na brasa, que comemos com agrado, mas nao havia mais nada de origem vegetal. As restantes barraquinhas da feira promoviam carne, leite e queijo e o "uso sustentável" de nitratos e outras patacoadas do género. Fascinante, portanto, para uma vegetariana e uma semi-vegetariana, adeptas de agricultura biológica. Trouxemos brochuras e panfletos, para tentarmos perceber se a agricultura belga é só isto ou se tem mais na manga que não estava ali representado.
A maioria dos animais em exposição estavam claramente a sofrer com aquela confusão. Uma vaca mugia em desespero e via-se claramente nos olhos dela que queria estar bem longe dali, enquanto dezenas de pessoas faziam fila para lhe tirar um pouco de leite. Uns porquinhos jaziam imóveis num canto, enroscados uns nos outros, tentando isolar-se do pesadelo em que estavam metidos e o seus corpos estavam cheios de arranhões e equimoses. Senti imensa pena dos bichos e repúdio pelo entusiasmo das pessoas em manipularem-nos como se fossem peluches, sem se aperceberem da inteligência e sensibilidade destas criaturas, que sofrem como nós a angústia de serem tratados como objectos.
Lá deixámos aquele sítio, que ao contrário do anunciado, mais parecia um circo que uma quinta e fomos até à Grand Place, pois a Lena disse que também lá estava a decorrer qualquer coisa. No meio de milhares de pessoas, encontrámos umas barraquinhas de vários grupos de Bruxelas, mas a confusão era tal e o interesse não era assim tão grande, que desistimos de as visitar e a Lena levou-me duas ruas abaixo, para eu conhecer o Manneken Pis. Chegámos mesmo no momento em que lhe mudavam a vestimenta e em que um grupo de tipos mascarados que estava na Grand Place, se dirigiu com pompa e circunstância até ao local da estatueta. O grupo entitula-se algo parecido com uma congregação dos amigos de Manneken Pis. Não sei qual é a história deles, mas à primeira vista era apenas um grupo de homens com fatos ridículos e grandes penachos na cabeça, a distribuir laranjas ao som de bombos. OK, deve haver um significado produndo por detrás disto e eu interrogo-me sobre qual seja. Vou ver se leio nalgum dos meus guias de Bruxelas.
Demos mais umas voltinhas, sem destino definido, só para vermos aquela gente toda sobre rodinhas, ruas abaixo, ruas acima, mas por fim decidimos separar-nos pois eu queria ir visitar uma feira medieval em Saint Denis e ela queria ir ver outra coisa qualquer.
Em Portugal nunca consegui ver nenhuma destas feiras, mas talvez tenha sido melhor ter-me guardado para esta, que já tem 10 anos de idade e me pareceu muito bem organizada. Comi um belo ravier des champignons grottes, que me deixou felicíssima por não ter gasto o dinheiro numa bugiganga qualquer que não me teria dado tanto gozo. Miam miam, eram mesmo deliciosos, quentinhos, picantes, com um belo molhinho e um paozinho cozido em forno de lenha, miam miam.
Cheguei a casa mais uma vez exausta, mas feliz e com 70 fotografias para descarregar da máquina fotográfica.
Entretanto prometi a mim mesma que vou arranjar uma rotina menos cansativa, em que possa passear aos fins-de-semana, mas com muito descanso à mistura, caso contrário ainda volto a adoecer e acabo por não aproveitar nada da minha estadia.

Thursday, September 14, 2006

Ainda não totalmente instalada, mas já a trabalhar a sério

Ontem fui assistir a um Comité de Agricultura e Desenvolvimento Rural no Parlamento Europeu, mas o Marco disse logo que não era porque fosse importante, era apenas para eu me começar a ambientar.
Durante uma hora o comité procedeu a votações de propostas duma sessão anterior e eu aproveitei para ler os documentos da sessão que iria ter lugar a seguir. O tema era a reforma das políticas da viticultura. Fascinante, portanto. Lá apareceu a Comissária e ouvi-a discursar sobre os problemas do sector e das propostas de reforma para o mesmo, mas depois quando se iniciou a sessão de perguntas e respostas com os representantes dos vários países, aproveitei para ir almoçar, porque sem auscultadores para ouvir a tradução, fiquei a apanhar bonés. Mas ambientei-me, que era o principal objectivo. Depois dei umas voltinhas pelo Parlamento, tirei umas fotos, li uns jornais portugueses (falam sempre do mesmo ou é só impressão minha?).
Depois disto, o Marco deu-me a minha primeira tarefa a sério: ler um relatório e as alterações ao relatório, compará-los, sobrepô-los, resumi-los e realçar as partes onde se falasse de Agricultura Biológica. Parecia ser simples, mas estive mais de uma hora só para tentar perceber a estrutura e organização dos documentos, porque nem me pareciam tratar do mesmo assunto, quanto mais serem comparáveis. Mas por fim lá consegui e entreguei o trabalho feitinho.
Hoje tinha uma notinha dele a dizer "Well done" e fiquei imensamente aliviada, porque pensava que tinha feito tudo mal.
Agora tenho mais dois documentos de 50 páginas cada sobre a Agricultura e a Biodiversidade, para resumir numa página só e explorar, comentar, ver por onde lhes posso pegar para construir uma argumentação.
Entretanto o meu apartamentozito está um caos. Comprei uma cama no IKEA, daquelas elevadas que permitem aproveitar o espaço debaixo para colocar o sofá (é essa a minha ideia) mas ainda não tive tempo para a montar, por isso no espaço de 3 m2 que eu tinha disponível para me mexer, está agora uma cama e um colchão por montar e mais dois grandes caixotes de tralha que a minha mãe me enviou mas que me é impossível arrumar por agora. Tenho portanto o meu espaço de circulação reduzido a um corredor de 50 cms de largura em redor do sofá-cama. Estou um bocado farta deste caos e ansiosa por ter o quarto organizado, para me sentir finalmente instalada e poder iniciar uma rotina.

Monday, September 11, 2006

Fim-de-semana prolongado

Depois da manhã de 6ª feira a ler documentos de preparação para o meu trabalho, o Marco deu-me a tarde livre e disse-me que gozasse bem o fim-de-semana prolongado.
Fui comprar um telemóvel, um mapa detalhado, alguns bens essenciais de que necessitava e ainda passei pelos correios para fazer um recado ao Marco. Como cheguei cedo a casa, fui dar uma volta pelos arredores. Fiquei pasmada com as moradias e jardins que por aqui se sucedem. Esta é sem dúvida uma zona muito in.
Perguntei à Lena se este apartamento não custa os olhos da cara, mas ela diz que não, porque apesar de estar numa boa zona, é bastante pequeno e por isso tem um preço acessível. Custa cerca de 300 euros por mês, mas isso por aqui é do mais barato que se arranja em termos de quartos ou mini-apartamentos como este. O espaço mede 2x3 mts, mas segundo o que o Stylanos me disse, posso dar-me por feliz, pois consta que a maioria dos quartos e mini-apartamentos para alugar em Bruxelas, custam bastante mais que o meu e são bem mais pequenos. Por exemplo, o quarto dele custa 400 e tal euros por mês e segundo ele é basicamente uma despensa com uma cama. O meu apartamentozito simpático com vista para o jardim é mesmo uma rara excepção.
No sábado de manhã fui conhecer uma loja de artigos em 2ª mão, na Rue Amerikaine, que a Lena me disse ser a melhor de Bruxelas. Parece a Pollux, na Rua dos Fanqueiros, mas na versão velharias. No rés-do-chão há um departamento de roupas e calçado e outro de móveis, no 1º andar há mais móveis e no 3º há de tudo um pouco: brinquedos, artigos para bebé, utensílios de cozinha, loiças, tachos e panelas, vidros, relógios, quadros, sei lá. Trouxe um saco enorme de coisas por cerca de 12 euros: 2 peças de roupa, 2 tigelas de vidro, 2 saladeiras, 1 escorredouro de loiça, 1 colher de pau, 1 concha de sopa, 1 relógio de mesa, 1 fruteira, 1 alguidar, 1 frigideira, 1 fervedouro e 1 tabuleiro. Só não trouxe mais coisas, porque já não conseguia carregar mais.
Depois disso encontrei-me com o Stylanos que me levou de carro ao IKEA. Era suposto termos comprado uma cama para mim, para substituir o sofá-cama horrível em que durmo, mas acabámos por não trazer nada, porque surgiram dúvidas quanto às dimensões do meu quarto.
Demos um passeiozito de carro muito útil porque passámos por vários sítios que pretendo visitar mais tarde com calma, como por exemplo o Kinepolis (o maior complexo de cinemas da Europa e que tem um IMAX), o Brupark e o Atomium.
No Domingo o Marco convidou-nos para fazermos um brunch em casa dele em jeito de comemoração pela minha chegada e pelo meu aniversário. A querida da Lena cozinhou um bolo de gengibre, o Marco arranjou uma velinha, mas felizmente ninguém cantou os parabéns. O Marco preparou uns petiscos, maioritariamente com produtos biológicos (como não podia deixar de ser) e depois estivémos umas horitas a encher a pança e a conversar animadamente. Por entre panquecas, bolo de gengibre, pão com doce e outros petiscos interessantes que ele preparou, fiquei a saber que o Marco e a Lena têm histórias parecidas à minha relativamente ao seu percurso profissional e à reacção das pessoas que os conhecem. Também eles foram alvo da descrença, da desconfiança e do gozo por estudarem e praticarem agricultura biológica, mas assim que foram para Bruxelas toda a gente ficou automaticamente impressionada e encantada. "Sim senhora, Bruxelas!" As pessoas assumem automaticamente que trabalhar em Bruxelas é prestigioso e dá muito dinheiro. Até podíamos andar a lavar escadas, porque raramente nos perguntam concretamente o que fazemos, basta que seja em Bruxelas e de repente tem por nós um imenso respeito. Eu pensava que isso só tinha acontecido comigo gracas à mentalidade obtusa dos portugueses, mas aparentemente os alemães não são muito diferentes nesse aspecto. O Stylanos não passou por isso, mas o percurso dele foi um pouco diferente.
Depois do brunch, fui com a Lena e o Stylanos em busca de uma feira anual de artigos baratos vintage e de design, sobre a qual eu tinha lido no jornal. Consegui entusiasmá-los de tal forma com a feira que eles cancelaram a visita ao Jardim Botânico que tinham planeado para este dia. Depois de muitas voltinhas para chegarmos ao local que eu lhes indiquei, não havia lá nada a decorrer. Acontece que há duas praças em Bruxelas com o mesmo nome e quem escreveu o tal artigo que eu tinha comigo, não deve ter feito o trabalho de casa todo, pois dava indicações de como chegar de metro, mas relativamente à praça errada.
Felizmente a praça onde fomos fica mesmo perto do Atomium, pelo que acabámos por aproveitar para tirar umas fotos em frente a ele. Mesmo assim desfiz-me em desculpas, pois não pude deixar de sentir que lhes tinha arruinado a tarde.
Decidimos então ir a um café simpático que o Stylanos sugeriu e acabámos por ter a sorte de encontrar uma "feira da ladra" lá mesmo ao lado. A feira valia mesmo a pena pois não só o ambiente era bastante festivo, com direito a uma banda a tocar feira fora, como acabei por comprar dois pares de botas por 6 euros, que eram exactamente o que eu procurava. No café bebemos um belo Thé à la Menthe (chá verde com folhas de menta) que não parece nada de especial mas que se revelou uma verdadeira delícia.
Tenho encontrado muitos portugueses por cá, mas evito o contacto com eles. Como disse aos meus novos amigos, quero aproveitar a oportunidade de estar num sítio como este, com tanta gente de tantas nacionalidades, para conhecer pessoas diferentes e não mais portugueses, que a esses já eu conheço de gingeira. Tinha acabado de lhes explicar que os portugueses estão sempre a queixar-se de tudo quando passou por nós um bando deles na feira, queixando-se muito aborrecidos que não encontravam nada de jeito para comprar, que só lá havia trapos. Well, I rest my case...

Friday, September 08, 2006

Quick tour à la Speedy Gonzalez

O escritório do IFOAM EU Group situa-se neste momento numa sala no edifício da IUCN. No meu primeiro dia no escritório, fui apresentada a toda a gente que trabalha para a IUCN. Correu tudo mais ou menos até que conheci o patrão deles. O homem foi tão inquisitivo que me deixou logo nervosa. Perguntou-me com ar muito sério quais eram as minhas qualificações e mais um montão de coisas (como se ele tivesse alguma coisa com isso...).
Hoje fui conhecer as futuras instalações do nosso escritório. Por enquanto estamos situados na Boulevard Louis Schmidt (a dois passos do meu apartamento), mas a IUCN vai precisar do espaço que de momento cede ao IFOAM EU Group e convenientemente pediu-lhe que se mudasse. O novo escritório fica na Rue du Commerce, a 5 minutos a pé do Parlamento Europeu, numa zona bastante feia, completamente preenchida por escritórios. Assim como nos arredores de Lisboa existem os "dormitórios" - urbanizações que são apenas amontoados de prédios onde as pessoas vão dormir - em Bruxelas existem os "trabalhatórios" - quarteirões inteiros de escritórios e mais escritórios e absolutamente mais nada além disso.
O escritório actual fica num prédio antigo, com um terraço nas traseiras, onde o pessoal se senta a tomar um cházinho debaixo duma árvore sempre que está bom tempo e a entrada tem um belo portão de ferro e um caminho ladeado de rosas. O novo escritório fica no 6º andar dum prédio moderno, é completamente quadrado, com vista para a fachada dos prédios em frente e para as traseiras dos prédios de trás. Mas reconheço que o espaço está melhor equipado e é bem maior, o que vai permitir que o grupo aumente para 5 pessoas a trabalhar em permanência. E tem uma varanda enorme que pode ser carregada de plantas para quebrar um pouco a monotonia do espaço.
Pelo fim da manhã acompanhei o Marco ao Parlamento Europeu onde almoçámos com a assistente e o conselheiro dum deputado alemão dos Verdes encarregue da pasta da agricultura. Fiquei a conhecer a cantina do Parlamento, onde comi a melhor lasanha vegetariana da minha vida por apenas 4,50 euros. Se é para comer assim todos os dias, também eu quero ser deputada! :)
(In)felizmente esta semana os deputados estão em Estrasburgo, por isso só por lá andavam os inúmeros assistentes, assistentes dos assistentes, conselheiros dos conselheiros, assistentes dos conselheiros e conselheiros dos assistentes. Disseram-me que este era um dia bastante calmo e que a cantina estava relativamente vazia - mas eu nunca o diria, tal era a multidão que enchia as mesas e o barulho das conversas cruzadas! Deve ser um caos absoluto quando lá aparecem mais umas centenas de deputados.
A conversa foi informal e decorreu entre a cantina e o bar onde tomámos café, mas deu para perceber que o assunto era sério. Gostei bastante de ouvir a discussão, mas entrei a meio dela por isso não apanhei grande coisa do que se estava a passar.
Hoje entrei como convidada e tive que preencher papelada e passar por não sei quantos controlos, mas em breve irei ter um cartão de lobista que me autoriza a lá entrar quando me apetecer! Yey! Se alguém tiver algum recado pessoal a dar a algum sr. deputado, faça favor de me dizer ;)
Após sairmos do Parlamento, o Marco levou-me a conhecer a melhor loja de produtos biológicos de Bruxelas (segundo ele). Trouxe um saco enorme cheio de compras por apenas 20 euros. Nem queria acreditar.
Depois levou-me a conhecer os principais locais do centro de Bruxelas - para aí numa hora ele mostrou-me quase toda a zona histórica e ainda a zona em redor do Parlamento Europeu, do Parlamento Belga e do Palácio Real. Não parece muito, mas praticamente não tive tempo para respirar. Para acompanhar as passadas de gigante dele tive que correr quase todo o tempo. Só fizémos uma pausa de um minuto na Praça Central para eu poder admirá-la um pouquinho. Fiquei exausta com esta "quick tour à la Speedy Gonzalez", mas compreendo perfeitamente que ele não possa perder tempo com estas futilidades. Ele é uma espécie de computador com pernas, totalmente dedicado ao trabalho, que por acaso até come e respira e de vez em quando tem consciência de si próprio. Não sei se lhe pagam bem, mas espero que ele receba um salário bem gordinho que bem faz por o merecer.