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Monday, August 16, 2010

Barcelona, um mundo à parte

"Barcelona - It was the first time that we met
Barcelona - How can I forget
The moment that you stepped into the room you took my breath away
Barcelona - La música vibró
Barcelona - Y ella nos unió
And if God willing we will meet again someday"

                 Barcelona - Freddie Mercury & Montserrat Caballé

Estive uma semana em Barcelona. Enfim, não foi uma experiência tão arrebatadora como a que canta a música, mas gostei muito de lá estar e espero regressar se as causas e condições se reunirem.
Na verdade fiquei alojada em casa de um amigo em Castellterçol, uma terrinha encantadora na serra, a 45 minutos de Barcelona. Inicialmente senti-me frustrada por isso não me permitir visitar a cidade quando e como me apetecesse, mas rapidamente me rendi aos ares do campo. Passeámos pelo bosque, atravessámos quintas, bebemos de nascentes, fizemos amizade com as borboletas...
Quando finalmente visitei Barcelona, tive mais um déjà vu onírico, como sempre tem acontecido quando viajo a um sítio novo. Uma ruela inclinada e com um certo ângulo de convergência com uma praça trouxe-me à memória um sonho que tinha tido meses antes sobre um local que então não me dizia nada. Na altura pensei: não faço ideia onde seja, mas ao chegar àquela rua em Barcelona, não tive dúvida nenhuma de que era aquele local. Até a densidade de pessoas que subiam e desciam a rua era idêntica à do sonho, a praça onde desaguavam idem e tudo o resto do sonho se encaixava agora na perfeição, incluindo o pormenor de ter sonhado que ficaria alojada fora da cidade e de estar numa paragem de autocarro à espera que alguém me viesse buscar. Enquanto todas essas imagens voltavam vívidas à minha memória, eu devia estar a fazer uma cara absolutamente chocada com a experiência, porque os turistas que passavam olhavam para mim com preocupação "será que ela está bem?"
Mas deixando estas coisas incredíveis de lado, vamos aos pontos de interesse na cidade: a arquitectura de Gaudi (dica: visitar La Pedrera depois de uma caipirinha tomada no Tijuana, ajuda a entrar no espírito da coisa); as construções modernistas que pululam pela cidade; a zona velha da cidade e o antigo bairro piscatório; as praias um tanto ou quanto sujas mas extremamente concorridas e com uma água deliciosamente calma e quente; e claro os museus, mas confesso que não vi nem um.
Na verdade não vi nem metade do que poderia ter visto, pois os meus recentes amigos catalães não me deram qualquer chance de vaguear livremente pela cidade e caminhar de sol a sol como é meu costume. Antes me arrastaram de esplanada em esplanada, de restaurante em restaurante, de convívio em convívio, obrigando-me a entrar nos estranhos horários que eles seguem.
Pequeno-almoço? Tive alguma dificuldade, pois não é coisa em que os meus amigos invistam muito. Uma caneca de chá com um fiozinho de leite de espelta e lá tinha que aguentar com isso até à hora de almoço. Almoço às 13h da tarde? Isso era o meu sonho. Na verdade levavam-me a beber uma orxata de xufa e ali ficávamos até às 15h, altura em que, se eu tivesse sorte, eles lá decidiam ir comer qualquer coisa. Por essa hora tudo o que eu queria era enfardar um bom prato de comida, mas estes meus amigos vivem na terra das tapas. Por isso levavam-me invariavelmente a um restaurante onde se pagava em média 20 EUR e se comia primeiro uma saladinha, depois um crepe, depois uma batata recheada ou outras combinações que apesar de deliciosas nem sempre me conseguiam deixar a barriga feliz e contente. À hora de jantar (no meu horário) correspondia (no deles) uma nova visita a um bar ou esplanada para mais uma orxata ou um granizado ou uma cervejola. Jantar mesmo, só lá para as 22-23h, se por acaso eles tivessem fome.
Não aderi de coração às orxatas porque eram incrivelmente doces, mas tarde demais percebi que era graças a elas que os meus amigos aguentavam horas a fio sem comer - andavam movidos a açúcar.
Dos poucos passeios guiados que os meus amigos me proporcionaram constaram uma visita ao estádio olímpico e ao exterior do estádio do Barça. Mesmo depois de eu repetir dezenas de vezes que não podia ter menos interesse em futebol e em estádios, ainda me convidaram a entrar no museu do Barça, dizendo entusiasmados que é o museu de Barcelona que recebe mais visitantes. Lá concluímos mais tarde que afinal estávamos perdidos na tradução. Quando eu dizia "chega! chega!" eles entendiam "siga! siga!" e por isso davam-me mais...

Tuesday, March 18, 2008

E eta, hein?

Estive 4 dias no País Basco. Fui ao encontro ibérico "Soberania Alimentar, Sem Transgénicos" que decorreu em Derio, nos arredores de Bilbao, mas também tive tempo de fazer um pouco de turismo pela cidade de Bilbao e dar um pulinho a uma vila nos arredores que tem o castiço nome de Portugalete.
Encontrei nesta terra algo que julgava ser uma fantasia de preguiçosos que jamais alguém iria pôr em prática: passadeiras rolantes nas ruas íngremes!!!
Passei pelo museu Guggenheim de Bilbao, mas só tive tempo de visitar a casa-de-banho - komunak, em basco. Obras de arte terão que ficar para uma visita mais prolongada.
Para desapontamento duns e descanso de outros, não conheci nenhum terrorista. No entanto cruzei-me com algumas pessoas que tinham ar disso ;)
Em todo o lado se vê a palavra "eta", não em referência ao grupo terrorista mas porque é o equivalente ao nosso "e" e ao francês "et". Demorei algum tempo a chegar lá :)
Tudo em Bilbao é escrito em castelhano e basco, mas tal como o neerlandês em Bruxelas é uma língua em vias de extinção, também o Basco não se faz ouvir em Bilbao. Só fora da cidade - especialmente em Portugalete - ouvi pessoas a usá-lo. É giríssimo, não se parece com nada. Parece uma daquelas línguas que eu inventava com os amigos nas nossas brincadeiras de criança.
O desejo de independência dos bascos faz-se notar através dos autocolantes, dos graffitis e dos eventos musicais e culturais promovidos pelos jovens em prol da "Independentzia". Felizmente a maior parte das pessoas que gostariam de um País Basco independente parecem preferir os métodos não-violentos de expressão.
Não sei porque as pessoas vivem tão obcecadas com fronteiras e territórios e se sentem tão perdidos e ameaçados quando regiões de países querem ter a sua autonomia. Deixem-nos ser livres. As fronteiras dos países são convenções artificiais que em muitos casos separam pessoas, culturas e paisagens que deveriam estar unidos e juntam outras que nada têm em comum entre si, gerando tensões e conflitos desnecessários. Eu cá apoio a Independência de todos os povos com uma cultura própria que vivem sob o domínio de outros. Apoio a abolição das fronteiras e a criação de bioregiões. De modo pacífico, voluntário e cooperativo. Mas primeiro temos todos que encontrar a paz de espírito e a sabedoria que nos permita fazê-lo sem impôr ou agredir.
Bem, mas voltando à minha história, durante estes dias fiquei alojada na Kukutza Gaztextea, uma fabulosa casa okupada (melhor seria dizer, fábrica okupada) com cinco amigos portugueses que também participaram no encontro de Derio.
A Kukutza não tem suites nem jacuzzi, mas para mim foi 5 estrelas. A primeira noite foi complicada. A Marta (o nosso contacto) não estava por lá e mais ninguém nos abria a porta. Felizmente apareceu um rapaz vindo não sei de onde que tinha a chave e nos deixou entrar, mas como não sabia quem éramos, não deixou instalarmo-nos nos quartos do 5º andar. Teríamos de nos contentar em ficar no rés-do-chão, a dormir no chão do bar/discoteca/zona de concertos. Após alguma exploração do espaço, encontrámos umas escadas que conduziam a uma zona mais elevada, onde havia uma pequena biblioteca e sala de computadores e onde decidimos aconchegar-nos.
A Marta lá apareceu no dia seguinte e pudemos finalmente visitar a Kukutza em todo o seu esplendor e ficar de boca aberta com o tamanho daquilo. Curiosamente, apesar dos vários quartos livres e do tamanho monstruoso da Kukutza, a Marta meteu-nos a todos no mesmo quarto minúsculo. Bem, pelo menos não tivemos tanto frio! Arrumámos os nossos colchões e sacos-cama o melhor que pudemos, uns na vertical outros na horizontal, pés com caras... Como disse a Rita no nosso último dia por lá, a experiência serviu acima de tudo para "team building". Sem dúvida que estreitámos laços, tanto quanto nos estreitámos naquele quarto para conseguirmos lá caber ;)
Não queria cair na asneira de dizer mal dos espanhóis - eles são tão bons ou tão maus como qualquer outro ser humano e todos eles são diferentes entre si, mas durante este encontro alguns traços caricaturais da sua personalidade deram o ar de sua graça.
Os espanhóis tendem a esquecer-se de que há um mundo para lá da Espanha - o encontro era ibérico, mas os portugueses foram completamente ignorados!
Os espanhóis não são grandes cozinheiros - tivemos que esperar horas pela comida e no fim, apesar de esfomeados, acabávamos por ter que a recusar com receio de ter uma indigestão (pimentos vermelhos cozidos com molho de mostarda - isso lá é almoço?). Enquanto que 6 dos 8 portugueses quiseram refeições vegetarianas e se queixaram da gigantesca dívida ecológica da comida servida (não biológica, à base de carne com batatas e lagostins para a maior parte das pessoas) contra talvez 10 em 200 espanhóis que fizeram o mesmo. Teria sido importante colocarem em prática os princípios de agricultura sustentável e soberania alimentar que tão veementemente defenderam durante o encontro!
Os espanhóis acham que se nós percebemos perfeitamente castelhano então eles também percebem perfeitamente português - mas não percebem, por mais que falemos devagar e nos esforcemos por falar portinhol!
Os espanhóis são excelentes a organizar festas e momentos culturais, mas não fazem o trabalho de casa antes de irem para um encontro deste género e passaram 2 dias que se esperavam de troca de conhecimentos e experiência, em discussões sem fim sobre a lógica da batata. Claro que o baile, os teatrinhos e a declamação de poesia foram excelentes!
Como disse a Margarida, também no último dia, este encontro serviu acima de tudo para alimentar o nosso ego, pois percebemos claramente que neste tema temos muito mais experiência e estamos melhor organizados do que eles. Mas para crédito deles, temos que ser honestos e reconhecer que eles ainda agora começaram e estão a dar os primeiros passos. Nós é que íamos cheios de expectativas de que iríamos aprender imenso com eles. No fundo a culpa é toda nossa :)