Wednesday, November 24, 2010

Notas soltas sobre o Japão

Bruxelas continua a ser a minha cidade europeia favorita, mas o Japão passou oficialmente a ser o meu país favorito e Tokyo destronou Bruxelas do ranking mundial.
O que mais me impressionou em Tokyo foi o silêncio. Quando acordei pela manhã e saí à rua, perto de um cruzamento super movimentado, apercebi-me "Uau, que silêncio!" Tokyo não é uma cidade com muito trânsito e os condutores são tão civilizados que nunca ouvimos buzinadelas ou acelerações desnecessárias. Os carros circulam pacificamente e nos sinais, muitas vezes os condutores desligam os motores dos carros, pelo que por vezes se conseguem mesmo ouvir as cigarras.
Nagoya foi a primeira cidade em que senti aquele cheiro maravilhoso a terra molhada quando chovia. Parecia que estava no campo e no entanto não havia assim tantos parques ou canteiros. Parecia que o próprio asfalto libertava aquele cheiro. Foi estranho e encantador.
No Japão praticamente não existem caixotes do lixo. São mais difíceis de encontrar que uma Geisha. No entanto também não se vê qualquer tipo de lixo no chão. Os japoneses têm o hábito super-civilizado de não comerem ou beberem enquanto andam de um lado para o outro - uma das situações que geralmente origina  mais resíduos que depois precisamos depositar nas papeleiras - e só fumam nas zonas designadas - espécie de pontos de encontro com cinzeiros gigantes que se encontram nalguns passeios das principais ruas - por isso não espalham beatas por todo o lado.
Contrariamente aos caixotes do lixo, existem casas de banho públicas gratuitas em todo o lado e limpas! Um hábito que os europeus estão a perder e que salva-vidas. Não sei o que seria de mim sem as mil casas de banho públicas a que recorri ao longo de duas semanas. Na maioria delas já se encontram retretes "western style", como eles lhes chamam, apesar de não serem nada semelhantes às nossas, porque são high-tech, com jactos de água, sons (para abafar os nossos "sons corporais") e assentos aquecidos, mas também ainda é comum verem-se retretes tradicionais japonesas. De uma coisa tenho a certeza, elas ajudam os japoneses a estarem em forma, porque é preciso força nas canetas para estar agachado daquela maneira durante algum tempo.
Os japoneses esperam em fila para entrar no comboio e no metro e deixam as outras pessoas saírem calmamente antes de tentarem entrar. Claro que nas horas de ponta têm de ser empurrados e completamente esborrachados uns contra os outros para viajarem tipo sardinha em lata, mas mesmo nessas ocasiões não se empurram tanto como nós em hora normal no metro.
Os revisores no comboio fazem uma vénia aos passageiros sentados antes de abrirem a porta  da carruagem e seguirem para a próxima. Exagerado? Eu acho que é exactamente o tipo de demonstração de respeito e de disciplina que deveríamos começar a cultivar se queremos algum dia evoluir enquanto povo. A subserviência não é boa e eles também têm muito disso, mas pessoas comuns fazendo vénias a outras pessoas comuns, demonstrando que respeitam o simples facto da sua existência e presença, parece-me um gesto básico de cidadania. Nós não temos esse respeito e atenção uns pelos outros, estamos habituados a passar ao lado, imersos no nosso mundinho, sem ligar ao facto de haverem outros seres humanos à nossa volta. Assim focados no nosso umbigo, explodimos perante qualquer interferência desses seres humanos com o nosso universo ego-centrado.
Não sei se é regra geral em todas as escolas, mas disseram-me que os alunos japoneses ficam na escola depois das aulas para limparem a sala de aula ou o campo de jogos. Claro que se estivesse no lugar deles quereria ir a correr para casa ou para o centro comercial com os amigos, mas dentro do contexto certo, este tipo de disciplina faz a diferença entre ser-se português e ser-se japonês quando crescemos. Eu já decidi que voto num primeiro-ministro japonês que nos queira vir governar.
Nenhum país ou povo é perfeito e os japoneses também têm as suas maluqueiras, nomeadamente matarem-se a trabalhar, terem umas taras sexuais exacerbadas e não estarem nem aí para os direitos dos animais.
O metro e o comboio estão tão cheios às 23h ou à meia noite como os nossos estão em hora de ponta. E não com jovens que vão para a farra, mas com homens e senhoras de fato e pasta na mão acabados de sair do emprego. Muitos deles adormecem sentados, o que aliás parece ser um passatempo generalizado. Os que não adormecem, escrevem freneticamente mensagens nos telemóveis ou - vá lá - lêem! Talvez cerca de 20% durmam, 40% "textam" e uns 20% lêem. Os restantes olham para o tecto... Às 5 da manhã de sábado o mesmo cenário: parece hora de ponta, imensa gente engravatada, miúdos vestidos de uniforme escolar - será que têm aulas ao sábado? Ficou por esclarecer, mas sei que estão envolvidos em desportos de equipa e outras actividades extra-curriculares. Descanso, parece que só mesmo ao domingo..
Existem carruagens só para senhoras nas horas de ponta e zonas com lugares só para senhoras nos autocarros, porque muitos japonesinhos com as hormonas aos saltos gostam de aproveitar o caos reinante para meterem as mãozinhas anonimamente por baixo das saias plissadas das meninas.
As taras sexuais dos japoneses estão presentes um pouco por todo o lado - no hentai que se vende como pipocas, nos cafés e casinos com shows de meninas vestidas de criadinhas, na fantasia obsessiva pelo look colegial sobre o qual se escrevem volumes e nas inúmeras lojas de fantasias sexuais e bonecas hiper-realistas... Mas a única coisa que me chocou foi ter-me deparado com a total falta de limites ou separação entre a fantasia saudável e o que é para nós inaceitável. Entrei numa loja que me parecia dirigida a adolescentes pop, com música de girls band a tocar e posters de meninas em uniforme colegial, para me ver perdida entre corredores de DVDs com meninas de 10-12 anos em bikini e semi-nuas. O conteúdo era óbvio e deixou-me boquiaberta. O Tengyo disse-me que no Japão  não existe o conceito de pedofilia como no Ocidente. Certas coisas que nós consideramos crimes escandalosos, para eles é apenas uma fantasia sexual. Ele não estava orgulhoso, até se mostrou incomodado e disse que muita gente mais nova já não aceita tal coisa, mas disse que no Japão este tipo de coisa ainda é normal.
Também normal e muito na moda são peles de animais. Enquanto que na Europa,os casacos de peles são cada vez mais associados a tias ricas e com mau gosto, no Japão é uma grande moda entre as rapariguinhas. Vi à venda peles de raposa - daquelas com cabeça e tudo - por entre as roupas mais in e não havia quase nenhuma japonesa que não tivesse um bocado de pele enrolado ao pescoço, na mala e até uma cauda de um qualquer animal peludo a servir de porta-chave. Como é que se hão-de preocupar com a caça à baleia se têm uma tão grande insensibilidade para o sofrimento dos bichos vítimas da moda? Atenção, os ocidentais não são muito melhores nisso, porque cada vez mais acham as peles de mau gosto, mas usam cabedal sem pensar duas vezes, mas já estão um pequeno passo à frente.
Para terminar resta dizer que os japoneses são muito disciplinados e muito cordiais, mas como tudo isso lhes é imposto pela sociedade desde pequenos, não quer dizer que sejam sinceros. e por vezes, talvez por cansaço, quebram completamente o hábito instaurado e fazem o oposto daquilo que  é suposto fazerem. Detecta-se muita hipocrisia lá pelo meio. Apesar de estarem prontos a ajudar se formos turistas em apuros, uma pequena rapariga japonesa na mesma situação pode ser completamente ignorada pelos seus compatriotas, talvez porque a cortesia e respeito só entre em acção quando lhes interessa - para impressionar um turista, porque se tratam de clientes de um determinado serviço, etc.
Não deixam lixo em lado nenhum e são loucos por observar as árvores em flor ou em mudança de cor outonal, mas se virem os sacos do lixo que eles deixam à porta para serem incinerados (quase não reciclam), vão ficar parvos com a quantidade de coisas perfeitamente boas que eles deitam fora só porque já passaram de moda, sofreram upgrade ou ocupam espaço - nós também o fazemos, mas do pouco que vi, parece-me que eles fazem pior. Têm muito a atitude NIMBY (not in my backyard) que ficou claramente demonstrada quando o vizinho idoso do Daul e da Sayaka foi apanhado em flagrante a atirar com o seu lixo para o quintal deles.

Quando me vim embora não senti grande emoção. Talvez por estar bastante cansada, mas também por estar decidida a não fazer nenhum drama daquele momento.
Mas à medida que me afasto daqueles dias de viagem, cada vez mais as memórias  desses dias se assemelham a um sonho. Por vezes já parece demasiado incrível para ter acontecido e perante isso sinto então a emoção que não senti na partida - aquele quase desespero de não poder agarrar um momento no espaço-tempo e ficar nele para sempre. Mas tudo muda, tudo passa e nada dura para sempre. O lado positivo disso é que tal significa que posso sempre lá voltar.
Ainda há uma série de coisas que não vi ou experimentei enquanto estive no Japão:
- jogar pachinko (estive em alguns estabelecimentos, mas não aguentei o barulho mais de 2 minutos)
- cantar num bar de karaoke (não arranjei companhia)
- fazer um retiro num mosteiro zen (exige estadia mais prolongada)
- vestir-me de um personagem anime e participar numa convenção de cosplay (tem que ser na altura certa do ano)
- vestir-me de maiko ou geisha e fazer uma sessão fotográfica e/ou passear-me assim nas ruas (era caríssimo)
- vestir-me de samurai e fazer o mesmo que em cima
- relaxar num onsen (esteve ao meu alcance, mas nunca tive tempo)
- percorrer os restaurantes especializados em tofu (infelizmente nunca encontrei nenhum quando estava com fome)
- ir aos cafés onde somos servidos por meninas vestidas de criadas francesas
- ....
E acho que a lista se poderia prolongar indefinidamente, porque há tanto que eu ainda quero fazer no Japão.

Tuesday, November 09, 2010

Nagoya

Nos meus últimos dias no Japão, regressei a Nagoya, onde fiquei alojada em casa de um casal super querido - o Daul e a Sayaka, ele coreano, ela japonesa - que conheci no couchsurfing. Cheguei a Nagoya ao fim do dia e liguei para o Daul como combinado. Ele tinha mudado de ideias quanto a ir-me buscar à estação de comboio e deu-me instruções para chegar a casa deles de autocarro, mas só tinha 10 minutos para encontrar o terminal, a plataforma certa e o autocarro certo. Com as malas às costas através de um mar de gente e vários níveis e túneis e saídas, lá consegui (miraculosamente) encontrar o dito terminal e numa correria entrei no autocarro que estava mesmo a partir. Estava orgulhosa do meu feito, quando me apercebi que em vez de ter entrado no autocarro 10 da linha 11, tinha entrado no autocarro 13 da linha 10. Fiz uma exclamação em voz alta que não vou aqui repetir e carreguei no stop para sair do autocarro antes dele avançar mais e eu ficar completamente perdida. Ainda não estava muito longe da estação e felizmente não perdi o norte pelo que caminhei em direcção à estação, aonde consegui regressar 15 minutos depois, arrastando pesadamente a mala atrás de mim. Novo telefonema para o Daul: "Olha, parece-me que perdi o autocarro (o último do dia que lá ia ter), por isso vou tentar ir de metro o mais perto possível daí e depois apanho um táxi." OK, disse ele, mas avisou-me que geralmente os taxistas não encontram a casa deles. Que bom saber isso! Mas que opções eu tinha? Após uma cansativa passagem pelo metro (só há escadas rolantes e elevadores em poucas estações), lá saí para a superfície e chamei um táxi. O taxista não falava uma palavra de inglês. Dei-lhe a morada, ele introduziu no GPS e acenou que estava tudo pronto para me deixar no meu destino. Passados cerca de 10 minutos tínhamos deixado o centro da cidade e estávamos numa zona residencial suburbana, labiríntica e com pouca iluminação. Ele parou no meio de uma rua, disse algo como "é aqui" e tirou a minha mala do porta-bagagens. A morada que eu tinha indicava nº 5-27, mas à minha frente eu só via 27-100, 27-103, etc... Fiz ar de quem não estava a entender nada daquilo e o senhor fez um gesto vago de que a morada correspondia a "algures ali". Olha que lindo, e agora? Ia ter que ir de rua em rua, porta a porta, arrastando a mala atrás de mim, até encontrar o número certo. Felizmente o taxista era um senhor extremamente simpático que me fez sinal que não se iria embora dali enquanto eu não encontrasse o sítio. Felizmente passados apenas 5 minutos de deambulação sem sentido, ouvi alguém gritar o meu nome e apesar de não estar a ver quem me estava a chamar, senti que me tirava um peso de cima dos ombros. Era o Daul, em bicicleta. Lá lhe ocorreu que talvez eu não desse com a casa e por isso andou às voltas a ver se me via por ali perdida. Despedi-me do senhor taxista e finalmente cheguei a casa do Daul. Acontece que só as ruas principais têm nomes, estas ruelas secundárias são simplesmente numeradas e nem sempre de forma lógica. Acontece também que concluímos que eu não tinha o último número - de uma sequência de três - que corresponderia ao número da porta. Os dois números que eu tinha, apenas indicavam a zona e um bairro específico, mas não o número da porta.  Podia ter andado a noite toda a bater às portas...
Castelo de Nagoya
Felizmente todos esses percalços foram compensados pela estadia na casa deste casal simpático. Ambos trabalham num gabinete das Nações Unidas e tínhamos imensas ideias para trocar. Eles sacrificaram algum do seu sono para ficarmos a conversar até um pouco mais tarde. Curiosamente acabei por lhes dar a conhecer pelo menos uma coisa da sua cidade que eles desconheciam. No caminho do aeroporto para o centro de Nagoya, reparei numa estátua de Buda gigante a espreitar por entre as árvores no topo de uma colina e perguntei-lhes o que era. Eles não só desconheciam por completo como nunca tinham reparado na estátua, apesar de já terem passado naquela linha de comboio inúmeras vezes. Fizeram uma pesquisa na net e ficaram a saber da existência de um Buda gigante no templo Togan-ji. Infelizmente acabei por não ter tempo de ir vê-la ao vivo e a cores, mas eles talvez se sintam tentados a ir lá dar uma espreitadela em breve.
A casinha deles era muito simpática. Pequenina, como ditam as regras - talvez 1/3 da minha casa (e ainda nos queixamos com falta de espaço...) - mas muito acolhedora. Um dos meus desejos antes de partir do Japão era experimentar a vida quotidiana de uma família japonesa numa casinha dos subúrbios e eles proporcionaram-me isso.
Oasis 21
Pela manhã serviram-me um típico pequeno-almoço japonês. Até então basicamente ou tinha comprado algo de véspera no supermercado ou  tinha ido a um café tomar um pequeno-almoço ocidental. Mas seria imperdoável regressar a casa sem provar um pequeno-almoço à japonesa. Por isso fiquei muito contente com a oferta. Comemos batata-doce, abóbora e cebola cozida com tomate cru e bebemos um chá japonês. Deram-me os parabéns por eu ter comido tudo sem queixas, mas depois apresentaram-me a "pièce de rèsistance" e disseram-me: "Se disseres aos japoneses que comeste legumes ao pequeno-almoço eles dir-te-ão "que bom para ti", mas se lhes disseres que comeste isto, vão-te respeitar toda a tua vida!". Olhei curiosa para uma caixa pequenina branca que me colocaram à frente e perguntei "O que é isto?". "Isto é natto!" basicamente consiste em feijão fermentado por bactérias, que se mistura com molho de soja e mostarda. Parte do gozo do consumo disto está na sua preparação, que deixa os feijões envoltos num molho filamentoso. O cheiro é... intenso e o sabor... bem... é exótico. Pensei em desistir ao primeiro contacto, mas decidi aguentar e comer tudo. Queria conquistar o respeito dos japoneses, ou pelo menos o do Daul e da Sayaka. Eles disseram-me que  tinha sido a primeira ocidental, dentre os vários a quem eles deram aquilo a provar, que tinha conseguido comer tudo até ao fim e sem caretas! Na verdade já provei coisas piores e além disso sou fã de coisas bizarras como tempeh, que eles desconheciam e que eu fiquei agora a saber que é por ser indonésio e não japonês como eu sempre julgara.
Teatro Noh
Em Nagoya não visitei muita coisa, porque na verdade já estava bastante cansada e não consegui esticar as horas do dia. Mas tive tempo de visitar o imponente castelo, passear pelos seus jardins e ver uma exibição lindíssima de bonsai. Passei pelo Teatro Noh, onde visitei uma exposição sobre esta arte e tirei umas fotografias com as famosas máscaras Noh. Quase não se nota que estou de máscara, pois não?
Gostava de ter visitado o  parque Tokugawaen, mas fechava muito cedo, pelo que fiquei a meio caminho em Sakae, onde  o Oasis 21, uma espécie de jardim suspenso futurista, me transportou a um sonho que tive há meses, sobre um lago no topo de um prédio com torres e arranha-céus em redor.
Vi o pôr-do-sol no porto de Nagoya e terminei o dia em Osu. Tinha mencionado ao  Daul e à Sayaka que gostava de ter visto a Cimeira Mundial de Cosplay que tem lugar em Nagoya, mas que tinha vindo na altura do ano errado. Eles disseram-me que se eu fosse a Osu talvez visse por lá alguns "personagens", que simplesmente gostam de se passear por lá sem nenhuma razão especial. Por isso fui espreitar Osu, que consiste num quadriculado de ruas, muitas delas cobertas, com um sem fim de bazares e lojas. Encontrei muitas lojas de figurinos anime e roupas bizarras como as que se usam em Tokyo, mas não encontrei nenhum cosplayer.
Porto de Nagoya
No meio deste emaranhado templo do consumo, encontrei um pequeno templo budista embutido entre lojas e banquinhas de fast-food japonesa. Um monge fazia orações frente a um altar e a três metros dele ouviam-se gritos de pessoas que vendiam todo o tipo de mercadorias fúteis e risos dos jovens que por lá se passeavam ruidosamente. Na minha mente surgiu a imagem de Jesus a irromper por ali adentro e a destruir as bancas dos vendedores, furioso pela falta de respeito por tal lugar tão sagrado e ri-me sozinha. Parece que os japoneses têm menos prurido com esta mistura entre o sagrado e o profano.
E pronto, lá tive que voltar a casa.

Tuesday, October 26, 2010

Kyoto

Em Tokyo não estava certa quanto a ir a Kyoto. Já tinha ultrapassado o meu orçamento previsto e a viagem extra iria sair caro, mas o Wen tinha-me convidado e o Leo também. Perguntei então ao Tengyo o que ele achava - se devia ficar em Tokyo o fim-de-semana ou ir a Kyoto e ele disse que sem dúvida devia ir a Kyoto. OK, ficou decidido.
Procurei ir de autocarro nocturno na noite de sexta feira, mas não consegui bilhete por diversas razões, pelo que tive que apanhar o Shinkansen (comboio rápido) na manhã seguinte.
Pavilhão Dourado
Tinha combinado por email encontrar-me com o Wen às 10h na estação de comboios (o telemóvel dele não funcionava no Japão - parece que só eu é que sabia que no Japão só funciona a rede 3G). Se não nos encontrássemos aí, o segundo encontro seria às 11h no hostel. Se mesmo aí falhasse, encontrávamo-nos no Pavilhão Dourado às 12h.
Esperei 40 minutos por ele na estação e nada. Fui para o hostel, tomei lá um pequeno-almoço tardio e por volta das 11h30 ainda não o tinha visto. Arranjei então um mapa de Kyoto e procurei a paragem do autocarro para me levar ao Pavilhão Dourado. Acontece que não tinha confirmado anteriormente a distância até ao Pavilhão e tarde demais percebi que não ia conseguir chegar lá até às 12h. Estava a pensar nisto quando uma rapariga que se dirigia à mesma paragem olhou para mim ao longe, parou e fez gestos e interjeições como se me conhecesse. Àquela distância não estava a ver quem seria, mas ao chegar-se vi que era a Rita, uma húngara que eu tinha conhecido em Nagoya. Mas o que raio se estava a passar no Japão nestes dias que eu estava sempre a encontrar-me com as mesmas pessoas? Rimo-nos com a coincidência de estarmos em Kyoto na mesma paragem de autocarro no mesmo momento e mais nos rimos quando concluímos que (tal como com o Wen em Nagoya), estávamos alojadas no mesmo dormitório no mesmo hostel! Quais as probabilidades de tal sucessão de acontecimentos acontecerem por acaso?
Quando lhe disse que ia ter com um amigo ao Pavilhão Dourado ela disse-me que eu não ia chegar a tempo - em nenhuma circunstância - porque estava na paragem de autocarro errada. Tinha seguido para Este em vez de Norte e não me apercebi que estava a afastar-me ainda mais.
Templo Toji
Lá dei por encerradas as tentativas de encontrar o Wen, mas continuei com esperança de que nos cruzássemos acidentalmente durante o resto do dia. Entretanto decidi juntar-me à Rita e fomos ao Pavilhão Prateado em vez do Dourado e de lá percorremos o Caminho do Filósofo, um percurso ao redor de Kyoto, ao longo de um ribeiro ladeado de chorões e cerejeiras (infelizmente não em flor nesta época do ano) e populado de templos e santuários - um pouco à semelhança de Takayama.
Ao fim do dia, no regresso ao hostel, lembrei-me novamente do Wen. Perguntei na recepção em que dormitório ele estava e deixei um recado na porta dele: se regressasse a horas decentes, para me bater à porta e sempre poderíamos conversar um pouco e talvez combinar melhor o dia seguinte. Só que estava tão cansada que às 22h já estava em pijama a dormir, tal como duas outras raparigas, incluindo a Rita. Todas nós acordámos com ele a bater à porta. Pedi-lhes desculpa e saí para o cumprimentar. Ele estava um bocadito assim para o bêbado. Perguntei-lhe quanto ele tinha bebido e ele disse umas 4 ou 5 cervejas ao longo do dia. Disse-me que tinha estado na estação à minha espera 45 minutos e que não me tinha visto e que depois falhou o hostel mas foi directo ao Pavilhão Dourado. É preciso azar. Mas seria por isso que se tinha metido nos copos?
Convidou-me para irmos ao bar no rés-do-chão, que fazia parte do hostel e eu aceitei. Ele perguntou se eu não queria mudar de roupa, mas eu estava preguiçosa e de qualquer forma  achei que seria giro ir em pijama e pantufas. Senti que ninguém mais se ia importar além dele, que parecia intimidado. 
Bebi um sake e ele outra cerveja, apesar de eu lhe ter dito que ele não precisava de mais. Tivemos uma conversa relativamente interessante sobre o Japão, a China e a Europa, planos de vida,,valores, amor, mas mais para o fim ele já não dizia coisa com coisa e achei que era hora de ir dormir. De qualquer forma à meia noite puseram-nos na rua - horários japoneses.
Na despedida ficou claro que no dia seguinte não íamos novamente passar o dia juntos, pois ao contrário do que ele me tinha dito, ele tinha que ir embora no domingo de manhã cedo e não ao fim do dia. Paciência, o sake em pijama já foi uma experiência suficientemente memorável do nosso encontro em Kyoto. E tinha sempre a Rita e o Leo (de quem me tinha entretanto esquecido) para me fazerem companhia no dia seguinte.
No dia seguinte a Rita decidiu ir a Nara, onde eu também adorava ir, mas achei que não fazia muito sentido sair já de Kyoto sem ter visto sequer uma geisha. Por isso fiquei. Mandei mensagem ao Leo para saber das andanças dele e logo por coincidência estávamos no mesmo castelo e com planos de ir aos mesmo locais a seguir, por isso encontrámo-nos e passámos mais um dia a fazer turismo juntos.
Vimos o Jardim Imperial, o Castelo de Nijo, o Pavilhão Dourado, entre outras vistas inesquecíveis. Terminámos o passeio no bairro de Gion, onde jantámos num restaurante indiano (por ele estar farto de comida japonesa) e bebemos um café num Starbucks (estão em todo o lado,..).Antes tinha visto passar um carro com um motorista conduzindo três geishas com um ar altivo e imponente. Tive pena de não irem a pé, mas teriam sido completamente engolidas pelas hordas de turistas que por ali circulam na esperança de as ver passar. Mais tarde vi uma outra - talvez fosse uma maiko (aprendiza) - que passou por mim muito discretamente numa ruela traseira pouco frequentada. Ela olhava para o chão, como que a querer tornar-se invisível e eu não fui capaz de ser indelicada e tirar-lhe uma fotografia. Já tinha tirado fotos à socapa das meninas vestidas de boneca, de um lutador de sumo no metro de Tokyo ou a senhoras nos seus kimonos, mas esta geisha ou maiko despertou em mim um respeito maior e não fui capaz de o fazer. Fiquei a pensar no fascínio que elas exercem sobre pessoas de todo o mundo.
Fiquei também a pensar que a vida delas é o equivalente glamouroso duma vida monástica. Vivem em quase reclusão, estudando arduamente anos a fio todo o tipo de artes e conhecimento geral, dedicam-se ao serviço aos outros, levam vidas celibatárias e de renúncia... É pena que tanta gente ainda pense nelas como uma espécie de prostitutas de luxo, porque estão bem longe de ser tal coisa.
Jardim Imperial
Quando estava cansada decidi voltar ao hostel. O Leon ficou em Gion, porque estava alojado aaquela zona Quando eu disse que estava na hora de ir, ele não tirava os olhos dum livro que tinha começado a ler furiosamente minutos antes. Primeiro achei "este tipo é mesmo desprendido, nem me liga nenhuma." Mas depois ele levantou os olhos do livro e estava quase marejado em lágrimas. Uau, também não esperava uma reacção tão emocional, apenas uma palavra atenciosa em como tinha sido agradável o tempo que passámos juntos. No dia seguinte deveria ter regressado a Nagoya, mas ainda havia tanto para ver em Kyoto que adiei o regresso para a noite e passei mais um dia por lá, desta vez sozinha.

Friday, October 22, 2010

Harajuku girl

O que fazer em Tokyo? Quando há tanto para ver e fazer e apenas dois dias disponíveis, como decidir o que é prioritário?
Um amigo tinha-me dito que fosse ao Parque Ueno e como ficava a 10 min de metro do meu hostel foi onde decidi ir em primeiro lugar. A entrada por onde cheguei ficava mesmo perto do Museu de Ciência e História Natural. Hesitei bastante quanto a visitá-lo, acho que fui à porta e voltei para trás umas três vezes. Estava na dúvida se era algo que eu queria mesmo fazer, encafuar-me em museus, ou se preferia caminhar no parque e seguir depois para outras bandas. Mas lembrei-me vagamente que o meu amigo me tinha-dito também que no parque havia um museu muito interessante. Não sabia se era este ou o de arte que ficava mais adiante, mas pensei "Que se lixe,  mesmo que seja chato, sempre posso dizer que visitei um museu em Tokyo, pelo que nunca será uma perda de tempo." Mas não foi chato, na verdade foi um dos melhores museus de história natural que já visitei, apesar da quantidade de bichos empalhados que lá há - ou talvez mesmo por isso. Toda a história natural e evolutiva está lá condensada e muito bem apresentada. Mas o melhor foi o cinema a 360º que lá está instalado. Sem entrar em grandes detalhes, o cinema consiste numa esfera gigante com uma ponte que a atravessa de um lado ao outro e a partir da qual vemos os filmes projectados em nosso redor e ficamos imersos dentro do filme. Na verdade é impossível ver o filme todo, porque tínhamos que ter uma visão a 360º. Mas o efeito é espectacular e tão realista que tive que me agarrar com força ao corrimão da ponte para não cair ao chão com as tonturas.
Um tipo ocidental com quem já me tinha cruzado na entrada, por outro lado não ligou muito aos filmes porque não tirou os olhos de mim. Tentei ignorá-lo e fora do cinema procurei trocar-lhe as voltas quando via que ele estava a tentar meter conversa comigo. Não me apetecia mesmo nada entrar em conversas e fazer amizades porque as companhias só nos atrasam quando andamos a fazer turismo e eu tinha pouco tempo. Mas ele foi mesmo persistente e lá houve uma ocasião em que simplesmente me barrou o caminho e me perguntou de onde eu era. Quando eu disse Portugal ele fez uma cara desanimada, que mais tarde ele me disse ter sido por julgar que eu não devia falar inglês suficiente para comunicarmos. Mas logo lhe passou  o desânimo quando comecei a falar fluentemente com ele. Chamava-se Leo, era americano de Seattle, saxofonista e informático. Visitámos o museu juntos e a conversa correu tão bem que acabámos por ficar amigos. E claro, eu tinha razão, demorei 3 horas a ver um museu que veria numa hora e o resto do dia não fiz mais nada do que tinha programado. Mas valeu a pena pelo que acabou por se suceder graças a este encontro. Falámos de tudo, desde ciência, biologia, evolução, guerra, religião, sonhos... Eram para aí umas 3h da tarde quando finalmente saímos do museu e concluímos que nenhum de nós tinha almoçado e que estávamos ambos esfomeados. Corremos os arredores do parque em busca de um restaurante mas só encontrámos uma pizzeria. Concordámos passar mais alguma fome, mas nem pensar em rendermo-nos à pizza no Japão! Até que numa pequena rua já a caminho da estação de comboio mais próxima, vimos o que parecia ser um pequeno restaurante japonês. Tinha uma porta de vidro de correr. Espreitámos lá para dentro e vimos uns quantos jovens japoneses sentado no chão em redor duma mesa, mas afinal parecia ser apenas uma pastelaria. Íamos já a virar as costas quando um japonesinho de ar adorável e chapéu na cabeça, sentado ao lado duma japonesinha de cabelo curto, nos fez sinal para entrarmos. Olhei para o Leo e o Leo olhou para mim, sem sabermos bem o que fazer, mas entrámos. O japonesinho convidou-nos a sentarmo-nos com eles, mas nós dissemos que estávamos mesmo com fome e a precisar de algo mais do que bolinhos. Ele riu-se e disse que nos podia levar ao sítio certo. Ele e a rapariga (que viemos a saber ser a namorada dele) levantaram-se, pagaram e saíram connosco. O nome dele era Tengyo e era um rapaz super cool, um pouco misterioso, com um inglês perfeito (o que é raro por aqueles lados) e um interesse genuíno em nos fazer sentir em casa. Senti fortemente que queria conhecê-lo melhor e pareceu-me que ele estava também particularmente interessado em conhecer-me a mim, o que podia ser apenas o meu ego a iludir-se, mas quando eu lhe disse que era portuguesa ele ficou absolutamente delirante. Disse-me que tinha estado em Portugal ainda não há muito tempo e que era fascinado pela cultura portuguesa. Eu ri-me e disse-lhe que eu por outro lado era fascinada pela cultura nipónica. O Tengyo revelou-se um fã de Camões e mencionou que esteve no Cabo da Roca, "onde a terra acaba e o mar começa". Falámos das semelhanças entre as nossas culturas, as ligações históricas e foi amizade à primeira vista. Ele deixou-nos à porta de um restaurante onde poderíamos encher a pança apesar de já serem 4h da tarde, trocámos contactos e ele pediu que por favor o incomodássemos nos dias seguintes pois ele estava disponível para nos fazer um tour por Tokyo. Eu prometi que o faria, o Leo também, mas só para parecer bem, porque depois não o fez.
Já no restaurante, um outro japonês com quem metemos conversa sugeriu-nos que fizéssemos um cruzeiro nocturno na baía de Tokyo. Achámos a ideia espectacular e depois de comermos fomos até ao cais de onde supostamente sairiam os barcos. Mas chegámos mesmo na hora de saída do último barco da tarde (a preços razoáveis) e já só sobrava o cruzeiro nocturno, cujo custo rondava os 7500 yens (perto de 70 EUR). Com muita pena, decidimos desistir da ideia. Despedi-me do Leo, trocámos contactos também e ele disse-me que iria passar o fim-de-semana em Kyoto. Eu respondi "Que coincidência, o meu amigo Wen também me convidou e estou a pensar ir". "Então vai e quando lá estiveres avisa". Na verdade ainda não tinha decidido completamente sobre a ida a Kyoto. Queria mesmo estar em Tokyo no domingo, quando os jovens se juntam no parque Yoyogi vestidos a rigor de bonecas, punks, personagens anime, etc. Mas já eram duas pessoas a convidarem-me a ir a Kyoto no fim-de-semana e eu achei que era demasiada coincidência.
Antes de regressar ao hostel decidi passar por Akihabara, que ficava apenas a uma estação de comboio de distância. Akihabara é famosa pelas lojas de electrónica mas também pelas lojas de anime e manga e tinha ouvido dizer que poderia lá dar de caras com algum pessoal do cosplay. Era dia de semana, pelo que as chances eram limitadas, mas fui na mesma. Encontrei várias meninas vestidas de "maids" a distribuir folhetos publicitários dos cafés onde trabalham assim vestidas (outra grande moda de Tokyo, principalmente entre os otaku [geeks] que gostam particularmente de ser servidos por estas "criadas"). A maior parte das lojas já estavam a fechar, mas ainda tive tempo de percorrer uma loja de manga e anime com 10 andares e passar por várias lojas de figurinos de anime e roupas de fantasia - tanto para cosplay como para outros fins mais...  digamos, íntimos. Quase comprei um desses fatos de criada, só por graça, mas aguentei-me, porque eram caríssimos.
Por fim, ainda encontrei uma loja que vendia as famosas bonecas japonesas para...  digamos... senhores que não arranjam namorada. Na montra só tinham as cabeças e fotografias do corpo inteiro. Mas fiquei mesmo curiosa em vê-las ao vivo e a cores. Não fosse a loja estar a fechar e eu tinha mesmo entrado. O facto de ser turista deu-me mais à-vontade para esse tipo de coisas: também entrei numa loja de hentai e os rapazotes que por lá andavam ficaram todos a olhar para mim, embaraçados e surpresos. Em Portugal teria tido vergonha de entrar num tal sítio, mas ali podia sempre armar-me em turista curiosa que não sabe bem onde está e morder o ambiente.
Akihabara
No dia seguinte mandei uma mensagem ao Leo para saber por onde ele andava, mas ele optou por ir ver o  famoso mercado de peixe em Tsukiji, algo que eu claramente dispensava e optei antes por ir ao templo Senso-Ji, à torre de Tokyo, entre outras paragens.
Tinha enviado uma mensagem ao Tengyo e ele respondeu sugerindo-me que nos encontrássemos no dia seguinte para um tour pelas zonas de Harajuku e Shibuya, que eu  tanto queria ver. O Leo não disse mais nada durante todo o dia, por isso não pensei mais nele. Encontrei-me com o Tengyo no dia seguinte na estação de Harajuku e lá fomos explorar esta famosa zona de Tokyo onde os jovens expressam a sua criatividade e excentricidade livremente. Confesso que me pareceu mais Ibiza que o Japão, não fossem as lojas de roupas estapafúrdias que só existem em Tokyo e que seriam consideradas péssimo gosto em qualquer outro sítio do mundo.
Ele levou-me a uma espécie de casa de artistas / galeria de arte, com a qual eu já tinha sonhado (o costume...). Ali tive que fazer uns testes de realidade, porque era tudo tão estranho que eu julguei estar outra vez naquele sonho. A casa é toda pintada por dentro e por fora com graffitis psicadélicos e apesar de ter poucas divisões no rés-do-chão, perdi-me do Tengyo, por entre as diversas ligações que há de sala para sala e do corredor e pátio interior para cada sala. Acabei por ir ao 2º andar procurá-lo e encontrei uma espécie de pequena loja de roupas de designer, mas não tinha a certeza se aquilo era de facto uma loja ou o quarto de um dos artistas. Às tantas estava a remexer nas roupas de alguém... Apareceu um casal de japoneses vestidos no melhor estilo clown-punk. Não faço ideia o que chamar ao estilo deles, mas clown-punk parece-me apropriado, pois por um lado vestiam-se de preto, com correntes, espigões e cabelos espetados, mas também usavam meias às riscas fluorescentes, pompons coloridos no lugar de botões, pinturas garridas na cara e saias de tule amarelo. É um dos estilos de street-wear de Tokyo e se alguém souber classificá-lo, agradeço a dica.
Em Harajuku
Eles sorriram mas não disseram uma palavra, pelo que eu saí e entrei no quarto ao lado. Não estou a brincar quando digo que acreditei seriamente estar a ter uma alucinação. Havia três raparigas sentadas em bancos, uma em cada canto do quarto. Eu estava de pé na porta no canto inferior esquerdo, ao meu lado direito no outro canto estava uma rapariga normalíssima de calças de ganga. No canto superior direito estava uma rapariga vestida de boneca, vestido cor-de-rosa, lacinhos, fitinhas, cabelo longo encaracolado, lábios vermelhos pequeninos e olhos gigantes pestanudos. E no canto superior esquerdo à minha frente estava outra rapariga meio punk, sem camisola, apenas de sutiã preto. O chão no meio de nós as quatro estava completamente coberto de balões de todas as cores, as paredes  cobertas de quadros psicadélicos e surrealistas cujo tema não consegui descortinar. E todas as três estavam completamente caladas, a ouvir  atentamente um guincho electrónico misturado com ruído branco, que saía de umas colunas invisíveis. Apertei o nariz para confirmar pela 3ª vez que não estava a ter um sonho qualquer absurdo e fiquei admirada quando percebi que não. Fiquei ali especada a olhar para elas, quando o Tengyo apareceu não sei de onde e me puxou pelo braço para seguirmos caminho. Perguntei-lhe se ele tinha visto o mesmo que eu e ele disse que sim, mas sem perceber porque é que eu tinha achado aquilo estranho. Afinal de contas estávamos em Harajuku
Depois desse episódio abstruso, entrámos numa loja de roupa em 2ª mão e o Tengyo revelou-se o melhor amigo não-gay que uma rapariga pode ter. Incentivou-me a experimentar roupas, esperou com toda a paciência do mundo, pediu-me que desse voltinhas para ver como assentava (sei o que estão a pensar...) , opinava sobre o que me ficava bem ou mal e acabou por me fazer comprar umas bermudas e uma écharpe, escolhida por ele, que segundo ele era simplesmente perfeita para o meu tom de pele e cabelo. Fartei-me de rir e disse-lhe que queria raptá-lo para o levar às compras comigo sempre que precisasse. Depois levou-me a uma loja de chapéus caríssimos, onde me incentivou a experimentar uma série deles. Divertimo-nos à grande a experimentar chapéus e a tirar fotos, até que os empregados já estavam todos a olhar para nós, a desincentivar-nos de o fazer, tipo "ou compram alguma coisa, ou param com isso."  Como última escolha peguei num chapéu vermelho que tinha a certeza me iria ficar a matar e o Tengyo ficou boquiaberto: "Uau, tens que comprar esse!", "Tás a brincar, custa 8000 yens!", "Fica perfeito!", "Pagas tu?". 
 Acontece que ele é professor, actualmente desempregado e não podia mesmo pagar, se não acredito que o teria feito. Depois seguimos a conversar sobre como é estar desempregado numa sociedade tão obcecada com a produtividade como é o Japão. Ele disse ter uma família compreensiva (na verdade os pais dele são noruegueses), mas que no geral é olhado como um inútil pelo resto das pessoas. Rimo-nos e brincámos com essas questões, comparámos países, reduzimos tudo ao absurdo. Lá pelo meio passámos no santuário Meiji, onde me vi apanhada no final de uma cerimónia de casamento japonesa - atravessando o pátio do santuário, a noiva de tradicional fato branco com capuz caminhava na frente, coberta por um gigante chapéu de sol vermelho que alguém atrás dela carregava, os familiares vestidos de preto ou de kimono seguiam-na em absoluto silêncio. O Tengyo abraçava uma árvore. Eu levitava ao nível da copa das árvores. Ou pelo menos assim me pareceu.
Shibuya
Terminámos o passeio em Shibuya onde ele me levou a um dos mais famosos centros comerciais de Tokyo,  o Sibuya 109, onde as japonesas afluem em massa, por entre roupas, maquilhagens, pestanas postiças, brilhantes, tules, criando um ambiente alucinante e barulhento. As funcionárias das lojas estão vestidas e produzidas de acordo com os cânones da moda de Tokyo e segundo o Tengyo me disse, são uma espécie de starlettes em Tokyo, admiradas por todas as jovens, que querem ser como elas. Tentei tirar fotos das meninas, mas elas disseram não e não. Ele disse-me que elas estão cansadas de ser objecto de curiosidade quer dos turistas quer dos próprios japoneses que as admiram, daí serem tão intolerantes a fotos.
Por fim atravessámos as famosas passadeiras de Shibuya. Fomos até ao Starbucks que fica num 2º andar directamente sobre o mundialmente famoso cruzamento e ficámos ali simplesmente a ver, a ouvir, a respirar, enquanto tomámos um chá. Ele próprio confessou nunca lá ter estado antes. Pediu-me para eu ficar no 2º andar e tirar-lhe uma foto lá em baixo perdido na multidão. Ele queria saber se seria capaz de desaparecer na multidão ou, nas palavras dele "ser apenas mais um deles". Concluímos que sim, que mesmo ele pode ser apenas "mais um deles", mas não para mim.  ^_^

Tuesday, October 12, 2010

Tou-aqui-yo!

Estou em Tokyo. Aterrei directamente em Shinjuku, a estação de comboio e metro mais movimentada de Tokyo, logo, possivelmente do mundo! É a famosa estação em que, nas horas de ponta, uns senhores  simpáticos empurram as pessoas para dentro das carruagens para que fiquem bem compactadinhas.
Felizmente cheguei às 19h, mesmo no fim da hora de ponta e apesar de ter sido complicado movimentar-me no meio do mar de gente que àquela hora ainda circula, consegui bater o meu recorde pessoal de desenrascanço e em apenas meia hora tinha comprado bilhete, encontrado a linha de comboio e apanhado o comboio certo para chegar ao hostel, sem ter pedido ajuda a ninguém. Numa estação gigantesca como esta (cerca de 20 linhas de comboio e 5 ou 6 de metro) em que os mapas são um emaranhado de linhas, números e caracteres japoneses que deixam qualquer um de olhos em bico, 30 mins foi uma espécie de milagre. Lembro-me que em Londres demorei 10 minutos só para descobrir que linha de metro devia seguir. e a informação estava toda em inglês. Afinal, a experiência sempre serve para alguma coisa. Depois disto acho que posso conduzir naves espaciais e ir à Lua.
Vim de autocarro desde Takayama. Ficava muito mais barato que o comboio e só demorava mais uma hora, com a vantagem de que provavelmente ofereceu paisagens mais bonitas. Atravessámos várias montanhas, muitos túneis super inclinados (ainda nós dizemos mal do do Marquês!), passámos por rios e lagos azul turquesa e vimos as cores de Outono a instalarem-se. Como ontem dizia o Kenji: as cores estão a descer os montes. No topo já se vê tudo dourado e a meio das encostas convive uma sinfonia de laranjas e vermelhos com alguns verdes mais resistentes.
A cerca de duas horas de Tokyo vi finalmente o Monte Fuji e o meu coração palpitou mais forte. Eu julgava que as montanhas que tinha atravessado e que me acompanharam no horizonte durante todo o caminho, já eram enormes e imponentes, mas o Monte Fuji meteu-as a todos a um canto. Que monstro! Mas um monstro lindo, com o cume rodeado de nuvens de algodão doce.
Chegada a Tokyo, POW! Outro impacto profundo: a explosão de gente, os arranha-céus impressionantes e os néons que ofuscam a vista. Aquela Tokyo dos filmes na qual desejamos secretamente desaparecer por algum tempo para voltar a emergir como se tivéssemos voltado de outra dimensão. No momento em que saí do autocarro, desejei logo deixar-me levar pela corrente sanguínea de Tokyo, mas precisava mesmo de pousar as malas e tomar um duche.
A minha mãe perguntou-me numa mensagem se esta viagem não é a maior loucura. Curiosamente tudo tem fluido tão naturalmente que a maior parte das vezes nem me lembro que estou no Japão. Quando me relembro a mim mesma "Estás no Japão, pá!", nessas alturas penso de facto que é de doidos, mas fora esses breves momentos de hiper-consciência, ando por aqui como se fosse um passeio como outro qualquer.

Monday, October 11, 2010

Não me tirem daqui!

Gostava de poder ficar no Japão um ano ou dois ou (quem sabe) para sempre. Claro que ajuda o facto de eu ser naturalmente fã do Japão antes mesmo de cá ter metido os pezinhos, mas a sério... é fabuloso.
Tenho encontrado pessoas, incluindo japoneses, que não conseguem pensar numa única razão para se gostar do Japão. Eu cá acho que eles devem ter batido com a cabeça, mas gostos nao se discutem..
Estou maravilhada com a beleza, o bom gosto, as maneiras, o sentido de conforto e a limpeza que esta gente tem. Quero comprar o Japão todo, embrulhá-lo e levá-lo para casa!
Ao contrário do comummente aceite, o Japão não é assim tão caro. Depende. Por exemplo, após vários dias sem ver uma peça de fruta e quase nenhuns legumes, finalmente encontrei um supermercado com esses itens. Vendem uvas ao preço de mirtilos em Portugal. Fotografei uma caixa de uvas pretas que devia ter para aí meio kilo e custava o equivalente a 17 EUR. Uma maçã custava cerca de 1 EUR e as cenouras eram vendidas individualmente a cerca de 70-90 cts cada. Também procurei intensivamente pão com textura de pão e não a massa branca gelatinosa que eles comem como pao - e hoje finalmente encontrei pacotes de 3 fatias de pão de forma pelo preço absurdo de 1 EUR! Em compensação, o tofu, os cogumelos, as massas e todo o tipo de peixe são super-baratos. Ou seja, o que é caro é aquilo a que nós estamos habituados. Quem se adaptar à comida local, não terá dificuldades em comer barato. Hoje, por exemplo, comprei um pacote de cogumelos amarelos que soltavam uma espécie de baba ao serem cozinhados e fiz um jantar bastante gourmet por 2 EUR.
O alojamento pode ser caro, mas para quem não precisa de luxos, consegue-se dormir em sítios simpáticos por 20 EUR e mesmo menos. Comida nos restaurantes também pode ser cara - muitos sítios com pratos a quase 20 EUR - mas também há muitos onde se come bem por 5 EUR, É uma questão de saber escolher.
Os japoneses também não são avessos a coisas em 2ª mão. Parece que têm umas feiras da ladra muitos boas. Não sei se vou ter oportunidade de ver alguma, mas encontrei uma loja de kimonos em 2ª mão ao preço da chuva e aviei-me deles.
Este fim-de-semana que passou era impossível ficar em Nagoya, porque havia competição de fórmula 1 e todos - mesmo todos - os quartos e camas de Nagoya estavam reservados há semanas e eu não tinha onde dormir. Como me tinha sido recomendado o festival de Takayama que decorria precisamente nesses dias, decidi aproveitar a necessidade de dormir fora para sair mesmo de Nagoya.
Takayama
Escusado será dizer que valeu mesmo a pena. Takayama é lindíssima, rodeada por montanhas, cruzada por rios e pontes, com o seu centro histórico de casas antigas medievais, um percurso de templos e santuários budistas e xintoístas de tirar o fôlego e um festival colorido e tipicamente japonês que trouxe milhares de japoneses cá durante o fim-de-semana. Sim, porque 99% dos turistas no Japão são japoneses.
Não se vêem por cá muitos ocidentais e na verdade quando me cruzo com algum, quase que fazemos uma festa. Os que já cá estão instalados e integrados são os que fazem o ar mais surpreso, como se há anos não vissem um ocidental. Claro que isto sucede mais em locais "remotos" como Takayama.
Além de Takayama propriamente dita, visitei também os arredores. Um dos funcionários do hostel, o Kenji, leva os hóspedes de carro a visitar as redondezas, quando há inscritos suficientes para um determinado tour. Fomos visitar Shirakawago, que era exactamente o que eu tinha em mente visitar além de Takayama. Património mundial da UNESCO. Uma foto vale mais que mil palavras :)

Shirakawago
O Kenji conduziu todo o tempo em excelentes auto-estradas sem passar dos 90 km/h. Quando lhe perguntei se todos os japoneses conduzem devagar em todas as estradas, ele perguntou-me ingenuamente "O que queres dizer com devagar?" Tive que o esclarecer que em Portugal numa auto-estrada daquelas, os carros circulariam de 140 km/h para cima ao que ele exclamou incrédulo "O quê? Mas porque fazem isso?" Tão fofinho!
Amanhã parto para Tokyo. Depois disso para Kyoto. Este último destino não estava nos meus planos, mas como o mundo é mesmo pequeno, em Nagoya dei de caras com o meu amigo Wen (chinês)  que me fez alterar os planos. Conheci-o o mês passado na Bélgica. Na altura sentimos uma grande afinidade mas não tivemos tempo para conversar por causa do trabalho avassalador em que estávamos envolvidos e despedimo-nos com alguma tristeza. Quando nos vimos em Nagoya, apontámos um para o outro com os olhos esbugalhados e exclamámos em uníssono: "No way!", "No way!"
Concluímos que ele estava alojado na mesma Ryokan que eu. "No wayyyy!" Isso já era demasiada coincidência. Encontrámo-nos lá nessa noite, comparámos planos de viagem e agendámos uma ida a Kyoto, lá para o final desta semana. Foi-nos dada uma segunda oportunidade. Penso é que tenho que o esclarecer que não é suposto ser uma viagem romântica pois acho que ele tem esperanças que seja.

Thursday, October 07, 2010

Lost in jet lag

Tive uma série de sonhos em que estava num avião a caminho do Japão. Como estava cheia de sede e consciente de estar a sonhar, tentei acordar para beber água mas sempre que abria os olhos, dava comigo a reviver exactamente o mesmo sonho do princípio - nuns era de noite, noutros a luz entrava pelas janelas do avião, mas o cenário era sempre o mesmo e a sequência de acontecimentos também. Após 3 ou 4 tentativas de acordar ou pelo menos mudar de sonho para quebrar aquele "loop", tive um sonho em que finalmente bebi a minha água e acabei mesmo por aterrar no Japão... E ainda cá estou, com o ouvido interno a flutuar a 11.000 metros e com o relógio biológico a dizer-me que eram horas de dormir durante todo o dia e agora que é noite é que é tempo de acordar.
Estou numa Ryokan (estalagem tradicional japonesa), já descansei no meu futon e agora estou no meu quimono sentadinha ao estilo seiza com o laptop numa mesa baixinha,.
Ainda não experimentei o onsen (banho público) aqui na Ryokan, mas parece-me delicioso. Sò tenho que perder a vergonha de estar em pelota a partilhar a banheira com outras senhoras - felizmente este aqui tem separação de sexos, mas há locais onde são unisexo e isso para mim já seria esticar a corda.
Tomei um duche na casa de banho super-engraçada do quarto - é um módulo único tipo WC portátil instalado no quarto. Parece uma casa de banho de avião ou comboio, mas com chuveiro incluído e claro, daquelas sanitas que nos lavam o rabinho (que também ainda não experimentei).
Neste momento estou fascinada com as regras matemáticas por trás dos tatami: as salas são feitas à medida de um certo número de tatami  (e não o contrário) e o tamanho dos tatami varia de região para região. Imaginem se fôssemos assim tão rigorosos com os tamanho dos nossos tapetes.
Entre as inúmeras regras de etiqueta que estudei antes de vir, já falhei na aplicação de algumas. Cometi o erro grave de ao acordar no avião assoar o nariz ruidosamente, o que parei imediatamente de fazer assim que vi várias cabeças a virarem-se para ver quem tinha sido o sacrilego. Por outro lado o rapaz sentado ao meu lado fartou-se de libertar flatulências, com alguns efeitos sonoros (eu tinha tampões nos ouvidos e mesmo assim ouvi) e ninguém pareceu demasiado incomodado com isso.
Outra regra que quebrei foi pousar a nota para pagar o alojamento, em cima do balcão e o senhor que me atendia fez uma exclamação qualquer muito aguda, que me fez sentir extremamente culpada não sei bem de quê. O senhor pegou na nota com as duas mãos, fez uma vénia enquanto dizia algo em japonês e levou a nota com as duas mãos estendidas até à sala do lado, voltando com o troco  que me entregou da mesma forma, com muita reverência. Dessa vez já peguei com as duas mãos, com um ar  muito humilde e agradecido e muitas vénias à mistura.
Ainda não percebi muito bem a filosofia por trás disto, apenas sei que devemos sempre dar e receber seja o que for com as duas mãos e que as vénias nunca são demais.
Agora vou recuperar mais um pouco do jet lag e comer qualquer coisa, de preferência nada demasiado esquisito para começar.

Friday, September 24, 2010

BXXL

Voltei a Bruxelas (o regresso anual obrigatório), com passagem por Ghent incluída no roteiro.
Pela primeira vez não me senti muito entusiasmada com a minha ida a Bruxelas e julguei que o "amor" já se tinha esgotado. Mas acho que era a perspectiva de muito trabalho e pouca diversão que me estava a roubar o interesse pela viagem.
No fim soube-me tão bem como de costume e na hora do regresso já queria ficar por lá novamente. Bruxelas é tão fixe! Enfim, não me ocorre algo mais profundo para a descrever - nunca me aborreço naquela cidade.
Por cancelamento de algumas reuniões de trabalho, acabei por ter dois dias livres em Bruxelas em que acabei por fazer a ronda habitual às lojas de 2ª mão, ao BOZAR, às livrarias alternativas, aos brocantes, etc... Como é da praxe, trouxe mais umas 10 caixas de chocolates belgas para a família e amigos e mesmo mesmo antes de regressar ao aeroporto passei numa típica "baraque à frites" para um engordativo pacote de crocantes batatas fritas belgas. Uma japonesa acabadinha de aterrar em Bruxelas (a sair da Gare Centrale com a mochila às costas) quase me saltou para cima e me matou de susto para me perguntar "Ihhh! Onde posso comprar disso!",  "Hãã... O quê?", "Isso, Isso!" e apontava para as batatas fritas. Ah, isto! "É só descer a rua e naquela esquina encontra um pequeno snack de cor amarela com "frites"." E lá vai ela em passo acelerado como se não pudesse aguentar nem mais um segundo para provar as famosas "frites belges". Infelizmente só desta vez descobri que o verdadeiro segredo das batatas belgas é serem fritas em gordura animal... Uma colega alemã perguntou-me se eu era assim tão "radical" que ia deixar de comer as ditas batatas por causa disso. Eu disse-lhe que talvez não, mas só porque as como uma vez ao ano. Se as comesse regularmente, com certeza deixaria de o fazer. Além do mais descobri que - pelo menos em Ghent - existem locais onde servem a versão vegetariana das famosas batatas (fritas em óleo vegetal), pelo que da próxima vez irei tentar descobrir tal coisa também em Bruxelas. Radical, com muito prazer.
Passei pelo meu antigo escritório para visitar os colegas. Não estava nos meus planos, mas a Sevelina mais ou menos arrastou-me e eu não me fiz rogada. Digamos que o ambiente que outrora existiu já se extinguiu e isso reflecte-se até na varanda que no meu tempo com os meus cuidados estava vibrante de verde e agora tem meia dúzia de plantinhas murchas e serve de arrecadação de todo o tipo de lixo. Tudo muda.


De resto o que posso contar mais? Só mesmo a minha aventura no Parlamento Europeu, que vai ficar nos anais da história.
Cheguei a uma 4ª feira à tarde a Bruxelas e fui directa ao Parlamento onde estavam já colegas meus a prepararem a conferência que estávamos a co-organizar para o dia seguinte no Parlamento. Com a autorização de uma parlamentar dos Verdes, foi-me emitido um cartão de acesso ao Parlamento para dois dias.
Estava planeado ficar até ao final da tarde e depois juntar-me a um jantar dos organizadores que teria lugar num restaurante ali perto. Acontece que toda a gente começou a desaparecer e apenas ficámos 4 pessoas no escritório com cerca de 300 capas para encher com o programa e outros documentos da conferência. Se fosse apenas isso, seria rápido, mas cada capa tinha o nome do participante, tinham que ser organizadas alfabeticamente e em cada uma deveríamos colocar uma série de facturas e/ou recibos com o nome respectivo da pessoa. Afiguravam-se horas de trabalho pela frente. 
 
Eu tinha reservado um quarto em Ghent, mas não fazia sentido nenhum ir até lá para voltar no dia seguinte a Bruxelas, pelo que perguntei à minha amiga Sevelina se podia dormir em casa dela. Ela anuiu, mas pediu-me que não chegasse depois das 0h00, pois estava doente e precisava de descansar.
O trabalho prosseguiu a bom ritmo, mas às 0h00 estava longe de estar terminado e dois outros colegas resolveram ir embora sem terminarmos a tarefa. Entretanto os últimos metros e trams estavam a partir e as minhas opções a reduzirem-se. O meu colega José (americano-mexicano) disse-me que tinha decidido dormir no Parlamento. Então liguei à Sevelina a dizer que também ia dormir no Parlamento e que ela poderia ir descansar.
Só os dois, terminámos o trabalho às 3 da manhã. Pegámos em todas as pastas e outros documentos e levámos tudo em trolleys até à sala da conferência. Subimos de elevador, descemos rampas, percorremos corredores e em todas essas voltinhas, nunca vimos vivalma. Por essa altura eu já me interrogava se haveriam alguns seguranças (ao menos um?) em todo o Parlamento. Seria assim tão normal pessoas ficarem a trabalhar lá de noite, que os seguranças que nos vissem nas câmaras de vigilância nem nos ligavam? Duas pessoas a transportar caixotes de papéis às 3 da manhã... Não despertaria a atenção da segurança? Aparentemente não.
Quando tudo estava mesmo terminado, e depois de darmos mais umas voltinhas e de tirarmos umas fotos no hemiciclo com toalha de rosto na mão e sem sapatos (ainda pensei em vestir o pijama, mas o meu colega americano receou que isso fosse ir longe demais), lá decidimos abancar nuns sofás muito confortáveis que estão na ala dos Verdes e passar pelas brasas.
Talvez passada uma hora acordei com o som de heavy metal de alguém que usava headphones mas tinha a música demasiado alta. Aproximava-se rapidamente com o bater sequencial de portas ao longo do corredor. Percebi que era um segurança que andava a fazer a ronda e percebi que a nossa aventura estava a chegar ao fim. Um segurança novinho ficou estático a olhar para nós mas depressa se descontraiu quando percebeu que éramos só uns "verdes" malucos descalços a dormir no sofá. Divertido, perguntou-nos o que raio estávamos ali a fazer. Explicámos que tínhamos ficado até às 3 da manhã a trabalhar para a conferência que iria ter lugar de manhã, e que depois era tarde demais para irmos onde quer que fosse. Mostrámos-lhe os nossos passes e perguntámos se podíamos ficar. Ele disse que por ele não havia problema, mas que o superior dele não ia gostar nada. Então surgiu o superior e passámos por uma cena do tipo "good cop, bad cop". Ele era o "polícia mau", matulão, cara de poucos amigos... "Quem são vocês e o que estão aqui a fazer?". Explicou-nos que apesar de termos passe para os dois dias (logo, supostamente 48 horas) na verdade este não nos permitia passarmos lá a noite, apesar de por acaso até haver esse tipo de autorização especial a quem a pede - mas como é que nós poderíamos ter adivinhado? E mesmo sabendo, nunca saberíamos que iríamos precisar dela.
Apesar de tudo, mesmo o segurança mais velho no fim também já sorria, divertido com o caso. Afinal de contas o trabalho deles deve ser extremamente aborrecido e quando uns malucos como nós aparecem para animá-los, eles até agradecem. 
O meu colega americano estava em pânico total. Só perguntava "Estamos metidos em apuros? O que nos vai acontecer?". Ele já estava convencido que ia para a prisão e depois como seria para voltar a casa?  Eu disse-lhe "Relaxa, estás na Europa!" Até mesmo os seguranças tentaram acalmá-lo dizendo que não ia acontecer nada. Apenas iam registar o acontecimento e desde que não fosse registado nenhum outro incidente (tipo documentos desaparecerem), não sofreríamos qualquer punição.
O segurança senior disse que compreendia perfeitamente a nossa situação, mas que também tínhamos que compreender a situação dele, que ele não podia permitir que ficássemos, sob risco de recair sobre ele a responsabilidade de algo que acontecesse. Claro que eu compreendi. Fizemos um bocadinho de choradinho, pedimos para ficarmos algures num local vigiado por eles (lá fora estava a nevar e temperaturas negativas), mas ele quis ensinar-nos uma lição e meteu-nos mesmo na rua.
Disse-nos que caminhássemos para nos mantermos quentes e que às 5 da manhã abriria a Gare du Luxembourg (subterrânea, mesmo por baixo do Parlamento) e que poderíamos refugiar-nos lá do frio. Também disse que às 6 da manhã abria lá uma pastelaria onde podíamos beber um cházinho quente e comer uns croissants fresquinhos. O meu colega estava mesmo cheio de sono e desesperado por não poder dormir, mas eu estava super-divertida e a aproveitar cada momento. Claro que tive imenso frio e fome (é que para agravar a situação, o nosso jantar tinham sido umas "gummy bears" e o meu almoço do dia anterior foi só uma sandes que os meus colegas desencantaram algures no Parlamento, uma vez que eu tinha chegado demasiado tarde para ir à cantina). Fquei com dores de tentar dormitar sentada e reclinada  nos mais diversos sítios frios e desconfortáveis onde tentámos encontrar refúgio, mas aproveitei a experiência para imaginar o sofrimento diário das pessoas sem-abrigo e me sentir ainda mais solidária com elas. Ás 7 da manhã voltámos a entrar no Parlamento. Os seguranças na entrada já eram outros, pelo que se perdeu a oportunidade de nos rirmos juntos da situação. Uma lavagem à gato na casa-de-banho, uma muda de roupa e lá estava eu de pé a entregar as pastas aos participantes que chegaram a partir das 8h, sem imaginarem a aventura vivida por trás do meu olhar cansado.

Monday, August 16, 2010

Barcelona, um mundo à parte

"Barcelona - It was the first time that we met
Barcelona - How can I forget
The moment that you stepped into the room you took my breath away
Barcelona - La música vibró
Barcelona - Y ella nos unió
And if God willing we will meet again someday"

                 Barcelona - Freddie Mercury & Montserrat Caballé

Estive uma semana em Barcelona. Enfim, não foi uma experiência tão arrebatadora como a que canta a música, mas gostei muito de lá estar e espero regressar se as causas e condições se reunirem.
Na verdade fiquei alojada em casa de um amigo em Castellterçol, uma terrinha encantadora na serra, a 45 minutos de Barcelona. Inicialmente senti-me frustrada por isso não me permitir visitar a cidade quando e como me apetecesse, mas rapidamente me rendi aos ares do campo. Passeámos pelo bosque, atravessámos quintas, bebemos de nascentes, fizemos amizade com as borboletas...
Quando finalmente visitei Barcelona, tive mais um déjà vu onírico, como sempre tem acontecido quando viajo a um sítio novo. Uma ruela inclinada e com um certo ângulo de convergência com uma praça trouxe-me à memória um sonho que tinha tido meses antes sobre um local que então não me dizia nada. Na altura pensei: não faço ideia onde seja, mas ao chegar àquela rua em Barcelona, não tive dúvida nenhuma de que era aquele local. Até a densidade de pessoas que subiam e desciam a rua era idêntica à do sonho, a praça onde desaguavam idem e tudo o resto do sonho se encaixava agora na perfeição, incluindo o pormenor de ter sonhado que ficaria alojada fora da cidade e de estar numa paragem de autocarro à espera que alguém me viesse buscar. Enquanto todas essas imagens voltavam vívidas à minha memória, eu devia estar a fazer uma cara absolutamente chocada com a experiência, porque os turistas que passavam olhavam para mim com preocupação "será que ela está bem?"
Mas deixando estas coisas incredíveis de lado, vamos aos pontos de interesse na cidade: a arquitectura de Gaudi (dica: visitar La Pedrera depois de uma caipirinha tomada no Tijuana, ajuda a entrar no espírito da coisa); as construções modernistas que pululam pela cidade; a zona velha da cidade e o antigo bairro piscatório; as praias um tanto ou quanto sujas mas extremamente concorridas e com uma água deliciosamente calma e quente; e claro os museus, mas confesso que não vi nem um.
Na verdade não vi nem metade do que poderia ter visto, pois os meus recentes amigos catalães não me deram qualquer chance de vaguear livremente pela cidade e caminhar de sol a sol como é meu costume. Antes me arrastaram de esplanada em esplanada, de restaurante em restaurante, de convívio em convívio, obrigando-me a entrar nos estranhos horários que eles seguem.
Pequeno-almoço? Tive alguma dificuldade, pois não é coisa em que os meus amigos invistam muito. Uma caneca de chá com um fiozinho de leite de espelta e lá tinha que aguentar com isso até à hora de almoço. Almoço às 13h da tarde? Isso era o meu sonho. Na verdade levavam-me a beber uma orxata de xufa e ali ficávamos até às 15h, altura em que, se eu tivesse sorte, eles lá decidiam ir comer qualquer coisa. Por essa hora tudo o que eu queria era enfardar um bom prato de comida, mas estes meus amigos vivem na terra das tapas. Por isso levavam-me invariavelmente a um restaurante onde se pagava em média 20 EUR e se comia primeiro uma saladinha, depois um crepe, depois uma batata recheada ou outras combinações que apesar de deliciosas nem sempre me conseguiam deixar a barriga feliz e contente. À hora de jantar (no meu horário) correspondia (no deles) uma nova visita a um bar ou esplanada para mais uma orxata ou um granizado ou uma cervejola. Jantar mesmo, só lá para as 22-23h, se por acaso eles tivessem fome.
Não aderi de coração às orxatas porque eram incrivelmente doces, mas tarde demais percebi que era graças a elas que os meus amigos aguentavam horas a fio sem comer - andavam movidos a açúcar.
Dos poucos passeios guiados que os meus amigos me proporcionaram constaram uma visita ao estádio olímpico e ao exterior do estádio do Barça. Mesmo depois de eu repetir dezenas de vezes que não podia ter menos interesse em futebol e em estádios, ainda me convidaram a entrar no museu do Barça, dizendo entusiasmados que é o museu de Barcelona que recebe mais visitantes. Lá concluímos mais tarde que afinal estávamos perdidos na tradução. Quando eu dizia "chega! chega!" eles entendiam "siga! siga!" e por isso davam-me mais...