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Tuesday, November 18, 2008

Bruxelloise au coeur

Um ano depois, regressei a Bruxelas. Uma emoção surda instalou-se assim que vi ao longe o perfil da cidade. Enquanto lá estive tentei analisar os porquês daquilo que sinto e excluí coisas concretas como casos mal-resolvidos dentro dos seus limites. Concluí que, para além do sentimento que terei para sempre associado a esta cidade, por ter sido o local do meu renascimento, a cidade tem um je-ne-sais-quoi que se escapa por todos os seus poros e que me invade.


Quando estava pela madrugada na varanda do Palais de Justice sobre os Maroles, a ver a cidade em silêncio e coberta por uma névoa espessa, convenci-me de que estava suspensa numa bolha fora da qual nada mais existia. Naquele momento só a cidade era real e nada mais existia para lá do nevoeiro. Quando estou nesta cidade, não existe nada para lá dela. Apodera-se de mim uma melancolia que nem em Lisboa sinto.
Noutra ocasião sentei-me no parapeito da sala redonda das estufas do Botanique e ali fiquei a ver anoitecer. O jardim oitocentista lá em baixo rodeado pelos prédios altos envidraçados das avenidas que o rodeiam, pareceu-me partilhar comigo os meus sentimentos. Sentimentos de nostalgia pela inevitabilidade do passar do tempo, da mudança, do adeus, dum romantismo sempre ansiado mas nunca vivido.
No metro do Botanique há um painel de azulejos de homenagem a Fernando Pessoa. Um esboço dele meio pensativo, debruçado sobre um rapaz que lhe engraxa os sapatos. Sempre achei muito adequado encontrá-lo ali quando saio do Botanique. Porque ali a poesia torna-se real.

Les feuilles jaunes des arbres tombent l'une après l'autre, comme je tombe d'amour et ensuite je tombe du haut de mes illusions.

Soube que nas Caves de Cureghem estava a exposição Körperwelten e não resisti a ir dar uma espreitadela. Tinha ouvido rumores de que o mentor da exposição era um tipo um bocado manhoso - tem fama de nazi e de usar corpos de chineses executados para as suas experiências de plastinação de corpos - mas apesar disso achei que devia ir ver com os meus próprios olhos tão polémica exibição.
Ao longo da exposição é repetido incessantemente o quanto esta revela a beleza escondida por baixo da nossa pele. É discutível. Há quem diga que "beauty is skin deep". De facto não somos tão atraentes sem pele e com os orgãos à mostra, mas também não senti qualquer tipo de repulsa. Somos como somos, tão bonitos ou tão repulsivos, por dentro ou por fora, consoante mudemos de perspectiva e nos desprendamos de preconceitos.
A maior parte das pessoas que vê esta exposição de certeza que fica uma semana sem vontade de comer carne, mas no meu caso, ao olhar para uma coluna vertebral com os músculos e tendões agarrados, de repente senti desejo de costeletas. Tudo é relativo.

Estive em casa da Sevelina, num dos inúmeros e memoráveis jantares que se realizam na rua Hôtel de la Monnaie e ela disse que não queria ver tal coisa, que se sentiria mal. Eu disse-lhe que é importante confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade e aceitá-la com naturalidade, mas um coro de vozes se levantou - ninguém em meu redor parecia querer sequer pensar nisso. É mesmo verdade que estamos cada vez mais desligados da morte e convencidos de que vamos viver para sempre, frescos e radiantes. Apercebi-me de que nunca vi nenhuma pessoa morrer. Já morreram nos meus braços animais não-humanos, mas nunca vi sequer um cadáver humano - excepto agora os plastinados. Fazemos de tudo para afastar e esconder a morte que ela já nem sequer faz parte da equação da vida. É algo de que não queremos falar até ao dia em que nos acontecer. E porquê? Porque as pessoas acomodaram-se à ideia de que a matéria, tal como os seus sentidos iludidos a apercebem, é tudo o que existe e sentem-se agoniadas perante a perspectiva do vazio da não-existência. Esse é o triste legado da nossa civilização materialista. Felizmente eu não herdei esse legado e tenho uma perspectiva diferente, logo a morte não me angustia.
Muitas vezes penso que a única coisa que me faria agarrar com unhas e dentes à vida se me visse às portas da morte, seria o querer evitar a todo o custo o sofrimento daqueles que deixaria para trás. Porque sei que eles sentiriam imensa agonia e é só isso que eu não suporto.

Também fui ver a exposição "Le sourire de Bouddha" no BOZAR. Como sempre no BOZAR, uma exposição lindíssima. Uma viagem pela história do budismo na Coreia através de estátuas e pinturas impressionantes.
Durante a minha estadia em Bruxelas tive ainda possibilidade de jantar no trendy Belgo-belge, almoçar no acolhedor Imagin'air, beber kriek num pub anónimo, tomar vodka com ananás no Calabriego e viver um serão multicultural com um artesão argentino, um dançarino do Burkina Faso, uma escriturária alemã e uma empregada de bar espanhola. L'habituel à Bruxelles

Saturday, September 15, 2007

"Volta ao mundo em 80 dias"

Ora bem, por onde começar? Tinha planeado umas férias bem catitas em Agosto que incluíam estadia em Berlim, Hamburgo, Amesterdão entre outras. Arranjei dormida gratuita nessas cidades e boleia até Berlim, mas na hora da partida os impedimentos sucederam-se e perdi as oportunidades (que estavam todas encadeadas): não conseguia levantar dinheiro da minha conta, uma das pessoas que me ia acolher teve que cancelar a oferta por razões pessoais, fiquei com uma dor na perna que me obrigou a ficar no sofá 3 dias... Mas eu tinha um plano B, que se baseava em viagens mais curtas com regresso a casa pelo meio em vez de um tour prolongado. E assim que melhorei da perna e consegui levantar algum dinheiro, lá parti à aventura.

Lille e Tournai
Lille fica na França, perto da fronteira com a Bélgica e Tournai fica na Bélgica no caminho para lá. Gostei de Lille, mas Tournai é bem mais encantadora.
Já posso acrescentar mais uma grande cidade francesa à minha lista de visitas, mas quase valia mais a pena ter-me ficado por Tournai e tê-la explorado mais a fundo.
Nesta viagem apercebi-me de que já me considerava mais belga que portuguesa, porque alguém me perguntou a minha nacionalidade e eu ia dizer belg... ups. Mais tarde na viagem de regresso senti uma pontinha de ofendimento quando um francês no banco da frente que claramente ia à Bélgica pela 1ª vez, insistia que a Bélgica é 5 ou 6 vezes mais pequena que o Luxemburgo e que nem devia ser um país. "Pegue num mapa, homem!!!"

Amesterdão e Roterdão
Amesterdão é quase de certeza a cidade mais feliz do mundo, pelo menos dentre aquelas que eu já tive o privilégio de conhecer. A liberdade que as pessoas usufruem em Amesterdão para se exprimirem, para serem o que são, sem complexos, sem tabus, dá origem a uma alegria e a uma criatividade que se sentem no ar. O ar vibra de sentimentos positivos e deve ser difícil não ser contagiado por eles. A seguir a Bruxelas, se tivesse que escolher outra cidade onde viver seria Amesterdão.
No regresso passei por Roterdão, mas fiz a asneira de sair pelo lado errado da estação de comboios - fui para o interior em vez de ir para o lado do porto e acabei por perder as vistas mais espectaculares da cidade. Vi a câmara municipal, uma igreja e mais uns quantos locais históricos, mas não vi a Roterdão mais característica. Quando me apercebi do erro (não tinha um mapa da cidade comigo) já não tinha tempo para o corrigir, porque tinha mesmo que apanhar o comboio. A culpa foi do meu entusiasmo por Amesterdão que me levou a ficar lá mais horas do que tinha planeado em detrimento da visita a Roterdão.

Luxembourg e Namur
No caminho para o Luxemburgo passei por Namur, outra bela cidadezinha belga, na Walónia. Descobri que as coisas mais interessantes desta cidade ficam nos arredores, mas mais uma vez por falta de tempo não pude vê-las e fiquei-me pelo centro da cidade. Quando cheguei ao Luxemburgo já estava de rastos depois de vários dias de caminhadas intensas e decidi gastar um pouco de dinheiro naquelas viagens de autocarro de 2 andares e de comboiozinho para turistas. Acabou por ser bem divertido e útil, porque vi as tais belezas dos arredores da cidade que a pé nunca teria tempo nem energia para explorar. No final ainda tive tempo para percorrer a pé o centro da cidade.
Fiquei surpreendida com o Luxemburgo, não era nada do que eu estava à espera, muito menos impressionante do que eu imaginava, mas é possível que fazer turismo em série até ao ponto da exaustão tenha dado cabo da minha capacidade de apreciar verdadeiramente as paisagens.
Algumas das principais atracções do Luxemburgo: Instituto Camões, Banco Totta, CGD... Just kidding ;) Mas é estranho notar que apesar da forte presença portuguesa que, aliás, estes bancos e institutos realçam bastante bem, não se ouve falar português nas ruas. Parece haver muito mais portugueses em Bruxelas que no Luxemburgo, possivelmente porque os portugueses no Luxemburgo já há muito tempo que não falam português a não ser quando vêm de férias a Portugal (e mesmo nessas alturas, geralmente preferem falar em francês ou alemão, para mostrarem "que não são de cá").

Mais Bruxelas e Brugge
Entretanto a minha mamã foi até Bruxelas ajudar-me a empacotar a tralha e eu preparei uma semaninha de divertimento intenso para ela. Revisitei com ela os principais locais de Bruxelas e levei-a a uns quantos sítios que eu própria ainda não conhecia. Fomos também a Brugge, onde assistimos a um desfile anual fantástico.

Fartei-me de tirar fotos memoráveis. Umas boas centenas.
Recebi algumas críticas pela minha opção de passar perto de 3 semanas a correr dum lado para o outro que nem uma maluca em vez de relaxar num único local como se faz numas verdadeiras férias. Mas não me arrependo da opção. Andei metade do tempo com dores nas pernas e bolhas nos pés e muitas vezes ao fim do dia já não conseguia apreciar nada com o desejo de voltar para casa e ir dormir, mas eu queria ver o máximo possível enquanto tinha a oportunidade ali à mão. Acredito que oportunidades não faltarão, mas isso não é razão para desperdiçar uma que seja.
Em 26 anos só tinha estado em Portugal, em Espanha e um dia e meio em Paris, mas num só ano conheci mais 8 países (mesmo que nem todos com grande profundidade...). A riqueza dessa experiência valeu bem as dores físicas.

Wednesday, August 08, 2007

Je parle français comme une vache espagnole!

Eis uma expressão francesa verdadeiramente interessante e com a qual eu me identificava completamente. Mas aparentemente o meu francês é muito melhor do que eu julgo, pois acabei de dar uma entrevista para uma televisão local de Mons e a jornalista disse-me que o meu francês é excelente. Enfim, não é excelente, mas tendo em conta que eu lhe dizia que não estava muito segura quanto a falar francês, ela ficou surpreendida por afinal eu até ser capaz de passar umas horinhas na conversa en français.
C'était vraiment chouette!

Além da entrevista propriamente dita, que foi demasiado rápida e não me deu tempo para desenvolver ideias nenhumas de jeito, fartei-me de fazer teatro: "vamos fazer de conta que acabaste de chegar ao escritório", "agora conversa qualquer coisa de trabalho com os teus colegas", "agora faz de conta que estás a cuidar das plantas", "agora faz de conta que estás a chegar d'algures à loja bio para fazeres as tuas compras".
Sou uma péssima actriz. Foi difícil fazer de conta que era a sério. Tive que repetir a minha entrada na loja bio umas 3 vezes. E a maior parte do tempo tive que me esforçar para não me desatar a rir.
Também desestabilizei um pouco o dia-a-dia no escritório da IFOAM EU, mas acho que toda a gente se divertiu com a quebra de rotina e por isso pas de problème.
No total, tudo isto durou umas 3h, mas a minha história será resumida a 4 minutos na reportagem final. Uau, nem sequer chegam a ser 15 minutos de fama...
E apesar de ser realizada por uma televisão local, a reportagem será transmitida em toda a Walónia (zona sul francófona da Bélgica), mas só lá para Novembro/Dezembro. Antes disso eles ficaram de me enviar a gravação como souvenir :) Se o resultado final não for muito embaraçoso, vou tentar partilhá-lo aqui em formato digital.
Et voilà, c'est tout pour le moment :)

Friday, July 20, 2007

Bolos e desertos

A língua oficial não-oficial do "quartier européen" em Bruxelas é cada vez mais o inglês. E talvez por isso o Exki aqui da esquina, tem uma placa à porta com a descrição em inglês do que lá se pode comer. Cada dia que por lá passo rio-me sozinha quando leio que entre as soups e as tarts, também lá servem cakes & deserts. (Para os mais distraídos, eles pretendiam dizer desserts=sobremesas e não deserts=desertos). Apetece-me pegar numa caneta e acrescentar lá o "s" que falta, mas ao mesmo tempo acho que a placa tal como está acrescenta uma pitada de poesia surrealista à vida. Não consigo evitar pensar que bolos e desertos é uma descrição adequada para o cenário da minha vida nestes últimos dias.
A 15 dias de terminar o meu trabalho e a mês e meio de deixar Bruxelas, as pessoas olham para mim quase como que preocupadas com o meu estado emocional, mas não é o fim do mundo, não vou ficar deprimida por deixar Bruxelas, apenas saudosista. E o futuro é um livro à espera de ser escrito, por isso quem sabe se não voltarei em breve a Bruxelas ou irei para algum outro local ainda mais fantástico?
No entanto todas as fases de transição se parecem um pouco com uma travessia do deserto e eu não consigo evitar sentir um pouco isso. Felizmente este é um deserto cheio de bolos!
Todos os dias alguém faz anos, alguém chega a ou parte de Bruxelas, alguém espirra e decide comemorá-lo, por isso todos os dias há festas e bolos! No fim-de-semana passado fui a um festival de música em Gent, onde dividi o meu tempo entre 2 grupos diferentes de amigos que não se quiseram juntar para me facilitar a vida; durante a semana fui várias vezes ao cinema, com amigos e desconhecidos; ontem houve um lanche de aniversário no escritório e bolo de morangos com chantilly; hoje vou a uma festa de mudança de casa; amanhã vou a outra festa de um aniversário que já teve lugar há 2 semanas - não importa!
Todos os dias devemos celebrar o simples facto de estarmos vivos e em Bruxelas parece que isso é realmente posto em prática!
O tempo é que não tem sido muito amigo das festas. Durante breves momentos, por vezes alguns dias, é possível apercebemo-nos de que já estamos no Verão, mas a maior parte das vezes parece que ainda estamos presos no Inverno.
Voltei a calçar as botas e mesmo a vestir o meu casaco mais quente em alguns destes últimos dias. Este está a ser oficialmente o pior mês de Julho de que tenho memória.
Mas é melhor não me queixar muito, pois parece que na América do Sul está um frio polar e que na América do Norte se debatem com 40ºC. Perante isso Bruxelas é um paraíso de temperaturas amenas.
Ainda hoje vi uma escuridão fora do normal aproximar-se por cima das nossas cabeças e passado um bocado um relâmpago caiu no pára-raios do prédio em frente, basicamente a 50 metros de distância da minha secretária. Parecia que uma bomba estava a explodir à minha frente. O estrondo foi simultâneo ao relâmpago e ressoou nas minhas entranhas todas. O flash de luz branca só não me deixou meio cega porque eu tinha as cortinas parcialmente corridas, mas foi pena porque na verdade eu gostava de ter visto o espectáculo todo...

Tuesday, April 24, 2007

Duas semanas em dois minutos

Não tenho dado notícias, mas estou bem. Voltei tão rapidamente à minha vida intensiva que, como é costume, não tive tempo de actualizar o blog.
Assim que comecei a sentir-me melhor há 2 semanas, passei o domingo com o Damien. Visitámos o Tour & Taxis (antigo compelxo industrial transformado em centro de exposições), onde decorria o Festival de Cinema Fantástico e uma deprimente Convenção Star Wars (que não passava dum encontro de meia dúzia de tipos mascarados, num armazém quase vazio). Andámos de barco nos canais imundos de Bruxelas e encontrámos quatro das minhas colegas de EVS, com as quais tomámos uma bebida num café de esquina num bairro muçulmano algures em Anderlecht. Passeámos por Bruxelas até o sol desaparecer e jantámos num restaurante tailandês ou tai-vietnamita ou indo-chinês ou algo do género.
Na 5ª e 6ª feira passadas participei na Conferência das Regiões Livres de OGM e conheci por lá um etíope que me quer levar para o país dele. Jantámos num restaurante lindíssimo perto da Rue Americaine, estilo industrial a caminhar para o Art Noveau, depois tomámos uns copos (suminho e cházinho no meu caso) e falámos horas a fio pela noite dentro, o que me permitiu experimentar o novo sistema de autocarros nocturnos de Bruxelas. No sábado estive numa reunião do GENET todo o dia, onde cabeceei de sono e lutei por me manter de olhos abertos. Mas no domingo em vez de ir dormir, encontrei-me com duas Anas e mais uns quantos bexpats e fomos visitar as Estufas Reais de Laeken. Lindo!!!
Depois disso tinha planeado finalmente ir para casa descansar, mas acabei por ir ficando... Almoçámos num resto mexicano no Bruparck, bebemos mais uns copos (mais cházinho) em St.Gilles, passeámos pelos lagos em Flagey e pela Abbaye de la Cambre, bebemos mais copos no Café Belga, comemos frites na Place Jourdan e quando finalmente vi as horas: "Ui, 22h! Amanhã é 2ª feira e não descansei nada!"
Depois admiro-me que me sinto de rastos e fico doente...
Hoje tive o bom senso de não sair novamente com o Damien, a Sevelina e o Patrick, porque apanhei ao de leve a constipação da Ana, mas custou-me muito impôr a razão sobre a diversão... O que me serviu de incentivo foi o facto de eu querer ir a Amesterdão no domingo que vem, o que não poderá acontecer se eu estiver doente! Foi portanto um sacrifício menor por um bem maior :)

Saturday, April 14, 2007

Por água abaixo

Afinal todos aqueles planos de ir ao Festival de Cinema e tantos outros que eu tinha para o fim-de-semana prolongado da Páscoa foram por água abaixo. Adoeci e já há uma semana que mal saio de casa. Não é muito habitual isto acontecer-me, mas muito de vez em quando até a mim acontece.
Já me sinto melhor, mas tenho que me portar bem durante mais uns tempos.
Amanhã vou a casa da Sevelina, a mais uma festa, mas tenho que permanecer muito quietinha e beber muito cházinho, nada de me meter nos copos... Vai ser uma seca quando estiverem todos a rir-se de coisa nenhuma e eu não perceber a piada por falta de álcool no sangue :)
Desta vez a festa é de despedida ao Damien. Bruxelas tem destas coisas, assim como nos dá a conhecer muita gente e a fazer muitos amigos, também nos obriga constantemente a dizer-lhes adeus.
Penso que agora percebo o que é que a cidade tem que lhe dá a personalidade: aqui vive-se numa euforia que se sustenta continuamente porque nada dura muito tempo. As pessoas chegam e partem constantemente, as relações criam-se e dissolvem-se a toda a hora e nunca se chega àquele ponto em que tudo começa a decair. Nada chega a ser suficientemente profundo, suficientemente real para que ocorram desilusões, desentendimentos, incompatibilidades. Quando quase se chega a esse ponto, muda-se de sítio, volta-se para casa, liga-se o sorriso, recomeça-se de novo.
Talvez seja só impressão minha, mas eu vejo Bruxelas mudar de máscara todos os dias.

Friday, April 06, 2007

A noite dos vegetais assassinos

O Damien levou-me a um terraço panorâmico no 10º andar dum prédio perto de St. Catherine. Uma coisa tirada de um filme. Podia ser de qualquer tipo de filme, mas decididamente tirada de um filme. Ele só me disse "Quero mostrar-te uma coisa" e entrámos num prédio cinzento e sujo, com um bar esquisito no rés-do-chão. Entrámos no elevador, subimos ao 10º andar e a porta abriu-se num terraço enorme com vista sobre quase toda a cidade: Grand Place, St. Catherine, St. Michel et Gudule, Basilique Sacré Coeur, you name it... Uma névoa ligeira cobria a cidade, uma brisa quente soprava, o sol resplandecia, a cidade gritava "I aaaaaaaam!"... Serei só eu a senti-lo ou estes momentos únicos são intrínseca e profundamente intensos? Tão intensos que não é possível dizer se são belíssimos porque se tornam dolorosos de tão insuportavelmente intensos que são.
A Sevelina juntou-se a nós mais tarde e depois de perseguirmos o sol de esplanada em esplanada, fomos ao Pure Bar, onde nos sentámos descalços em almofadas, degustámos uma infusão de rosas búlgara e jogámos Mikado - um bar fora do comum, portanto :) Après, fomos ao Cinema Nova ver um filme do Festival de Cinema Fantástico - outra experiência fora do comum. Não tínhamos cadeiras onde nos sentarmos, porque continuaram a vender bilhetes mesmo depois da sala estar cheia. Mas isso foi o mais normal. O filme foi o mais bizarro: "Matango", um filme japonês dos anos 60, sobre um grupo de náufragos que vai parar a uma ilha onde a única coisa comestível e abundante são cogumelos alucinogénicos que transformam lentamente em cogumelos gigantes quem quer que os coma. Não conseguimos deixar de rir do princípio ao fim. Já não se fazem filmes assim :) A seguir ia passar o "Ataque dos Tomates Assassinos", mas achámos que já bastava de vegetais assassinos e não ficámos.
Na 2ª feira não perco o Japanimation Day e enquanto durar o festival espero ver mais uns quantos filmes, talvez a Convenção Star Wars e o Baile dos Vampiros? O problema é encontrar alguém que me queira acompanhar a estas coisas. Talvez conheça por lá algum Wookie ou Lobisomem que me faça companhia da próxima vez que eu quiser ir a New-Tokyo ;)

Wednesday, April 04, 2007

Impermanência

A Eva vai voltar para Espanha este sábado. Após 3 anos em Bruxelas decidiu que era tempo de regressar e não pensa voltar mais. Não que esteja farta de Bruxelas, ela adora esta cidade e foi com muito sofrimento que ela percorreu a meu lado alguns locais de Bruxelas que queria ver uma última vez.
Ela diz que se vai embora para fugir da vida em que aqui se enredou. Quer começar de novo e para isso tem que deixar para trás Bruxelas, pois já não consegue desligar a cidade da sua própria existência. Voltar a Espanha será para ela um renascimento.
Quando nos despedimos no metro, como se fosse apenas até um dia destes, eu não consegui evitar perguntar se nos voltaríamos a ver e ela disse que claro que sim, que havemos de nos cruzar em Paris ou em Nova Iorque. É remotamente provável que isso aconteça, mas honestamente eu senti que não. Já estamos suficientemente ligadas para que o adeus seja doloroso como um murro no estômago, mas não o suficiente para evitarmos que daqui a uns meses nos deixemos de escrever e nos esqueçamos uma da outra.
Daqui a quatro meses poderei estar no lugar dela, a querer memorizar cada detalhe de Bruxelas, a querer trazê-la para dentro de mim. Acompanhar a Eva neste último passeio pela cidade foi como que uma pré-experiência desse sentimento de perda. Por causa disso a cidade pareceu-me ainda mais viva. Parecia-me que estava a ver Bruxelas pela primeira vez e fiquei surpreendida com a quantidade de coisas que nunca tinha visto nas ruas por onde já passei tantas vezes.
Vou ter um fim-de-semana prolongado de 4 dias e tinha pensado viajar para fora de Bruxelas, mas agora decidi ficar na cidade, pois há ainda tanto dela que eu quero viver e absorver.
Já ando a sonhar com outros destinos, na Europa, na América, na Lua talvez. Daqui a quatro meses não sei se vou ou se fico ou se volto para casa. Mas sei que todas as despedidas são difíceis e que não interessa realmente o lugar para onde se vai, o que importa é aprender a não sofrer por aquilo que se teve que deixar para trás.

Friday, March 02, 2007

Bonjour mademoiselle

Gostava de ter coisas para contar, juro, mas tenho passado o tempo a fazer yoga, a estudar francês, a trabalhar e a tentar dormir alguma coisa e é difícil ter tempo para fazer algo digno de ser aqui contado.
Este sábado vou à festa de anos da Nocas e no domingo vou passear com a Eva aqui por Bruxelas em busca de coisas que ainda não tenhamos visto. Pode ser que então tenha algo para contar, se não ou terei de falar do meu trabalho ou de temas altamente importantes e filosóficos e sinceramente não me apetece escrever nem sobre uma coisa nem sobre a outra.
Só para não ficarem com a impressão de que escrevi um post sobre absolutamente nada, posso contar uma pequenina historieta.
Há um italiano que toca viola ali na saída do metro em Arts-Loi e a quem uma vez dei uma moedinha. No dia seguinte quando lá passei ele desatou aos berros "Bonjour mademoiselle! I know you! And I love you! I love you!" e começou a dedicar-me uma canção de amor qualquer. Entretanto deve ter ficado à espera que eu lhe desse mais moedinhas, mas como não dei ele ficou carrancudo durante uns dias. Agora voltou a estar sorridente e todos os dias me cumprimenta. Por causa disso já pensei voltar a dar-lhe outra moedinha, mas tenho medo que se o fizer ele ande uma semana a gritar "I love you" sempre que eu por lá passar.

Friday, February 09, 2007

Línguas de gato

Acabei de atender um telefonema da Al-Jazeera. Sim, da Al-Jazeera!
Parece que querem realizar uma reportagem sobre OGM e Agricultura Biológica e querem falar com o meu Director sobre o assunto. E tive que falar en français, porque o senhor que me contactou ne se sentait pas a l'aise pour parler en anglais.
E a propósito de francês, estou a frequentar 2 aulinhas por semana de 3h cada, na EPFC. O teste de admissão colocou-me no nível 6 de 11, mas a professora que é desconfiada e diz que os testes vão ser redesenhados porque não são de fiar, sujeitou-nos a outro teste só para ter a certeza de que estávamos no nível certo. E tanto ela como eu ficámos surpreendidas. Parece que toda a gente passou o teste com distinção e eu só cometi 2 pequeníssimos erros de ortografia e um erro mais feio de conjugação verbal que ela achou perdoável. Por isso continuo no nível 6.
Pode não parecer um nível por aí além, mas é o último nível do grau intermédio. Depois deste seguem-se os níveis de aprofundamento da língua, por isso não fiquei nada mal colocada. Agora tenho que me portar à altura e evitar dar barraca.
Entretanto a professora já me deu nas orelhas porque eu li num texto mille neuf-cent quatre-vingt quatorze em vez de mille neuf-cent nonante quatre! Perguntou-me se eu tinha aprendido francês na Alliance Française ou em Paris, com algum desprezo na voz. Cá na Bélgica não se usam essas antiguidades linguísticas, q'hórrôr! Cá diz-se nonante! Curiosamente, os belgas também dizem quatre-vingt em vez de octante, por isso não percebo a razão de tanto escândalo. Se são assim tão mais evoluídos que os franceses, ao menos levavam isso até às últimas consequências.
Ainda relacionado com línguas, o meu professor de yoga julgava que eu era inglesa, porque acha que eu tenho "sotaque", não me explicou é se tenho sotaque de inglesa a falar inglês ou sotaque de inglesa a falar francês. Habitualmente dizem-me é que tenho sotaque americano, o que me parece mais lógico, devido à influência dos filmes e séries americanos na minha aprendizagem de inglês. Influência essa que se mostrou em todo o seu esplendor há dias, quando conversava com uma colega inglesa do escritório aqui do lado. Descrevi-lhe o padrão da minha camisola, de grandes bolas brancas sob fundo castanho, como big balls. Ela olhou para mim com aquele ar tão chocado mas ao mesmo tempo contido que só os britânicos conseguem fazer e corrigiu-me: "polka dots, we call it polka dots". OK, eu sabia que big balls tinha um significado completamente diferente e potencialmente chocante, mas não me ocorreu outra descrição...
E para finalizar, no sábado passado um iraniano perguntou-me se eu era indiana. Diz que desde a minha cara, ao meu cabelo, à minha roupa e maneira de estar, tudo indicava que eu era indiana. Essa eu ainda não tinha ouvido...

La blanche neige

Eh pá e não é que nevou mesmo?
Ontem de manhã, estava eu muito estremunhada a lavar a cara na casa-de-banho, quando reparo numa estranha luminosidade branca vinda da janela (o vidro é fosco e não me permitiu perceber logo o que era). Abri a janela ainda meio a dormir e POW, fiquei instantaneamente com ar de desenho animado japonês - olhos esbugalhados, queixo caído, um guincho atravessado na garganta! Estava a nevar!!! Imeeeenso! Estava tudo branquinho e caíam flocos quase do tamanho da palma da mão. Como disse a Lena: "This is how snow is supposed to be!"
Acho que estive uma hora à janela no escritório completamente absorta pela neve a cair. Nas traseiras do prédio há um pátio interior delimitado por prédios altos, que tem uma pequena passagem de ar exterior que provoca uma corrente de ar circular. Graças a este efeito e aos flocos de neve serem perfeitos como bolinhas de algodão, a neve dançou em círculos e espirais antes de finalmente assentar no chão. Lá pelo meio, consoante a corrente de ar variava, por vezes a neve voltava a subir e depois descia novamente e como por magia, por vezes ficava simplesmente suspensa no ar, pairando em frente ao meu nariz ou deslizava na horizontal vindo toda de encontro à minha cara. O efeito foi espectacular e as sensações indescritíveis!

Wednesday, February 07, 2007

Portugueses

Pois é, andei a fugir aos tugas, mas acabei por lhes cair nas garras :)
Encontrei a Nocas por acaso quando me fui inscrever no curso de francês na EPFC e ficou logo resolvida a questão de nos encontrarmos para nos conhecermos. E como atrás dum português vêem logo dois ou três, no fim-de-semana passado ela apresentou-me a mais uns quantos amigos tugas em Bruxelas.
Eu tinha razão acerca dos portugueses - não se calam com o futebol!!! - mas também ninguém é perfeito ;)))))
De resto não tenho muito para contar.
Esta noite nevou um poucochinho, mas quando cheguei à rua já só havia neve em cima dos carros, no chão nada... Se eu soubesse tinha ido fazer um estágio para a Covilhã, pelo menos lá via neve de certeza.
Ok, assim se vê que estou mesmo sem assunto....

Friday, January 26, 2007

Não há grandes novidades

Não tenho dado notícias, porque ao contrário de antes do Natal, em que a sensação de novidade permanente me inspirava a escrever acerca de tudo e de nada, agora são poucas as coisas que me apetece contar-vos.
Já estabeleci uma rotina, já me sinto habituada ao sítio, já nem tenho tanta vontade de correr todas as festas e eventos e estou muito mais virada para o interior e para o aprofundamento da minha paz mental. Sinto-me feliz ainda, talvez ainda mais do que antes e continuo a ter aquela sensação de deslumbramento por estar aqui a fazer o que faço, mas a excitação que me corria nas veias está muito mais controlada. Ir a casa no Natal contribuiu muito para isso, mas não é fácil explicar-vos porquê. Tal como disse num post anterior, ajudou-me a relativizar uma série de coisas na minha cabeça e a focar-me muito mais nos meus objectivos.
O meu francês melhorou mais um pouquinho e já consigo ter conversas mais longas do que 5 minutos, mas ainda preciso de melhorar muito e por isso vou começar um curso de nível intermédio no início de Fevereiro.
Troquei as aulas do Friskis-Svettis por aulas de Yoga num centro budista. Pensei muito no assunto e concluí que apesar do Friskis-Svettis ser baratinho e eficaz a manter a forma física, o que eu queria mesmo desde que cá cheguei era praticar yoga ou tai-chi ou qualquer outra actividade física que além de exercitar o corpo também exercitasse a mente. O preço no centro budista era de 90 euros por cada 11 lições (o que já é bastante barato comparado com outros locais), mas eu aleguei que estou a fazer trabalho voluntário e que tenho pouco dinheiro e como estas lições não têm um propósito puramente comercial mas são também para o benefício das pessoas, o professor aceitou fazer-me um preço especial de 65 euros. Já fui a 2 lições e estou a adorar. Na 1ª vez não percebi metade do que o professor dizia (é tudo em francês), não consegui aguentar-me nem metade do tempo a fazer certas posturas e não havia meio de acertar com o ritmo da respiração, mas à 2ª vez já fui bem sucedida em tudo isso, o que me deu confiança para continuar.
De resto, não há grandes novidades.
Está um frio danado, mas não há meio de nevar...

Saturday, December 16, 2006

É uma casa portuguesa, concerteza

Já estou em Portugal!
Na verdade comecei a estar em Portugal no momento em que entrei no vôo da TAP e tive que aturar um grupo de portugueses que passaram a viagem toda a atirar chocolates, guardanapos e jornais por cima da cabeça das outras pessoas, a comunicarem aos berros duma ponta para a outra do avião, a beberem cervejas umas atrás das outras, a discutirem futebol fervorosamente, a queixarem-se que somos um país de falhados (percebe-se porquê) e a desrespeitarem todas as regras de segurança e pedidos insistentes das hospedeiras ao passearem pelo corredor nos momentos de descolagem e aterragem. Sim, comecei aí a lembrar-me do que era estar em Portugal...

Não falei ainda da festa da Sevelina, mas foi uma noite completamente doida. Depois de muitos copos e muita cavaqueira na casa dela, decidimos ir dançar noite dentro. Começámos por ir a um clube de salsa, mas passado nem meia hora fomos expulsos, porque só eu é que estava a beber (uma coca-cola!) e duas das outras raparigas adormeceram nos sofás (o que não estava a dar muito bom aspecto...). Mas depois disso ainda encontrámos um bar africano de onde conseguimos não ser expulsos e lá abanámos o traseiro com a batucada até de manhã. Pelo meio tivémos mil oportunidades de nos rirmos que nem perdidos e acabou por ser uma das noites mais divertidas de que tenho memória.

Ah, ia-me esquecendo! Participei num casting para um filme! Mas dessa brilhante experiência não tenho fotos para mostrar.
No mesmo bar onde me encontro com a Eva para jogarmos o New Amigos estavam a decorrer audições para um filme e depois de muito discutirmos e nos incentivarmos mutuamente, eu e os meus companheiros de jogo (éramos 4 naquela mesa) decidimos tentar a nossa sorte (a Eva recusou-se...diz que é tímida; eu pelos vistos já não sou!!?).
A audição era para uma curta-metragem em língua inglesa, supostamente a propósito da comemoração dos 50 anos da União Europeia. Queriam que improvisássemos um conflito entre 4 passageiros numa carruagem de comboio. O Stuart deveria fazer o papel dum fumador que não respeitava os outros passageiros e eu era uma passageira muito nervosa que lhe atirava os cigarros janela fora. A partir daí improvisámos uma bela duma guerra, mas os meus colegas de improviso estavam sempre a lixar-me em vez de entrarem no jogo de faz de conta comigo. Foi difícil manter-me séria e apesar de ter começado muito bem, às tantas já não conseguia parar de rir.
Está bem que fomos lá pelo gozo de termos esta história para contar aos nossos netos, mas mesmo assim não custava muito eles terem levado a experiência mais a sério. Quem sabe não nos revelámos excelentes actores e começávamos ali uma brilhante carreira? ;)
Já foi quase há duas semanas e não me telefonaram, por isso acho que posso dizer que não gostaram da minha representação :)

Tuesday, November 14, 2006

Música

Nos primeiros dias que ouvi rádio por aqui, não suportava ouvir canções em francês. Pareciam-me todas tão lamechas. Assim que começavam a tocar, mudava logo de estação. Mas aos poucos comecei a descobrir coisas interessantes e agora já cantarolo algumas chansons. Por exemplo, descobri esta menina - Olivia Ruiz - que tem umas cançõezinhas deliciosas e apaixonei-me assolapadamente pela Charlotte Gainsbourg. Há outras músicas porreiras em francês a passar na rádio, o problema é que raramente os locutores radiofónicos dizem quem é quem e eu fico sem saber o nome dos cantores ou grupos. Lá descobri a Olivia Ruiz, porque procurei pelo nome duma canção dela, que extrapolei a partir do refrão da canção - puro acaso, portanto.
Costumo ouvir a BXL La City Radio (Bê Ix Éle, Lá Cití Rádiôô!), que é uma espécie de Antena 3 belga, mas com mais bom gosto. Também há por cá a Radio Nostalgie, que é exactamente como a Rádio Nostalgia em Portugal - até o jingle da rádio é o mesmo (Nôôôs-tál-giiii!). Todos os dias em que não vou ao Friskis-Svettis, oiço a Radio Vibration ao fim da tarde, pois só passa música de dança e é por isso excelente para fazer exercício de forma divertida, dançando até cair pó lado ;)

Wednesday, November 08, 2006

Viver mais saudável

Outra razão (além da falta de tempo), porque não tenho escrito tanto, é que desde o aumento do nosso grupo de trabalho, eu tenho usado o meu portátil no escritório para trabalhar (por questões orçamentais, só no fim deste mês vão comprar um computador novo para mim) e por isso nos meus tempos livres em casa não tenho o portátil disponível para escrever. Só posso escrever emails e blogs se vier mais cedo para o escritório ou ficar mais tarde depois do trabalho, mas geralmente não tenho muita disposição para isso.
Comecei a frequentar aulas de Jimpa - é ginástica como outra qualquer, mas com um nome muito mais cool - da Friskis Svettis, uma organização sueca que pretende que todos tenham acesso ao exercício físico de qualidade por pouco dinheiro. E de facto é bem baratinho: 85 euros por 5 meses ou 170 euros por 10 meses. Em muitos sítios isso é o que se paga por um ou dois meses. A Lena é "hostess" (não estou a ver qual a melhor tradução para a palavra) da Friskis-Svettis e convidou-me para participar. Fui um bocado desconfiada, porque a Jimpa é basicamente aeróbica e eu estou farta de aeróbica, mas há uma turma de Ki-Jimpa, dada por uma professora japonesa, que mistura movimentos de yoga, tai-chi e artes marciais em geral no meio da aeróbica e eu decidi experimentar para ver se era realmente diferente. Foi bastante divertido e não me custou por aí além, embora a Lena pensasse que eu ia ficar de rastos, porque a turma é de nível de dificuldade médio. Mas eu tenho feito ginástica em casa todos os dias de manhã e por isso não estava completamente enferrujada pelo que aguentei perfeitamente a aula e nada me doía no dia seguinte.
Este fim-de-semana conheci o Parc Wolluwe e o Parc du Cinquantenaire (por onde só tinha passado de fugida), fui ao Musée Royal d'Art et Histoire, participei na Global Action On Climate Change, conheci uma biblioteca pública perto da Place de la Monnaie e fui à Bioshop fazer umas comprinhas. No resto do tempo fartei-me de dormir - 12 horas de sábado para domingo e 11 horas de domingo para 2ª. Devia estar mesmo cansada!
Para terminar, quero só informar duma decisão que tomei para começar este mês (espero que para continuar, mas isso só depois de um balanço o saberei): comprar apenas produtos ecológicos e biológicos. os mercados de pechinchas são óptimos, mas decidi continuar a frequentá-los apenas para roupas e outros bens em 2ª mão, pois a comida, produtos de limpeza e cosmética são algo demasiado importante para serem de má qualidade e cheios de químicos. Já tinha esta ideia quando cá cheguei, mas comecei a pensar mais seriamente nisto quando ao dar restos de comida ao meu rato, ele se recusava sempre a comer a comida do mercado, até estar mesmo a morrer de fome obviamente, mas comia sempre com gosto os meus restos de comida biológica. Há estudos e relatos anedóticos sobre o instinto dos animais para a qualidade dos alimentos, mas é sempre mais marcante quando vemos com os nossos próprios olhos isso acontecer à nossa frente. Pensei "Se o rato se recusa a comer estes vegetais, porque haveriam de ser bons para mim?" Então tomei a decisão de tentar comer apenas biológico.
OK, sei o que vão pensar "És maluca, não tens dinheiro para isso! Sai muito caro!", mas eu só tomei esta decisão depois de comparar os preços dos alimentos ao longo de 2 meses e de ver que a diferença é suportável e que os benefícios para mim e para o mundo são incalculáveis. Claro que serei obrigada a comprar apenas o estritamente necessário - ou seja, o que realmente alimenta e não pizzas e lasanhas congeladas e sanduíches no fast-food - mas isso não é um ponto negativo, é apenas mais um ponto positivo a favor desta opção. Já passou uma semana em que só comi biológico (no fim do mês apresento a conta) e além de não ter sido muito caro, reparei que me alimentei muito melhor do que habitualmente já tento fazer, porque me esforcei muito mais para não comer "porcarias" em snacks e cafés. Se lá pelas 3 semanas vir que começo a não ter dinheiro para o resto do mês, que remédio senão ir ao mercado, mas eu estou convencidíssima que isso não irá acontecer e vou prová-lo a toda a gente.

Monday, October 30, 2006

Festa

Não tenho muitas novidades para contar. Já me sinto bruxelense e portanto já não tenho aquela admiração inicial por cada pequena coisa. Todos os dias descubro algo novo, mas no geral o meu quotidiano já começa a ser rotineiro e familiar.
Este sábado a Lena e a colega de apartamento dela organizaram uma festa e convidaram umas 50 pessoas. Tiveram que pedir ao senhorio que lhes emprestasse o sotão, com receio de não terem espaço para toda a gente, mas no final apareceram umas 20 ou 30 e nenhuma parecia muito entusiasmada com a ideia de ir para o sotão. Mas era provavelmente o sítio mais interessante, pois além de ter um terraço com uma vista interessante, elas tiveram um trabalhão a montar lá uma mini-discoteca. Depois de muito insistirem, quando já era perto da 1h30 da manhã, lá houve uns quantos voluntários que se mudaram para o sotão para dançar, mas muitas pessoas por essa hora já se tinham ido embora - fracotes.
Eu fiquei encarregue de cozinhar o bolo, o que é uma grande responsabilidade, pois é a parte mais importante dos comes e bebes duma festa. Do meu ponto de vista o bolo estava mau - o fermento não actuou, a massa não cresceu e ficou mal cozida. Mas toda a gente adorou e todos queriam saber quem tinha preparado aquela tarte. Eu pensei "Tarte, qual tarte?" Era suposto ser um pão-de-ló com uma camada de compota e muesli, mas lá percebi que se como bolo a ideia não tinha resultado, como tarte o resultado era excelente. E lá fui receber os elogios dos convidados. "Sim, sim, fui eu que fiz a tarte! Obrigada. Obrigada."
No convite para a festa a Lena pedia que cada um levasse uma garrafa da sua bebida favorita e escusado será dizer que ninguém levou sumos de fruta. Havia apenas um pacote de sumo de laranja que eu bebi até ao fim, mas depois o francês queria que eu provasse o espumante dele, a búlgara queria que eu provasse o vinho tinto dela, o grego queria que eu provasse o vinho tinto dele, e um alemão que tinha comprado vinho do Porto queria que eu provasse para lhe dizer se era dos bons (como se eu fosse especialista no assunto...). Só bebi um bocadinho de cada, mas mesmo assim comecei a ficar com a cabeça a andar à roda e tive que me deitar um bocado para recuperar do efeito. Depois de recuperada ainda apareceu um belga que queria que eu provasse a cerveja dele, mas foi fácil recusar, porque eu não gosto mesmo nada de cerveja. Depois disso já só me ofereciam copos de água.
Um alemão muito chato engraçou comigo e perseguiu-me toda a noite de sala em sala. No final queria ir dar um passeio comigo e levar-me a casa e talvez casar comigo. Estava convencidíssimo que tinha encontrado o amor da vida dele, mas eu não estava nem aí... Para me livrar dele tive que me colar à Lena e no fim da noite chamar um taxi ao qual ela me acompanhou, não fosse o alemão ter a ideia de querer partilhar o taxi comigo.
No domingo fui conhecer mais uma feira da ladra, na Place Jeu de Balle, que a Lena me recomendou várias vezes e dei umas voltinhas pelo bairro Marolles. Li algo interessante sobre aquela zona. Quando o arquitecto Poealert construiu o Palais de Justice ali perto - um edifício monstruosamente grande - muitas casas do Marolles, na altura a zona dos comerciantes pobres de Bruxelas, tiveram que ser demolidas e as pessoas daquela zona passaram a odiar o famoso arquitecto ao ponto da palavra "arquitecto" se ter tornado um nome feio na língua local. Também consta que o arquitecto ficou louco e morreu cedo por causa duma maldição que uma bruxa dos Marolles lhe lançou. Parece portanto ser uma zona muito interessante e castiça, mas altamente perigosa para os arquitectos ;)

Monday, October 16, 2006

Preconceitos

Quase de certeza que eu tenho algumas ideias pré-concebidas sobre certos países, mas tento não construir cenários à volta delas e esperar pela oportunidade de construir uma imagem correcta a partir de informações fidedignas. Mas é incrível a quantidade de ideias feitas que as pessoas têm sobre Portugal e o quanto romanceiam à volta delas.
Várias pessoas com quem falei sobre Portugal disseram-me sempre a mesma coisa: que Portugal deve ser óptimo para se passar umas férias baratas ao sol, com comidinha exótica e nativos pitorescos, mas que deve ser incrivelmente atrasado em relação ao resto da Europa. Estão sempre a perguntar-se se em Portugal há isto e aquilo e aqueloutro - coisas básicas que talvez em África sejam difíceis de encontrar, mas que em Portugal são coisas normais do dia-a-dia das pessoas faz décadas. E depois ficam muito admirados quando lhes mostro que de facto não há grandes diferenças entre Portugal e os países da "Europa desenvolvida".
Por um lado digo-lhes sem grande pudor que os portugueses são uns atrasos de vida, que têm umas mentalidades tacanhas, que se queixam de tudo mas nunca fazem nada e que só são felizes com a desgraça dos outros. Mas também digo que se não fosse a falta de auto-confiança, a falta de vontade de evoluir e uma grande dose de preguiça, Portugal poderia ser um dos países líderes do mundo, porque quando as capacidades e o pioneirismo dos portugueses de vez em quando se manifestam, conseguem ser bastante impressionantes.
No meu dia-a-dia aqui percebo que Portugal em muitas coisas está à frente da Bélgica (embora em muitas outras esteja anos-luz atrás). Isso demonstra que Portugal tem potencialidades e que poderia ir longe se deixasse de dormir debaixo do chaparro todo o dia e arregaçasse as mangas.
As maiores diferenças são a nível da mentalidade e educação das pessoas, porque quanto a infra-estruturas, Portugal está tanto ou mais evoluído que os países "mais desenvolvidos".
Penso que como consequência de julgarem que Portugal é um país incrivelmente atrasado, as pessoas também tendem a ser condescendentes comigo e depois ficam surpreendidas quando percebem que em termos intelectuais, culturais e práticos, eu não fico atrás deles.
No início o Marco ficava muito surpreendido quando eu mostrava que sabia fazer imensas coisas que ele julgava que teria de me ensinar. Ficou muito impressionado, por exemplo, que eu soubesse configurar o Outlook para receber e-mails. Enfim, não sou atrasadinha... Entretanto ele já percebeu isso e há dias quando foi a Lena que duvidou das minhas capacidades, questionando-o se eu estaria à altura de participar numa certa reunião, ele ficou muito surpreendido com a atitude dela, porque para ele já era óbvio que eu me desenrascaria lindamente. Mesmo assim, recorrentemente, ainda me tratam como se eu fosse uma coitadinha, o que por vezes me aborrece um pouco, mas eu perdoo-lhes.
Os meus colegas também ficaram surpreendidos quando me ouviram falar ao telefone. Disseram que não parecia nada que eu estava a falar português. Eu pensei "Essa agora, desde quando eles sabem melhor do que eu como é que se fala português?". A resposta deles foi que o meu português parecia ser uma "língua séria". Sim, foram estas as palavras exactas! Para eles o português seria muito semelhante ao espanhol, considerada uma língua espalhafatosa e foi com supresa que perceberam que o português é uma língua discreta. Acho que só com base nisso eles já reformularam toda a sua ideia de Portugal e já conseguem imaginá-lo como um país europeu e não do 3º mundo. Espanha terá que mudar de língua ou acho que nunca se verá livre de ser associada às touradas, castanholas e olés.
A propósito disso, os meus colegas espanhóis de EVS fizeram questão de destruir os estereótipos sobre Espanha durante a nossa soirée cultural do Seminário EVS. Todos tínhamos que apresentar algo do nosso país: um traje, um prato, uma dança, uma canção, o que quiséssemos. Eles desenharam um touro e uma sevilhana e cozinharam uma tortilha. Apresentaram cada um desses "símbolos" e depois rasgaram o touro e a sevilhana, dizendo que era tempo de acabar com estas ideias pré-concebidas sobre os espanhóis. Conservaram intacta a tortilha, que disseram ser um símbolo saboroso, mas em substituição dos outros símbolos apresentaram informações culturais de Barcelona, para eles a cidade que representa a nova Espanha que lentamente começa a ganhar terreno, livre de touradas e outras manifestações retrógradas.
Eu vesti-me com as cores nacionais, expliquei que Portugal não é uma região de Espanha, que o Fado é típico de Lisboa e não do país, que o Bacalhau vem do Mar do Norte e que o melhor de Portugal são as paisagens. (E tive que explicar tudo isto em francês, claro!)
Outros que terão que mudar de língua se quiserem ser levados a sério são os gregos. Quando falam conseguem ser ainda mais espalhafatosos que os espanhóis. E parece ser uma daquelas línguas em que se fala, fala, fala e no fim só se disse 2 palavras - mas isso pode ser apenas um dos poucos preconceitos que eu tenho :) Na hora de almoço de 6ª feira decidimos ir tomar um café e um bolinho a um café grego perto do nosso escritório e o Stylianos serviu de intérprete dos nossos pedidos. Ele apenas tinha que pedir 2 cafés e 2 fatias de bolo, no entanto ele e o empregado estiveram à vontade 5 minutos a discutir acaloradamente. A Lena bichanava para mim que não compreendia como pedir 2 cafés e 2 bolos poderia ser uma questão tão complexa que levasse a um tão longo debate. No final, para termos a certeza de que a conversa tinha sido apenas em redor do pedido e que eles não tinham começado a discutir a filosofia grega toda da antiguidade até aos dias modernos, perguntámos ao Stylianos o que tinham eles estado a conversar e ele confirmou que apenas tinha transmitido o nosso pedido e que o empregado apenas confirmou com ele se o pedido estava correcto. Curioso...
Na tarde de sábado fui ao cinema ao Kinepolis. Imaginem o Centro Comercial Vasco da Gama transformado num grande complexo de cinemas e terão uma ideia aproximada do tamanho do Kinepolis.
Julguei que lá iria encontrar uma enchente de pipoqueiros, mas ou algo interessante estava a acontecer do outro lado da cidade ou os bruxelenses não gostam de cinema, porque as 25 salas de cinema estavam praticamente às moscas numa tarde de sábado. Se fosse em Lisboa, estariam apinhadas, atulhadas e abarrotadas.
Falei à Eva na existência do IMAX e ela que vive cá há 2 anos e meio, não sabia disso. Será que esta gente não lê? E será que não saem à rua? E quando saem à rua, será que andam de olhos abertos? Em breve, se houver algum filme interessante, somos capazes de lá ir.
Falando em Eva, no domingo fui com ela ao Festival do Livro. Não queria gastar muito dinheiro, mas queria ver se encontrava dicionários, gramáticas e coisas do género que pudessem ser úteis para o meu estudo de línguas.
Como a Feira é na parte norte da cidade, a maior parte dos livros eram neerlandeses. Lá encontrei uma fila dedicada aos livros francófonos e havia também livros em inglês espalhados um pouco por todo o lado, mas a maioria deles era para mim indecifrável. A Eva focou a sua atenção nas filas de livros infantis, porque diz que o neerlandês dela corresponde ao de uma criança de 6 anos, logo tem que ler livros adequados ao seu nível. Acabou por comprar uns quantos livros do Garfield.
À entrada podíamos escolher cestos ou carrinhos para transportarmos os livros e a maior parte das pessoas parecia optar pelos carrinhos - e que bem que os enchiam! No final (tal não deve ser a tradição das pessoas comprarem toneladas de livros), em vez de nos colocarem os livros em sacos, mandaram-nos passar por uma bancada cheia de caixotes de cartão para escolhermos o mais adequado aos nossos livros. Também nos davam sacos se quiséssemos, mas eu vi mais gente a transportar caixotes do que sacos o que é um sinal do sucesso da feira. Pouco depois pensei: "Ah, então era por causa disto que não havia ninguém no cinema!"
Na feira vi alguns dicionários de português, um mapa de Portugal e Espanha e na secção de guias turísticos, um guia dos campos de golfe em Portugal... É a isto que o nosso país se está a reduzir, não é verdade? Todos os dias mais um pedaço daquilo que realmente valia a pena figurar em guias turísticos desaparece para dar lugar a um novo campo de golfe. Em breve Portugal figurará no livro de records do Guiness como o país com mais campos de golfe por metro quadrado e por habitante.
Depois da feira passámos pelo Atomium (o interior fica para outro dia), atravessámos o Parc D'Osseghem até ao Parc Royal, passámos frente ao Palácio Real, onde tudo o que vi foram os muros, o portão e um vislumbre do palácio ao longe e seguimos até ao Pavilhão Chinês e a Torre Japonesa (os interiores também ficam para outro dia).
Ah, já comprei uma gaiola (em 2ª mão) para o rato! Também arranjei uma solução para o carrinho de compras, digna duma permacultora ;) Comprei (também em 2ª mão) duas mochilas de viagem, daquelas com armação de ferro e estou a adaptá-las a um carrinho de transporte de caixotes que comprei no IKEA - o carrinho custou 5 euros e as duas mochilas outros 5, pelo que o conjunto fica mais barato que o carrinho de compras mais barato que já vi à venda, além de que será mais ecológico (porque estou a reutilizar materiais) e muito mais original que qualquer outro em Bruxelas.

Friday, October 13, 2006

Agenda Cultural

Depois de ter dado água e comida ao rato e de ele ter explorado os 4 cantos à casa, escondeu-se atrás dos móveislá ficou durante 2 dias. Entretanto preparei uma caixa de cartão para lhe servir de casa e quando percebi que ele não se deixaria apanhar tão facilmente como quando estava mais para lá do que para cá, decidi construir uma ratoeira.
Depois de muitas ideias impraticáveis, lá descobri que poderia fazer uma ratoeira eficaz a partir do meu caixote do lixo. Após algumas desconfianças iniciais, o rato lá entrou no caixote e ficou aprisionado. Julguei que não conseguiria manter um rato numa caixa de cartão por muito tempo, mas estranhamente, desde que ele percebeu que foi apanhado, deu-se por vencido e nunca tentou sequer roer a caixa.
No sábado passado passei por uma loja de artigos em 2ª mão, na esperança de encontrar alguma gaiola, mas nada. Vou tentar noutra e depois talvez nas feiras.
Entretanto a minha exploração de Bruxelas continuoou.
No sábado à tarde fui ao Festival India no Palais des Beaux-Arts, tal como tinha prometido. A Mari apareceu com mais duas das nossas colegas de EVS, mas acho que elas não gostaram muito do festival, porque se foram embora passado pouco tempo. Eu tinha avisado que era um festival só para apreciadores de música indiana, porque não é uma música que entre logo no ouvido. É preciso abrirmo-nos completamente a ela para a deixar entranhar-se e então é pura magia, sentimos um arrepio na espinha e somos transportados para um outro mundo.
Drums from Bengal foi uma batucada de tal forma hipnótica e alucinante que um africano de fato e gravata que estava entre o público sentado no chão, levantou-se e começou a dançar freneticamente como se fosse um xamã em transe numa aldeia remota da savana. Os músicos Dagar tocaram o estilo de música mais antiga da Índia - um ritmo completamente diferente, etéreo e místico - que me fez recordar a Índia, não só como se já lá tivesse estado, mas como se lá tivesse raízes profundas.
Arrepender-me-ei sempre de não ter ficado para os espectáculos da noite, mas o bilhete custava 25 euros (ao contrário dos concertos de abertura, que foram gratuitos) e eu decidi não ficar. Mas tenho a certeza de que teria sido uma noite inesquecível: Talvin Singh, State of Bengal, entre outros. Música electrónica e muito Drum'n'Bass misturados com música indiana.
Vagueei um pouco ao acaso pelas ruas, para conhecer melhor a zona do Palais de Beaux-Arts e acabei por encontrar a festa de encerramento da Semaine du Commerce Equitable (Semana do Comércio Justo). Estavam lá os "alternativos" todos a dançar animadamente e barraquinhas vendiam paparoca e bedidas deliciosas de comércio justo. Voltei a encontrar a Mari - sempre é verdade que facilmente tropeçamos em pessoas conhecidas em Bruxelas! - e ela convidou-me para irmos a um Centro Comercial (nada mais adequado quando se sai duma festa que defende um comércio mais justo, lol). Eu aceitei, porque ainda não tinha tido oportunidade de viver o ambiente da baixa bruxelense. Compras feitas e conversa em dia, ela decidiu ir para casa, mas eu ainda fui até ao Jardim Botânico, onde está a decorrer um festival de cinema da ATTAC, ver o filme "The Constant Gardener".
Gostava de poder ver os filmes todos do festival, mas durante a semana tem sido muito difícil conciliar o trabalho com outras actividades, porque o trabalho prolonga-se sempre para lá da hora programada ou porque eu fico tão cansada que só quero ir para casa.
Mas a 3ª feira foi uma excepção: apesar de ter sido o meu dia mais atarefado, ainda tive tempo e disposição para sair à noite. Tinha prometido à Eva acompanhá-la a um bar em Ste. Catherine, onde iria acontecer algo organizado pela namorada dum colega dela. Fiz-lhe a vontade a pensar que seria horrível - gente a beber cerveja, a fumar que nem chaminés e a berrar no meio de muito barulho - mas afinal encontrei exactamente o oposto: uma sala silenciosa, meia dúzia de "meninos bem comportados" e jogos de tabuleiro nas mesas. Ainda fiquei mais aterrorizada: "Socorro, é um convívio de totós!!!!" lol
OK, de certa forma era, mas não tão mau como imaginei de início. O jogo nas mesas era o New Amigos, uma espécie de Trivial Pursuit desenhado especificamente para melhorar o nosso conhecimento de línguas. Todas as 3ª feiras, em várias cidades da Europa (Paris, Berlim, Oslo, Bruxelas, entre outras) decorrem estes jogos do New Amigos. Os participantes escolhem a língua que querem aprender/melhorar e jogam com outras pessoas interessadas na mesma língua. Como resultado acabam por fazer novos amigos, enquanto aprendem alguma coisa útil.
No final da noite (ficámos até às 23h) concluí que tinha sido bastante divertido e que a ideia era excelente. Como companheiras de jogo (além da Eva) tive 3 raparigas, uma chinesa, uma peruviana e uma húngara, todas biólogas(!) a fazerem mestrado aqui em Bruxelas. Mais uma coincidência. Combinámos voltar a encontrar-nos por lá na semana que vem.
A Lena disse-me que quando cá cheguei ela sentia alguma preocupação por eventualmente eu me poder sentir só e aborrecida, mas que entretanto já deixou de se preocupar com a minha vida social, que parece estar a andar a 100 à hora e não precisar de nenhum empurrãozinho. Na verdade, já tenho tanta fama de ser uma agenda cultural ambulante (e páginas amarelas também) que sempre que alguém não sabe onde ir e o que fazer, pergunta-me o que é que está a acontecer em Bruxelas (e também onde pode ir comprar roupa barata, cortar o cabelo, etc). Ao fim de uma semana por cá eu já estava a dar dicas à Lena (que está cá há um ano), sobre bons sítios e eventos aonde ir e participar e estava a dar explicações sobre a história e os monumentos de Bruxelas aos meus colegas.
Eu não tenho uma mente enciclopédica, porque nunca decoro os detalhes todos, apenas as referências gerais. Para pormenores tenho que ir consultar as fontes novamente. Mas além dos muitos guias de Bruxelas que eu tenho, recolho tudo o que é jornal, revista e panfleto que é distribuído gratuitamente em Bruxelas e passo os olhos por tudo em busca de informações importantes. Penso que eles não têm paciência para fazer isso e daí apenas conhecerem uma ponta do grande icebergue que é Bruxelas.

Monday, October 09, 2006

Balanço

Passou um mês desde que aqui cheguei, mas parece-me que sempre cá estive. É uma sensação estranha. Como se toda a minha vida até aqui fosse na verdade uma vida anterior e não houvesse uma continuidade com esta vida presente. A viagem de avião foi literal e figurativamente uma ascensão ao céu e a passagem entre uma vida e a outra.
Desde o início que não me sinto num país estrangeiro. Sinto-me num outro tempo, num outro planeta, num mundo paralelo, numa outra existência?
Nos primeiros dias, penso que o meu cérebro teve algumas dificuldades de adaptação, pois todos os pontos de referência desapareceram de uma vez só. Por causa disso tive sonhos angustiantes de que continuava em Portugal e que tudo o que se passava de dia na Bélgica é que era um sonho do qual eu precisava acordar. Mas não foi nada de mais e já está ultrapassado.

Tenho escrito muito sobre as minhas actividades, mas ainda não falei muito sobre Bruxe1as e os bruxe1enses, porque tenho estado a fazer uma lista de observações das coisas boas, das coisas menos boas e das coisas estranhas ou simplesmente engraçadas que por cá encontrei. Ainda faltam referir imensas coisas, mas decidi apresentar a lista que já tenho.


As coisas boas

Sacos de plástico - Quem quiser sacos de plástico no supermercado, tem que os pagar. Em contrapartida, os supermercados vendem carrinhos e sacos de vários tamanhos, em pano ou tela, para incentivar as pessoas a transportarem as suas compras para casa de forma mais sustentável.

Mercados e feiras - Há mercados e feiras em todo o lado, todos os dias e todo o tipo de pessoas os frequentam, levando consigo os seus carrinhos e sacos de pano. Parece-me a mim que são muito mais concorridos que os supermercados e não são apenas os pobres e os velhos que os frequentam, mas toda a gente (ok, o rei e a rainha e os comissários europeus não contam.

Produtos ecológicos - Não é uma regra geral, mas aqui muitos dos produtos ecológicos são mais baratos que os convencionais - pelo menos o papel reciclado, desde o papel higiénico ao de cadernos e resmas, estavam mais baratos que os convencionais num supermercado a que eu fui.

Produtos biológicos - Os produtos biológicos estão mais ou menos ao mesmo preço que os produtos convencionais no supermercado. Alguns são mais caros, outros são ao mesmo preço e alguns são mais baratos, como o caso dumas ervilhas congeladas bio que eu comprei e que eram mais baratas que as convencionais. Também são fáceis de encontrar e os supermercados têm-nos em abundância e diversidade e não apenas um ou dois num canto, a preços exorbitantes, como acontece em Portugal.

Lojas de 2ª mão - Ainda só conheço 3, mas elas abundam em Bruxe1as. Uma vende roupas dos anos 50, 60 e 70 a preço razoáveis (10-20 euros). Outra vende principalmente móveis, mas também peças de decoração, livros e cds e tem uma secção de antiguidades, mas os preços não são tão modestos, embora ainda assim sejam razoáveis. Doutra já eu falei (aquela que parece a Pollux) e é a mais interessante. Só vende coisas doadas e por isso os preços são incrivelmente baixos - a média dos preços do que eu já trouxe de lá deve rondar 1 euro. Esta loja tem objectivos humanitários. Acho que as pessoas que lá trabalham são todas pessoas carenciadas e os lucros de todas as vendas servem para sustentar uma série de projectos em Bruxe1as para pessoas carenciadas. E parece que têm imenso sucesso, que as pessoas doam imensas coisas - acho que eles vão a casa das pessoas buscar móveis e outros volumes.

Os transportes públicos - A rede de transportes é excelente e como me disse o Marco, não há razão nenhuma para uma pessoa andar de carro em Bruxelas. Comprei um passe anual de metro+bus+tram (metro+autocarro+eléctrico) e em 5 minutos já tinha na minha mão um passe com a minha foto, para poder usar estes 3 transportes livremente durante todo o ano. Alguma vez isto era possível em Portugal?

Eficiência - Ouvi muitas coisas sobre Bruxe1as e a sua burocracia, mas até agora ainda não vi essa burocracia em acção, pelo menos não a um ponto que me fizesse desesperar como acontece tão regularmente em Portugal. As pessoas são muito cuidadosas e fazem tudo "certinho",a bem da transparência e de evitar dúvidas. Mas são também rápidas e eficientes na maioria dos casos. Eu diria que há alguma burocracia, dado que é provavelmente o país com a governação mais complicada do mundo, mas por isso mesmo acho que está de parabéns. Ainda há dias comentei com alguém que Portugal, que fala uma só língua e tem um só governo, é a república das bananas que nós conhecemos, imagino que nunca teria saído da idade da pedra se tivesse a multiplicidade de línguas, comunidades e orgãos governativos que a Bélgica tem. Um destes dias falo um bocado do sistema belga só para verem o caos absoluto que seria se os portugueses tivessem que o pôr a funcionar.

A multi-etnicidade e multi-culturalidade - É muito raro ver por aqui "verdadeiros belgas". Há imensos indianos, chineses, japoneses, africanos, árabes, sul-americanos, franceses, ingleses, alemães, portugueses e tantas outras nacionalidades e etnias, que tenho muitas vezes a sensação de estar numa espécie de ilha no centro do mundo ou numa estação espacial das nações unidas e não num país específico.


As coisas menos boas

Os multibancos - Não há multibancos nesta cidade! Quer dizer, já encontrei um ou dois num espaço de um mês, mas para quem vem da terra dos multibancos, isso corresponde a nada! Quem quer levantar dinheiro tem que ir às caixas do seu próprio banco, caso contrário disseram-me que cada transacção numa outra caixa custa 80 cts (informação por confirmar). O pior é que as sucursais de cada banco também não abundam. Do banco em que abri conta também ainda só vi duas sucursais, felizmente uma delas é na mesma rua que o meu escritório.

Internet - Ciber-cafés nem vê-los. Já me disseram que há lojas onde podemos consultar a internet, em quase cada esquina da cidade, por apenas 20 cts/hora. Pois, isso é muito bonito, mas porque será que eu já corri metade da cidade e ainda não vi nem uma!!! Será que se escondem de mim, será que preciso de óculos? Também me disseram que há Wi-Fi por todo o lado e que só preciso de um portátil para aceder à net em qualquer lado. Mais uma vez, curiosamente, a teoria não se aplica ao meu caso particular porque eu não apanho rede em casa. Contactei o fornecedor de internet e disseram-me que só conseguiria apanhar o sinal a partir dum 6º andar para cima. Serão doidos? Tentei internet móvel (via rede telemóvel) disseram-me que por questões técnicas não podem satisfazer o meu pedido (pedi mais explicações e ainda não me deram), pedi internet via fio de electricidade (é verdade, existe! e é muito inovador!), mas disseram-me que a minha rua ainda não é coberta por este serviço. Se eu estivesse a morar num bairro da lata nos subúrbios da cidade, eu até compreendia tudo isto, mas estou numa avenida duma zona "bem", a dois passos do centro da cidade, como é isto possível? Só me resta internet por cabo e ADSL, que eu andava a evitar, porque envolve instalação de fios. Já pedi à Belgacom que viesse instalar um fio telefónico, mas tenho que esperar quase 2 meses para me fazerem esse favor...

Telemóveis - Comprar um telemóvel foi fácil, o mais difícil é carregá-lo. Habituada a carregar o telemóvel no multibanco, lá fui em busca de uma caixa e passado uma semana sem saldo lá encontrei uma, apenas para saber que as únicas opções disponíveis na caixa eram mudar o pin ou levantar dinheiro. Lá procurei então uma loja da Mobistar (a minha rede) e descobri que há um sistema qualquer que me permite fazer os carregamentos via telemóvel, mas para o activar não aceitam o meu cartão visa e exigem que eu tenha uma conta e um cartão de um banco belga (algo de que já tratei mais ainda estou à espera).

Recolha do lixo - Aqui faz-se recolha porta-a-porta. As pessoas têm que comprar sacos brancos, azuis e amarelos para lixo indiferenciado, embalagens e papel, respectivamente e colocá-los na rua nos dias de recolha de cada um. O desafio está em descobrir em que dias é que é recolhido o quê. Tentei perceber através do que as pessoas faziam - se via sacos amarelos na rua, anotava na agenda "dia de sacos amarelos" e por aí fora - mas depois a coisa complicou-se, porque aparentemente muitas pessoas não respeitam o calendário e põem o lixo na rua quando lhes apetece. Perguntei ao meu vizinho de cima e ele pareceu-me mais perdido nessa questão que eu e só contribuiu para me baralhar mais. Primeiro disse que sacos amarelos eram na 2ª feira, para depois dizer que eram amarelos e azuis, para depois dizer que se calhar era antes à 3ª... Continuo sem saber muito bem, mas como toda a gente põe os sacos amarelos e/ou azuis, às 2ª e às 3ª, eu faço o mesmo. Já procurei a informação na internet e até mesmo em folhetos da comuna sobre a separação do lixo e nem aí indicam o misterioso calendário dos sacos amarelos e azuis. Lá terei que fazer unstelefonemas...

Os aldrabões - Já por duas vezes me tentaram aldrabar com os trocos. Uma vez foi numa feira da ladra - um tipo vendia um ferro de engomar por 2.5 euros, eu dei-lhe 4, ele devolveu-me 50 cts e ficou à espera que eu não reparasse na falta de 1 euro. Mas eu reclamei e ele fez-se de tontinho e pediu muitas desculpas. Pior ainda foi numa banca de comida rápida, onde pedi um "diavoletto vegetariano" que custa 2.80 euros e eu só tinha uma nota de 50. O homem deu-me troco para 10 euros! Olhei para ele com os olhos esbugalhados a pensar que nunca um snack me tinha custado tão caro. Ele percebeu que eu não estava distraída nem era parvinha e também se desfez em desculpas e lá me deu o dinheiro. É preciso ter cuidado com estes tipos. Quando percebem que eu não falo francês muito bem devem achar que com sorte também não faço contas muito bem.

A xenofobia escondida - Ainda não aconteceu nada que me fizesse sentir mal-recebida por aqui, pelo contrário, acho que as diversas comunidades que habitam Bruxe1as vivem harmoniosamente e usufruem ao máximo da troca inter-cultural que aqui se proporciona. Mas há zunzuns de que os belgas não gostam muito dos não-belgas. Em Bruxe1as isso não se sente mas eventualmente é mais notório noutras regiões do país. Aqui os belgas são eles mesmos uma minoria, pelo que mesmo que não gostem, têm que aceitar que Bruxe1as já não é a capital do país deles, mas sim uma nação à parte - uma nação de nações.
Mas mesmo que houvesse xenofobia aberta e às claras, eu seria sempre um alvo improvável. Apenas quando abro a boca eles se apercebem que eu não sou belga e quando isso acontece, na maioria dos casos julgam que eu sou alemã. Quando sou apresentada às pessoas e não lhes é dito que eu sou portuguesa, elas pensam sempre, sempre que eu sou belga. Mesmo que toda a gente esteja a falar inglês no local, comigo tentam sempre começar uma conversa em francês e é engraçadíssimo quando explico que tenho muito gosto em praticar o meu francês, mas que essa não é a minha língua materna. E depois, claro, vem a pergunta inevitável se eu sou alemã. LOL

Os "europeus" - Numa outra categoria de xenofobia, está o desagrado dos belgas para com os "europeus". O Marco aconselhou-me a guardar sempre o crachá do Parlamento Europeu quando sair do seu "espaço protegido" para a "cidade lá fora", porque os belgas não gostam muito dos "europeus". Fiquei boquiaberta quando ele me disse que uma vez ele se esqueceu de guardar o crachá e que só se apercebeu disso quando notou que os belgas o tratavam de maneira diferente, mais rude e grosseira. Eu pensei que também pode ter sido porque achavam que ele se estava a exibir "Eh, olhem para mim! Eu vou ao Parlamento" (lol) e que isso poderia desagradar-lhes por não gostarem de exibicionistas, mas eu sei que os belgas nunca gostaram muito que a União Europeia viesse aterrar na terra deles. Ainda por cima há umas histórias estranhas sobre a construção do Parlamento (ou será da Comissão? Agora não me lembro) ter causado a destruição duma zona com valor arquitectónico ou histórico belga e que isso lhes ficou atravessado - e com toda a razão, penso eu.


As coisas estranhas ou simplesmente engraçadas

Marca branca - Aqui a marca do próprio supermercado nem sempre é mais barata que as outras marcas, por vezes é bastante mais cara, vá-se lá saber porquê...

Madame Pipi - As senhoras que supervisionam as casas de banho públicas e recebem as nossas moedinhas, aqui recebem o carinhoso nome de Madame Pipi.

Plaquinhas com nome - Acho que não é geral, mas por aqui usa-se muito as plaquinhas com os nomes dos residentes, na campaínha e na caixa de correio, em vez da indicação do andar e do dtº ou esqº. Mandar fazer estas plaquinhas, segundo me disseram, além de custar quase 15 euros,também demora algum tempo, tal é o número de encomendas. Já tenho uma plaquinha com o meu nome na campainha, mas felizmente não tive que a pagar, porque o senhorio assumiu essa responsabilidade. Acho que é uma questão de negócio, porque com a quantidade de pessoas que chegam e partem de Bruxe1as todos os anos, há sempre clientes para as plaquinhas. Disseram-me que não, que esquisito é não pôr o nome na porta, pois assim como sabemos que a correspondência chega ao destino? Tentei explicar que tanto se pode perder se indicarmos "nº53 - 3º direito" como se indicarmos "nº53 - Maria Joaquina", porque os erros acontecem na mesma, mas a minha opinião não foi compreendida.

C0uve-de-Bruxe1as - Há por cá couves-de-Bruxe1as e finalmente pude comê-las frescas em vez de congeladas como sempre as conheci. Mas estranhamente, estas couvinhas não são o símbolo vegetal de Bruxe1as, mas sim as endívias. Há por cá uma verdadeira adoração por endívias e os bruxe1enses gabam-se de ter mil e uma receitas com este vegetal. No mercado as senhoras acotovelavam-se numa banca de endívias como se lá estivessem a oferecer dinheiro.

Cães portáteis - Os bruxe1enses adoram cães mas, penso que por razões de economia de espaço, só os têm em tamanho mini, entre 25-50 cms de comprimento. Já vi dezenas e dezenas de pessoas a passearem os seus cãezinhos, mas apenas 3 cães "grandes", dos quais apenas 1 era realmente grande (um pastor-alemão) e os outros 2 eram de tamanho médio (tipo dálmata). Todos os outros cães que vi poderiam ser confundidos com gatos e nalguns casos extremos, com ratos... Nalguns bairros mais bem-equipados, no meio dos jardinzinhos que se encontram ao longo duma avenida, separando as estradas de sentido inverso, encontram-se casas de banho para cães - zonas cercadas, com areia para os cãezinhos fazerem os seus dejectos. Ocorreu-me que em Portugal estes wc caninos poderiam chamar-se Cócãos :)

Carrinhos de compras - Já falei um pouco sobre a necessidade de se ter um carrinho para se ir às compras em Bruxelas, mas ainda não sabia aonde se podiam comprar esses carrinhos. Finalmente descobri-os, nas lojas de malas e sapatos, em vários tamanhos, formas e padrões. O sucesso destes carrinhos é tal que há para todos os gostos e carteiras, desde os mais baratos a 20 euros aos modelos de luxo a 150 euros!!! Infelizmente os que têm a melhor razão qualidade/preço andam em redor dos 50 euros, mas inventiva como sempre sou, já estou a engendrar maneira de construir o meu próprio carrinho por menos de 10 euros ;)

Trocar o carro por uma bicicleta - Está a decorrer em Bruxe1as uma campanha que eu julgava que nunca ninguém teria coragem para lançar a não ser os ecologistas mais radicais que tivessem fumado umas passas. Está a ser proposto aos bruxe1enses que entreguem a placa de matrícula do seu carro, por uma ano, a troco de um passe gratuito anual para os transportes públicos. Quem quiser ser mais ousado, pode entregar o carro todo para ser destruído e nesse caso oferecem além do passe, uma bicicleta topo de gama. Eu pergunto-me, quem no seu perfeito juízo vai destruir o seu automóvel para receber uma bicicleta em troca? Só quem tenha um carro que esteja tão velho e a cair de poder, que o fosse entregar na sucata de qualquer maneira ou alguém que por acaso atingiu a iluminação recentemente e que tenha perdido todo o apego ao dinheiro e bens materiais. Que nos incentivem a não usar o carro exige coragem, mas que nos incentivem a destruí-lo é preciso loucura! Mas eu apoio a campanha, mais não seja porque é revolucionária!