Monday, September 11, 2006

Fim-de-semana prolongado

Depois da manhã de 6ª feira a ler documentos de preparação para o meu trabalho, o Marco deu-me a tarde livre e disse-me que gozasse bem o fim-de-semana prolongado.
Fui comprar um telemóvel, um mapa detalhado, alguns bens essenciais de que necessitava e ainda passei pelos correios para fazer um recado ao Marco. Como cheguei cedo a casa, fui dar uma volta pelos arredores. Fiquei pasmada com as moradias e jardins que por aqui se sucedem. Esta é sem dúvida uma zona muito in.
Perguntei à Lena se este apartamento não custa os olhos da cara, mas ela diz que não, porque apesar de estar numa boa zona, é bastante pequeno e por isso tem um preço acessível. Custa cerca de 300 euros por mês, mas isso por aqui é do mais barato que se arranja em termos de quartos ou mini-apartamentos como este. O espaço mede 2x3 mts, mas segundo o que o Stylanos me disse, posso dar-me por feliz, pois consta que a maioria dos quartos e mini-apartamentos para alugar em Bruxelas, custam bastante mais que o meu e são bem mais pequenos. Por exemplo, o quarto dele custa 400 e tal euros por mês e segundo ele é basicamente uma despensa com uma cama. O meu apartamentozito simpático com vista para o jardim é mesmo uma rara excepção.
No sábado de manhã fui conhecer uma loja de artigos em 2ª mão, na Rue Amerikaine, que a Lena me disse ser a melhor de Bruxelas. Parece a Pollux, na Rua dos Fanqueiros, mas na versão velharias. No rés-do-chão há um departamento de roupas e calçado e outro de móveis, no 1º andar há mais móveis e no 3º há de tudo um pouco: brinquedos, artigos para bebé, utensílios de cozinha, loiças, tachos e panelas, vidros, relógios, quadros, sei lá. Trouxe um saco enorme de coisas por cerca de 12 euros: 2 peças de roupa, 2 tigelas de vidro, 2 saladeiras, 1 escorredouro de loiça, 1 colher de pau, 1 concha de sopa, 1 relógio de mesa, 1 fruteira, 1 alguidar, 1 frigideira, 1 fervedouro e 1 tabuleiro. Só não trouxe mais coisas, porque já não conseguia carregar mais.
Depois disso encontrei-me com o Stylanos que me levou de carro ao IKEA. Era suposto termos comprado uma cama para mim, para substituir o sofá-cama horrível em que durmo, mas acabámos por não trazer nada, porque surgiram dúvidas quanto às dimensões do meu quarto.
Demos um passeiozito de carro muito útil porque passámos por vários sítios que pretendo visitar mais tarde com calma, como por exemplo o Kinepolis (o maior complexo de cinemas da Europa e que tem um IMAX), o Brupark e o Atomium.
No Domingo o Marco convidou-nos para fazermos um brunch em casa dele em jeito de comemoração pela minha chegada e pelo meu aniversário. A querida da Lena cozinhou um bolo de gengibre, o Marco arranjou uma velinha, mas felizmente ninguém cantou os parabéns. O Marco preparou uns petiscos, maioritariamente com produtos biológicos (como não podia deixar de ser) e depois estivémos umas horitas a encher a pança e a conversar animadamente. Por entre panquecas, bolo de gengibre, pão com doce e outros petiscos interessantes que ele preparou, fiquei a saber que o Marco e a Lena têm histórias parecidas à minha relativamente ao seu percurso profissional e à reacção das pessoas que os conhecem. Também eles foram alvo da descrença, da desconfiança e do gozo por estudarem e praticarem agricultura biológica, mas assim que foram para Bruxelas toda a gente ficou automaticamente impressionada e encantada. "Sim senhora, Bruxelas!" As pessoas assumem automaticamente que trabalhar em Bruxelas é prestigioso e dá muito dinheiro. Até podíamos andar a lavar escadas, porque raramente nos perguntam concretamente o que fazemos, basta que seja em Bruxelas e de repente tem por nós um imenso respeito. Eu pensava que isso só tinha acontecido comigo gracas à mentalidade obtusa dos portugueses, mas aparentemente os alemães não são muito diferentes nesse aspecto. O Stylanos não passou por isso, mas o percurso dele foi um pouco diferente.
Depois do brunch, fui com a Lena e o Stylanos em busca de uma feira anual de artigos baratos vintage e de design, sobre a qual eu tinha lido no jornal. Consegui entusiasmá-los de tal forma com a feira que eles cancelaram a visita ao Jardim Botânico que tinham planeado para este dia. Depois de muitas voltinhas para chegarmos ao local que eu lhes indiquei, não havia lá nada a decorrer. Acontece que há duas praças em Bruxelas com o mesmo nome e quem escreveu o tal artigo que eu tinha comigo, não deve ter feito o trabalho de casa todo, pois dava indicações de como chegar de metro, mas relativamente à praça errada.
Felizmente a praça onde fomos fica mesmo perto do Atomium, pelo que acabámos por aproveitar para tirar umas fotos em frente a ele. Mesmo assim desfiz-me em desculpas, pois não pude deixar de sentir que lhes tinha arruinado a tarde.
Decidimos então ir a um café simpático que o Stylanos sugeriu e acabámos por ter a sorte de encontrar uma "feira da ladra" lá mesmo ao lado. A feira valia mesmo a pena pois não só o ambiente era bastante festivo, com direito a uma banda a tocar feira fora, como acabei por comprar dois pares de botas por 6 euros, que eram exactamente o que eu procurava. No café bebemos um belo Thé à la Menthe (chá verde com folhas de menta) que não parece nada de especial mas que se revelou uma verdadeira delícia.
Tenho encontrado muitos portugueses por cá, mas evito o contacto com eles. Como disse aos meus novos amigos, quero aproveitar a oportunidade de estar num sítio como este, com tanta gente de tantas nacionalidades, para conhecer pessoas diferentes e não mais portugueses, que a esses já eu conheço de gingeira. Tinha acabado de lhes explicar que os portugueses estão sempre a queixar-se de tudo quando passou por nós um bando deles na feira, queixando-se muito aborrecidos que não encontravam nada de jeito para comprar, que só lá havia trapos. Well, I rest my case...

Friday, September 08, 2006

Quick tour à la Speedy Gonzalez

O escritório do IFOAM EU Group situa-se neste momento numa sala no edifício da IUCN. No meu primeiro dia no escritório, fui apresentada a toda a gente que trabalha para a IUCN. Correu tudo mais ou menos até que conheci o patrão deles. O homem foi tão inquisitivo que me deixou logo nervosa. Perguntou-me com ar muito sério quais eram as minhas qualificações e mais um montão de coisas (como se ele tivesse alguma coisa com isso...).
Hoje fui conhecer as futuras instalações do nosso escritório. Por enquanto estamos situados na Boulevard Louis Schmidt (a dois passos do meu apartamento), mas a IUCN vai precisar do espaço que de momento cede ao IFOAM EU Group e convenientemente pediu-lhe que se mudasse. O novo escritório fica na Rue du Commerce, a 5 minutos a pé do Parlamento Europeu, numa zona bastante feia, completamente preenchida por escritórios. Assim como nos arredores de Lisboa existem os "dormitórios" - urbanizações que são apenas amontoados de prédios onde as pessoas vão dormir - em Bruxelas existem os "trabalhatórios" - quarteirões inteiros de escritórios e mais escritórios e absolutamente mais nada além disso.
O escritório actual fica num prédio antigo, com um terraço nas traseiras, onde o pessoal se senta a tomar um cházinho debaixo duma árvore sempre que está bom tempo e a entrada tem um belo portão de ferro e um caminho ladeado de rosas. O novo escritório fica no 6º andar dum prédio moderno, é completamente quadrado, com vista para a fachada dos prédios em frente e para as traseiras dos prédios de trás. Mas reconheço que o espaço está melhor equipado e é bem maior, o que vai permitir que o grupo aumente para 5 pessoas a trabalhar em permanência. E tem uma varanda enorme que pode ser carregada de plantas para quebrar um pouco a monotonia do espaço.
Pelo fim da manhã acompanhei o Marco ao Parlamento Europeu onde almoçámos com a assistente e o conselheiro dum deputado alemão dos Verdes encarregue da pasta da agricultura. Fiquei a conhecer a cantina do Parlamento, onde comi a melhor lasanha vegetariana da minha vida por apenas 4,50 euros. Se é para comer assim todos os dias, também eu quero ser deputada! :)
(In)felizmente esta semana os deputados estão em Estrasburgo, por isso só por lá andavam os inúmeros assistentes, assistentes dos assistentes, conselheiros dos conselheiros, assistentes dos conselheiros e conselheiros dos assistentes. Disseram-me que este era um dia bastante calmo e que a cantina estava relativamente vazia - mas eu nunca o diria, tal era a multidão que enchia as mesas e o barulho das conversas cruzadas! Deve ser um caos absoluto quando lá aparecem mais umas centenas de deputados.
A conversa foi informal e decorreu entre a cantina e o bar onde tomámos café, mas deu para perceber que o assunto era sério. Gostei bastante de ouvir a discussão, mas entrei a meio dela por isso não apanhei grande coisa do que se estava a passar.
Hoje entrei como convidada e tive que preencher papelada e passar por não sei quantos controlos, mas em breve irei ter um cartão de lobista que me autoriza a lá entrar quando me apetecer! Yey! Se alguém tiver algum recado pessoal a dar a algum sr. deputado, faça favor de me dizer ;)
Após sairmos do Parlamento, o Marco levou-me a conhecer a melhor loja de produtos biológicos de Bruxelas (segundo ele). Trouxe um saco enorme cheio de compras por apenas 20 euros. Nem queria acreditar.
Depois levou-me a conhecer os principais locais do centro de Bruxelas - para aí numa hora ele mostrou-me quase toda a zona histórica e ainda a zona em redor do Parlamento Europeu, do Parlamento Belga e do Palácio Real. Não parece muito, mas praticamente não tive tempo para respirar. Para acompanhar as passadas de gigante dele tive que correr quase todo o tempo. Só fizémos uma pausa de um minuto na Praça Central para eu poder admirá-la um pouquinho. Fiquei exausta com esta "quick tour à la Speedy Gonzalez", mas compreendo perfeitamente que ele não possa perder tempo com estas futilidades. Ele é uma espécie de computador com pernas, totalmente dedicado ao trabalho, que por acaso até come e respira e de vez em quando tem consciência de si próprio. Não sei se lhe pagam bem, mas espero que ele receba um salário bem gordinho que bem faz por o merecer.

Thursday, September 07, 2006

Belle Bruxelles

Cá estou eu, em Bruxelas! Nem sei por onde começar a descrever tudo o que já se passou.
Talvez pelo início.
Tenho pavor de andar de avião, mas ao mesmo tempo sinto um fascínio enorme por voar, por isso a viagem foi um carrossel de emoções: a excitação da partida, o horror da descolagem, o fascínio por ver a minha casa tão pequenina lá em baixo, o pânico cada vez que o avião estremece e o deleite por ver a Bélgica lá em baixo, tão linda, à minha espera.
Como consta que é habitual, a Bélgica estava coberta de nuvens, portanto não vi muito do país quando estava lá no alto. Só tive oportunidade de ver os arredores de Bruxelas durante a aterragem, mas o pouco que vi, deixou-me deslumbrada: pastagens, parcelas agrícolas e florestais, num mosaico verde a perder de vista. As casas e estradas sempre harmoniosamente rodeadas pelo verde.
A cidade de Bruxelas não é propriamente um prado verdejante mas, pelo menos na zona onde habito, existem árvores nos passeios e todas as casas têm pequenos jardins floridos na sua entrada. A zona de escritórios é suja e cinzenta, mas o centro histórico é belíssimo.
Cheguei a meio da tarde, a Lena (minha colega de trabalho) foi-me buscar ao aeroporto e trouxe-me de imediato a casa. É um pequeno apartamento adaptado de uma cave, que não passa de um quarto com kitchenete e uma casa-de-banho, mas acho-o muito simpático. Tudo está como novo, pois o vizinho de cima, que não é o senhorio mas é a pessoa responsável pelo prédio, percebe imenso de electricidade e canalizações e mantém tudo a funcionar impecavelmente. Além disso a casa está localizada a 5 minutos a pé do escritório, numa avenida "bem" e tenho um supermercado, uma frutaria, a lavandaria e uma farmácia ao virar da esquina. Também tenho vista para o jardim do meu vizinho de cima e os dos vizinhos do lado. É um prazer abrir a janela e ver árvores enormes, arbustos de aromáticas e flores.
Hoje pela manhã fui ao escritório. Na minha secretária tinham um presentinho para mim, um guia de Bruxelas para 2006 e umas gomas e chocolates biológicos. Já os informei que não gosto de chocolate, o que para eles foi um choque, porque além de gostarem de os devorar sempre que possam, têm o hábito de beber um chocolate quente a meio da tarde. Para não ser desmancha-prazeres bebi um café para os acompanhar, mas arrependi-me disso, porque apesar de ter escolhido o mais fraquinho e na dose mais pequena, fiquei completamente cafeínada. Aquele café é uma bomba.
Hoje tive uma pequena reunião com o Marco (o chefão) que reviu comigo todas as questões relacionadas com o meu trabalho, uma pequena reunião com a Lena (a minha mentora) que me explicou o funcionamento da IFOAM e em particular do EU Group e uma pequena lição com o Stylakos (meu colega grego que irá embora em Outubro) sobre como fazer a agenda dos eventos das instituições europeias, que terei que preparar todas as 2ª feiras de manhã e enviar para todos os membros da IFOAM. Amanhã irei acompanhar o Marco no seu trabalho. Primeiro irei conhecer as futuras instalações do escritório (no final do mês iremos mudar para um maior e mais perto do poder, como os meus colegas dizem) e depois irei acompanhá-lo ao Parlamento Europeu, onde irei assistir a uma reunião. Ele diz que não é nada muito importante, mas que é uma boa ocasião para eu conhecer o ambiente.
Já trouxe um monte de papelada para ler em casa, por isso não posso escrever muito mais para ver se o leio ainda hoje.
Acrescento só que pela hora de almoço tive muita vergonha de não ser capaz de dizer duas palavras em francês, quando fui a uma loja de pronto-a-comer, mas acho que a culpa foi dos nervos, porque ao fim da tarde lá ganhei coragem e consegui falar um pouco com o meu vizinho. Meti os pés pelas mãos, mas ele entendeu o essencial. Diz que daqui a umas semanas já falo francês pelos cotovelos.