Monday, March 10, 2008

Lisboa

Ah, Lisboa.
Voltei a sentir-te.
Como uma estaca no coração.
Quero chorar contigo.
O fado. O nosso triste fado.
Abandonada à amargura doce do amor sentido, adiado, reprimido, renunciado.
Assistes indolente ao nascer e ao pôr-do-sol.
Anseias por algo prisioneiro na matriz da melancolia e da saudade.
E o meu coração é o teu.

Friday, February 22, 2008

Almstadtstrasse 24

Como prometido, voltei a Berlim. Infelizmente, devido ao temporal que atingiu a zona de Lisboa há alguns dias, perdi o avião que me ia dar um dia inteiro para turismo e tive que me contentar com poucas horinhas livres para passear por zonas ainda não exploradas e visitar o Deutsche Bundestag
Além da impressionante e inovadora cúpula que se encontra no topo deste edifício, a vista de Berlim que de lá se vê é um "müss sehen".
Apesar de curta, esta viagem foi mais produtiva que a anterior no que toca a mergulhar no espírito de Berlim. Fiquei alojada numa casa comunitária, die Hausprojekt ALMstadtstr. 24, muito "berliner" segundo me explicaram, com mais 14 habitantes trabalhadores independentes, estudantes Erasmus e aventureiros de toda a espécie.
A Charlotte e o Christophe, dois franceses temporariamente a ganhar a vida em Berlim, convidaram-me a ficar por lá. Convidaram-me também a entrar mais no espírito da casa juntando-me à reunião semanal das 4ªs feiras na sala comum. As línguas oficiais da reunião foram o alemão e o castelhano, mas também se lhe misturavam o francês, o português (havia lá um espanhol que falava português!), o italiano e raramente um pouco de inglês. Como pano de fundo ouvia-se chanson française e música senegalesa. Alguns dos espanhóis menos envolvidos na discussão surpreenderam-nos com uma enorme tortilla feita ali ao lado na cozinha sem que ninguém tivesse dado por isso e um italiano (presumo eu) fez umas massas com molho de tomate e ali se improvisou uma refeição que dificilmente encheu a barriga a alguém e que gerou olhares recriminatórios por parte dos que não tiveram coragem de se alambazar como outros menos preocupados com o que pensariam deles.
A minha passagem por Almstadtstr aconteceu num momento chave, uma vez que todos os seus habitantes tinham acabado de receber ordem de despejo, dando-se assim por terminado aquele projecto de 15 anos.
Explicaram-me que os prédios daquela zona, anteriormente propriedade da RDA, ficaram entregues às comunidades que os habitavam após a queda do muro de Berlim, até lhes serem encontrados os donos originais. Aqueles que demoraram a aparecer permitiram que comunidades como esta continuassem a existir e a renovar-se. Mas aos poucos foram sendo devolvidos aos donos ou comprados por meia dúzia de patacas. Agora que dão por si inseridos em Berlim-Mitte (centro de Berlim) cada vez mais uma zona chique e cara, estas comunidades que pagam rendas reduzidas estão a ser postas a andar para dar lugar a quem possa pagar preços exorbitantes.
Na reunião discutiam-se conhecimentos de outras comunidades em Berlim ou de locais para onde esta se pudesse mudar, mas o desânimo era grande perante a falta de perspectivas. Haverão muitas casas partilhadas por grupos de jovens, mas esta parece ser a última do seu género e dimensão. E eu tive a honra de assistir aos seus últimos momentos.

Friday, January 25, 2008

Ich war ein Berliner

Tanta água passou por baixo da ponte desde o meu último contacto.
Já não estou no Porto. O meu estágio por lá não foi além dos 2 meses.

Em compensação comecei um novo trabalho para a GENET. É o emprego que eu andava a desejar: pode ser feito onde quer que que tenha acesso à net, o horário sou eu que defino, assim como o tempo que trabalho, tenho que viajar frequentemente pela Europa, cooperar com todas as pessoas interessantes que comecei a admirar durante o meu ano em Bruxelas e a quem eu aspiro igualar profissionalmente. Só espero fazer tudo por merecer esta oportunidade.
O primeiro docinho do meu trabalho foi a oportunidade de ir a Berlim. Curiosamente (há muitos curiosamentes na minha vida, n'est-ce pas?) Berlim era a cidade europeia que eu queria visitar em seguida. Tinha ficado triste de não ter conseguido lá ir durante as férias.
Berlim não é linda, em termos arquitectónicos não tem muito que se veja, mas a história dela assalta-nos em cada esquina. Estranhamente não senti a opressão de todos os acontecimentos que lá tiveram lugar. É uma cidade completamente nova que nasceu por cima dos escombros das guerras e conflitos, sem sentimentos de culpa ou de recriminação. Ou pelo menos assim me pareceu.
Daqui a menos de um mês tenho que lá voltar. Mais uma cidade na qual me sinto em casa.