Tuesday, March 18, 2008

E eta, hein?

Estive 4 dias no País Basco. Fui ao encontro ibérico "Soberania Alimentar, Sem Transgénicos" que decorreu em Derio, nos arredores de Bilbao, mas também tive tempo de fazer um pouco de turismo pela cidade de Bilbao e dar um pulinho a uma vila nos arredores que tem o castiço nome de Portugalete.
Encontrei nesta terra algo que julgava ser uma fantasia de preguiçosos que jamais alguém iria pôr em prática: passadeiras rolantes nas ruas íngremes!!!
Passei pelo museu Guggenheim de Bilbao, mas só tive tempo de visitar a casa-de-banho - komunak, em basco. Obras de arte terão que ficar para uma visita mais prolongada.
Para desapontamento duns e descanso de outros, não conheci nenhum terrorista. No entanto cruzei-me com algumas pessoas que tinham ar disso ;)
Em todo o lado se vê a palavra "eta", não em referência ao grupo terrorista mas porque é o equivalente ao nosso "e" e ao francês "et". Demorei algum tempo a chegar lá :)
Tudo em Bilbao é escrito em castelhano e basco, mas tal como o neerlandês em Bruxelas é uma língua em vias de extinção, também o Basco não se faz ouvir em Bilbao. Só fora da cidade - especialmente em Portugalete - ouvi pessoas a usá-lo. É giríssimo, não se parece com nada. Parece uma daquelas línguas que eu inventava com os amigos nas nossas brincadeiras de criança.
O desejo de independência dos bascos faz-se notar através dos autocolantes, dos graffitis e dos eventos musicais e culturais promovidos pelos jovens em prol da "Independentzia". Felizmente a maior parte das pessoas que gostariam de um País Basco independente parecem preferir os métodos não-violentos de expressão.
Não sei porque as pessoas vivem tão obcecadas com fronteiras e territórios e se sentem tão perdidos e ameaçados quando regiões de países querem ter a sua autonomia. Deixem-nos ser livres. As fronteiras dos países são convenções artificiais que em muitos casos separam pessoas, culturas e paisagens que deveriam estar unidos e juntam outras que nada têm em comum entre si, gerando tensões e conflitos desnecessários. Eu cá apoio a Independência de todos os povos com uma cultura própria que vivem sob o domínio de outros. Apoio a abolição das fronteiras e a criação de bioregiões. De modo pacífico, voluntário e cooperativo. Mas primeiro temos todos que encontrar a paz de espírito e a sabedoria que nos permita fazê-lo sem impôr ou agredir.
Bem, mas voltando à minha história, durante estes dias fiquei alojada na Kukutza Gaztextea, uma fabulosa casa okupada (melhor seria dizer, fábrica okupada) com cinco amigos portugueses que também participaram no encontro de Derio.
A Kukutza não tem suites nem jacuzzi, mas para mim foi 5 estrelas. A primeira noite foi complicada. A Marta (o nosso contacto) não estava por lá e mais ninguém nos abria a porta. Felizmente apareceu um rapaz vindo não sei de onde que tinha a chave e nos deixou entrar, mas como não sabia quem éramos, não deixou instalarmo-nos nos quartos do 5º andar. Teríamos de nos contentar em ficar no rés-do-chão, a dormir no chão do bar/discoteca/zona de concertos. Após alguma exploração do espaço, encontrámos umas escadas que conduziam a uma zona mais elevada, onde havia uma pequena biblioteca e sala de computadores e onde decidimos aconchegar-nos.
A Marta lá apareceu no dia seguinte e pudemos finalmente visitar a Kukutza em todo o seu esplendor e ficar de boca aberta com o tamanho daquilo. Curiosamente, apesar dos vários quartos livres e do tamanho monstruoso da Kukutza, a Marta meteu-nos a todos no mesmo quarto minúsculo. Bem, pelo menos não tivemos tanto frio! Arrumámos os nossos colchões e sacos-cama o melhor que pudemos, uns na vertical outros na horizontal, pés com caras... Como disse a Rita no nosso último dia por lá, a experiência serviu acima de tudo para "team building". Sem dúvida que estreitámos laços, tanto quanto nos estreitámos naquele quarto para conseguirmos lá caber ;)
Não queria cair na asneira de dizer mal dos espanhóis - eles são tão bons ou tão maus como qualquer outro ser humano e todos eles são diferentes entre si, mas durante este encontro alguns traços caricaturais da sua personalidade deram o ar de sua graça.
Os espanhóis tendem a esquecer-se de que há um mundo para lá da Espanha - o encontro era ibérico, mas os portugueses foram completamente ignorados!
Os espanhóis não são grandes cozinheiros - tivemos que esperar horas pela comida e no fim, apesar de esfomeados, acabávamos por ter que a recusar com receio de ter uma indigestão (pimentos vermelhos cozidos com molho de mostarda - isso lá é almoço?). Enquanto que 6 dos 8 portugueses quiseram refeições vegetarianas e se queixaram da gigantesca dívida ecológica da comida servida (não biológica, à base de carne com batatas e lagostins para a maior parte das pessoas) contra talvez 10 em 200 espanhóis que fizeram o mesmo. Teria sido importante colocarem em prática os princípios de agricultura sustentável e soberania alimentar que tão veementemente defenderam durante o encontro!
Os espanhóis acham que se nós percebemos perfeitamente castelhano então eles também percebem perfeitamente português - mas não percebem, por mais que falemos devagar e nos esforcemos por falar portinhol!
Os espanhóis são excelentes a organizar festas e momentos culturais, mas não fazem o trabalho de casa antes de irem para um encontro deste género e passaram 2 dias que se esperavam de troca de conhecimentos e experiência, em discussões sem fim sobre a lógica da batata. Claro que o baile, os teatrinhos e a declamação de poesia foram excelentes!
Como disse a Margarida, também no último dia, este encontro serviu acima de tudo para alimentar o nosso ego, pois percebemos claramente que neste tema temos muito mais experiência e estamos melhor organizados do que eles. Mas para crédito deles, temos que ser honestos e reconhecer que eles ainda agora começaram e estão a dar os primeiros passos. Nós é que íamos cheios de expectativas de que iríamos aprender imenso com eles. No fundo a culpa é toda nossa :)

Monday, March 10, 2008

Lisboa

Ah, Lisboa.
Voltei a sentir-te.
Como uma estaca no coração.
Quero chorar contigo.
O fado. O nosso triste fado.
Abandonada à amargura doce do amor sentido, adiado, reprimido, renunciado.
Assistes indolente ao nascer e ao pôr-do-sol.
Anseias por algo prisioneiro na matriz da melancolia e da saudade.
E o meu coração é o teu.

Friday, February 22, 2008

Almstadtstrasse 24

Como prometido, voltei a Berlim. Infelizmente, devido ao temporal que atingiu a zona de Lisboa há alguns dias, perdi o avião que me ia dar um dia inteiro para turismo e tive que me contentar com poucas horinhas livres para passear por zonas ainda não exploradas e visitar o Deutsche Bundestag
Além da impressionante e inovadora cúpula que se encontra no topo deste edifício, a vista de Berlim que de lá se vê é um "müss sehen".
Apesar de curta, esta viagem foi mais produtiva que a anterior no que toca a mergulhar no espírito de Berlim. Fiquei alojada numa casa comunitária, die Hausprojekt ALMstadtstr. 24, muito "berliner" segundo me explicaram, com mais 14 habitantes trabalhadores independentes, estudantes Erasmus e aventureiros de toda a espécie.
A Charlotte e o Christophe, dois franceses temporariamente a ganhar a vida em Berlim, convidaram-me a ficar por lá. Convidaram-me também a entrar mais no espírito da casa juntando-me à reunião semanal das 4ªs feiras na sala comum. As línguas oficiais da reunião foram o alemão e o castelhano, mas também se lhe misturavam o francês, o português (havia lá um espanhol que falava português!), o italiano e raramente um pouco de inglês. Como pano de fundo ouvia-se chanson française e música senegalesa. Alguns dos espanhóis menos envolvidos na discussão surpreenderam-nos com uma enorme tortilla feita ali ao lado na cozinha sem que ninguém tivesse dado por isso e um italiano (presumo eu) fez umas massas com molho de tomate e ali se improvisou uma refeição que dificilmente encheu a barriga a alguém e que gerou olhares recriminatórios por parte dos que não tiveram coragem de se alambazar como outros menos preocupados com o que pensariam deles.
A minha passagem por Almstadtstr aconteceu num momento chave, uma vez que todos os seus habitantes tinham acabado de receber ordem de despejo, dando-se assim por terminado aquele projecto de 15 anos.
Explicaram-me que os prédios daquela zona, anteriormente propriedade da RDA, ficaram entregues às comunidades que os habitavam após a queda do muro de Berlim, até lhes serem encontrados os donos originais. Aqueles que demoraram a aparecer permitiram que comunidades como esta continuassem a existir e a renovar-se. Mas aos poucos foram sendo devolvidos aos donos ou comprados por meia dúzia de patacas. Agora que dão por si inseridos em Berlim-Mitte (centro de Berlim) cada vez mais uma zona chique e cara, estas comunidades que pagam rendas reduzidas estão a ser postas a andar para dar lugar a quem possa pagar preços exorbitantes.
Na reunião discutiam-se conhecimentos de outras comunidades em Berlim ou de locais para onde esta se pudesse mudar, mas o desânimo era grande perante a falta de perspectivas. Haverão muitas casas partilhadas por grupos de jovens, mas esta parece ser a última do seu género e dimensão. E eu tive a honra de assistir aos seus últimos momentos.