Tuesday, July 22, 2008

Pastel Cultural de Belém

Para aí há duas semanas fui com a minha mãe ao CCB para o aniversário do Museu Colecção Berardo. Ainda não tinha lá ido e como anunciavam entrada gratuita e festa toda a noite achei que devia aproveitar. Mas afinal era golpe publicitário porque só me deixaram ver a primeira e a última sala do museu - trial-version com limitações...
Mesmo assim foi instrutivo porque, do pouco que vi, pude aperceber-me que, ao contrário das minhas expectativas - de que iria achar tudo demasiado "artístico" (meaning: sem pés nem cabeça, nem ponta por onde se lhe pegasse) - até apreciei grande parte das obras. Mesmo o bizarro espectáculo silencioso de dança moderna em câmara lenta que se repetia ad infinitnum numa das salas, me pareceu estranhamente hipnotizante.
Penso que tenho sido muito influenciada pelos quantos amigos artistas que fui arranjando neste último ano - estava a precisar duns e foram-me providenciados ;)
Graças a eles, começo a apreciar mais a arte, mesmo aquela que me parecia totalmente absurda e/ou ridícula. Mas atenção, ainda tenho os meus limites - guinchos de violino com ruídos electrónicos dum laptop (memória duma tarde de Verão no Bacalhoeiro) sai um bocado fora do meu conceito de música e nem todos os riscos pretos numa tela vazia conquistam o meu respeito.
Voltando ao CCB, o ambiente estava quente, havia boa música no ar, mas eu estava com a mãezinha e por isso não fiquei a curtir a night. Tirei umas quantas fotos (espero eu) artísticas e fui comer uns pastéis de Belém por volta da meia-noite. Não sou fã de Pastéis de Belém, mas estes souberam-me especialmente bem.


Thursday, June 12, 2008

O fim do mundo em cuecas

Anda tudo doido por causa dos combustíveis e como hoje de manhã experimentei em 1ª mão o ambiente de nervos que se vive nas bombas de gasolina, não me escapo a ir na onda de escrever umas quantas palavras sobre o assunto, como toda a gente...
É doloroso ver que as pessoas estão tão iludidas quanto ao mundo em que vivem que assim que ele é um bocadinho abalado, sentem logo que é toda a realidade que se desmorona.
Eu, pessoalmente, já espero um colapso da nossa civilização desde há muitos e bons anos e fiz um esforço para me preparar para ele, pelo menos psicologicamente. Perante a hipótese de passar alguma fome, ter energia racionada ou não poder andar de carro, sinto-me bastante serena. (Só me perturba não poder andar de avião - efeitos perversos de se subir na vida. lolol)
Mas preocupa-me o grau de ignorância das pessoas, que reagem desproporcionadamente às crises normais da existência num mundo impermanente. Uma reacção exagerada por parte das pessoas pode despoletar o colapso do mundo tal como o conhecemos, muito antes de haver razões incontornáveis para isso. Se juntarmos o sangue que ferve ao aquecimento global, este pode muito bem vir a ser o tão anunciado fim-do-mundo em cuecas.
Por exemplo, esta paralisação dos camionistas... OK, os combustíveis estão caros e muitas empresas vão à falência com isso e as que sobrevivem deixam de ter os lucros que tiveram até aqui, mas o mundo continua, funcionando de modo mais modesto e ajustado aos recursos que temos. Mas o apego das pessoas ao mundo que conhecem é de tal ordem que as leva a exigir que o governo faça desaparecer por magia uma crise profunda mundial que só se resolve com uma mudança de paradigma de desenvolvimento da humanidade. C'mon!
Se a paralisação continuar, em breve as pessoas não terão combustível para se deslocar de carro para o trabalho, os transportes públicos não vão dar conta do recado, muita gente não vai poder ir trabalhar, a comida não vai chegar aos supermercados - ficam todos em casa agarrados ao estômago e a ver televisão ou, num pior cenário, vão para a rua e começam a matar-se uns aos outros por um litro de gasolina ou um papo-seco.
Por acaso acho que não se chegará a isso. O colapso civilizacional ainda não é desta.
O governo vai chegar a um acordo qualquer com os camionistas, eles vão voltar à estrada, as pessoas vão continuar a ter disponíveis os bens de consumo que tanto prezam (embora dos preços galopantes não se livrem) e o mundo vai continuar a girar.
Estas crises que estamos a passar são apenas avisos à navegação - early warnings, wake up calls, eye-openers - daquilo que nos espera se não arrepiarmos caminho.
Compreendo o sofrimento e desespero das pessoas, que não têm capacidade para mudar de vida dum dia para o outro, mas todos tivémos hipóteses de escutar os avisos, de mudar aos poucos, de contribuir com pequenos esforços pessoais para se evitar estas crises maiores. Todos temos culpa e merecemos o castigo. Se uns são subsidiados e outros não e há aí injustiça, a solução é não subsidiar ninguém! Welcome to the real world!


P.S.: Quanto às minhas deslocações de carro para Lisboa, encontrei uma solução! Vou de boleia dum colega que vem das mesmas bandas. Viva o car-sharing!

Tuesday, June 03, 2008

Luzes da cidade

Estou a frequentar um curso de Agricultura Biológica da AGROBIO, que já andava há anos para fazer. Até agora não aprendi muito - ainda andam a explicar a fotossíntese, as características dos solos, enfim, "basic stuff" - mas eu insisti em fazer este curso porque sinto necessidade de sistematizar os conhecimentos livrescos e dispersos que tenho, num todo coerente.
Vou e venho no carro da minha mãe todos os dias, o que me pesa na consciência, mas considerando que saio do curso lá pelas 22h00-22h30, nem pensem que vou sozinha apanhar comboio a Alcântara-Terra a essas horas da noite para reduzir a minha pegada ecológica. Espero que os conhecimentos adquiridos me permitam um dia mais tarde cultivar hectares e hectares biológicos e compensar estas emissões de CO2 ;)
Estou a falar nisto porque ultimamente penso muito no impacto que passei a ter com as minhas viagens regulares de avião. Já ouvi umas bocas duns amigos puristas que atravessam o mundo de comboio e autocarro se for caso disso, mas outros há que argumentam que o meu trabalho em prol de um mundo melhor é suficientemente compensador das emissões de CO2 que emito para a atmosfera. É um argumento discutível. Eu diria que é mais na base do potencial do meu trabalho em contribuir para um mundo melhor que os impactos poderão vir a ser compensados, mas se falarmos em termos imediatos, então de facto não estou a compensá-los muito.
Mas quando os meus amigos anti-avião me apertam os calos, eu digo que antes de se pedir aos ecologistas que deixem de viajar de avião para defenderem o ambiente global, devem pedir isso a quem viaja de avião de Nova Iorque à China apenas para apertar a mão a alguém e fechar um qualquer negócio poluidor. Não estou a sacudir a água do capote dizendo que outros se esforcem em vez de mim, apenas estou a dizer que se o esforço que me pedem para fazer me impede de fazer o meu trabalho em prol dum melhor ambiente, então nesse ponto deveriam passar a pedir esforço semelhante a alguém que possa fazê-lo sem prejuízo para o mundo e chatear-me um pouco menos com o assunto. Busco alternativas, mas para mim não é alternativa gastar 500 EUR e vários dias em vários comboios, numa viagem de trabalho, quando de avião gastaria 200 EUR e 4-5 horas para chegar ao mesmo destino. O que achas, Ritinha?



Quando venho de carro à noitinha - o brilho das luzes da cidade, o reflexo dos vidros e espelhos, a beleza crua dos prédios iluminados contra o céu escuro - ao som de swing e blues da Marginal ;), não consigo evitar amar a beleza deste mundo artificial, denso, complexo e musical que criámos. Uma das imagens mais belas que povoam a minha memória é a das luzes da cidade de Lisboa vistas de avião. Parece algo tirado dum livro de ficção científica, um monumento às capacidades sobre-humanas do ser humano. É pena que tenhamos enveredado por um caminho em que temos tudo isto às custas de um anunciado fim-do-mundo tal como o conhecemos. Podíamos ter tudo isto de forma sustentável. A única razão porque não o temos é o facto da ignorância de alguns prevalecer sobre o engenho de muitos. Oxalá as luzes da cidade iluminem as mentes obscurecidas deste mundo e as coisas mudem. Até lá faço o que posso, mas não me peçam para ser perfeita.