Monday, October 30, 2006

Festa

Não tenho muitas novidades para contar. Já me sinto bruxelense e portanto já não tenho aquela admiração inicial por cada pequena coisa. Todos os dias descubro algo novo, mas no geral o meu quotidiano já começa a ser rotineiro e familiar.
Este sábado a Lena e a colega de apartamento dela organizaram uma festa e convidaram umas 50 pessoas. Tiveram que pedir ao senhorio que lhes emprestasse o sotão, com receio de não terem espaço para toda a gente, mas no final apareceram umas 20 ou 30 e nenhuma parecia muito entusiasmada com a ideia de ir para o sotão. Mas era provavelmente o sítio mais interessante, pois além de ter um terraço com uma vista interessante, elas tiveram um trabalhão a montar lá uma mini-discoteca. Depois de muito insistirem, quando já era perto da 1h30 da manhã, lá houve uns quantos voluntários que se mudaram para o sotão para dançar, mas muitas pessoas por essa hora já se tinham ido embora - fracotes.
Eu fiquei encarregue de cozinhar o bolo, o que é uma grande responsabilidade, pois é a parte mais importante dos comes e bebes duma festa. Do meu ponto de vista o bolo estava mau - o fermento não actuou, a massa não cresceu e ficou mal cozida. Mas toda a gente adorou e todos queriam saber quem tinha preparado aquela tarte. Eu pensei "Tarte, qual tarte?" Era suposto ser um pão-de-ló com uma camada de compota e muesli, mas lá percebi que se como bolo a ideia não tinha resultado, como tarte o resultado era excelente. E lá fui receber os elogios dos convidados. "Sim, sim, fui eu que fiz a tarte! Obrigada. Obrigada."
No convite para a festa a Lena pedia que cada um levasse uma garrafa da sua bebida favorita e escusado será dizer que ninguém levou sumos de fruta. Havia apenas um pacote de sumo de laranja que eu bebi até ao fim, mas depois o francês queria que eu provasse o espumante dele, a búlgara queria que eu provasse o vinho tinto dela, o grego queria que eu provasse o vinho tinto dele, e um alemão que tinha comprado vinho do Porto queria que eu provasse para lhe dizer se era dos bons (como se eu fosse especialista no assunto...). Só bebi um bocadinho de cada, mas mesmo assim comecei a ficar com a cabeça a andar à roda e tive que me deitar um bocado para recuperar do efeito. Depois de recuperada ainda apareceu um belga que queria que eu provasse a cerveja dele, mas foi fácil recusar, porque eu não gosto mesmo nada de cerveja. Depois disso já só me ofereciam copos de água.
Um alemão muito chato engraçou comigo e perseguiu-me toda a noite de sala em sala. No final queria ir dar um passeio comigo e levar-me a casa e talvez casar comigo. Estava convencidíssimo que tinha encontrado o amor da vida dele, mas eu não estava nem aí... Para me livrar dele tive que me colar à Lena e no fim da noite chamar um taxi ao qual ela me acompanhou, não fosse o alemão ter a ideia de querer partilhar o taxi comigo.
No domingo fui conhecer mais uma feira da ladra, na Place Jeu de Balle, que a Lena me recomendou várias vezes e dei umas voltinhas pelo bairro Marolles. Li algo interessante sobre aquela zona. Quando o arquitecto Poealert construiu o Palais de Justice ali perto - um edifício monstruosamente grande - muitas casas do Marolles, na altura a zona dos comerciantes pobres de Bruxelas, tiveram que ser demolidas e as pessoas daquela zona passaram a odiar o famoso arquitecto ao ponto da palavra "arquitecto" se ter tornado um nome feio na língua local. Também consta que o arquitecto ficou louco e morreu cedo por causa duma maldição que uma bruxa dos Marolles lhe lançou. Parece portanto ser uma zona muito interessante e castiça, mas altamente perigosa para os arquitectos ;)

Friday, October 27, 2006

Bom tempo, mau tempo e falta de tempo

Durante a semana passada decorreu a Board Meeting da IFOAM-EU e um seminário sobre o Desenvolvimento Rural e esta semana finalmente tive uma reunião com o Marco em que revimos o meu trabalho até agora e em que me foram dadas mil e uma novas tarefas, por isso começo a não ter tempo para fazer tudo o que desejo fazer. Quero estudar francês, exercitar-me, escrever, pintar, costurar, cozinhar, "bricolagear", fotografar, sair com os amigos, conhecer o país, mas não é fácil conciliar tudo no cada vez menos tempo disponível que tenho. Vou tentar escrever algo este fim-de-semana sobre o que tenho feito, mas não garanto nada :)
Por agora digo apenas que por aqui está um tempo excelente, com muito sol e temperaturas amenas. Parece que em Portugal não têm essa sorte... Diz-se por aqui que os meses de Setembro e Outubro foram anormalmente secos em Bruxelas. Eu bem disse que isto iria acontecer, porque aonde eu vou levo o sol comigo :))) Só não previ que a chuva fosse toda para Portugal. Desculpem lá o mau jeito...

Monday, October 16, 2006

Preconceitos

Quase de certeza que eu tenho algumas ideias pré-concebidas sobre certos países, mas tento não construir cenários à volta delas e esperar pela oportunidade de construir uma imagem correcta a partir de informações fidedignas. Mas é incrível a quantidade de ideias feitas que as pessoas têm sobre Portugal e o quanto romanceiam à volta delas.
Várias pessoas com quem falei sobre Portugal disseram-me sempre a mesma coisa: que Portugal deve ser óptimo para se passar umas férias baratas ao sol, com comidinha exótica e nativos pitorescos, mas que deve ser incrivelmente atrasado em relação ao resto da Europa. Estão sempre a perguntar-se se em Portugal há isto e aquilo e aqueloutro - coisas básicas que talvez em África sejam difíceis de encontrar, mas que em Portugal são coisas normais do dia-a-dia das pessoas faz décadas. E depois ficam muito admirados quando lhes mostro que de facto não há grandes diferenças entre Portugal e os países da "Europa desenvolvida".
Por um lado digo-lhes sem grande pudor que os portugueses são uns atrasos de vida, que têm umas mentalidades tacanhas, que se queixam de tudo mas nunca fazem nada e que só são felizes com a desgraça dos outros. Mas também digo que se não fosse a falta de auto-confiança, a falta de vontade de evoluir e uma grande dose de preguiça, Portugal poderia ser um dos países líderes do mundo, porque quando as capacidades e o pioneirismo dos portugueses de vez em quando se manifestam, conseguem ser bastante impressionantes.
No meu dia-a-dia aqui percebo que Portugal em muitas coisas está à frente da Bélgica (embora em muitas outras esteja anos-luz atrás). Isso demonstra que Portugal tem potencialidades e que poderia ir longe se deixasse de dormir debaixo do chaparro todo o dia e arregaçasse as mangas.
As maiores diferenças são a nível da mentalidade e educação das pessoas, porque quanto a infra-estruturas, Portugal está tanto ou mais evoluído que os países "mais desenvolvidos".
Penso que como consequência de julgarem que Portugal é um país incrivelmente atrasado, as pessoas também tendem a ser condescendentes comigo e depois ficam surpreendidas quando percebem que em termos intelectuais, culturais e práticos, eu não fico atrás deles.
No início o Marco ficava muito surpreendido quando eu mostrava que sabia fazer imensas coisas que ele julgava que teria de me ensinar. Ficou muito impressionado, por exemplo, que eu soubesse configurar o Outlook para receber e-mails. Enfim, não sou atrasadinha... Entretanto ele já percebeu isso e há dias quando foi a Lena que duvidou das minhas capacidades, questionando-o se eu estaria à altura de participar numa certa reunião, ele ficou muito surpreendido com a atitude dela, porque para ele já era óbvio que eu me desenrascaria lindamente. Mesmo assim, recorrentemente, ainda me tratam como se eu fosse uma coitadinha, o que por vezes me aborrece um pouco, mas eu perdoo-lhes.
Os meus colegas também ficaram surpreendidos quando me ouviram falar ao telefone. Disseram que não parecia nada que eu estava a falar português. Eu pensei "Essa agora, desde quando eles sabem melhor do que eu como é que se fala português?". A resposta deles foi que o meu português parecia ser uma "língua séria". Sim, foram estas as palavras exactas! Para eles o português seria muito semelhante ao espanhol, considerada uma língua espalhafatosa e foi com supresa que perceberam que o português é uma língua discreta. Acho que só com base nisso eles já reformularam toda a sua ideia de Portugal e já conseguem imaginá-lo como um país europeu e não do 3º mundo. Espanha terá que mudar de língua ou acho que nunca se verá livre de ser associada às touradas, castanholas e olés.
A propósito disso, os meus colegas espanhóis de EVS fizeram questão de destruir os estereótipos sobre Espanha durante a nossa soirée cultural do Seminário EVS. Todos tínhamos que apresentar algo do nosso país: um traje, um prato, uma dança, uma canção, o que quiséssemos. Eles desenharam um touro e uma sevilhana e cozinharam uma tortilha. Apresentaram cada um desses "símbolos" e depois rasgaram o touro e a sevilhana, dizendo que era tempo de acabar com estas ideias pré-concebidas sobre os espanhóis. Conservaram intacta a tortilha, que disseram ser um símbolo saboroso, mas em substituição dos outros símbolos apresentaram informações culturais de Barcelona, para eles a cidade que representa a nova Espanha que lentamente começa a ganhar terreno, livre de touradas e outras manifestações retrógradas.
Eu vesti-me com as cores nacionais, expliquei que Portugal não é uma região de Espanha, que o Fado é típico de Lisboa e não do país, que o Bacalhau vem do Mar do Norte e que o melhor de Portugal são as paisagens. (E tive que explicar tudo isto em francês, claro!)
Outros que terão que mudar de língua se quiserem ser levados a sério são os gregos. Quando falam conseguem ser ainda mais espalhafatosos que os espanhóis. E parece ser uma daquelas línguas em que se fala, fala, fala e no fim só se disse 2 palavras - mas isso pode ser apenas um dos poucos preconceitos que eu tenho :) Na hora de almoço de 6ª feira decidimos ir tomar um café e um bolinho a um café grego perto do nosso escritório e o Stylianos serviu de intérprete dos nossos pedidos. Ele apenas tinha que pedir 2 cafés e 2 fatias de bolo, no entanto ele e o empregado estiveram à vontade 5 minutos a discutir acaloradamente. A Lena bichanava para mim que não compreendia como pedir 2 cafés e 2 bolos poderia ser uma questão tão complexa que levasse a um tão longo debate. No final, para termos a certeza de que a conversa tinha sido apenas em redor do pedido e que eles não tinham começado a discutir a filosofia grega toda da antiguidade até aos dias modernos, perguntámos ao Stylianos o que tinham eles estado a conversar e ele confirmou que apenas tinha transmitido o nosso pedido e que o empregado apenas confirmou com ele se o pedido estava correcto. Curioso...
Na tarde de sábado fui ao cinema ao Kinepolis. Imaginem o Centro Comercial Vasco da Gama transformado num grande complexo de cinemas e terão uma ideia aproximada do tamanho do Kinepolis.
Julguei que lá iria encontrar uma enchente de pipoqueiros, mas ou algo interessante estava a acontecer do outro lado da cidade ou os bruxelenses não gostam de cinema, porque as 25 salas de cinema estavam praticamente às moscas numa tarde de sábado. Se fosse em Lisboa, estariam apinhadas, atulhadas e abarrotadas.
Falei à Eva na existência do IMAX e ela que vive cá há 2 anos e meio, não sabia disso. Será que esta gente não lê? E será que não saem à rua? E quando saem à rua, será que andam de olhos abertos? Em breve, se houver algum filme interessante, somos capazes de lá ir.
Falando em Eva, no domingo fui com ela ao Festival do Livro. Não queria gastar muito dinheiro, mas queria ver se encontrava dicionários, gramáticas e coisas do género que pudessem ser úteis para o meu estudo de línguas.
Como a Feira é na parte norte da cidade, a maior parte dos livros eram neerlandeses. Lá encontrei uma fila dedicada aos livros francófonos e havia também livros em inglês espalhados um pouco por todo o lado, mas a maioria deles era para mim indecifrável. A Eva focou a sua atenção nas filas de livros infantis, porque diz que o neerlandês dela corresponde ao de uma criança de 6 anos, logo tem que ler livros adequados ao seu nível. Acabou por comprar uns quantos livros do Garfield.
À entrada podíamos escolher cestos ou carrinhos para transportarmos os livros e a maior parte das pessoas parecia optar pelos carrinhos - e que bem que os enchiam! No final (tal não deve ser a tradição das pessoas comprarem toneladas de livros), em vez de nos colocarem os livros em sacos, mandaram-nos passar por uma bancada cheia de caixotes de cartão para escolhermos o mais adequado aos nossos livros. Também nos davam sacos se quiséssemos, mas eu vi mais gente a transportar caixotes do que sacos o que é um sinal do sucesso da feira. Pouco depois pensei: "Ah, então era por causa disto que não havia ninguém no cinema!"
Na feira vi alguns dicionários de português, um mapa de Portugal e Espanha e na secção de guias turísticos, um guia dos campos de golfe em Portugal... É a isto que o nosso país se está a reduzir, não é verdade? Todos os dias mais um pedaço daquilo que realmente valia a pena figurar em guias turísticos desaparece para dar lugar a um novo campo de golfe. Em breve Portugal figurará no livro de records do Guiness como o país com mais campos de golfe por metro quadrado e por habitante.
Depois da feira passámos pelo Atomium (o interior fica para outro dia), atravessámos o Parc D'Osseghem até ao Parc Royal, passámos frente ao Palácio Real, onde tudo o que vi foram os muros, o portão e um vislumbre do palácio ao longe e seguimos até ao Pavilhão Chinês e a Torre Japonesa (os interiores também ficam para outro dia).
Ah, já comprei uma gaiola (em 2ª mão) para o rato! Também arranjei uma solução para o carrinho de compras, digna duma permacultora ;) Comprei (também em 2ª mão) duas mochilas de viagem, daquelas com armação de ferro e estou a adaptá-las a um carrinho de transporte de caixotes que comprei no IKEA - o carrinho custou 5 euros e as duas mochilas outros 5, pelo que o conjunto fica mais barato que o carrinho de compras mais barato que já vi à venda, além de que será mais ecológico (porque estou a reutilizar materiais) e muito mais original que qualquer outro em Bruxelas.