Saturday, December 16, 2006

É uma casa portuguesa, concerteza

Já estou em Portugal!
Na verdade comecei a estar em Portugal no momento em que entrei no vôo da TAP e tive que aturar um grupo de portugueses que passaram a viagem toda a atirar chocolates, guardanapos e jornais por cima da cabeça das outras pessoas, a comunicarem aos berros duma ponta para a outra do avião, a beberem cervejas umas atrás das outras, a discutirem futebol fervorosamente, a queixarem-se que somos um país de falhados (percebe-se porquê) e a desrespeitarem todas as regras de segurança e pedidos insistentes das hospedeiras ao passearem pelo corredor nos momentos de descolagem e aterragem. Sim, comecei aí a lembrar-me do que era estar em Portugal...

Não falei ainda da festa da Sevelina, mas foi uma noite completamente doida. Depois de muitos copos e muita cavaqueira na casa dela, decidimos ir dançar noite dentro. Começámos por ir a um clube de salsa, mas passado nem meia hora fomos expulsos, porque só eu é que estava a beber (uma coca-cola!) e duas das outras raparigas adormeceram nos sofás (o que não estava a dar muito bom aspecto...). Mas depois disso ainda encontrámos um bar africano de onde conseguimos não ser expulsos e lá abanámos o traseiro com a batucada até de manhã. Pelo meio tivémos mil oportunidades de nos rirmos que nem perdidos e acabou por ser uma das noites mais divertidas de que tenho memória.

Ah, ia-me esquecendo! Participei num casting para um filme! Mas dessa brilhante experiência não tenho fotos para mostrar.
No mesmo bar onde me encontro com a Eva para jogarmos o New Amigos estavam a decorrer audições para um filme e depois de muito discutirmos e nos incentivarmos mutuamente, eu e os meus companheiros de jogo (éramos 4 naquela mesa) decidimos tentar a nossa sorte (a Eva recusou-se...diz que é tímida; eu pelos vistos já não sou!!?).
A audição era para uma curta-metragem em língua inglesa, supostamente a propósito da comemoração dos 50 anos da União Europeia. Queriam que improvisássemos um conflito entre 4 passageiros numa carruagem de comboio. O Stuart deveria fazer o papel dum fumador que não respeitava os outros passageiros e eu era uma passageira muito nervosa que lhe atirava os cigarros janela fora. A partir daí improvisámos uma bela duma guerra, mas os meus colegas de improviso estavam sempre a lixar-me em vez de entrarem no jogo de faz de conta comigo. Foi difícil manter-me séria e apesar de ter começado muito bem, às tantas já não conseguia parar de rir.
Está bem que fomos lá pelo gozo de termos esta história para contar aos nossos netos, mas mesmo assim não custava muito eles terem levado a experiência mais a sério. Quem sabe não nos revelámos excelentes actores e começávamos ali uma brilhante carreira? ;)
Já foi quase há duas semanas e não me telefonaram, por isso acho que posso dizer que não gostaram da minha representação :)

Regresso!

É difícil de acreditar, mas hoje ainda estarei de regresso a Portugal por 3 semanas. É difícil também dormir, porque as emoções são muitas e intensas. Hoje ao deixar o escritório, depois de termos feito uma pequena celebração de Natal, vieram-me lágrimas aos olhos. Assim se vê como gosto do meu trabalho, ehehe.
Eu não desenvolvo apego aos locais e pessoas, mas desenvolvo laços emocionais fortes e não preciso de muito tempo para isso. Já sinto que aqui é a minha casa e custa-me deixá-la. Por outro lado também sinto algum desejo em rever Portugal e reencontrar os meus portugueses favoritos!
"Vemo-nos" em Portugal!

Sunday, December 10, 2006

Portugal genuíno

A Sevelina acha que eu tenho algo contra Portugal, porque estou sempre a criticá-lo. E eu reconheci que "Sim, tenho algo contra Portugal, mas apenas contra um certo Portugal, pois há um outro Portugal que eu amo, mas esse quase não se vê nem se ouve."
Fui até Antuérpia com ela e uma amiga dela espanhola, a Elena, e encontrámos por lá um Café-Restaurante Lisboa que elas quiseram conhecer por dentro. Eu não percebo nada de café, pelo que pedi no balcão um café e um café com leite para elas, mas a senhora que me atendeu fez questão de me corrigir que o que eu queria era uma bica e uma meia-de-leite. "Sim, isso..."
Sentámo-nos a beber a bica e discutimos sobre a cultura portuguesa. A Sevelina adora o "ordinary" e fica fascinada com sítios como aquele, tipicamente portuga, com uma árvore de Natal de plástico numa ponta do balcão e uma águia gigante na outra, Pais-Natal da loja dos trezentos a espreitar por entre garrafas de vinho tinto, posters do SLB por todo o lado e uma televisão gigante de plasma a passar um filme na SIC. Ela acha que isto é o Portugal genuíno e eu tenho que reconhecer que infelizmente ela está correcta. Mas disse-lhe que apesar de genuíno, não é o tradicional, é apenas a versão moderna da cultura portuguesa, despida de profundidade, assente nos valores do futebol, do mal-dizer, da conformidade e da quadrilhice.
Eu não detesto Portugal, gosto do Alentejo e de Trás-os-Montes, da tristeza amargurada de Lisboa e da vivacidade do Porto, da luz e da cor de Portugal, dos pastéis de feijão e de noz (não sou fã de pastéis de nata), da couve-portuguesa e das sopas portuguesas, do azeite e da cortiça, dos Madredeus e do Sérgio Godinho, do Fernando Pessoa e da Florbela Espanca e das pessoas maravilhosas que aí habitam e que eu tive a sorte imensa de terem cruzado a minha vida. Mas não gosto da mentalidade dominante do povo português, nem das expressões dessa mentalidade que decoram um café ou uma tasca perdidos algures numa Antuérpia ou numa Bruxelas. Acho vulgares e de mau gosto.
Mas compreendo que para alguém doutro país possam ser fascinantes. Acho que ficamos sempre fascinados com o kitsch doutros povos e culturas, porque não levámos com uma dose maciça dele ao longo de toda a nossa vida. Por exemplo, ando fascinada com o folclore búlgaro, que acho místico e profundo, mas a Sevelina torce-lhe o nariz.