Friday, July 20, 2007

Bolos e desertos

A língua oficial não-oficial do "quartier européen" em Bruxelas é cada vez mais o inglês. E talvez por isso o Exki aqui da esquina, tem uma placa à porta com a descrição em inglês do que lá se pode comer. Cada dia que por lá passo rio-me sozinha quando leio que entre as soups e as tarts, também lá servem cakes & deserts. (Para os mais distraídos, eles pretendiam dizer desserts=sobremesas e não deserts=desertos). Apetece-me pegar numa caneta e acrescentar lá o "s" que falta, mas ao mesmo tempo acho que a placa tal como está acrescenta uma pitada de poesia surrealista à vida. Não consigo evitar pensar que bolos e desertos é uma descrição adequada para o cenário da minha vida nestes últimos dias.
A 15 dias de terminar o meu trabalho e a mês e meio de deixar Bruxelas, as pessoas olham para mim quase como que preocupadas com o meu estado emocional, mas não é o fim do mundo, não vou ficar deprimida por deixar Bruxelas, apenas saudosista. E o futuro é um livro à espera de ser escrito, por isso quem sabe se não voltarei em breve a Bruxelas ou irei para algum outro local ainda mais fantástico?
No entanto todas as fases de transição se parecem um pouco com uma travessia do deserto e eu não consigo evitar sentir um pouco isso. Felizmente este é um deserto cheio de bolos!
Todos os dias alguém faz anos, alguém chega a ou parte de Bruxelas, alguém espirra e decide comemorá-lo, por isso todos os dias há festas e bolos! No fim-de-semana passado fui a um festival de música em Gent, onde dividi o meu tempo entre 2 grupos diferentes de amigos que não se quiseram juntar para me facilitar a vida; durante a semana fui várias vezes ao cinema, com amigos e desconhecidos; ontem houve um lanche de aniversário no escritório e bolo de morangos com chantilly; hoje vou a uma festa de mudança de casa; amanhã vou a outra festa de um aniversário que já teve lugar há 2 semanas - não importa!
Todos os dias devemos celebrar o simples facto de estarmos vivos e em Bruxelas parece que isso é realmente posto em prática!
O tempo é que não tem sido muito amigo das festas. Durante breves momentos, por vezes alguns dias, é possível apercebemo-nos de que já estamos no Verão, mas a maior parte das vezes parece que ainda estamos presos no Inverno.
Voltei a calçar as botas e mesmo a vestir o meu casaco mais quente em alguns destes últimos dias. Este está a ser oficialmente o pior mês de Julho de que tenho memória.
Mas é melhor não me queixar muito, pois parece que na América do Sul está um frio polar e que na América do Norte se debatem com 40ºC. Perante isso Bruxelas é um paraíso de temperaturas amenas.
Ainda hoje vi uma escuridão fora do normal aproximar-se por cima das nossas cabeças e passado um bocado um relâmpago caiu no pára-raios do prédio em frente, basicamente a 50 metros de distância da minha secretária. Parecia que uma bomba estava a explodir à minha frente. O estrondo foi simultâneo ao relâmpago e ressoou nas minhas entranhas todas. O flash de luz branca só não me deixou meio cega porque eu tinha as cortinas parcialmente corridas, mas foi pena porque na verdade eu gostava de ter visto o espectáculo todo...

Sunday, July 15, 2007

Republik Kugelmugel

Esqueci-me de contar que em Viena deparei-me com isto:
Republik Kugelmugel

Como está no meio dum parque de diversões, pensei que fosse uma piada, mas ao pesquisar na internet, descobri que é a sério. Interessante.

Friday, July 13, 2007

Liberté, égalité, fraternité!

Estive em Estrasburgo, na França.
Enquanto me perdia de amores pelo cenário medieval-romântico daquela cidade, ocorreu-me que por mais locais fantásticos que eu visite, há sempre mil e um outros locais no planeta à espera de me surpreenderem com o seu encanto. Parece que não há limites para a beleza do mundo e só é pena que os seres humanos estejam ainda a dar os primeiros passos na sua longa evolução moral, caso contrário eu diria que vivemos no paraíso!
Conheci o Parlamento Europeu em Estrasburgo, vi o hemiciclo, conheci uma data de pessoal dos Verdes e os escritórios deles. O edifício é lindíssimo (mais pelo enquadramento paisagístico do que pelo edifício em si), mas o pessoal queixa-se que os escritórios lá não são tão bons como os de Bruxelas (e de facto, pareceram-me uns cubículos muito escuros e desconfortáveis - o meu estúdiozito em Bruxelas é 10 vezes bem mais simpático e um pouco maior que os escritórios deles...).
Para quem não sabe, o Parlamento tem duas localizações, Bruxelas e Estrasburgo e todos os meses durante quatro dias os parlamentares deslocam-se todos a Estrasburgo para as sessões plenárias. Há anos que os Verdes andam a pedir para que o Parlamento se instale definitivamente num dos locais (em Bruxelas) porque o "circo ambulante" (palavras deles, não minhas) além de desperdiçar uns bons milhões de euros dos contribuintes por ano, emite mais CO2 do que alguns países do mundo (porque obviamente só os Verdes é que vão de comboio - se forem... - todos os outros vão de aviãozinho que é menos 8h de viagem para lá e para cá).
Eu fui também de comboio e apesar disso me fazer perder uma manhã e uma meia tarde que eu poderia ter aproveitado para ver mais da cidade, acho que valeu a pena, porque (além de ser mais ecológico) permitiu-me ver a paisagem da Walónia (sul da Bélgica), do Luxemburgo e da Alsácia (na França) e por isso posso considerar que a viagem de comboio já fez parte do passeio turístico.
Muito bonito, muito verdinho, casinhas simpáticas, castelos e palácios a espreitar no topo das colinas e montes... Ai, ai, parece que quanto mais vejo da Europa, do mundo, mais fome e sede tenho de ver o que ainda não vi! Apeteceu-me parar em cada estação por onde passei e explorar os arredores. Mas ver Estrasburgo já valeu a pena.
Vejam as fotos na pastinha recém-inaugurada intitulada "França"!
Os dias continuam chôchos, cinzentos e não consigo tirar fotografias bonitas e cheias de cor, mas enfim, não posso esperar por dias de sol para viajar. Tenho de ir quando tenho de ir.
Ah, é verdade, esquecendo agora o lado cor-de-rosa, não gostei nada de duas coisas que se passaram nesta viagem.
A primeira foi o controlo policial das identidades dos passageiros no comboio - então mas agora já deixámos de estar na UE e voltámos a ter controlo fronteiriço? Dois polícias apareceram na carruagem de comboio e pediram BI ou passaporte dos passageiros, mas o pior foi quando eles passaram por mim e outros 3 jovens que prontamente ofereceram o seu BI para ser inspeccionado e eles fizeram gesto de que "não é ncessário" e apressaram-se para confrontar os passageiros seguintes. E porquê? Porque mais à frente havia pelo menos 2 passageiros com ar "estrangeiro do médio oriente". Assim que os viram, os polícias esqueceram todas as outras pessoas e focaram-se neles obsessivamente, implicaram com as identidades deles, fizeram telefonemas, deixaram os pobres homens à beira dum ataque nervos. Pelo BI deles eu pude ver que eles eram franceses, um deles viajava com uma bela loiraça com ar germânico que devia ser a esposa. Mas tinham "ar de terroristas"... seja lá o que isso for.
Que tenhamos entrado nestes tempos de controlo apertado da população em nome da segurança interna já é mau, mas pior ainda é que este controlo seja feito de forma discriminatória para certos grupos de pessoas. Eu não sou francesa, tinha um passaporte na mão, logo deveria ser de outro país, mas como sou branca logo não sou terrorista - a não ser, claro, que participe numa manifestação contra a globalização, os maus-tratos dos animais ou alguma causa ambiental. Aí já sou considerada uma terrorista interna.
Eu senti-me enraivecida pela atitude dos polícias, pelo que consigo entender perfeitamente a raiva que deve estar a crescer entre certos grupos étnicos e religiosos, que em princípio nada têm contra o "ocidente", no qual nasceram e cresceram e no qual só querem fazer as suas vidinhas e aonde são tão humilhados sem qualquer fundamento e com base em tantas mentiras servidas como verdades.
Este controlo não serve para proteger ninguém do terrorismo, serve para o criar, para gerar o tal ódio que mais tarde irá ser apontado como a causa e não a consequência do controlo.
Há dois dias conheci um turco com quem discuti algumas destas coisas e ele disse-me que pessoalmente ainda não se viu envolvido em nenhuma situação semelhante mas já viu amigos passarem por isso e que se sente profundamente humilhado com a situação. Ele disse que os turcos estavam muito entusiasmados com a integração na UE, pois têm uma longa história de ambição de viverem segundo os padrões da sociedade ocidental e que desde que foram alvos de discriminação por tantas figuras públicas da UE que simplesmente se recusam a integrar a Turquia por ser uma nação muçulmana que faz fronteira com o "problemático" Médio Oriente, o nível de apoio das pessoas à integração desceu para 20 e tal por cento. Ele diz que continuam a desejar atingir os padrões de vida do ocidente em termos de educação, cultura, saúde, etc, mas só para mostrarem que são capazes de o fazer sem ajuda e depois querem mostrar o dedinho à UE. E eu compreendo perfeitamente, se fosse comigo eu ia sentir o mesmo.
Outra coisa. Precisava desesperadamente de ir ao WC, mas não tinha dinheiro nenhum para pagar os 50 cêntimos necessários para entrar no WC da estação de comboios, pelo que fui dar uma volta na cidade à procura duma solução. E encontrei o McDonalds! O McDonalds é tradicionalmente o meu sítio favorito para uso gratuito do WC. Não queria ser desagradável na linguagem, mas sabe sempre bem ir lá deixar uns presentinhos de apreço a esta grande corporação!
Mas qual não é o meu espanto quando chego à porta da casa-de-banho e a maçaneta tinha um teclado aonde se inserir um código para se poder entrar! Fiquei abananada. "Então mas agora tenho que me tornar agente secreto para descobrir o código da casa-de-banho do McDonalds?". Pior ainda, logo por cima da porta estava uma câmara de CCTV a olhar para mim, como que a querer intimidar-me "Não tentes fazer nada, que estamos a ver-te!". Provavelmente eles só fornecem o código a quem consumir algo e eu ainda ponderei comprar umas batatas fritas ou uma salada, mas por fim decidi que não iria fazer nada disso. O McDonalds deve muito à humanidade e tinha mais era a obrigação de fornecer WC gratuitos em todas as cidades deste planeta. E isso seria o mínimo dos mínimos que poderia e devia fazer pela humanidade. Por isso não quis saber da câmara para nada e fiquei especada em frente da porta à espera que alguém saísse para que eu pudesse entrar. Também estava curiosa para ver se alguém viria implicar comigo por estar a fazê-lo. Ninguém me disse nada, no entanto virá o dia em que quem ousar fazer tal coisa será abordado por um segurança encorpado, talvez robot ou ciborgue e será levado para um local à la Guantanamo onde será "reeducado" antes de voltar à sociedade.
Mas eu tenho esperança na humanidade e talvez esse dia nem chegue ou não se prolongue por muito tempo. As pessoas são naturalmente sedentas de liberdade e podem andar meio ceguinhas quando a liberdade começa a desaparecer, mas acabam sempre por chegar a um ponto em que sentem que as coisas já foram longe demais e se revoltam. E as artimanhas que as pessoas fazem para não pagarem entrada nestas casas-de-banho quando têm possibilidade de contornar o sistema é um exemplo fascinante dessa faceta humana. Lembro-me de na Áustria haver uma daquelas casas-de-banho em que se mete 50 cêntimos na portinha para esta abrir, mas como ninguém estava lá a controlar, nem havia câmaras, o que as senhoras faziam era dar 25 cêntimos à senhora que saia para que ela mantivesse a porta aberta e a seguinte pudesse entrar. Se calhar há uns anos eu olharia para isto como sinal de incivilidade, desonestidade, hoje vejo como uma demonstração de criatividade, liberdade e entre-ajuda natural das pessoas perante a imposição dum sistema injusto. Sim, é verdade! Aquilo que se passa nos WC públicos dá-me esperanças quanto ao futuro da humanidade! Ah Ah Ah Ah