Thursday, June 12, 2008

O fim do mundo em cuecas

Anda tudo doido por causa dos combustíveis e como hoje de manhã experimentei em 1ª mão o ambiente de nervos que se vive nas bombas de gasolina, não me escapo a ir na onda de escrever umas quantas palavras sobre o assunto, como toda a gente...
É doloroso ver que as pessoas estão tão iludidas quanto ao mundo em que vivem que assim que ele é um bocadinho abalado, sentem logo que é toda a realidade que se desmorona.
Eu, pessoalmente, já espero um colapso da nossa civilização desde há muitos e bons anos e fiz um esforço para me preparar para ele, pelo menos psicologicamente. Perante a hipótese de passar alguma fome, ter energia racionada ou não poder andar de carro, sinto-me bastante serena. (Só me perturba não poder andar de avião - efeitos perversos de se subir na vida. lolol)
Mas preocupa-me o grau de ignorância das pessoas, que reagem desproporcionadamente às crises normais da existência num mundo impermanente. Uma reacção exagerada por parte das pessoas pode despoletar o colapso do mundo tal como o conhecemos, muito antes de haver razões incontornáveis para isso. Se juntarmos o sangue que ferve ao aquecimento global, este pode muito bem vir a ser o tão anunciado fim-do-mundo em cuecas.
Por exemplo, esta paralisação dos camionistas... OK, os combustíveis estão caros e muitas empresas vão à falência com isso e as que sobrevivem deixam de ter os lucros que tiveram até aqui, mas o mundo continua, funcionando de modo mais modesto e ajustado aos recursos que temos. Mas o apego das pessoas ao mundo que conhecem é de tal ordem que as leva a exigir que o governo faça desaparecer por magia uma crise profunda mundial que só se resolve com uma mudança de paradigma de desenvolvimento da humanidade. C'mon!
Se a paralisação continuar, em breve as pessoas não terão combustível para se deslocar de carro para o trabalho, os transportes públicos não vão dar conta do recado, muita gente não vai poder ir trabalhar, a comida não vai chegar aos supermercados - ficam todos em casa agarrados ao estômago e a ver televisão ou, num pior cenário, vão para a rua e começam a matar-se uns aos outros por um litro de gasolina ou um papo-seco.
Por acaso acho que não se chegará a isso. O colapso civilizacional ainda não é desta.
O governo vai chegar a um acordo qualquer com os camionistas, eles vão voltar à estrada, as pessoas vão continuar a ter disponíveis os bens de consumo que tanto prezam (embora dos preços galopantes não se livrem) e o mundo vai continuar a girar.
Estas crises que estamos a passar são apenas avisos à navegação - early warnings, wake up calls, eye-openers - daquilo que nos espera se não arrepiarmos caminho.
Compreendo o sofrimento e desespero das pessoas, que não têm capacidade para mudar de vida dum dia para o outro, mas todos tivémos hipóteses de escutar os avisos, de mudar aos poucos, de contribuir com pequenos esforços pessoais para se evitar estas crises maiores. Todos temos culpa e merecemos o castigo. Se uns são subsidiados e outros não e há aí injustiça, a solução é não subsidiar ninguém! Welcome to the real world!


P.S.: Quanto às minhas deslocações de carro para Lisboa, encontrei uma solução! Vou de boleia dum colega que vem das mesmas bandas. Viva o car-sharing!

Tuesday, June 03, 2008

Luzes da cidade

Estou a frequentar um curso de Agricultura Biológica da AGROBIO, que já andava há anos para fazer. Até agora não aprendi muito - ainda andam a explicar a fotossíntese, as características dos solos, enfim, "basic stuff" - mas eu insisti em fazer este curso porque sinto necessidade de sistematizar os conhecimentos livrescos e dispersos que tenho, num todo coerente.
Vou e venho no carro da minha mãe todos os dias, o que me pesa na consciência, mas considerando que saio do curso lá pelas 22h00-22h30, nem pensem que vou sozinha apanhar comboio a Alcântara-Terra a essas horas da noite para reduzir a minha pegada ecológica. Espero que os conhecimentos adquiridos me permitam um dia mais tarde cultivar hectares e hectares biológicos e compensar estas emissões de CO2 ;)
Estou a falar nisto porque ultimamente penso muito no impacto que passei a ter com as minhas viagens regulares de avião. Já ouvi umas bocas duns amigos puristas que atravessam o mundo de comboio e autocarro se for caso disso, mas outros há que argumentam que o meu trabalho em prol de um mundo melhor é suficientemente compensador das emissões de CO2 que emito para a atmosfera. É um argumento discutível. Eu diria que é mais na base do potencial do meu trabalho em contribuir para um mundo melhor que os impactos poderão vir a ser compensados, mas se falarmos em termos imediatos, então de facto não estou a compensá-los muito.
Mas quando os meus amigos anti-avião me apertam os calos, eu digo que antes de se pedir aos ecologistas que deixem de viajar de avião para defenderem o ambiente global, devem pedir isso a quem viaja de avião de Nova Iorque à China apenas para apertar a mão a alguém e fechar um qualquer negócio poluidor. Não estou a sacudir a água do capote dizendo que outros se esforcem em vez de mim, apenas estou a dizer que se o esforço que me pedem para fazer me impede de fazer o meu trabalho em prol dum melhor ambiente, então nesse ponto deveriam passar a pedir esforço semelhante a alguém que possa fazê-lo sem prejuízo para o mundo e chatear-me um pouco menos com o assunto. Busco alternativas, mas para mim não é alternativa gastar 500 EUR e vários dias em vários comboios, numa viagem de trabalho, quando de avião gastaria 200 EUR e 4-5 horas para chegar ao mesmo destino. O que achas, Ritinha?



Quando venho de carro à noitinha - o brilho das luzes da cidade, o reflexo dos vidros e espelhos, a beleza crua dos prédios iluminados contra o céu escuro - ao som de swing e blues da Marginal ;), não consigo evitar amar a beleza deste mundo artificial, denso, complexo e musical que criámos. Uma das imagens mais belas que povoam a minha memória é a das luzes da cidade de Lisboa vistas de avião. Parece algo tirado dum livro de ficção científica, um monumento às capacidades sobre-humanas do ser humano. É pena que tenhamos enveredado por um caminho em que temos tudo isto às custas de um anunciado fim-do-mundo tal como o conhecemos. Podíamos ter tudo isto de forma sustentável. A única razão porque não o temos é o facto da ignorância de alguns prevalecer sobre o engenho de muitos. Oxalá as luzes da cidade iluminem as mentes obscurecidas deste mundo e as coisas mudem. Até lá faço o que posso, mas não me peçam para ser perfeita.

Friday, May 23, 2008

Diversidade planetária

Foi para mim um momento especial estar em Bonn, no Festival Planet Diversity e ouvir a Vandana Shiva em palco falar de um dia, há um ano atrás, em que um grupo de pessoas ambicionaram realizar este evento sentadas na relva do convento Chant d'Oiseau em Bruxelas.
Há um ano atrás eu estava sentada nessa mesma relva, observando esse mesmo grupo, pensando no privilégio que era estar entre aquelas pessoas e desejando dali a um ano estar a participar nesse evento também.
Nunca me ocorreu gastar do meu dinheiro para isso. Teriam que ser as circunstâncias da vida a conspirar para que eu fosse lá como parte do meu trabalho. Et voilá! If you believe, you can achieve!
Como quando noite dentro numa esplanada em Bonn com colegas, eu disse que tinha fome, mas nada do que me sugeriam comprar ali em redor era aquilo que eu queria. "O que eu quero mesmo é uma maçã!" e alguém mete a mão à mala e diz "Olha, eu por acaso tenho aqui uma maçã. Toma."
A vida é assim mágica, dá-nos tudo aquilo que desejamos e precisamos, desde que não tenhamos sombras de dúvida no nosso coração.
A maior parte do tempo desta viagem estive ocupada com preparativos do Congresso e Festival Planet Diversity em Bonn e com uma reunião da UNECE em Köln. Aconteceu tanta coisa! Impossível resumir.
Mas como sempre, reservei algum tempo para turismo, pois queria conhecer melhor estas duas cidades, que afinal são mais bonitas do que me pareceram da outra vez.
Visitei os Jardins Botânicos de Bonn e Köln (o de Bonn tem exemplares do famoso Amorphophalus titanum!!!! Biólogos, sabem do que estou a falar! O raio do coiso é mesmo grande!).
Em Bonn visitei a casa onde nasceu e viveu alguns aninhos o menino Beethoven, comprei uma linda estatueta de Buda numa feira da ladra em Rheinauer Freizeitpark, apaixonei-me pelos quadros de James Rizzi que vi no museu de arte.
Em Köln vi 4 coelhos a saltitar num pequeno terreno entalado entre 3 vias rápidas e 2 linhas de comboio e junto ao Reno, ovelhas pastando bucolicamente ao lado da ponte do tram e das pessoas que patinavam, corriam e andavam de bicicleta no parque ali ao lado. Fui apanhada numa festa popular na Frankfurter strasse onde ficava o hotel e procurei infrutiferamente por todo o lado sandálias Birkenstocks (a pedido de alguém obcecado pelas ditas cujas...) para as encontrar numa loja que tinha fechado 2 minutos antes, na minha última noite na cidade.
Um casal alemão meteu-se comigo por eu estar vestida com as cores da Alemanha. Ri-me, porque não tinha reparado nisso. Parecia a bandeira alemã com pernas. Disse-lhes que estava a prestar homenagem ao seu maravilhoso país, mas a verdade é que não teria notado se eles não me tivessem dito.
Cheguei há dois dias, mas ainda estou cansada. Preciso de processar centenas de fotografias. Ambiciono o dia em que possa fazer download das minhas memórias directamente para o computador.