Tuesday, January 27, 2009

O que faz falta é animar a Malta :)

Passei 8 diazinhos em Malta a propósito da participação num curso sobre Eco-inovação. Pelo caminho fiquei retida em Roma (oh que pena!) e só vi a minha bagagem 3 dias depois de chegar a Malta, mas são os ossos do ofício.
Quando perdi o vôo de ligação em Roma comecei a sentir a cabeça a ferver de nervos, mas depois pensei "Até parece que não estava mortinha por isto acontecer! Assim que aterrei em Roma desejei ficar lá um dia inteirinho, por isso só tenho que agradecer o meu desejo ter sido atendido! - lá diz o ditado: be carefull what you wish for..."
Liguei ao meu amigo Luca que me ofereceu alojamento e me convidou para me juntar a ele e à sua esposa num jantar com um grupo internacional sobre soberania alimentar reunido esse dia em Roma. Fiquei a conhecer o grupo e a Città dell'Altra Economia, um centro alternativo em plena cidade de Roma onde podemos encontrar um restaurante bio-vegetariano, um banco ético-ecológico, lojas bio e comércio justo entre outras coisinhas boas para o mundo.
Já em Malta começou a minha aventura de exploração deste (para mim) novo território. Tive oportunidade de conhecer grande parte da ilha de Malta: La Valletta, Mdina, Rabat, Vittoriosa, Marsaxlok, Tarxien, Qawra, entre outras vistas.
Também fui à ilha irmã Gozo onde visitei a gruta na qual, segundo reza a lenda, Homero esteve prisioneiro de Calypso durante 7 anos. Foi um daqueles sítios com os quais já tinha sonhado antes de lá ter estado... Fico sempre com arrepios na espinha quando isso acontece.
Malta no geral não é linda. Não chove muito por lá e não há muita agricultura ou verdura espontânea. As casas são modestas e pouco atraentes - mesmo o meu novo amigo do Zimbabwe, que cresceu numa aldeia de palhotas, concordou com o meu comentário de que urbanisticamente falando, Malta parece um país do 3º mundo. Mas quando entramos em cidades como Mdina, Valletta ou Vittoriosa, ficamos maravilhados. Parecem uma mistura de Veneza e sul de Itália com zona ribeirinha do Porto :) Existem fortalezas em cada esquina e as casas com as suas varandas fechadas em madeira são simplesmente adoráveis.
Os malteses são extremamente simpáticos - ou será só comigo? Numa loja em Qawra a rapariga na caixa disse-me que eu era uma querida ("you're so sweeeeet!!!") só porque lhe dei o troco certinho. Numa igreja o guarda vinha dizer-me que eu não podia tirar fotos e acabou na conversa comigo, terminando com abraços e beijinhos. Um guia no templo neolítico de Tarxien começou a tagarelar comigo e acabou a dizer que queria vir a Lisboa conhecer o Estádio da Luz (sem dúvida o nosso maior marco cultural...) enquanto outro se ofereceu para me tirar fotos em diferentes posições (não se ponham com ideias...) em frente ao templo e me fez uma visita guiada personalizada, que incluiu autorização para me sentar num dos altares e "extrair as energias da rocha como se fazia em tempos idos" - "Sentiste, sentiste!?". Sim, claro! Recarreguei as minhas baterias telúricas :)


E que dizer do senhor simpático do café na praça de St John, que me cobrou 1 EUR por um chá de 1,05 EUR e ainda me ofereceu um café por cima.
A propósito, a comida maltesa é um cruzamento entre a "pastry" inglesa e  a comida italiana. Imaginem quiche de esparguete e pastel de massa com bolonhesa e caril e terão uma boa ideia do que estou a falar :) Se a comida italiana engorda, não sei que dizer da maltesa... Talvez... que entope todos os tubos e poros do corpo?
Uma das principais atracções turísticas de Malta são os seus autocarros "cubanos".


Uma senhora ao meu lado benzeu-se quando o autocarro partiu e depressa percebi porquê. São autocarros do tempo da maria-cachucha, quando ainda não havia suspensão ou qualquer conceito de segurança rodoviária. As criancinhas podem ir sentadas num banco ao lado do condutor, directamente em cima do pára-brisas, os autocarros não têm portas (felizardos dos malteses que contam com temperaturas amenas todo o ano) e os upgrades que foram sendo feitos ao longo dos tempos foram só em termos de pintura e mensagens personalizadas que se lêem na frente e traseira de muitos deles: em vez do painel indicando o destino do autocarro, podemos ler "speed of light", "I forgive but never forget", entre outras pérolas rodo-literárias.
A minha palavra favorita em malti é Marsaxlok, o nome duma aldeia piscatória que significa literalmente "porto do Siroco". O malti é uma língua 60% arábica, com laivos de italiano e provavelmente francês, português e inglês, pois por aquelas ilhas passou quase toda a gente... Os nativos falam na sua maioria inglês como segunda língua, mas um inglês estranho - eu diria um tipo de engrish, como demonstrou o Jonathan (um dos nativos) quando alguém lhe perguntou a origem de determinado elemento arquitectónico: "Oh, that's from the engrish occupation!". Os funcionários da hotelaria falam um inglês bastante correcto mas sempre com um estranho tom "afectado" com mudanças de entoação um tanto ou quanto bizarras. Penso que herdaram o tom formal britânico, mas tão degenerado que apenas conseguem parecer patetas.
Fiquei com a sensação de que os únicos nomes de família dos malteses são Borg e Farrugia. Quase todas as pessoas que conheci tinham esses apelidos e montra sim, montra não, vemos "Auto Borg" e "Pastelaria Farrugia".

Ah, e os gatos malteses não tocam piano nem falam francês, mas são lindoooos!

Wednesday, December 03, 2008

Vá para fora cá dentro mas lá fora

Já era tempo de visitar também um pouco do que não conheço no meu próprio país, vai daí dei um pulinho aos Açores, à Ilha Terceira.

Sobre os habitantes e os seus estranhos costumes, ninguém melhor para falar do assunto do que a minha amiga Rita, que já faz parte da paisagem daquelas bandas.
Da minha parte só acrescento que:
- tive uma sensação estranha ao voar 2 horas sobre o oceano para aterrar novamente em Portugal. Decididamente tenho que viajar mais para as ilhas e territórios lusófonos...
- por alguma razão igualmente estranha o oceano pareceu-me muito maior visto de uma ilha do que do continente - como hei-de dizer... parecia-me que tinha mais água!!!?
- ao contrário do que pensava que aconteceria, não senti claustrofobia por estar num pedaço de terra ao qual se dá a volta em hora e meia de carro. Afinal, como diz a Rita, a ilha não tem 3 metros por 4, por isso há espaço para esticar as pernas.
- pela 1ª vez fui proibida (mas não impedida, "if you know what I mean") de tirar fotos aéreas quando nos aproximávamos da ilha. Perguntei à hospedeira se era por a paisagem estar protegida por direitos de autor, ao que ela respondeu que era para evitar a espionagem. Não nos esqueçamos que a Terceira é uma base americana rodeada de alguns portugueses, não uma ilha portuguesa com uma base americana ;)
E pronto, que posso dizer mais... Gostei daquilo. Achei pacato, apesar da Rita discordar de mim. As pessoas param os carros abruptamente no meio da via rápida para observarem as vacas a pastar. Fiquei com vontade de ficar por lá e cultivar qualquer coisa. Ou talvez juntar-me às vacas e pastar. Afinal verdura é coisa que não falta por lá.

Tuesday, November 18, 2008

Bruxelloise au coeur

Um ano depois, regressei a Bruxelas. Uma emoção surda instalou-se assim que vi ao longe o perfil da cidade. Enquanto lá estive tentei analisar os porquês daquilo que sinto e excluí coisas concretas como casos mal-resolvidos dentro dos seus limites. Concluí que, para além do sentimento que terei para sempre associado a esta cidade, por ter sido o local do meu renascimento, a cidade tem um je-ne-sais-quoi que se escapa por todos os seus poros e que me invade.


Quando estava pela madrugada na varanda do Palais de Justice sobre os Maroles, a ver a cidade em silêncio e coberta por uma névoa espessa, convenci-me de que estava suspensa numa bolha fora da qual nada mais existia. Naquele momento só a cidade era real e nada mais existia para lá do nevoeiro. Quando estou nesta cidade, não existe nada para lá dela. Apodera-se de mim uma melancolia que nem em Lisboa sinto.
Noutra ocasião sentei-me no parapeito da sala redonda das estufas do Botanique e ali fiquei a ver anoitecer. O jardim oitocentista lá em baixo rodeado pelos prédios altos envidraçados das avenidas que o rodeiam, pareceu-me partilhar comigo os meus sentimentos. Sentimentos de nostalgia pela inevitabilidade do passar do tempo, da mudança, do adeus, dum romantismo sempre ansiado mas nunca vivido.
No metro do Botanique há um painel de azulejos de homenagem a Fernando Pessoa. Um esboço dele meio pensativo, debruçado sobre um rapaz que lhe engraxa os sapatos. Sempre achei muito adequado encontrá-lo ali quando saio do Botanique. Porque ali a poesia torna-se real.

Les feuilles jaunes des arbres tombent l'une après l'autre, comme je tombe d'amour et ensuite je tombe du haut de mes illusions.

Soube que nas Caves de Cureghem estava a exposição Körperwelten e não resisti a ir dar uma espreitadela. Tinha ouvido rumores de que o mentor da exposição era um tipo um bocado manhoso - tem fama de nazi e de usar corpos de chineses executados para as suas experiências de plastinação de corpos - mas apesar disso achei que devia ir ver com os meus próprios olhos tão polémica exibição.
Ao longo da exposição é repetido incessantemente o quanto esta revela a beleza escondida por baixo da nossa pele. É discutível. Há quem diga que "beauty is skin deep". De facto não somos tão atraentes sem pele e com os orgãos à mostra, mas também não senti qualquer tipo de repulsa. Somos como somos, tão bonitos ou tão repulsivos, por dentro ou por fora, consoante mudemos de perspectiva e nos desprendamos de preconceitos.
A maior parte das pessoas que vê esta exposição de certeza que fica uma semana sem vontade de comer carne, mas no meu caso, ao olhar para uma coluna vertebral com os músculos e tendões agarrados, de repente senti desejo de costeletas. Tudo é relativo.

Estive em casa da Sevelina, num dos inúmeros e memoráveis jantares que se realizam na rua Hôtel de la Monnaie e ela disse que não queria ver tal coisa, que se sentiria mal. Eu disse-lhe que é importante confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade e aceitá-la com naturalidade, mas um coro de vozes se levantou - ninguém em meu redor parecia querer sequer pensar nisso. É mesmo verdade que estamos cada vez mais desligados da morte e convencidos de que vamos viver para sempre, frescos e radiantes. Apercebi-me de que nunca vi nenhuma pessoa morrer. Já morreram nos meus braços animais não-humanos, mas nunca vi sequer um cadáver humano - excepto agora os plastinados. Fazemos de tudo para afastar e esconder a morte que ela já nem sequer faz parte da equação da vida. É algo de que não queremos falar até ao dia em que nos acontecer. E porquê? Porque as pessoas acomodaram-se à ideia de que a matéria, tal como os seus sentidos iludidos a apercebem, é tudo o que existe e sentem-se agoniadas perante a perspectiva do vazio da não-existência. Esse é o triste legado da nossa civilização materialista. Felizmente eu não herdei esse legado e tenho uma perspectiva diferente, logo a morte não me angustia.
Muitas vezes penso que a única coisa que me faria agarrar com unhas e dentes à vida se me visse às portas da morte, seria o querer evitar a todo o custo o sofrimento daqueles que deixaria para trás. Porque sei que eles sentiriam imensa agonia e é só isso que eu não suporto.

Também fui ver a exposição "Le sourire de Bouddha" no BOZAR. Como sempre no BOZAR, uma exposição lindíssima. Uma viagem pela história do budismo na Coreia através de estátuas e pinturas impressionantes.
Durante a minha estadia em Bruxelas tive ainda possibilidade de jantar no trendy Belgo-belge, almoçar no acolhedor Imagin'air, beber kriek num pub anónimo, tomar vodka com ananás no Calabriego e viver um serão multicultural com um artesão argentino, um dançarino do Burkina Faso, uma escriturária alemã e uma empregada de bar espanhola. L'habituel à Bruxelles