Monday, November 13, 2006

Portuguesa ou assim-assim

O meu francês melhorou um pouco, já não tenho receio de ir ter com as pessoas e falar com elas se for necessário. Nos primeiros dias tinha de estudar bem as deixas e consultar o dicionário mil vezes antes de sair de casa para ter a certeza daquilo que ia dizer quando ia aos correios, ao cinema ou ao supermercado. Pelo menos isso já ultrapassei, mas ainda estou longe de conseguir ter grandes conversas em francês. Se for sobre algum tema em que esteja à vontade, como quando tive que explicar o meu trabalho no seminário EVS, consigo arranhar uma conversa, mas se tiver que pensar depressa para responder a alguma questão sobre um tema inesperado, geralmente bloqueio.
Para compensar, toda a gente acha que o meu inglês é perfeito. Enfim, está longe de ser perfeito, mas desenrasco-me. E ficam sempre surpreendidos quando sabem que é a primeira vez que estou a viver fora do meu país, porque parece que não é habitual alguém falar bem inglês ou francês quando nunca teve que o praticar diariamente num país estrangeiro. Mas já há anos que eu penso em inglês e por vezes até sonho em inglês. Devo ter falado inglês numa vida anterior... Para mim é tão mais natural falar inglês que agora quando tenho que falar português com alguém, soa-me a língua estrangeira.
No sábado conheci a Vanessa, uma portuguesa colega de apartamento da Sevelina. Falámos um bocado e às tantas dei por ela a olhar para mim com ar estranho e lá percebi que estava a responder-lhe em inglês e nem me estava a aperceber disso. Não tive nenhuma consciência de que o estava a fazer. Pedi-lhe muitas desculpas e ela acabou por achar piada. Uma outra portuguesa, a Fernanda, tem estado estes últimos dias a ajudar-nos com a candidatura a uns financiamentos e sempre que ela começa a falar português comigo eu não a entendo, porque não estou à espera de ouvir português e o meu cérebro demora algum tempo a desligar do modo inglês. Voltando ao sábado, um senhor que estava a pintar as paredes interiores do prédio da Sevelina, queria pendurar um quadro na parede da sala-de-jantar, mas nós estávamos a almoçar e, como eu disse, o meu francês ainda não me permite grandes argumentações, pelo que foi difícil chegarmos a acordo. Depois de termos acabado o almoço ele lá veio pendurar o quadro e ouviu-me falar portugês com a Vanessa. Então virou-se para mim com um ar quase escandalizado "Atão, mas tu também falas português!!?"
É costume por aqui as pessoas fazerem esforços incríveis para se entenderem em inglês ou francês para no fim chegarem à conclusão de que falam ambos português, espanhol ou alemão.
Outro dia um brasileiro passou por mim e atirou-me um piropo original, tipo "Ai que lindo passarinho!". Eu desatei-me a rir e ele ficou embaraçado, porque não devia estar à espera que eu o entendesse.
Se calhar devíamos passar a usar bandeirinhas do nosso país para os outros saberem de onde somos e evitavam-se muitas confusões e embaraços.
Curiosamente, há dias pela primeira vez, alguém me identificou imediatamente como sendo mediterrânica. Um homem no metro aproximou-se de mim, muito muito sorridente. Primeiro fitou-me algum tempo sem me dizer nada e eu troquei uns olhares com um belga ao meu lado que se mostrou solidário, pensando como eu que o homem era maluquinho. Mas por fim ele lá abriu a boca para me perguntar "Ah! Tu es itallienne!?", ao que eu respondi "Non...". "Espagnole?", "Non...", "Ah, je sais! Morocaine!!!". Eh eh eh, acabei por lhe achar piada e lá lhe disse que era "portugaise". Ele ficou com um ar satisfeito, pois parecia ter a certeza de que eu era algures do mediterrâneo.
Depois fiquei intrigada, a pensar no que teria ele visto em mim para ter esse pressentimento certeiro. Concerteza que não foi pela minha pele bronzeada... Mas não tive tempo para mais conversas porque o metro chegou, eu entrei e ele ficou para trás.

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