Saturday, July 07, 2007

Yo de lay hee ooo

Como de costume e cada vez mais, não tenho tempo nem para respirar, mas lá arranjei um tempinho para vos actualizar quanto às minhas últimas andanças.
Pouco depois de ter vindo da Holanda parti para Viena com a Sevelina e o Marco, passámos lá uma noite e no dia seguinte seguimos para Lednice na República Checa, para participarmos na Bioacademy 2007. Dois dias depois regressei a Viena, onde decidi passar o fim-de-semana para conhecer melhor a cidade. Tive que pagar essa estadia de dois dias em Viena, mas todas as restantes despesas foram assumidas como deslocação profissional.
Na primeira breve passagem por Viena pude visitar o escritório da Bioaustria onde trabalha o meu amigo Thomas. Eu tinha-lhe dito que ainda havia de ir ver onde ele trabalhava :)
No dia seguinte seguimos para Lednice, onde durante dois dias não tive tempo para grande coisa além de trabalhar. Mas uma das noites pudémos participar na recepção aos participantes que teve lugar no castelo de Lednice, património mundial da UNESCO. Em vez de ficar toda a noite de roda dos comes e bebes como o resto das pessoas, decidi explorar o castelo e os jardins fabulosos em redor. Penso que os checos devem confiar muito nas pessoas, pois não haviam portas fechadas a impedir-nos de sair da área reservada à festa e basicamente eu pude ir aonde quis. O único factor limitante às minhas explorações foi a escuridão que reinava na maior parte do castelo e que me impediu de ver grande coisa.
O passeio no parque foi memorável e foi quando escureceu que a experiência se tornou ainda mais fantástica, pois estava uma lua cheia que eu garanto que irradiava algo mais do que simples luz. Ficou gravado para sempre na minha memória a imagem do castelo iluminado ao longe, assomando no cimo da colina, espreitando por entre as árvores do parque, reflectido nas águas dum lago sereno serpenteante. Tive a certeza de estar a viver o momento mais lindo de todos os tempos de todos os universos. Inspirou-me a sentar-me à beira de lago e a meditar. Mesmo quando as melgas do tamanho de morcegos (talvez fossem mesmo morcegos) começaram a "morder", eu aguentei-me estoicamente e ofereci compassivamente o meu sangue a estas criaturas. Mas quando senti que uma delas me estava a sugar o sangue todo da cabeça, decidi que tinha atingido o meu limite de entrega. Fiquei com um alto na testa durante uma semana, como se tivesse dado uma cabeçada bem forte num sítio bem duro.
De volta ao castelo decidi subir escadas, percorrer corredores, até que encontrei uma sala com sofás de veludo tão apetitosos que decidi ficar por lá um pouco, estendida, lânguida, ouvindo ao longe as conversas e os risos das pessoas. Como tudo estava às escuras, demorei algum tempo até dar com os sofás. Também demorei algum tempo a ver os vultos de várias estátuas espalhadas pela sala que eu atrevi-me a explorar com as mãos, para compensar a falta de visão. Eram estatuetas de corpos nus e semi-nus e ali estava eu a apalpá-las, secretamente, no escuro. Sempre achei o toque da pedra profundamente sensual, mas naquele caso essa qualidade intrínseca da pedra ganhou uma outra dimensão!
Nesta sala descobri ainda uma porta camuflada na parede. Fiquei entusiasmada, mas quando a abri e vi uma bicicleta no cubículo que ela escondia, um casaco pendurado na parede e vozes que desciam as escadas em caracol que de lá partiam, percebi que a porta não iria levar-me a nenhum tesouro escondido, mas provavelmente apenas aos bastidores do castelo onde se movimentam as pessoas que tomam conta dele. E com receio de dar de caras com essas pessoas, fechei novamente a porta e fui explorar outros lugares.
Encontrei uma porta com descida para a cave. Nos primeiros degraus encontrei estatuetas muito realistas, talvez em cera, de gnomos com olhos brilhantes todos negros. Pareciam pouco amistosos e pareciam estar realmente a observar-me. Enfim, num cenário daqueles tudo nos parece possível. Apesar do desconforto causado por aquelas figuras, decidi continuar e percorri alguns corredores subterrâneos, passei por portas entreabertas de onde pendiam teias de aranha gigantes esvoaçantes e através das quais só se via escuridão impenetrável. Passadas algumas curvas deparei-me com a visão mais assustadora com que poderia ter-me deparado naquele momento! Guardando a entrada dum novo corredor estava um demónio de 2 metros, vermelho, chifrudo, olhando para mim. Não me deu um baque no coração, por acaso até reagi com muita calma, mas senti que a minha aventura deveria ficar por ali e lentamente comecei a retroceder, virei-me e arrepiei caminho. Chamem-me medricas ou supersticiosa, mas gnomos esquisitos eu ainda aturo, agora um demónio nas caves subterrâneas labirínticas dum castelo, onde ninguém sabe que eu ousei entrar, é um bocado demais para eu enfrentar corajosamente sem pelo menos outra pessoa com quem trocar piadas ao longo do caminho para aligeirar o ambiente.
Depois disso decidi voltar para a pensão em que estávamos alojados. Procurei pela Sevelina na festa para saber se ela queria regressar comigo, mas estavam lá centenas de pessoas e não consegui encontrá-la. O único caminho que eu conhecia entre a pensão e o castelo era através dum parque, no qual, ao contrário do parque do castelo, eu não me sentia segura para atravessar sozinha àquelas horas da noite. Por isso decidi tentar a sorte por um caminho alternativo através da vila. Só então me apercebi de que não sabia o nome da pensão, nem da rua da pensão, que não tinha comigo telemóvel para ligar ao Marco ou à Sevelina, nem dinheiro e que ainda por cima praticamente ninguém sabe inglês por aquelas bandas, apenas checo e alemão. Vi uma placa a indicar direcção para algo com um nome que me parecia ser o da pensão e arrisquei segui-la, mas às tantas encontrei-me numa encruzilhada e não havia mais nenhuma indicação. Tive que tentar comunicar com um casal de namorados que vinha mais ou menos no mesmo caminho. Que surpresa, não falavam inglês! Mas arrisquei a pronunciar o tal nome que tinha visto na placa e que tinha esperanças que fosse o da pensão e eles levaram-me até ao fim da rua, fizeram-me sinal para eu virar à esquerda e foi então que percebi que estava mesmo perto do local desejado! Foi com alívio que entrei na pensão e no meu quarto. Estar perdido é desagradável, mas se for num país estranho, sem dinheiro, sem documentos, sem telemóvel e em que ninguém fala uma língua comum connosco, é um pouco mais chato.
No final, o sentimento dominante pela estadia neste país foi o de satisfação, apesar desse pequeno percalço. Uma noite com pequeno-almoço incluído numa pensão checa custou €11.60. E posso dizer que além de bonita, a República Checa é muito sossegada. Fiquei convencida de que é o tipo de sítio excelente para se passar férias, mas só depois de se aprender alemão, caso contrário pode ser difícil comunicar com os nativos. Eu e a Sevelina passámos as passinhas do Algarve para fazer o check-in e o check-out, porque ninguém naquela pensão falava uma palavra de inglês. Tivémos que desenhar muitos bonecos num papel para nos fazermos compreender. Curiosamente eu conseguia percebir praticamente tudo o que os checos me diziam em alemão, apenas não conseguia responder-lhes de forma que lhes fosse compreensível. Resta dizer que o Marco estava alojado noutra pensão, daí termos ficado as duas entregues aos bichos, sem alguém que servisse de intérprete, pois nenhum de nós se lembrou que tal dificuldade poderia surgir, tão habituados estamos a que se fale inglês em todo o lado.
Naquele momento estabeleci como meta que daqui a um ano quero estar a falar alemão.
Na 6ª feira à tarde voltámos à Áustria e a Viena. Eu tinha reservado cama numa pousada da juventude e nessa tarde tudo o que fiz foi procurá-la, instalar-me, tomar um duche, observar o ambiente na pousada e ir dormir. A minha primeira impressão da pousada foi um pouco negativa, pois eu fui para um dormitório misto e à hora em que lá entrei só lá estava um outro tipo, a olhar para mim com ar guloso, tipo "hem, tu e eu, um quarto só para nós...!?". Só voltei lá uma hora depois quando já havia mais pessoal e um ambiente muito mais misto e descontraído.
Conheci uma brasileira de São Paulo que ficou felicíssima por poder falar português e juntas descobrimos que estavam por lá pelo menos mais 2 rapazes e 4 raparigas brasileiros. Ainda combinámos explorarmos a cidade juntos no dia seguinte, mas eu queria começar bem cedinho e as brasileiras por sua vez queixavam-se por o pequeno-almoço deixar de ser servido às 9h. Queriam dormir até mais tarde! Acabaram por ir passear pela cidade só depois das 11h. Mas como eu não podia dar-me a esses luxos, porque queria aproveitar ao máximo o meu tempo de estadia, decidi seguir o meu caminho independente dos brasileiros.
Nessa manhã corri quase todo o 1º distrito de Viena, vi os principais pontos de interesse do centro da cidade e à tarde voltei a encontrar-me com o Thomas que me levou ao café favorito dele (ambiente 5 estrelas). Depois de me ter oferecido umas bebidas refrescantes com música de violino em background, levou-me num tour pelos locais da cidade que são para ele os mais especiais. Com isso ele conseguiu tornar toda a tarde especial e fiquei muito, muito grata pelo carinho e atenção que ele me dispensou.
Lembrei-me da meta que eu tinha já estabelecido e quando ele me pediu para não perdermos contacto, eu prometi-lhe isso e que "Daqui a um ano irei falar contigo em alemão!". Agora tenho mesmo que cumprir a promessa, pois já a oficializei perante outra pessoa.
Depois de ele ter ido para casa (para a mulher e para os filhos, que ele já é um respeitável pai de família), ainda o fim da tarde era uma criança e eu decidi continuar as minhas explorações.
Fui até à Igreja na Michaelerplatz, pois já por lá tinha passado e sabia que havia lá um concerto gratuito de música barroca no orgão da igreja. No final ainda tive direito a visita guiada ao andar de cima para ver o orgão centenário que tocou a marcha fúnebre do Mozart! com direito a explicações sobre as inúmeras horas que são necessárias para se fazerem ajustes ao som do orgão, que varia consoante a temperatura ambiente.
Depois disso dei por mim no meio duma Gay Parade, mas só apanhei o final quando o pessoal já se dispersava.
Continuei a caminhada até à Rathaus (Câmara Municipal lá do sítio) onde sabia que estava a decorrer uma bela festança. Banquinhas de comida de todo o mundo (por acaso não encontrei representação portuguesa, mas também não procurei exaustivamente) e um ecrã gigante onde iria ser projectado o primeiro filme dum festival dedicado a concertos de ópera e música clássica. Incrivelmente, apesar da hora tardia a que lá cheguei e dos milhares de pessoas que tentavam arranjar lugar, consegui encontrar um assento disponível mesmo de frente para o ecrã. Assisti a um concerto de ópera com Plácido Domingo, Anna Netrebko e Rolando Villazón (The Berlin Concert: Live from the Waldbühne). Geralmente, por preguiça mental, falta de hábito, não oiço óperas e mesmo a música clássica caiu um bocado no esquecimento, mas nestas ocasiões especiais, em ambientes extraodinários, revelo-me sempre uma apreciadora destas coisas. O concerto foi bastante agradável e fiquei especialmente cativada pela Anna Netrenbko. Além de cantar lindamente, é muito bonita (no fat lady singing ;)). Cada vez que entrava em palco (neste caso, no ecrã), deixava toda a gente de respiração suspensa. Não sei se foi neste concerto em especial, mas ela pareceu-me ser daquelas pessoas que nos prendem completamente a atenção, que sabem disso e cuja atitude de auto-convencimento ainda as torna mais irresistíveis.
No dia seguinte continuei as minhas explorações por Viena, visitei a "cidade das Nações Unidas" , o DonauPark e fiquei deslumbrada com o Schönbrunner-Schlosspark, onde fica o Palácio Imperial e jardins majestosos com mil e uma maravilhas a explorar. Paguei €16 para lá entrar e no final só consegui ver menos de metade do que havia para ver, mas ainda ssim valeu a pena.
Fui ficando, fui ficando, mas houve uma altura em que eu tive que tomar a decisão difícil de voltar à pousada para ir buscar a mala e ir para o aeroporto. Cheguei lá perigosamente perto da hora do último check-in, mas safei-me e aqui estou eu de novo.
Para terminar resta dizer que ambos os vôos, para lá e para cá, foram terríveis, com muita turbulência, muitas subidas e descidas de altitude e aterragens um pouco tremidas. Ainda cheguei a pensar que só eu é que estava nervosa por ainda não estar completamente habituada às viagens de avião e que tudo aquilo era perfeitamente normal, mas ao aterrarmos em Bruxelas os passageiros espontaneamente rebentaram em aplausos, por isso se calhar eu até tive razões para sentir aquele nó no estômago.

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