Thursday, November 15, 2007

B@B

Na 2ª e 3ª feira estive em Lisboa na Gulbenkian, a participar na “High Level Conference of Business and Biodiversity”, organizada pela Presidência Europeia do Conselho da EU e pela Comissão Europeia.
Era mesmo “high level” pois não era qualquer um que lá conseguia entrar, apenas aqueles que fizeram por o merecer ou que lóbiaram/subornaram alguém :) Eu consegui lá entrar porque tenho “contactos” ;) OK, também houve pessoal que conseguiu entrar à socapa, porque nem sempre se fazia controlo à porta.
Aquilo estava a abarrotar de ministros, secretários de estado, banqueiros e belmiros de azevedo. Aliás, O Belmiro de Azevedo original esteve mesmo lá, para aí durante 10 minutos enquanto fez o seu discurso e depois pirou-se e já não ouviu a boca que o orador seguinte lhe mandou por não ficar para participar na discussão.
Esta conferência foi mais uma excelente ocasião para se observar várias coisas:
- O quanto “esta gente” tem tão pouca noção do “estado de emergência” em que estamos metidos, que ainda vêem estas iniciativas para se tornarem verdes, como uma estratégia de marketing e não como uma necessidade para a sua própria sobrevivência. A maior parte das empresas que começam a desenvolver produtos verdes, fazem-no para explorar um novo nicho de mercado (os maluquinhos que gostam de comprar coisas “verdes”) ou para poderem usar isso como bandeira e não como um ensaio para mudança do seu modus operandi.
- O quanto se perdem tempos infinitos discutindo possíveis soluções, quando já tudo foi descoberto e inventado – só que como as soluções são trabalhosas e/ou inconvenientes de aplicar, é melhor continuar a organizar conferências e workshops durante anos a fio, discutindo eternamente as vantagens e desvantagens de todas as propostas que claramente não levem a lado nenhum, até se decidir pôr em prática uma que “pareça bem” mas não seja muito chata de implementar.
- O quanto estes eventos são manipulados para se passarem determinadas mensagens e se fazer auto-promoção e greenwashing. Para mim, os vencedores do “óscar greenwash” deste evento foram a Syngenta ex aequo com a Bayer CropScience, pelo melhor filme, argumento e actores. A Syngenta, por ter a coragem desmesurada de oferecer “os seus conhecimentos e experiência na protecção da biodiversidade” e a Bayer por afirmar “que as suas soluções tecnológicas para a agricultura são a única solução séria para se proteger a biodiversidade” e ambas pela actuação inspirada dum dramatismo intenso dos seus “actores” no papel de mártires – “a Syngenta, a Bayer, a Dupont e a Monsanto têm investido milhões no desenvolvimento de soluções para salvar o mundo da destruição e só recebem rejeição das pessoas ignorantes que têm medo da ciência e que se pudessem impediriam o mundo de ter aviões e telemóveis”. Snif, snif, toda a gente estava marejada de lágrimas e com o coração detroçado de pena pelas pobres corporações incompreendidas.
- O quanto os portugueses são saloios a falar inglês (excepto os que trabalham no estrangeiro em ambiente internacional) e precisam desesperadamente de dizer coisas, mesmo que fora de contexto, desactualizadas ou que nada acrescentem à conversa, apenas para mostrarem que existem.
- O quanto os ecologistas portugueses são pouco profissionais e continuam a dar tiros nos pés cada vez que têm oportunidade para isso – mesmo assim merecem todo o meu respeito e admiração, pois tudo o que fazem é por dedicação voluntária à causa e conseguem ter quase sempre a razão do seu lado. Infelizmente irritam-se muito facilmente e passam para as atitudes sensacionalistas, para os insultos e para os argumentos balofos em vez de manterem uma postura respeitável e coerente.
Para finalizar, gostei de rever muitas caras conhecidas de Bruxelas, de voltar a falar "estrangeiro", de falar com pessoal dos ministérios do ambiente de vários países, de voltar a comer de borla grandes jantaradas com 5 pratos, 5 pares de talheres e 3 copos. O “high level” sobe facilmente à cabeça, é o que é…
À hora de almoço aproveitei para passear pelo jardim (hum, que recordações felizes tenho ali passadas) e deitei-me na relva a apanhar sol, para descer lá do “high level” de volta à terra.

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