Thursday, April 30, 2009

Entre os helvéticos

Decorreu na Suiça a conferência "Food and Democracy" que me levou pela primeira vez à terra dos canivetes e dos chocolates que se fazem nos Alpes e se desfazem na boca.
Passei uns dias em Luzerna - para a conferência - e outros em Zurique - onde fica o aeroporto.



Duas cidades belíssimas, como aliás é característica de quase todas as cidades europeias, mas talvez pela omnipresença da natureza - os rios, os lagos, as montanhas no horizonte - senti um maior apelo para sair delas e ir para o campo.
Subi ao Monte Pilatus, via teleférico e fiquei deslumbrada. O silêncio nas encostas do monte é poderoso e lá no topo a vista panorâmica é linda, linda, linda!



Este teleférico chegou a ser o mais longo e mais alto do mundo. Acredito que a parte final da subida ainda deve deter um recorde qualquer. Imaginem uma subida de cerca de 500 mts em 2 minutos e 85º de inclinação. Um cachorrinho que teve o azar de ser levado pelos donos a passear de teleférico, tremeu e ganiu o tempo todo, com o pedido de "por favor, tirem-me daqui!" nos seus olhitos aterrorizados.
Isso fez-me perceber os medos de que me libertei, ao não sentir qualquer vertigem quando suspensa por um fio ou atrás duma cerca de madeira sobre abismos de no mínimo 500 mts. Há anos atrás não consegui sair dum elevador num 12º andar, só porque a parede ao longo do corredor era toda de vidro e a vertigem colou-me ao chão.
Acho que nenhum suiço deve sofrer de vertigens e medo das alturas. Desde miúdos que descem por escorregas com 20 mts de altura nos parques infantis e são levados pelos pais ao maior tobogã do mundo. Não admira que depois façam snowboard e esqui como nós aqui vamos ao centro comercial.
Em Luzerna esteve bom tempo, mas em Zurique estive sempre debaixo de chuva. Isso estragou-me os planos de uma excursão ao campo, às aldeias na montanha e ao vizinho Lichtenstein. Foi cancelada devido ao mau tempo e dei por mim a vaguear pela zona comercial da baixa de Zurique. Foi uma perda de tempo particularmente frustrante, porque em Zurique os preços são exorbitantes. Afinal é a capital económica daquele que é um dos países mais caro da Europa. Mesmo o fast food custa mais do que aquilo que é o limite do razoável.
Decidi almoçar no Hiltl, o restaurante vegetariano mais antigo da Europa, com 111 anos!!! Além de histórico, tem uma comida deliciosa! E é muito in. Foi caro, paguei cerca de 21 EUR por um prato e uma bebida, mas soube-me tão bem! O sumo de banana e côco era divinal, os raviolis, as batatinhas fritas com paprika, os legumes gratinados... Miaaam, a minha barriguinha ficou mesmo contentinha. Visitei outro restaurante vegetariano, o Bona Dea, mas esse era ainda "pior": só uma sopa custava 7 EUR!!! Espreitei lá para dentro e eram só senhoras bem e garçons de laço. Fiquei intimidada e optei por ir ao supermercado comprar uma carcaça e uma caixinha com 3 triângulos de queijo. Mesmo isso foi caro... Depois percebi que mais valia comer à vontade desde que não gastasse dinheiro inutilmente noutras coisas.
Aho que já estou um pouco farta de visitar igrejas - crescem como cogumelos na Europa! - pelo que desta vez só entrei em 3, em Zurique - Fraumünster, Grossmünster e St. Jakob. As duas primeiras, porque são realmente grandes (ah, "münster" significa catedral ou sé e não algo monstruoso, como julguei no primeiro contacto com estes nomes) e porque estão referenciadas como "must-see" em todos os guias turísticos. Gostei da Grossmünster porque se pode subir a uma das torres e ter uma vista panorâmica de Zurique e do lago. Subir a torres e campanários de catedrais e castelos é das coisas que me dão mais gozo quando faço turismo - já estive numas quantas, daquelas desaconselhadas a quem tem vertigens, problemas de coração ou falta de ar - pelas vistas, pela estrutura majestosa em pedra e madeira, pelo cheiro a pó de séculos. Também gosto de visitar as criptas e a de Fraumünster foi a que me proporcionou a experiência mais intensa até agora. O cheiro a cadáveres empoeirados era brutal e às tantas juro que senti fantasmas a tocarem-me ao de leve na pele - provavelmente eram teias de aranha, mas deixem-me lá fantasiar livremente.
A igreja de St. Jakob não era grande nem tinha nada de especial na fachada que atraísse a atenção, no entanto levou-me a atravessar uma estrada e a procurar a sua entrada. Lá dentro fiquei surpreendida ao ver que no lugar dos bancos de igreja o espaço central da nave estava ocupado com apenas 4 almofadas e bancos de meditação. Uau, por essa não esperava eu. Depois de me recompor do "choque" pousei as minhas coisas e sentei-me numa almofada a meditar. Soube-me muito bem e não me importava de ter ficado por lá o resto do tempo, mas ainda havia tanta coisa que eu queria ver. Maldita mente que prefere sempre estar entretida a simplesmente estar!
Visitei ainda o museu nacional Suiço onde vi uma das melhores exposições de sempre sobre a pré-história até à civilização romana. Também vi uma exposição temporária sobre o humor suiço. Não percebi a maior parte da extensa colecção de cartoons, mas notei que nos mais modernos há uma grande tendência para mostrar o "orgulho suiço" e superioridade relativamente aos "invasores" europeus. Assisti também a um stand up comedy de um suiço francófono explicando "como funciona a Suiça" e as diferenças entre os suiços-francófonos e os suiços-alemães.
Até àquele momento tinha tentado em vão perceber os suiços-alemães e responder-lhes na mesma língua, mas aquilo não me pareceu alemão em momento algum. Parecia uma língua remotamente relacionada com alemão, com laivos de francês, italiano e até inglês.
O tal comediante explicou que eles se cumprimentam dizendo "Wie «gouts»?" em vez de "Wie geht's?" e que respondem "Ouait!" em vez de "Gut!". O sotaque deles é para o alemão o equivalente do sotaque dos franceses do norte para o francês, ou o sotaque de Sã M'guel para o português. Como é que eu havia de perceber uma única palavra do que eles diziam? De qualquer forma diverti-me a tentar decifrá-las.
E claro, trouxe a mala cheínha de chocolates suiços para distribuir entre os mais carentes ao meu redor :)

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