Thursday, July 07, 2011

Sleepless in Seattle


Seattle, a terra da chuva, do Bill Gates, dos Nirvana, do Jimi Hendrix, do Bruce Lee, do "Grey's Anatomy", do "Frasier" e do Starbucks. (E da saga Twilight, ali tão perto.)
Não voei directamente para lá, porque o meu passeio aos States foi um mero desvio do meu destino principal que era o Canadá. Mas sobre isso escreverei mais tarde.
Há um ano atrás, quando conheci o meu amigo Leo no Museu de História Natural de Tokyo e ele me disse que era de Seattle, contei-lhe que tinha sonhado visitar Vancouver e Seattle quando não sabia sequer que as duas cidades ficavam tão perto. Nessa altura não tinha qualquer indício de que eu lá iria realmente, mas alguns meses depois surgiu a oportunidade de ir a Vancouver e pensei "Não posso deixar de dar um pulo a Seatlle!". E assim o sonho tornou-se realidade. Ah, mas o que deixa a cabeça a remoer é a questão: teria dado o pulo a Seattle se não tivesse sonhado com isso?
Infelizmente, o Leo não estava lá para me receber, porque no dia da minha chegada, partia ele para uma temporada no Hawaii. Parece que não estava escrito.
Em Seattle conheço também o Phil, um respeitável professor universitário que me tinha oferecido guarida mas que teve que recuar no convite, pois a família tinha vindo toda instalar-se na sua casa para umas festividades judaicas e eu tive que me amanhar.
Por questões logísticas, voei para Vancouver e de lá apanhei o Amtrak Cascades para Seattle no dia seguinte. A viagem foi extremamente agradável. A paisagem é soberba, com a linha de comboio ao longo da costa do Pacífico e das Cascades. [cadeia montanhosa que se estende do Canadá à Califórnia e que inclui o famoso vulcão Saint Helens a sul de Seattle]. O comboio, que é publicitado como sendo "european-style" consegue ser melhor que os nossos intercidades. Todos os lugares têm tomadas eléctricas para as electronicidades a que vivemos agarrados e há wifi gratuito no comboio. Experimentei partilhar a minha viagem em directo no Facebook e receber o feedback imediato do amigos, o que foi divertido, mas seria um desperdício se o fizesse a viagem toda. Após ter experimentado a gracinha, desliguei o computador e desfrutei da paisagem.
A minha viagem a terras do tio Sam estava a deixar-me um pouco nervosa. Eu tinha-me informado bem sobre a necessidade ou não de visto e tinha comigo uma declaração que supostamente me deixaria entrar sem grandes dificuldades, mas ouvira tantas estórias de pessoas "normais" impedidas de entrar nos States, que deixei alguma paranóia anti-big brother instalar-se.
Um dinamarquês num banco mais à frente descorria sobre as suas tentativas de entrada nos EUA. Esta seria a sua terceira vez. Na primeira vez ele não sabia que tinha de ter visto, declaração de isenção de visto ou o formulário I-94 correctamente preenchido e na segunda vez ele levava consigo o formulário certo mas mal preenchido. Estava esperançoso que desta vez iria conseguir, mas agora era eu que tinha dúvidas se conseguiria.
Após uma hora de viagem, anunciaram pelos altifalantes de que estávamos a 15 minutos da fronteira e que se precisássemos de ir à casa de banho ou ao bar, seria melhor despacharmo-nos, porque uma vez que os agentes da alfândega entrassem no comboio, era melhor não nos levantarmos ou fazermos qualquer movimento brusco. Diziam eles que os agentes não gostavam muito disso. O tom do aviso não me inspirou muita serenidade. Quanto mais nos aproximávamos da hora, mais me parecia que teria mesmo de ir à casa de banho. Até àquele momento, todos os americanos no comboio e especialmente o staff da Amtrak, tinham demonstrado ser nada menos que pessoas adoráveis e super afáveis, mas o meu pobre imaginário carregado de séries e filmes de Hollywood e clips sensacionalistas do Youtube, fez-me imaginar agentes musculados de óculos escuros, arma automática na mão, tasers prontos a disparar e cães de dentes arreganhados. Em vez disso, surgiram um rapaz e uma rapariga de ar doce, que inspecionaram o meu passaporte, sorriram-me e desejaram-me boa estadia. Haaaah... Só isso? De certeza que não querem saber quem sou, porque estou aqui, com quem me vou encontrar, o que estou a conspirar contra o vosso império? Parece que afinal a paranóica ali era só eu.
Cerca de duas horas e meia mais e chegava finalmente a Seattle. O sol brilhava, o que é uma sorte para aquelas bandas e a cidade estava particularmente animada e colorida.
O meu hostel ficava no cruzamento entre a Pike Street e a 1st Ave, numa zona altamente turística, frente ao Pike Place Market. Pike Place é uma espécie de coração pulsante da cidade. Vagueei por ali repetidas vezes, porque a oferta de coisas interessantes e exóticas era grande e merecia atenção. Gostei particularmente duma loja de livros usados na cave do Pike Place Market. O dono da loja recebeu-me com um "Where have you been all my life!???". Primeiro julguei que estaria no gozo, depois acreditei que era sincero quando começou a ler-me poesia, até que por fim percebi que aquela era mais ou menos a maneira como ele recebia todas as miúdas que lá entravam. Deu-me 21 anos e supôs que eu era de Israel. Apesar dessas falhas de julgamento, quase lhe dei um beijinho pelos livros fabulosos que ele lá tinha, especialmente a colecção gigantesca de sci-fi que enchia uns 2 corredores do chão ao tecto. Tinha acabado de chegar a Seattle e já começava a questionar-me sobre como iria levar para casa a montanha de livros que eu iria sem dúvida comprar.
Nesse dia almocei no mercado, num pequeno restaurante chinês de ar modesto, onde comi o melhor prato de tofu com algas e cogumelos da minha vida, carregado de pimenta preta e que me fez chorar baba e ranho durante meia hora. Para um cafézinho, procurei pelo famoso primeiro Starbucks do mundo, que supostamente ficaria em Pike Place, mas não o encontrei. Não estava indicado no mapa turístico e ninguém me dizia com rigor exactamente onde era - em cada esquina há um, como distinguir qual deles é o mais histórico? Às tantas desisti, afinal não sou assim tão fã de café que não possa viver sem ter ido à sua meca. Claro que agora me arrependo de não ter continuado à procura. É como ir a San Bernardino e não ver o primeiro MacDonalds ou ir a Roma e não ver o Papa! Seattle orgulha-se da sua febre por cafeína e tem um enorme negócio de copos em cerâmica com tampa de borracha, idênticos aos descartáveis do Starbucks, que os beberrões cafeínicos inveterados aviam continuamente ao longo do dia no café da esquina mais próximo. O sangue deles deve ser castanho.
No primeiro fim de tarde em Seattle acabei por ir para o hostel dormir com o sol ainda alto. Mas depois de 12 horas de sono, a maior parte do jet lag ficou sob controlo.
No dia seguinte o sol não apareceu, pelo que optei por ir fazer compras em vez de sightseeing. Tinha visto uma reportagem na net sobre Capitol Hill e a sua cultura alternativa, lojas vintage e gente gira e estava convencida de que iria lá encontrar algo com que me ocupar até o sol reaparecer. Passei por uma série de locais que tinha visto anteriormente em filme e sorri para mim mesma.
Tropecei numa famosa estátua de Jimi Hendrix e enquanto lhe tirava fotos, um universitário a caminho do "Community College" mesmo em frente, meteu-se comigo "Queres que te tire uma foto ao lado da estátua?". Primeiro disse-lhe que não, mas ele insistiu, garantiu que toda a gente quer, apesar de se fazerem rogados e eu acabei por aceitar a oferta embora não estivesse de facto a pensar no assunto. Ele perguntou-me de onde eu era e quando respondi Portugal ele fez uma cara que eu veria em muitas outras pessoas nos dias seguintes: cara de "Ohhhh, estou a ver! [Onde raio fica isso???]". Perguntou-me se eu sabia quem era o tipo da estátua, provavelmente na esperança que eu dissesse que não e ele pudesse dar-me uma liçãozinha e sair dali a sentir-se esperto. Respondi-lhe que era o Jimi Hendrix, com cara de "não é óbvio?" e ele pareceu perder todo o interesse em continuar a conversa.
Ao longo dos dias seguintes iria ouvir comentários deliciosos como "Ah, és de Portugal? E vens com alguma excursão da América do Sul ou sozinha?" ou "Gosto sempre de saber como é que as pessoas que vivem em países obscuros como o teu têm acesso à informação." ou "Oh, peço desculpa, já deveria saber falar espanhol melhor, mas ainda estou a aprender!". Os americanos são uns doces, mas o cliché da sua burrice em termos de geografia e história do mundo, é bastante sólido. Uma australiana confessou-me que mais grave era terem-lhe perguntado se ela tinha vindo da Austrália de comboio. Que não saibam onde é Portugal, um país pequenino e "obscuro", compreende-se, mas que não saibam o que é a Austrália...
De tarde fui convencida a fazer o tour guiado aos subterrâneos da cidade e como o sol teimava em não aparecer, túneis bolorentos e canos ferrugentos, parecia-me tão bom ou melhor do que estar à superfície. Talvez eu tenha um fascínio especial por andar debaixo do chão, tal como tenho por subir aos pontos mais altos, mas achei que valeu a pena a visita, mais não fosse pelas fascinantes histórias que o guia contou sobre Seattle: a corrida aos novos territórios, rivalidades na aquisição de terras, trapaças e negociatas sujas e menos sujas, puritanos versus libertinos, madeireiros e prospectores de ouro, o grande incêndio, a origem do termo "skid row" e a rocambolesca reconstrução que deu origem aos subterrâneos.
Depois disso e no dia seguinte, caminhei pelas ruas sem rumo, entrei em cada loja mais exótica ou alternativa que encontrei, encontrei um lindo jardim comunitário em Chinatown, visitei a biblioteca pública retorcida do mesmo arquitecto que a nossa Casa da Música, visitei o Volunteer Park e o Lake Union e subi ao Space Needle, a famosa torre panorâmica de Seattle. Lá em cima, outro cliché: Frank Sinatra e Billie Holiday em música de fundo, famílias espreitando pelos telescópios,  arranha-céus no horizonte e eu a sós com o vento... Não era o Empire State Building, mas era como se fosse e demasiadas referências cinematográficas cruzadas começavam a fazer curto-circuito na minha cabeça.
Ali em baixo ficava o EMP (Experience Music Project), um museu com um nome apelativo mas que me disseram só valer a pena se eu fosse maluquinha por rock. Não sou, mas também havia um museu de sci-fi acoplado que me estava a atrair mais que o rock. No final, o preço da entrada e o cansaço que sentia acabaram por sair vencedores. Na net o Carlos perguntava-me mais tarde se eu já tinha ido visitar a campa do Kurt Cobain. Ao investigar onde isso ficava descobri que não existe uma campa, porque ele foi cremado e as suas cinzas espalhadas no Viretta Park. As pessoas fazem lá romaria para lhe prestar homenagem, mas eu sinceramente não fazia questão disso. Através das minhas pesquisas fiquei no entanto a saber que o Kurt Cobain tinha um amigo imaginário chamado "Boddah", o que foi muito mais crucial, pois respondi assim à questão existencial mais profunda que afligiu toda uma geração de adolescentes: "Quem é o Boddah?".
Seattle não tem um verdadeiro metro, apenas um tram que circula num pequeno percurso subterrâneo, mas tem um sistema excelente de autocarros grátis, entre as 7h e as 19h, que percorre todo o centro da cidade. Não precisaria de ter gasto dinheiro em transportes, não fosse um daqueles azares da vida. No meu último dia em Seattle, entrei num autocarro às seis da manhã para ir apanhar o comboio de regresso ao Canadá. Estiquei uma nota de 20 dólares ao motorista para pagar a tarifa de 2 dólares, que àquela hora tinha que ser paga. O motorista indicou-me que devia metê-la na máquina automática de bilhetes. Para ter a certeza de não estar a fazer asneira, perguntei-lhe novamente se devia lá meter a nota e onde. Ele ajudou-me, indicou-me a ranhura, fiz tudo certinho, mas depois não saía nada, nem bilhete, nem troco. Passados uns segundos em suspenso, o motorista deu um berro "My god!!! What have you done!???". "Haaaa... Não sei. O que fiz eu??".  Parece que a máquina só aceitava o valor exacto e não dava troco e para cúmulo era impossível abri-la e o motorista não tinha dinheiro nenhum com ele. Apesar da acusação que ele me fez, penso que ele sabia ter mais culpa que eu pelo sucedido, por isso em prometeu tentar receber dos passageiros que entrassem até perfazer o valor que me devia. Logo por azar a maior parte das pessoas que entrou tinha passe e eu tinha que sair dali a apenas cinco quarteirões. Consegui recuperar 4 dólares. O resto do dinheiro foi donativo para melhorar o sistema de transportes de Seattle.
Uma úlltima estória de Seattle: no hostel onde fiquei, fui apanhada no meio de uma conversa entre uma rapariga japonesa e um rapaz americano na cozinha, enquanto preparávamos cada um o seu jantar. Ela dizia que era estudante de artes e que estava ali a trabalhar num projecto qualquer para o seu mestrado e ele dizia que era advogado mas farto da vida que tinha estava ali para se tornar pescador e embarcar rumo ao Alasca. Rimo-nos com agrado da estória dele e a japonesa disse "Ah, então estás só de passagem, és um viajante." Ele respondeu "Claro, mas também tu e provavelmente todos os que aqui estão. Somos todos viajantes. Se não o fôssemos, porque raio estaríamos em Seattle?"

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