Monday, June 06, 2011

A Peste de Buda

No momento em que escrevo isto, estou em Vancouver no Canadá, mas a semana passada estive na Hungria e devia escrever qualquer coisa sobre isso antes de passar ao próximo episódio.
Não conheço nenhum estereótipo sobre os húngaros e talvez por isso nada de especial me tenha saltado à vista no seu comportamento. Pareceram-me correctos e muito discretos. Reparei que apesar de muitos serem loiros de olhos azuis, têm quase sempre uma pele pigmentada e rude, como se fossem uma mistura de povo nórdico com povo cigano. Essa mistura parece revelar-se noutros aspectos: quase nunca me passaram recibos - ciganos!, mas em oposição até mesmo os taxistas são uns anjos a conduzir - nórdicos!
Estive em Budapeste, mas o meu destino principal era Debrecen. Debrecen é supostamente a segunda maior cidade da Hungria, mas tem apenas 200 mil habitantes e muito pouco para se ver, além duma igreja, uma universidade e um ou dois museus. Isso deu-me a ideia de que a Hungria é Budapeste e o resto é paisagem. Não quer dizer no entanto que a paisagem não seja bonita!
Budapeste é monumental, mas assim que chegamos aos subúrbios e seguimos para outras paragens, percebemos claramente que se trata de um país ex-comunista que ficou parado no tempo ali por volta dos anos 70.
O meu novo amigo espanhol Juan-Felipe entrou num frenesim de fotos, em delírio absoluto com cada comboio, estação ou pormenor totalmente retro que encontrávamos. Eu comentei que era giro para nós, que somos turistas e estamos ali de passagem, mas que quem lá vive e trabalha com certeza não tem uma visão tão romântica do seu país.
Mas voltando a Budapeste, do lado Este temos Peste, a baixa da cidade, com muito comércio e animação e o gigantesco Parlamento como edifício dominante. Do outro lado do rio, a Oeste, temos Buda, a zona de encostas cobertas de palácios e castelos e com vistas fabulosas sobre Peste. Perdi algum tempo a percorrer ambas as "cidades" a pé, mas para o topo da colina de Buda, subi no mais antigo funicular da Europa - nós chamar-lhe-íamos elevador.
Em Buda, num miradouro do palácio real, com vista sobre Peste
Lá em cima procurei visitar o Bastião dos Pescadores e a Igreja de Matias, dois monumentos famosos e imponentes. Comprei bilhete para ambos, mas enquanto que na Igreja o bilhete me serviu para entrar e ver as suas relíquias, no Bastião não encontrei entrada nenhuma. Depois de muitas voltas ao monumento e de voltas à cabeça, percebi que o bilhete afinal era apenas uma nota de agradecimento que dizia "Obrigada por ter contribuído para a preservação do Bastião dos Pescadores". Acontece que o monumento é ao ar livre e 99% dos turistas não paga "entrada" nenhuma, mas como eu não sabia disso e fui directa ao guiché, os húngaros enganaram-me! São espertos. Devíamos começar também a vender entradas para a Praça do Comércio e para os miradouros de Lisboa, era um negócio da China. Uns quantos turistas iam ficar chateados, mas dávamos-lhes um papel a dizer "Obrigada pela sua contribuição!" talvez com a fotografia duns portugueses sorridentes e a coisa passava.
O melhor de tudo em Buda(Peste) é o labirinto subterrâneo por debaixo do castelo de Buda. Vi logo que não era aventura para qualquer um, quando na entrada me cruzei com uma série de turistas americanos que diziam mal da vida por não terem conseguido ir além dos primeiros 100 metros do labirinto. O labirinto é uma das 7 maravilhas subterrâneas do mundo, tem cerca de 1500 metros de comprimento, é muito pouco iluminado e alguns troços são mesmo mantidos na escuridão total, obrigando-nos a recorrer às apalpadelas à parede e a guiar-nos através dum cordão que indica o percurso. Há muito tempo que eu não sentia aquele friozinho no estômago que ali teimou em insinuar-se. Estranhas figuras esculpidas espreitavam nas sombras, estranhos sons sussurravam das paredes e eu tinha que me lembrar constantemente que estava numa atracção turística sem perigo nenhum. Outras pessoas passavam por mim de vez em quando, mas talvez tivessem mais medo do que eu, porque desapareciam dali num instante.
O percurso levou-me através da evolução do homem numa espécie de caminhada iniciática: no primeiro troço ouviam-se batuques e vislumbravam-se pinturas rupestres nas paredes, seguiam-se nos troços seguintes as várias etapas da civilização humana e perto do final, viam-se fósseis de garrafas de Coca-Cola e impressões de laptops na rocha, simbolizando o fim da civilização. Havia ainda um último troço catalisador da auto-descoberta na escuridão, com espelhos surpresa e vórtices de luz. A cereja no topo do bolo era a projecção de um estranho filme-monólogo sobre o Diabo em Budapeste anunciando o fim do mundo.
Talvez por eu andar com ar de "quem procura a luz", fui constantemente abordada nas ruas de Budapeste e de Debrecen por testemunhas de Jeová e missionários vários. Rapazes e raparigas que eu julgava serem apenas nativos simpáticos, metiam-se comigo nos locais turísticos com perguntas da praxe "És de que nacionalidade? Estás a gostar da Hungria? O que é que já visitaste?", para quando eu estava já descontraída oferecerem-me um folheto qualquer sobre o fim do mundo ou pedirem-me que lhes tirasse uma foto para um pedi-paper religioso qualquer em que estavam a participar. Foi particularmente engraçado falar com duas meninas testemunhas de Jeová que me perguntaram se acredito em Deus, ao que lhes respondi ser budista e que era mais complicado do que uma resposta sim ou não. "Mas vocês adoram Buda como o vosso Deus?". Digamos que foi um desafio explicar-lhes que para os budistas não há necessidade de acreditar numa realidade última e que Buda não é um deus. Perante a cara de perplexidade das meninas, decidi calar-me, sorri e aceitei a brochura que tanto me queriam dar, sobre o "mito" da teoria da evolução.
Terminei o meu périplo húngaro ao lado do famoso mercado de Peste, numa loja de roupa em 2ª mão, onde cada quilo de roupa custava perto de 11 EUR. Acho que não consta dos roteiros turísticos, mas na minha opinião é uma experiência cultural completamente menosprezada. Voltei para casa com mais 2.5 kg de roupa do que a que levei para lá.

Wednesday, November 24, 2010

Notas soltas sobre o Japão

Bruxelas continua a ser a minha cidade europeia favorita, mas o Japão passou oficialmente a ser o meu país favorito e Tokyo destronou Bruxelas do ranking mundial.
O que mais me impressionou em Tokyo foi o silêncio. Quando acordei pela manhã e saí à rua, perto de um cruzamento super movimentado, apercebi-me "Uau, que silêncio!" Tokyo não é uma cidade com muito trânsito e os condutores são tão civilizados que nunca ouvimos buzinadelas ou acelerações desnecessárias. Os carros circulam pacificamente e nos sinais, muitas vezes os condutores desligam os motores dos carros, pelo que por vezes se conseguem mesmo ouvir as cigarras.
Nagoya foi a primeira cidade em que senti aquele cheiro maravilhoso a terra molhada quando chovia. Parecia que estava no campo e no entanto não havia assim tantos parques ou canteiros. Parecia que o próprio asfalto libertava aquele cheiro. Foi estranho e encantador.
No Japão praticamente não existem caixotes do lixo. São mais difíceis de encontrar que uma Geisha. No entanto também não se vê qualquer tipo de lixo no chão. Os japoneses têm o hábito super-civilizado de não comerem ou beberem enquanto andam de um lado para o outro - uma das situações que geralmente origina  mais resíduos que depois precisamos depositar nas papeleiras - e só fumam nas zonas designadas - espécie de pontos de encontro com cinzeiros gigantes que se encontram nalguns passeios das principais ruas - por isso não espalham beatas por todo o lado.
Contrariamente aos caixotes do lixo, existem casas de banho públicas gratuitas em todo o lado e limpas! Um hábito que os europeus estão a perder e que salva-vidas. Não sei o que seria de mim sem as mil casas de banho públicas a que recorri ao longo de duas semanas. Na maioria delas já se encontram retretes "western style", como eles lhes chamam, apesar de não serem nada semelhantes às nossas, porque são high-tech, com jactos de água, sons (para abafar os nossos "sons corporais") e assentos aquecidos, mas também ainda é comum verem-se retretes tradicionais japonesas. De uma coisa tenho a certeza, elas ajudam os japoneses a estarem em forma, porque é preciso força nas canetas para estar agachado daquela maneira durante algum tempo.
Os japoneses esperam em fila para entrar no comboio e no metro e deixam as outras pessoas saírem calmamente antes de tentarem entrar. Claro que nas horas de ponta têm de ser empurrados e completamente esborrachados uns contra os outros para viajarem tipo sardinha em lata, mas mesmo nessas ocasiões não se empurram tanto como nós em hora normal no metro.
Os revisores no comboio fazem uma vénia aos passageiros sentados antes de abrirem a porta  da carruagem e seguirem para a próxima. Exagerado? Eu acho que é exactamente o tipo de demonstração de respeito e de disciplina que deveríamos começar a cultivar se queremos algum dia evoluir enquanto povo. A subserviência não é boa e eles também têm muito disso, mas pessoas comuns fazendo vénias a outras pessoas comuns, demonstrando que respeitam o simples facto da sua existência e presença, parece-me um gesto básico de cidadania. Nós não temos esse respeito e atenção uns pelos outros, estamos habituados a passar ao lado, imersos no nosso mundinho, sem ligar ao facto de haverem outros seres humanos à nossa volta. Assim focados no nosso umbigo, explodimos perante qualquer interferência desses seres humanos com o nosso universo ego-centrado.
Não sei se é regra geral em todas as escolas, mas disseram-me que os alunos japoneses ficam na escola depois das aulas para limparem a sala de aula ou o campo de jogos. Claro que se estivesse no lugar deles quereria ir a correr para casa ou para o centro comercial com os amigos, mas dentro do contexto certo, este tipo de disciplina faz a diferença entre ser-se português e ser-se japonês quando crescemos. Eu já decidi que voto num primeiro-ministro japonês que nos queira vir governar.
Nenhum país ou povo é perfeito e os japoneses também têm as suas maluqueiras, nomeadamente matarem-se a trabalhar, terem umas taras sexuais exacerbadas e não estarem nem aí para os direitos dos animais.
O metro e o comboio estão tão cheios às 23h ou à meia noite como os nossos estão em hora de ponta. E não com jovens que vão para a farra, mas com homens e senhoras de fato e pasta na mão acabados de sair do emprego. Muitos deles adormecem sentados, o que aliás parece ser um passatempo generalizado. Os que não adormecem, escrevem freneticamente mensagens nos telemóveis ou - vá lá - lêem! Talvez cerca de 20% durmam, 40% "textam" e uns 20% lêem. Os restantes olham para o tecto... Às 5 da manhã de sábado o mesmo cenário: parece hora de ponta, imensa gente engravatada, miúdos vestidos de uniforme escolar - será que têm aulas ao sábado? Ficou por esclarecer, mas sei que estão envolvidos em desportos de equipa e outras actividades extra-curriculares. Descanso, parece que só mesmo ao domingo..
Existem carruagens só para senhoras nas horas de ponta e zonas com lugares só para senhoras nos autocarros, porque muitos japonesinhos com as hormonas aos saltos gostam de aproveitar o caos reinante para meterem as mãozinhas anonimamente por baixo das saias plissadas das meninas.
As taras sexuais dos japoneses estão presentes um pouco por todo o lado - no hentai que se vende como pipocas, nos cafés e casinos com shows de meninas vestidas de criadinhas, na fantasia obsessiva pelo look colegial sobre o qual se escrevem volumes e nas inúmeras lojas de fantasias sexuais e bonecas hiper-realistas... Mas a única coisa que me chocou foi ter-me deparado com a total falta de limites ou separação entre a fantasia saudável e o que é para nós inaceitável. Entrei numa loja que me parecia dirigida a adolescentes pop, com música de girls band a tocar e posters de meninas em uniforme colegial, para me ver perdida entre corredores de DVDs com meninas de 10-12 anos em bikini e semi-nuas. O conteúdo era óbvio e deixou-me boquiaberta. O Tengyo disse-me que no Japão  não existe o conceito de pedofilia como no Ocidente. Certas coisas que nós consideramos crimes escandalosos, para eles é apenas uma fantasia sexual. Ele não estava orgulhoso, até se mostrou incomodado e disse que muita gente mais nova já não aceita tal coisa, mas disse que no Japão este tipo de coisa ainda é normal.
Também normal e muito na moda são peles de animais. Enquanto que na Europa,os casacos de peles são cada vez mais associados a tias ricas e com mau gosto, no Japão é uma grande moda entre as rapariguinhas. Vi à venda peles de raposa - daquelas com cabeça e tudo - por entre as roupas mais in e não havia quase nenhuma japonesa que não tivesse um bocado de pele enrolado ao pescoço, na mala e até uma cauda de um qualquer animal peludo a servir de porta-chave. Como é que se hão-de preocupar com a caça à baleia se têm uma tão grande insensibilidade para o sofrimento dos bichos vítimas da moda? Atenção, os ocidentais não são muito melhores nisso, porque cada vez mais acham as peles de mau gosto, mas usam cabedal sem pensar duas vezes, mas já estão um pequeno passo à frente.
Para terminar resta dizer que os japoneses são muito disciplinados e muito cordiais, mas como tudo isso lhes é imposto pela sociedade desde pequenos, não quer dizer que sejam sinceros. e por vezes, talvez por cansaço, quebram completamente o hábito instaurado e fazem o oposto daquilo que  é suposto fazerem. Detecta-se muita hipocrisia lá pelo meio. Apesar de estarem prontos a ajudar se formos turistas em apuros, uma pequena rapariga japonesa na mesma situação pode ser completamente ignorada pelos seus compatriotas, talvez porque a cortesia e respeito só entre em acção quando lhes interessa - para impressionar um turista, porque se tratam de clientes de um determinado serviço, etc.
Não deixam lixo em lado nenhum e são loucos por observar as árvores em flor ou em mudança de cor outonal, mas se virem os sacos do lixo que eles deixam à porta para serem incinerados (quase não reciclam), vão ficar parvos com a quantidade de coisas perfeitamente boas que eles deitam fora só porque já passaram de moda, sofreram upgrade ou ocupam espaço - nós também o fazemos, mas do pouco que vi, parece-me que eles fazem pior. Têm muito a atitude NIMBY (not in my backyard) que ficou claramente demonstrada quando o vizinho idoso do Daul e da Sayaka foi apanhado em flagrante a atirar com o seu lixo para o quintal deles.

Quando me vim embora não senti grande emoção. Talvez por estar bastante cansada, mas também por estar decidida a não fazer nenhum drama daquele momento.
Mas à medida que me afasto daqueles dias de viagem, cada vez mais as memórias  desses dias se assemelham a um sonho. Por vezes já parece demasiado incrível para ter acontecido e perante isso sinto então a emoção que não senti na partida - aquele quase desespero de não poder agarrar um momento no espaço-tempo e ficar nele para sempre. Mas tudo muda, tudo passa e nada dura para sempre. O lado positivo disso é que tal significa que posso sempre lá voltar.
Ainda há uma série de coisas que não vi ou experimentei enquanto estive no Japão:
- jogar pachinko (estive em alguns estabelecimentos, mas não aguentei o barulho mais de 2 minutos)
- cantar num bar de karaoke (não arranjei companhia)
- fazer um retiro num mosteiro zen (exige estadia mais prolongada)
- vestir-me de um personagem anime e participar numa convenção de cosplay (tem que ser na altura certa do ano)
- vestir-me de maiko ou geisha e fazer uma sessão fotográfica e/ou passear-me assim nas ruas (era caríssimo)
- vestir-me de samurai e fazer o mesmo que em cima
- relaxar num onsen (esteve ao meu alcance, mas nunca tive tempo)
- percorrer os restaurantes especializados em tofu (infelizmente nunca encontrei nenhum quando estava com fome)
- ir aos cafés onde somos servidos por meninas vestidas de criadas francesas
- ....
E acho que a lista se poderia prolongar indefinidamente, porque há tanto que eu ainda quero fazer no Japão.

Tuesday, November 09, 2010

Nagoya

Nos meus últimos dias no Japão, regressei a Nagoya, onde fiquei alojada em casa de um casal super querido - o Daul e a Sayaka, ele coreano, ela japonesa - que conheci no couchsurfing. Cheguei a Nagoya ao fim do dia e liguei para o Daul como combinado. Ele tinha mudado de ideias quanto a ir-me buscar à estação de comboio e deu-me instruções para chegar a casa deles de autocarro, mas só tinha 10 minutos para encontrar o terminal, a plataforma certa e o autocarro certo. Com as malas às costas através de um mar de gente e vários níveis e túneis e saídas, lá consegui (miraculosamente) encontrar o dito terminal e numa correria entrei no autocarro que estava mesmo a partir. Estava orgulhosa do meu feito, quando me apercebi que em vez de ter entrado no autocarro 10 da linha 11, tinha entrado no autocarro 13 da linha 10. Fiz uma exclamação em voz alta que não vou aqui repetir e carreguei no stop para sair do autocarro antes dele avançar mais e eu ficar completamente perdida. Ainda não estava muito longe da estação e felizmente não perdi o norte pelo que caminhei em direcção à estação, aonde consegui regressar 15 minutos depois, arrastando pesadamente a mala atrás de mim. Novo telefonema para o Daul: "Olha, parece-me que perdi o autocarro (o último do dia que lá ia ter), por isso vou tentar ir de metro o mais perto possível daí e depois apanho um táxi." OK, disse ele, mas avisou-me que geralmente os taxistas não encontram a casa deles. Que bom saber isso! Mas que opções eu tinha? Após uma cansativa passagem pelo metro (só há escadas rolantes e elevadores em poucas estações), lá saí para a superfície e chamei um táxi. O taxista não falava uma palavra de inglês. Dei-lhe a morada, ele introduziu no GPS e acenou que estava tudo pronto para me deixar no meu destino. Passados cerca de 10 minutos tínhamos deixado o centro da cidade e estávamos numa zona residencial suburbana, labiríntica e com pouca iluminação. Ele parou no meio de uma rua, disse algo como "é aqui" e tirou a minha mala do porta-bagagens. A morada que eu tinha indicava nº 5-27, mas à minha frente eu só via 27-100, 27-103, etc... Fiz ar de quem não estava a entender nada daquilo e o senhor fez um gesto vago de que a morada correspondia a "algures ali". Olha que lindo, e agora? Ia ter que ir de rua em rua, porta a porta, arrastando a mala atrás de mim, até encontrar o número certo. Felizmente o taxista era um senhor extremamente simpático que me fez sinal que não se iria embora dali enquanto eu não encontrasse o sítio. Felizmente passados apenas 5 minutos de deambulação sem sentido, ouvi alguém gritar o meu nome e apesar de não estar a ver quem me estava a chamar, senti que me tirava um peso de cima dos ombros. Era o Daul, em bicicleta. Lá lhe ocorreu que talvez eu não desse com a casa e por isso andou às voltas a ver se me via por ali perdida. Despedi-me do senhor taxista e finalmente cheguei a casa do Daul. Acontece que só as ruas principais têm nomes, estas ruelas secundárias são simplesmente numeradas e nem sempre de forma lógica. Acontece também que concluímos que eu não tinha o último número - de uma sequência de três - que corresponderia ao número da porta. Os dois números que eu tinha, apenas indicavam a zona e um bairro específico, mas não o número da porta.  Podia ter andado a noite toda a bater às portas...
Castelo de Nagoya
Felizmente todos esses percalços foram compensados pela estadia na casa deste casal simpático. Ambos trabalham num gabinete das Nações Unidas e tínhamos imensas ideias para trocar. Eles sacrificaram algum do seu sono para ficarmos a conversar até um pouco mais tarde. Curiosamente acabei por lhes dar a conhecer pelo menos uma coisa da sua cidade que eles desconheciam. No caminho do aeroporto para o centro de Nagoya, reparei numa estátua de Buda gigante a espreitar por entre as árvores no topo de uma colina e perguntei-lhes o que era. Eles não só desconheciam por completo como nunca tinham reparado na estátua, apesar de já terem passado naquela linha de comboio inúmeras vezes. Fizeram uma pesquisa na net e ficaram a saber da existência de um Buda gigante no templo Togan-ji. Infelizmente acabei por não ter tempo de ir vê-la ao vivo e a cores, mas eles talvez se sintam tentados a ir lá dar uma espreitadela em breve.
A casinha deles era muito simpática. Pequenina, como ditam as regras - talvez 1/3 da minha casa (e ainda nos queixamos com falta de espaço...) - mas muito acolhedora. Um dos meus desejos antes de partir do Japão era experimentar a vida quotidiana de uma família japonesa numa casinha dos subúrbios e eles proporcionaram-me isso.
Oasis 21
Pela manhã serviram-me um típico pequeno-almoço japonês. Até então basicamente ou tinha comprado algo de véspera no supermercado ou  tinha ido a um café tomar um pequeno-almoço ocidental. Mas seria imperdoável regressar a casa sem provar um pequeno-almoço à japonesa. Por isso fiquei muito contente com a oferta. Comemos batata-doce, abóbora e cebola cozida com tomate cru e bebemos um chá japonês. Deram-me os parabéns por eu ter comido tudo sem queixas, mas depois apresentaram-me a "pièce de rèsistance" e disseram-me: "Se disseres aos japoneses que comeste legumes ao pequeno-almoço eles dir-te-ão "que bom para ti", mas se lhes disseres que comeste isto, vão-te respeitar toda a tua vida!". Olhei curiosa para uma caixa pequenina branca que me colocaram à frente e perguntei "O que é isto?". "Isto é natto!" basicamente consiste em feijão fermentado por bactérias, que se mistura com molho de soja e mostarda. Parte do gozo do consumo disto está na sua preparação, que deixa os feijões envoltos num molho filamentoso. O cheiro é... intenso e o sabor... bem... é exótico. Pensei em desistir ao primeiro contacto, mas decidi aguentar e comer tudo. Queria conquistar o respeito dos japoneses, ou pelo menos o do Daul e da Sayaka. Eles disseram-me que  tinha sido a primeira ocidental, dentre os vários a quem eles deram aquilo a provar, que tinha conseguido comer tudo até ao fim e sem caretas! Na verdade já provei coisas piores e além disso sou fã de coisas bizarras como tempeh, que eles desconheciam e que eu fiquei agora a saber que é por ser indonésio e não japonês como eu sempre julgara.
Teatro Noh
Em Nagoya não visitei muita coisa, porque na verdade já estava bastante cansada e não consegui esticar as horas do dia. Mas tive tempo de visitar o imponente castelo, passear pelos seus jardins e ver uma exibição lindíssima de bonsai. Passei pelo Teatro Noh, onde visitei uma exposição sobre esta arte e tirei umas fotografias com as famosas máscaras Noh. Quase não se nota que estou de máscara, pois não?
Gostava de ter visitado o  parque Tokugawaen, mas fechava muito cedo, pelo que fiquei a meio caminho em Sakae, onde  o Oasis 21, uma espécie de jardim suspenso futurista, me transportou a um sonho que tive há meses, sobre um lago no topo de um prédio com torres e arranha-céus em redor.
Vi o pôr-do-sol no porto de Nagoya e terminei o dia em Osu. Tinha mencionado ao  Daul e à Sayaka que gostava de ter visto a Cimeira Mundial de Cosplay que tem lugar em Nagoya, mas que tinha vindo na altura do ano errado. Eles disseram-me que se eu fosse a Osu talvez visse por lá alguns "personagens", que simplesmente gostam de se passear por lá sem nenhuma razão especial. Por isso fui espreitar Osu, que consiste num quadriculado de ruas, muitas delas cobertas, com um sem fim de bazares e lojas. Encontrei muitas lojas de figurinos anime e roupas bizarras como as que se usam em Tokyo, mas não encontrei nenhum cosplayer.
Porto de Nagoya
No meio deste emaranhado templo do consumo, encontrei um pequeno templo budista embutido entre lojas e banquinhas de fast-food japonesa. Um monge fazia orações frente a um altar e a três metros dele ouviam-se gritos de pessoas que vendiam todo o tipo de mercadorias fúteis e risos dos jovens que por lá se passeavam ruidosamente. Na minha mente surgiu a imagem de Jesus a irromper por ali adentro e a destruir as bancas dos vendedores, furioso pela falta de respeito por tal lugar tão sagrado e ri-me sozinha. Parece que os japoneses têm menos prurido com esta mistura entre o sagrado e o profano.
E pronto, lá tive que voltar a casa.