Thursday, September 07, 2006

Belle Bruxelles

Cá estou eu, em Bruxelas! Nem sei por onde começar a descrever tudo o que já se passou.
Talvez pelo início.
Tenho pavor de andar de avião, mas ao mesmo tempo sinto um fascínio enorme por voar, por isso a viagem foi um carrossel de emoções: a excitação da partida, o horror da descolagem, o fascínio por ver a minha casa tão pequenina lá em baixo, o pânico cada vez que o avião estremece e o deleite por ver a Bélgica lá em baixo, tão linda, à minha espera.
Como consta que é habitual, a Bélgica estava coberta de nuvens, portanto não vi muito do país quando estava lá no alto. Só tive oportunidade de ver os arredores de Bruxelas durante a aterragem, mas o pouco que vi, deixou-me deslumbrada: pastagens, parcelas agrícolas e florestais, num mosaico verde a perder de vista. As casas e estradas sempre harmoniosamente rodeadas pelo verde.
A cidade de Bruxelas não é propriamente um prado verdejante mas, pelo menos na zona onde habito, existem árvores nos passeios e todas as casas têm pequenos jardins floridos na sua entrada. A zona de escritórios é suja e cinzenta, mas o centro histórico é belíssimo.
Cheguei a meio da tarde, a Lena (minha colega de trabalho) foi-me buscar ao aeroporto e trouxe-me de imediato a casa. É um pequeno apartamento adaptado de uma cave, que não passa de um quarto com kitchenete e uma casa-de-banho, mas acho-o muito simpático. Tudo está como novo, pois o vizinho de cima, que não é o senhorio mas é a pessoa responsável pelo prédio, percebe imenso de electricidade e canalizações e mantém tudo a funcionar impecavelmente. Além disso a casa está localizada a 5 minutos a pé do escritório, numa avenida "bem" e tenho um supermercado, uma frutaria, a lavandaria e uma farmácia ao virar da esquina. Também tenho vista para o jardim do meu vizinho de cima e os dos vizinhos do lado. É um prazer abrir a janela e ver árvores enormes, arbustos de aromáticas e flores.
Hoje pela manhã fui ao escritório. Na minha secretária tinham um presentinho para mim, um guia de Bruxelas para 2006 e umas gomas e chocolates biológicos. Já os informei que não gosto de chocolate, o que para eles foi um choque, porque além de gostarem de os devorar sempre que possam, têm o hábito de beber um chocolate quente a meio da tarde. Para não ser desmancha-prazeres bebi um café para os acompanhar, mas arrependi-me disso, porque apesar de ter escolhido o mais fraquinho e na dose mais pequena, fiquei completamente cafeínada. Aquele café é uma bomba.
Hoje tive uma pequena reunião com o Marco (o chefão) que reviu comigo todas as questões relacionadas com o meu trabalho, uma pequena reunião com a Lena (a minha mentora) que me explicou o funcionamento da IFOAM e em particular do EU Group e uma pequena lição com o Stylakos (meu colega grego que irá embora em Outubro) sobre como fazer a agenda dos eventos das instituições europeias, que terei que preparar todas as 2ª feiras de manhã e enviar para todos os membros da IFOAM. Amanhã irei acompanhar o Marco no seu trabalho. Primeiro irei conhecer as futuras instalações do escritório (no final do mês iremos mudar para um maior e mais perto do poder, como os meus colegas dizem) e depois irei acompanhá-lo ao Parlamento Europeu, onde irei assistir a uma reunião. Ele diz que não é nada muito importante, mas que é uma boa ocasião para eu conhecer o ambiente.
Já trouxe um monte de papelada para ler em casa, por isso não posso escrever muito mais para ver se o leio ainda hoje.
Acrescento só que pela hora de almoço tive muita vergonha de não ser capaz de dizer duas palavras em francês, quando fui a uma loja de pronto-a-comer, mas acho que a culpa foi dos nervos, porque ao fim da tarde lá ganhei coragem e consegui falar um pouco com o meu vizinho. Meti os pés pelas mãos, mas ele entendeu o essencial. Diz que daqui a umas semanas já falo francês pelos cotovelos.

Wednesday, August 30, 2006

La psychologie

Já fui à sessão com a psicóloga. Durou 2 horas mas teria durado muito mais se eu não tivesse que interrompê-la para ir à aula de francês. A psicóloga parecia querer ouvir-me para sempre, porque esforçou-se imenso para que eu ficasse "só mais um bocadinho", "só mais um bocadinho"... Fiquei com a sensação de que aquela psicóloga estava a precisar de conversar com alguém...
Contei-lhe a traços largos a história da minha vida. No final achei que não valeu muito a pena, pois aquilo que ela me disse em conclusão, já eu tinha concluído sozinha: basicamente, que tenho tudo para me dar bem na vida, só tenho que continuar a esforçar-me para ultrapassar os meus receios e falhas, que são perfeitamente normais.
O único mérito desta conversa foi talvez o ter-me feito relembrar a minha maior falha por corrigir: a incapacidade de terminar projectos.
Desde miúda que inicio mil projectos, mas raramente termino algum. As desculpas que sempre arranjei para justificá-lo são variadas, mas todas se reflectem na perda de entusiasmo para prosseguir. Hoje percebo que a causa escondida é sempre a mesma: o medo de falhar.
O incentivo exacerbado que o meu paizinho me deu para ser "A Melhor", teve o efeito de me fazer duvidar constantemente das minhas capacidades intelectuais, da qualidade do meu trabalho, do interesse das minhas ideias, do meu valor como pessoa, ao ponto de eu preferir não fazer nada com receio de não ser suficientemente boa a fazê-lo. Nem mesmo abria a boca ao pé das pessoas pois julgava que o que quer que fosse que eu lhes dissesse soar-lhes-ia sempre ridículo.
Se eu tivesse 19 num teste, o paizinho "incentivava-me" a ter um 20 no próximo. Hoje sinto que se não tiver 20+ em tudo o que faço, mais vale estar quieta e como resultado perco sempre o entusiasmo a meio dos meus projectos e acabo por deixá-los pendentes ou por considerá-los um fardo e terminá-los às três pancadas.
É triste que pessoas que têm tanto para dar ao mundo tenham tanto medo de fazer, de se expressar, de arriscar, por falta de confiança em si mesmas.
Em Bruxelas não me posso dar ao luxo de não dar o meu melhor, porque disso depende o meu futuro a fazer aquilo que realmente gosto. Por isso vou esforçar-me mais do que alguma vez me esforcei, para me libertar desta prisão mental e trazer ao de cimo todo o meu potencial.
Se como eu és vítima de pais demasiadamente "bem-intencionados", tens toda a minha compreensão e solidariedade. Eu sei que vou conseguir ultrapassar isto e acredito que tu também :)

Wednesday, August 23, 2006

Chez moi c'est un bordel!

Estou a frequentar um curso intensivo de francês, na Cambridge School, no Campo Grande. Na Escola Secundária estudei francês 3 anos, mas como nunca o utilizei, não consigo falar grande coisa.
A professora é um espanto e as aulas são divertidíssimas. Além de aprendermos a falar bom francês, aprendemos também expressões de uso corrente que nunca nos passariam pela cabeça. "Chez moi c'est un bordel" significa simplesmente que a minha casa é uma confusão, que tenho tudo desarrumado. P-Q (pê-kiu), a designação vulgar de papel higiénico, corresponde às iniciais de "papier pour le qu" (acho que não preciso traduzir...).
Desde que frequento estas aulas (há 15 dias) já noto alguma evolução. Dou por mim a fazer listas de compras, a ver as horas, a pensar no dia de amanhã e até mesmo a praguejar em francês. C'est bon!