Monday, September 25, 2006

Ir com calma

Nota para os ecologistas não-vegetarianos (para evitar confusoes): eu não disse no post anterior que todos os ecologistas deveriam ser vegetarianos (embora não vos fizesse mal nenhum e só trouxesse bem ao mundo), eu apenas disse que deveriam pensar naquilo que põem no prato, assim como deveriam pensar em poupar luz e poupar água e separar os vossos resíduos. O que concluem dessa reflexão é com cada um, mas de certeza que vão mudar alguma coisa na alimentação e não tem que ser necessariamente tornarem-se vegetarianos: comerem mais vegetais e fruta, reduzirem substancialmente os produtos animais, comprarem mais produtos biológicos e locais, já são passos de gigante. Era a isso que eu me referia.

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Este fim-de-semana comecei a pôr em prática a política de "ir com calma".
No sábado de manhã dediquei-me às limpezas, porque ainda não tinha tido tempo de limpar esta casa desde que cá cheguei.
Depois de almoço adormeci no sofá, mas felizmente tinha ligado o alarme do telemóvel para me acordar, pois combinei com a Lena irmos à Welcome Fair no Autoworld, no Parc du Cinquantenaire. Era apenas um conjunto de bancas com informação aos "newcomers" de Bruxe1as. Como bónus, pudémos apreciar os carros antigos do Autoworld (museu do automóvel) e ver uma actuação dum grupo Gospel, mas para mim a visita valeu a pena pela quantidade de brochuras, folhetos e revistas que trouxe. Levei um saco grande, pois já esperava trazer muita papelada, mas nunca pensei que fosse assim tanta: 5 kilos de papel! Tive que vir directa para casa depois da feira, porque não aguentava andar a passear com aquele peso. Fiquei o resto da tarde e da noite a ler a literatura recolhida.
De tudo o que li, além de ter retirado imensa programação cultural que já coloquei na minha agenda e me vai ocupar durante os próximos meses, trouxe algumas brochuras propondo actividades físicas a preços modestos, das quais vou decididamente escolher uma.
Para o domingo tinha 5 coisas programadas na agenda: uma feira marroquina em St.Lambert-Woluwe, uma feira da Gasconha na Place du Grand Sablon, uma feira de produtos de design artesanais em Ste.Catherine, um mercado na Gare du Midi e uma ida ao cinema no Kinepolis, mas tive que (mais uma vez) chamar-me à razão e escolher apenas uma ou duas coisas para fazer.
Por questões de proximidade, escolhi a feira em St.Catherine e aproveitei para conhecer a zona e depois fui ao mercado na Gare du Midi, porque precisava mesmo de provisões e a Lena dissera-me que aquele era um bom mercado para comprar fruta e vegetais.
A feira de artesanato não era para a minha bolsa, mas o mercado na Gare du Midi decididamente tinha preços do meu agrado.
Encontram-se por lá verdadeiros negócios da China: 1 euro o kilo de pêssegos, maçãs, pêras, nectarinas ou 3 por ananazes! Um vendedor vendia caixas inteiras de legumes, com menos bom aspecto ou de "fim de coleccao" mas ainda perfeitamente bons, por apenas 1 euro. Escolhi uma caixa com: 1 couve, 1 ramo grande de salsa, 1 pimento-vermelho, 1 beringela, 2 batatas-doces, 3 alhos-francês, 1 rábano, 5 cenouras, 3 mini-courgettes e 1 enorme pepino. Eu queria trazer as caixas todas que ele lá tinha, mas já estava tão carregada que era impossível trazer mais alguma coisa. No final vim de lá com cerca de 10 kilos de fruta e vegetais, por menos de 10 euros.
Eu sei que volto sempre a falar disto, mas é que eu acho incrível como se pode viver por tão pouco em Bruxelas, se se souber onde estão as pechinchas! Pessoalmente, preferia comer biológico todos os dias, mas como ainda nao me posso dar a esse luxo, tenho que alternar biológico com baratezas. No entanto, há dias vi a referência a um estudo no Reino Unido que demonstrou que apesar de os produtos biológicos custarem em média 30% mais caro que os convencionais, quem tem uma allimentação biológica gasta menos 8% em alimentação que os que não a têm. Tenho que tirar isto a limpo, porque se assim for, eu quero experimentar para crer.
Como ando sempre tão carregada de compras, há dias pensei em arranjar um daqueles carrinhos que as senhoras levam ao mercado, mas hesitei por causa do preconceito de que é foleiro e acabei por comprar antes dois sacos de pano. Mas quando cheguei a casa com as mãos roxas e os braços doridos de carregar os sacos de compras e depois de ter visto a quantidade abismal de homens e mulheres de todas as idades e estilos, com o seu carrinho cheio de compras, na estação de comboios, na estação de metro, em todo o lado, decidi que tinha que deixar de ser tola e comprar um também. Em Bruxelas, usar carrinho para ir às compras não é foleiro, é mesmo uma necessidade.

Thursday, September 21, 2006

Cocktail

Hoje acompanhei o Marco a um cocktail de inauguração do novo escritório doutra organizacao com quem colaboramos. Ele não me deu quaisquer tipo de instruções em relação a indumentária, por isso fui com roupa normal. Nem hippie, nem formal, apenas calças e camisola, púrpura claros, normais - e que para os meus conceitos já seriam demasiado formais. Mas nunca me lembro que há conceitos estranhos na cabeça das pessoas, como o facto de considerarem o preto uma cor formal e portanto, mesmo que estejam de t-shirt e calças de ganga, se estes forem pretos, já consideram estar vestidos de forma formal. Portanto o que eu encontrei, basicamente, foi um funeral. Vinte a trinta pessoas todas vestidas de preto, nem por isso com roupas formais, apenas todos de preto. Vestida de púrpura dos pés à cabeça, não podia ter dado mais nas vistas. Senti-me logo extraterrestre.
Depois como não conhecia absolutamente ninguém, o Marco tentava integrar-me nas conversas que ele tinha com as pessoas, mas como ele tem 2 metros de altura, deve sentir algum apelo especial por falar pessoas com a mesma estatura, portanto vi-me rodeada de 3 ou 4 homens de 2 metros de altura que eu mal conseguia ouvir, pois as vozes deles nem sequer atingiam o meu rés-do-chão.
Então ofereceram-me canapés, mas eram todos de camarão, patés, queijos, coisas animais, pelo que eu perguntei se não teriam nada vegetariano. Lá havia umas rodelas de pepino com um molho qualquer por cima e eu arrisquei. Mas no meio do molho havia delícias-do-mar. Enfim, desisti de comer fosse o que fosse. Também por essa altura já não tinha fome nenhuma.
Sendo eles protectores de aves (nao digo qual é a organizacao, mas posso dizer que protege aves), fazia sentido que pelo menos aves não comessem, mas claro que eles só protegem as aves que não são boas para comer. Estranho sempre estes ecologistas, conservacionistas, que no momento de encher a barriga deixam imediatamente de se preocupar com a ecologia e a protecção dos animais. Mas claro que isto é uma questão complexa e eu estou a simplificar.
O Marco disse-me que quando chegou a Bruxelas era praticamente um hippie vegan e que agora come tudo o que lhe põem à frente e anda de fato e gravata, porque é muito difícil fazer lobby e ir a este e àquele cocktail, evento, jantar, etc, se não se alinhar com os hábitos irracionais das pessoas que estamos a tentar trazer para o nosso lado (embora ele diga que detesta ter de o fazer). Não é nada que eu já não soubesse quando vim para cá e vim disposta a experimentar esse teatro. Mas há limites até onde estou disposta a ir. Posso vestir-me mais ou menos como é esperado, fazer conversa da treta como é esperado, dar alguma manteiga como é esperado, mas não abdico da minha alma.
Sinto que estou a viver uma espécie de "My Fair Lady". O Marco viu qualquer potencial em mim e agora está a mostrar-me como ser uma "lady" para dar uso a esse potencial. Eu aceito até certo ponto essa transformacao, pois sinto que é benéfico para mim e quando vim para cá já contava com ela, mas há princípios dos quais não abdico. Não quero ser apenas mais uma qualquer vestida de preto, bebendo champanhe e comendo um camarãozinho, muito vermelhusca e a dar risadinhas porque o Comissário X me deu a honra de me dirigir uma palavra. Quero ser capaz de me integrar e deixar de me sentir um ET, mas quero manter a minha identidade.
Por exemplo, eu tenho a certeza que é possível fazer lobby e ser-se vegetariano, o Marco é que não se quis dar ao trabalho de ser firme nisso, quando as opcoes sao mais reduzidas. Afinal a cantina do Parlamento tem uma seccao de comida vegetariana. Deve haver deputados vegetarianos. E quando nao há comida especificamente dirigida a vegetarianos, arranja-se sempre algo vegetariano para comer, nem que seja arroz com salada.
Estive a observar o Marco uma boa parte do tempo e a pensar curiosa como seria ele há 3 anos atrás quando cá chegou. É que olhando para ele agora, parece que sempre fez isto.
Curiosamente, a Lena e o Stylanos comentaram comigo que ele só continua a ser rígido em relação ao álcool, que não bebe nunca. Pois, pois,... então eu assisti à queda do império, porque ao fim de 2 sumos de laranja, ele lá aceitou um champanhezito e depois disso perdi-lhes a conta. Quando me vim embora ele estava visivelmente... digamos que...animado ;) Eu só bebi sumo de laranja, cerca de 5 copos.
A noite estava a ser uma seca, até que conheci um amigo grego do Stylanos. É engraçado como o mundo é pequeno. Vieram os dois da Grécia e conheceram-se na Holanda, onde eram colegas na Universidade de Wagenigen e um dia mais tarde, por acaso, encontraram-se em Bruxelas, os dois a estagiar em organizações que colaboram entre si. E agora fui eu que tive a oportunidade de os conhecer em separado. Tivémos uma conversa animada de 1 hora até que eu lhe disse que tinha mesmo que me ir embora, porque já era tarde e porque eu já estava a ficar sem voz. Mas combinámos voltar a encontrar-nos, juntamente com o Stylanos, já que nos conhecemos todos e temos tanto em comum. Começo a gostar muito dos gregos, pelo menos os que são ecologistas, gostam de agricultura biológica e estagiam em Bruxelas ;)

Tuesday, September 19, 2006

Cansada mas feliz

Na 5ª feira à tarde comecei a sentir-me mal e ao fim do dia já não me aguentava em pé. Depois de uma reunião à qual não podia mesmo faltar, tive que ir para casa e pelas 19h já estava na cama a dormir.
Os sintomas que sentia eram os de uma gripe: febre, náuseas, fadiga, falta de força, dor de cabeça e de garganta. Decidi dar descanso absoluto ao organismo e dormi 14 horas.
Pela manhã já me sentia melhor, mas mesmo assim achei que era melhor ficar em casa para não ter uma recaída. A Lena disse-me que não fazia mal e concordou que eu precisava de descansar. O Marco também iria estar fora todo o dia e não teria tarefas urgentes para me dar.
No sábado já me sentia bem e o Stylanos passou por minha casa para me ajudar a montar a minha nova cama. Fiquei tão contente por finalmente poder arrumar a barafunda em que me encontrava e ter espaço para me mexer, que melhorei um pouco mais depois disso. Foi aí que pensei a sério que podia haver muito de psicossomático na minha doença súbita.
O rápido aparecimento e desaparecimento dos sintomas de gripe foram tão rápidos, que os meus colegas não acreditaram muito nesse diagnóstico inicial. Para eles estes sintomas foram apenas uma manifestação de exaustão do meu organismo. Acusaram-me de querer fazer demasiadas coisas num intervalo de tempo muito curto e que eu não podia continuar a viver àquele ritmo.
O factor vírus pode ou não ter entrado na equação, mas não faltaram outros factores que combinados podem ter levado a estes sintomas e nisso concordo com eles: o excesso de informação nova para assimilar, o calor extremo que se tem sentido e eu só com roupas de outono-inverno, a falta de rotina no meu dia-a-dia, a comida improvisada, o sono de má qualidade no sofá-cama, passeios e mais passeios, carregar compras e móveis até ficar de rastos, etc, etc.
No domingo a Lena tirou-me uma fotografia, mas eu estava com tão mau aspecto que nem a vou mostrar. Só então é que me apercebi do meu ar exausto, com umas olheiras 3 vezes piores que as habituais e uns papos debaixo dos olhos como se não dormisse há 3 noites.
Decididamente tenho que abrandar. Afinal vou estar cá um ano e ando a correr tudo como se só estivesse aqui a passar umas férias curtas.
Mas ainda não comecei a abrandar este fim-de-semana. Iam acontecer tantas coisas interessantes que eu não consegui simplesmente ficar em casa a descansar. Decidi abusar só um pouquinho mais de mim própria, mas juro que foi a última vez!
No sábado, encontrei outra feira da ladra - aqui há-as em todas as esquinas - três vezes maior que a da semana passada e percorri-a de fio a pavio. Comprei um ferro de engomar, uma varinha mágica, um candeeiro e uns sapatos, tudo pela módica quantia de 10 euros.
No domingo era o dia sem carros em Bruxelas e a Lena convidou-me para participar com ela numa série de actividades que iriam decorrer. Novamente ocorreu-me que devia descansar, mas como é que podia perder a oportunidade? Fomos ver Bruxelles Champêtre, uma espécie de feira de produtos agrícolas com animais da quinta e barraquinhas de todo o tipo de associações ligadas ou não à agricultura. Chegámos lá entusiasmadas, mas acabámos por achar aquilo deprimente. O Marché Biologique anunciado numa placa era afinal um grupo diminuto de barraquinhas que vendiam queijos e carnes grelhadas - aparentemente não produzem frutas e legumes biológicos na Bélgica. Lá havia uma barraquinha que vendia maçarocas de milho biológico na brasa, que comemos com agrado, mas nao havia mais nada de origem vegetal. As restantes barraquinhas da feira promoviam carne, leite e queijo e o "uso sustentável" de nitratos e outras patacoadas do género. Fascinante, portanto, para uma vegetariana e uma semi-vegetariana, adeptas de agricultura biológica. Trouxemos brochuras e panfletos, para tentarmos perceber se a agricultura belga é só isto ou se tem mais na manga que não estava ali representado.
A maioria dos animais em exposição estavam claramente a sofrer com aquela confusão. Uma vaca mugia em desespero e via-se claramente nos olhos dela que queria estar bem longe dali, enquanto dezenas de pessoas faziam fila para lhe tirar um pouco de leite. Uns porquinhos jaziam imóveis num canto, enroscados uns nos outros, tentando isolar-se do pesadelo em que estavam metidos e o seus corpos estavam cheios de arranhões e equimoses. Senti imensa pena dos bichos e repúdio pelo entusiasmo das pessoas em manipularem-nos como se fossem peluches, sem se aperceberem da inteligência e sensibilidade destas criaturas, que sofrem como nós a angústia de serem tratados como objectos.
Lá deixámos aquele sítio, que ao contrário do anunciado, mais parecia um circo que uma quinta e fomos até à Grand Place, pois a Lena disse que também lá estava a decorrer qualquer coisa. No meio de milhares de pessoas, encontrámos umas barraquinhas de vários grupos de Bruxelas, mas a confusão era tal e o interesse não era assim tão grande, que desistimos de as visitar e a Lena levou-me duas ruas abaixo, para eu conhecer o Manneken Pis. Chegámos mesmo no momento em que lhe mudavam a vestimenta e em que um grupo de tipos mascarados que estava na Grand Place, se dirigiu com pompa e circunstância até ao local da estatueta. O grupo entitula-se algo parecido com uma congregação dos amigos de Manneken Pis. Não sei qual é a história deles, mas à primeira vista era apenas um grupo de homens com fatos ridículos e grandes penachos na cabeça, a distribuir laranjas ao som de bombos. OK, deve haver um significado produndo por detrás disto e eu interrogo-me sobre qual seja. Vou ver se leio nalgum dos meus guias de Bruxelas.
Demos mais umas voltinhas, sem destino definido, só para vermos aquela gente toda sobre rodinhas, ruas abaixo, ruas acima, mas por fim decidimos separar-nos pois eu queria ir visitar uma feira medieval em Saint Denis e ela queria ir ver outra coisa qualquer.
Em Portugal nunca consegui ver nenhuma destas feiras, mas talvez tenha sido melhor ter-me guardado para esta, que já tem 10 anos de idade e me pareceu muito bem organizada. Comi um belo ravier des champignons grottes, que me deixou felicíssima por não ter gasto o dinheiro numa bugiganga qualquer que não me teria dado tanto gozo. Miam miam, eram mesmo deliciosos, quentinhos, picantes, com um belo molhinho e um paozinho cozido em forno de lenha, miam miam.
Cheguei a casa mais uma vez exausta, mas feliz e com 70 fotografias para descarregar da máquina fotográfica.
Entretanto prometi a mim mesma que vou arranjar uma rotina menos cansativa, em que possa passear aos fins-de-semana, mas com muito descanso à mistura, caso contrário ainda volto a adoecer e acabo por não aproveitar nada da minha estadia.