Tuesday, October 26, 2010

Kyoto

Em Tokyo não estava certa quanto a ir a Kyoto. Já tinha ultrapassado o meu orçamento previsto e a viagem extra iria sair caro, mas o Wen tinha-me convidado e o Leo também. Perguntei então ao Tengyo o que ele achava - se devia ficar em Tokyo o fim-de-semana ou ir a Kyoto e ele disse que sem dúvida devia ir a Kyoto. OK, ficou decidido.
Procurei ir de autocarro nocturno na noite de sexta feira, mas não consegui bilhete por diversas razões, pelo que tive que apanhar o Shinkansen (comboio rápido) na manhã seguinte.
Pavilhão Dourado
Tinha combinado por email encontrar-me com o Wen às 10h na estação de comboios (o telemóvel dele não funcionava no Japão - parece que só eu é que sabia que no Japão só funciona a rede 3G). Se não nos encontrássemos aí, o segundo encontro seria às 11h no hostel. Se mesmo aí falhasse, encontrávamo-nos no Pavilhão Dourado às 12h.
Esperei 40 minutos por ele na estação e nada. Fui para o hostel, tomei lá um pequeno-almoço tardio e por volta das 11h30 ainda não o tinha visto. Arranjei então um mapa de Kyoto e procurei a paragem do autocarro para me levar ao Pavilhão Dourado. Acontece que não tinha confirmado anteriormente a distância até ao Pavilhão e tarde demais percebi que não ia conseguir chegar lá até às 12h. Estava a pensar nisto quando uma rapariga que se dirigia à mesma paragem olhou para mim ao longe, parou e fez gestos e interjeições como se me conhecesse. Àquela distância não estava a ver quem seria, mas ao chegar-se vi que era a Rita, uma húngara que eu tinha conhecido em Nagoya. Mas o que raio se estava a passar no Japão nestes dias que eu estava sempre a encontrar-me com as mesmas pessoas? Rimo-nos com a coincidência de estarmos em Kyoto na mesma paragem de autocarro no mesmo momento e mais nos rimos quando concluímos que (tal como com o Wen em Nagoya), estávamos alojadas no mesmo dormitório no mesmo hostel! Quais as probabilidades de tal sucessão de acontecimentos acontecerem por acaso?
Quando lhe disse que ia ter com um amigo ao Pavilhão Dourado ela disse-me que eu não ia chegar a tempo - em nenhuma circunstância - porque estava na paragem de autocarro errada. Tinha seguido para Este em vez de Norte e não me apercebi que estava a afastar-me ainda mais.
Templo Toji
Lá dei por encerradas as tentativas de encontrar o Wen, mas continuei com esperança de que nos cruzássemos acidentalmente durante o resto do dia. Entretanto decidi juntar-me à Rita e fomos ao Pavilhão Prateado em vez do Dourado e de lá percorremos o Caminho do Filósofo, um percurso ao redor de Kyoto, ao longo de um ribeiro ladeado de chorões e cerejeiras (infelizmente não em flor nesta época do ano) e populado de templos e santuários - um pouco à semelhança de Takayama.
Ao fim do dia, no regresso ao hostel, lembrei-me novamente do Wen. Perguntei na recepção em que dormitório ele estava e deixei um recado na porta dele: se regressasse a horas decentes, para me bater à porta e sempre poderíamos conversar um pouco e talvez combinar melhor o dia seguinte. Só que estava tão cansada que às 22h já estava em pijama a dormir, tal como duas outras raparigas, incluindo a Rita. Todas nós acordámos com ele a bater à porta. Pedi-lhes desculpa e saí para o cumprimentar. Ele estava um bocadito assim para o bêbado. Perguntei-lhe quanto ele tinha bebido e ele disse umas 4 ou 5 cervejas ao longo do dia. Disse-me que tinha estado na estação à minha espera 45 minutos e que não me tinha visto e que depois falhou o hostel mas foi directo ao Pavilhão Dourado. É preciso azar. Mas seria por isso que se tinha metido nos copos?
Convidou-me para irmos ao bar no rés-do-chão, que fazia parte do hostel e eu aceitei. Ele perguntou se eu não queria mudar de roupa, mas eu estava preguiçosa e de qualquer forma  achei que seria giro ir em pijama e pantufas. Senti que ninguém mais se ia importar além dele, que parecia intimidado. 
Bebi um sake e ele outra cerveja, apesar de eu lhe ter dito que ele não precisava de mais. Tivemos uma conversa relativamente interessante sobre o Japão, a China e a Europa, planos de vida,,valores, amor, mas mais para o fim ele já não dizia coisa com coisa e achei que era hora de ir dormir. De qualquer forma à meia noite puseram-nos na rua - horários japoneses.
Na despedida ficou claro que no dia seguinte não íamos novamente passar o dia juntos, pois ao contrário do que ele me tinha dito, ele tinha que ir embora no domingo de manhã cedo e não ao fim do dia. Paciência, o sake em pijama já foi uma experiência suficientemente memorável do nosso encontro em Kyoto. E tinha sempre a Rita e o Leo (de quem me tinha entretanto esquecido) para me fazerem companhia no dia seguinte.
No dia seguinte a Rita decidiu ir a Nara, onde eu também adorava ir, mas achei que não fazia muito sentido sair já de Kyoto sem ter visto sequer uma geisha. Por isso fiquei. Mandei mensagem ao Leo para saber das andanças dele e logo por coincidência estávamos no mesmo castelo e com planos de ir aos mesmo locais a seguir, por isso encontrámo-nos e passámos mais um dia a fazer turismo juntos.
Vimos o Jardim Imperial, o Castelo de Nijo, o Pavilhão Dourado, entre outras vistas inesquecíveis. Terminámos o passeio no bairro de Gion, onde jantámos num restaurante indiano (por ele estar farto de comida japonesa) e bebemos um café num Starbucks (estão em todo o lado,..).Antes tinha visto passar um carro com um motorista conduzindo três geishas com um ar altivo e imponente. Tive pena de não irem a pé, mas teriam sido completamente engolidas pelas hordas de turistas que por ali circulam na esperança de as ver passar. Mais tarde vi uma outra - talvez fosse uma maiko (aprendiza) - que passou por mim muito discretamente numa ruela traseira pouco frequentada. Ela olhava para o chão, como que a querer tornar-se invisível e eu não fui capaz de ser indelicada e tirar-lhe uma fotografia. Já tinha tirado fotos à socapa das meninas vestidas de boneca, de um lutador de sumo no metro de Tokyo ou a senhoras nos seus kimonos, mas esta geisha ou maiko despertou em mim um respeito maior e não fui capaz de o fazer. Fiquei a pensar no fascínio que elas exercem sobre pessoas de todo o mundo.
Fiquei também a pensar que a vida delas é o equivalente glamouroso duma vida monástica. Vivem em quase reclusão, estudando arduamente anos a fio todo o tipo de artes e conhecimento geral, dedicam-se ao serviço aos outros, levam vidas celibatárias e de renúncia... É pena que tanta gente ainda pense nelas como uma espécie de prostitutas de luxo, porque estão bem longe de ser tal coisa.
Jardim Imperial
Quando estava cansada decidi voltar ao hostel. O Leon ficou em Gion, porque estava alojado aaquela zona Quando eu disse que estava na hora de ir, ele não tirava os olhos dum livro que tinha começado a ler furiosamente minutos antes. Primeiro achei "este tipo é mesmo desprendido, nem me liga nenhuma." Mas depois ele levantou os olhos do livro e estava quase marejado em lágrimas. Uau, também não esperava uma reacção tão emocional, apenas uma palavra atenciosa em como tinha sido agradável o tempo que passámos juntos. No dia seguinte deveria ter regressado a Nagoya, mas ainda havia tanto para ver em Kyoto que adiei o regresso para a noite e passei mais um dia por lá, desta vez sozinha.

Friday, October 22, 2010

Harajuku girl

O que fazer em Tokyo? Quando há tanto para ver e fazer e apenas dois dias disponíveis, como decidir o que é prioritário?
Um amigo tinha-me dito que fosse ao Parque Ueno e como ficava a 10 min de metro do meu hostel foi onde decidi ir em primeiro lugar. A entrada por onde cheguei ficava mesmo perto do Museu de Ciência e História Natural. Hesitei bastante quanto a visitá-lo, acho que fui à porta e voltei para trás umas três vezes. Estava na dúvida se era algo que eu queria mesmo fazer, encafuar-me em museus, ou se preferia caminhar no parque e seguir depois para outras bandas. Mas lembrei-me vagamente que o meu amigo me tinha-dito também que no parque havia um museu muito interessante. Não sabia se era este ou o de arte que ficava mais adiante, mas pensei "Que se lixe,  mesmo que seja chato, sempre posso dizer que visitei um museu em Tokyo, pelo que nunca será uma perda de tempo." Mas não foi chato, na verdade foi um dos melhores museus de história natural que já visitei, apesar da quantidade de bichos empalhados que lá há - ou talvez mesmo por isso. Toda a história natural e evolutiva está lá condensada e muito bem apresentada. Mas o melhor foi o cinema a 360º que lá está instalado. Sem entrar em grandes detalhes, o cinema consiste numa esfera gigante com uma ponte que a atravessa de um lado ao outro e a partir da qual vemos os filmes projectados em nosso redor e ficamos imersos dentro do filme. Na verdade é impossível ver o filme todo, porque tínhamos que ter uma visão a 360º. Mas o efeito é espectacular e tão realista que tive que me agarrar com força ao corrimão da ponte para não cair ao chão com as tonturas.
Um tipo ocidental com quem já me tinha cruzado na entrada, por outro lado não ligou muito aos filmes porque não tirou os olhos de mim. Tentei ignorá-lo e fora do cinema procurei trocar-lhe as voltas quando via que ele estava a tentar meter conversa comigo. Não me apetecia mesmo nada entrar em conversas e fazer amizades porque as companhias só nos atrasam quando andamos a fazer turismo e eu tinha pouco tempo. Mas ele foi mesmo persistente e lá houve uma ocasião em que simplesmente me barrou o caminho e me perguntou de onde eu era. Quando eu disse Portugal ele fez uma cara desanimada, que mais tarde ele me disse ter sido por julgar que eu não devia falar inglês suficiente para comunicarmos. Mas logo lhe passou  o desânimo quando comecei a falar fluentemente com ele. Chamava-se Leo, era americano de Seattle, saxofonista e informático. Visitámos o museu juntos e a conversa correu tão bem que acabámos por ficar amigos. E claro, eu tinha razão, demorei 3 horas a ver um museu que veria numa hora e o resto do dia não fiz mais nada do que tinha programado. Mas valeu a pena pelo que acabou por se suceder graças a este encontro. Falámos de tudo, desde ciência, biologia, evolução, guerra, religião, sonhos... Eram para aí umas 3h da tarde quando finalmente saímos do museu e concluímos que nenhum de nós tinha almoçado e que estávamos ambos esfomeados. Corremos os arredores do parque em busca de um restaurante mas só encontrámos uma pizzeria. Concordámos passar mais alguma fome, mas nem pensar em rendermo-nos à pizza no Japão! Até que numa pequena rua já a caminho da estação de comboio mais próxima, vimos o que parecia ser um pequeno restaurante japonês. Tinha uma porta de vidro de correr. Espreitámos lá para dentro e vimos uns quantos jovens japoneses sentado no chão em redor duma mesa, mas afinal parecia ser apenas uma pastelaria. Íamos já a virar as costas quando um japonesinho de ar adorável e chapéu na cabeça, sentado ao lado duma japonesinha de cabelo curto, nos fez sinal para entrarmos. Olhei para o Leo e o Leo olhou para mim, sem sabermos bem o que fazer, mas entrámos. O japonesinho convidou-nos a sentarmo-nos com eles, mas nós dissemos que estávamos mesmo com fome e a precisar de algo mais do que bolinhos. Ele riu-se e disse que nos podia levar ao sítio certo. Ele e a rapariga (que viemos a saber ser a namorada dele) levantaram-se, pagaram e saíram connosco. O nome dele era Tengyo e era um rapaz super cool, um pouco misterioso, com um inglês perfeito (o que é raro por aqueles lados) e um interesse genuíno em nos fazer sentir em casa. Senti fortemente que queria conhecê-lo melhor e pareceu-me que ele estava também particularmente interessado em conhecer-me a mim, o que podia ser apenas o meu ego a iludir-se, mas quando eu lhe disse que era portuguesa ele ficou absolutamente delirante. Disse-me que tinha estado em Portugal ainda não há muito tempo e que era fascinado pela cultura portuguesa. Eu ri-me e disse-lhe que eu por outro lado era fascinada pela cultura nipónica. O Tengyo revelou-se um fã de Camões e mencionou que esteve no Cabo da Roca, "onde a terra acaba e o mar começa". Falámos das semelhanças entre as nossas culturas, as ligações históricas e foi amizade à primeira vista. Ele deixou-nos à porta de um restaurante onde poderíamos encher a pança apesar de já serem 4h da tarde, trocámos contactos e ele pediu que por favor o incomodássemos nos dias seguintes pois ele estava disponível para nos fazer um tour por Tokyo. Eu prometi que o faria, o Leo também, mas só para parecer bem, porque depois não o fez.
Já no restaurante, um outro japonês com quem metemos conversa sugeriu-nos que fizéssemos um cruzeiro nocturno na baía de Tokyo. Achámos a ideia espectacular e depois de comermos fomos até ao cais de onde supostamente sairiam os barcos. Mas chegámos mesmo na hora de saída do último barco da tarde (a preços razoáveis) e já só sobrava o cruzeiro nocturno, cujo custo rondava os 7500 yens (perto de 70 EUR). Com muita pena, decidimos desistir da ideia. Despedi-me do Leo, trocámos contactos também e ele disse-me que iria passar o fim-de-semana em Kyoto. Eu respondi "Que coincidência, o meu amigo Wen também me convidou e estou a pensar ir". "Então vai e quando lá estiveres avisa". Na verdade ainda não tinha decidido completamente sobre a ida a Kyoto. Queria mesmo estar em Tokyo no domingo, quando os jovens se juntam no parque Yoyogi vestidos a rigor de bonecas, punks, personagens anime, etc. Mas já eram duas pessoas a convidarem-me a ir a Kyoto no fim-de-semana e eu achei que era demasiada coincidência.
Antes de regressar ao hostel decidi passar por Akihabara, que ficava apenas a uma estação de comboio de distância. Akihabara é famosa pelas lojas de electrónica mas também pelas lojas de anime e manga e tinha ouvido dizer que poderia lá dar de caras com algum pessoal do cosplay. Era dia de semana, pelo que as chances eram limitadas, mas fui na mesma. Encontrei várias meninas vestidas de "maids" a distribuir folhetos publicitários dos cafés onde trabalham assim vestidas (outra grande moda de Tokyo, principalmente entre os otaku [geeks] que gostam particularmente de ser servidos por estas "criadas"). A maior parte das lojas já estavam a fechar, mas ainda tive tempo de percorrer uma loja de manga e anime com 10 andares e passar por várias lojas de figurinos de anime e roupas de fantasia - tanto para cosplay como para outros fins mais...  digamos, íntimos. Quase comprei um desses fatos de criada, só por graça, mas aguentei-me, porque eram caríssimos.
Por fim, ainda encontrei uma loja que vendia as famosas bonecas japonesas para...  digamos... senhores que não arranjam namorada. Na montra só tinham as cabeças e fotografias do corpo inteiro. Mas fiquei mesmo curiosa em vê-las ao vivo e a cores. Não fosse a loja estar a fechar e eu tinha mesmo entrado. O facto de ser turista deu-me mais à-vontade para esse tipo de coisas: também entrei numa loja de hentai e os rapazotes que por lá andavam ficaram todos a olhar para mim, embaraçados e surpresos. Em Portugal teria tido vergonha de entrar num tal sítio, mas ali podia sempre armar-me em turista curiosa que não sabe bem onde está e morder o ambiente.
Akihabara
No dia seguinte mandei uma mensagem ao Leo para saber por onde ele andava, mas ele optou por ir ver o  famoso mercado de peixe em Tsukiji, algo que eu claramente dispensava e optei antes por ir ao templo Senso-Ji, à torre de Tokyo, entre outras paragens.
Tinha enviado uma mensagem ao Tengyo e ele respondeu sugerindo-me que nos encontrássemos no dia seguinte para um tour pelas zonas de Harajuku e Shibuya, que eu  tanto queria ver. O Leo não disse mais nada durante todo o dia, por isso não pensei mais nele. Encontrei-me com o Tengyo no dia seguinte na estação de Harajuku e lá fomos explorar esta famosa zona de Tokyo onde os jovens expressam a sua criatividade e excentricidade livremente. Confesso que me pareceu mais Ibiza que o Japão, não fossem as lojas de roupas estapafúrdias que só existem em Tokyo e que seriam consideradas péssimo gosto em qualquer outro sítio do mundo.
Ele levou-me a uma espécie de casa de artistas / galeria de arte, com a qual eu já tinha sonhado (o costume...). Ali tive que fazer uns testes de realidade, porque era tudo tão estranho que eu julguei estar outra vez naquele sonho. A casa é toda pintada por dentro e por fora com graffitis psicadélicos e apesar de ter poucas divisões no rés-do-chão, perdi-me do Tengyo, por entre as diversas ligações que há de sala para sala e do corredor e pátio interior para cada sala. Acabei por ir ao 2º andar procurá-lo e encontrei uma espécie de pequena loja de roupas de designer, mas não tinha a certeza se aquilo era de facto uma loja ou o quarto de um dos artistas. Às tantas estava a remexer nas roupas de alguém... Apareceu um casal de japoneses vestidos no melhor estilo clown-punk. Não faço ideia o que chamar ao estilo deles, mas clown-punk parece-me apropriado, pois por um lado vestiam-se de preto, com correntes, espigões e cabelos espetados, mas também usavam meias às riscas fluorescentes, pompons coloridos no lugar de botões, pinturas garridas na cara e saias de tule amarelo. É um dos estilos de street-wear de Tokyo e se alguém souber classificá-lo, agradeço a dica.
Em Harajuku
Eles sorriram mas não disseram uma palavra, pelo que eu saí e entrei no quarto ao lado. Não estou a brincar quando digo que acreditei seriamente estar a ter uma alucinação. Havia três raparigas sentadas em bancos, uma em cada canto do quarto. Eu estava de pé na porta no canto inferior esquerdo, ao meu lado direito no outro canto estava uma rapariga normalíssima de calças de ganga. No canto superior direito estava uma rapariga vestida de boneca, vestido cor-de-rosa, lacinhos, fitinhas, cabelo longo encaracolado, lábios vermelhos pequeninos e olhos gigantes pestanudos. E no canto superior esquerdo à minha frente estava outra rapariga meio punk, sem camisola, apenas de sutiã preto. O chão no meio de nós as quatro estava completamente coberto de balões de todas as cores, as paredes  cobertas de quadros psicadélicos e surrealistas cujo tema não consegui descortinar. E todas as três estavam completamente caladas, a ouvir  atentamente um guincho electrónico misturado com ruído branco, que saía de umas colunas invisíveis. Apertei o nariz para confirmar pela 3ª vez que não estava a ter um sonho qualquer absurdo e fiquei admirada quando percebi que não. Fiquei ali especada a olhar para elas, quando o Tengyo apareceu não sei de onde e me puxou pelo braço para seguirmos caminho. Perguntei-lhe se ele tinha visto o mesmo que eu e ele disse que sim, mas sem perceber porque é que eu tinha achado aquilo estranho. Afinal de contas estávamos em Harajuku
Depois desse episódio abstruso, entrámos numa loja de roupa em 2ª mão e o Tengyo revelou-se o melhor amigo não-gay que uma rapariga pode ter. Incentivou-me a experimentar roupas, esperou com toda a paciência do mundo, pediu-me que desse voltinhas para ver como assentava (sei o que estão a pensar...) , opinava sobre o que me ficava bem ou mal e acabou por me fazer comprar umas bermudas e uma écharpe, escolhida por ele, que segundo ele era simplesmente perfeita para o meu tom de pele e cabelo. Fartei-me de rir e disse-lhe que queria raptá-lo para o levar às compras comigo sempre que precisasse. Depois levou-me a uma loja de chapéus caríssimos, onde me incentivou a experimentar uma série deles. Divertimo-nos à grande a experimentar chapéus e a tirar fotos, até que os empregados já estavam todos a olhar para nós, a desincentivar-nos de o fazer, tipo "ou compram alguma coisa, ou param com isso."  Como última escolha peguei num chapéu vermelho que tinha a certeza me iria ficar a matar e o Tengyo ficou boquiaberto: "Uau, tens que comprar esse!", "Tás a brincar, custa 8000 yens!", "Fica perfeito!", "Pagas tu?". 
 Acontece que ele é professor, actualmente desempregado e não podia mesmo pagar, se não acredito que o teria feito. Depois seguimos a conversar sobre como é estar desempregado numa sociedade tão obcecada com a produtividade como é o Japão. Ele disse ter uma família compreensiva (na verdade os pais dele são noruegueses), mas que no geral é olhado como um inútil pelo resto das pessoas. Rimo-nos e brincámos com essas questões, comparámos países, reduzimos tudo ao absurdo. Lá pelo meio passámos no santuário Meiji, onde me vi apanhada no final de uma cerimónia de casamento japonesa - atravessando o pátio do santuário, a noiva de tradicional fato branco com capuz caminhava na frente, coberta por um gigante chapéu de sol vermelho que alguém atrás dela carregava, os familiares vestidos de preto ou de kimono seguiam-na em absoluto silêncio. O Tengyo abraçava uma árvore. Eu levitava ao nível da copa das árvores. Ou pelo menos assim me pareceu.
Shibuya
Terminámos o passeio em Shibuya onde ele me levou a um dos mais famosos centros comerciais de Tokyo,  o Sibuya 109, onde as japonesas afluem em massa, por entre roupas, maquilhagens, pestanas postiças, brilhantes, tules, criando um ambiente alucinante e barulhento. As funcionárias das lojas estão vestidas e produzidas de acordo com os cânones da moda de Tokyo e segundo o Tengyo me disse, são uma espécie de starlettes em Tokyo, admiradas por todas as jovens, que querem ser como elas. Tentei tirar fotos das meninas, mas elas disseram não e não. Ele disse-me que elas estão cansadas de ser objecto de curiosidade quer dos turistas quer dos próprios japoneses que as admiram, daí serem tão intolerantes a fotos.
Por fim atravessámos as famosas passadeiras de Shibuya. Fomos até ao Starbucks que fica num 2º andar directamente sobre o mundialmente famoso cruzamento e ficámos ali simplesmente a ver, a ouvir, a respirar, enquanto tomámos um chá. Ele próprio confessou nunca lá ter estado antes. Pediu-me para eu ficar no 2º andar e tirar-lhe uma foto lá em baixo perdido na multidão. Ele queria saber se seria capaz de desaparecer na multidão ou, nas palavras dele "ser apenas mais um deles". Concluímos que sim, que mesmo ele pode ser apenas "mais um deles", mas não para mim.  ^_^

Tuesday, October 12, 2010

Tou-aqui-yo!

Estou em Tokyo. Aterrei directamente em Shinjuku, a estação de comboio e metro mais movimentada de Tokyo, logo, possivelmente do mundo! É a famosa estação em que, nas horas de ponta, uns senhores  simpáticos empurram as pessoas para dentro das carruagens para que fiquem bem compactadinhas.
Felizmente cheguei às 19h, mesmo no fim da hora de ponta e apesar de ter sido complicado movimentar-me no meio do mar de gente que àquela hora ainda circula, consegui bater o meu recorde pessoal de desenrascanço e em apenas meia hora tinha comprado bilhete, encontrado a linha de comboio e apanhado o comboio certo para chegar ao hostel, sem ter pedido ajuda a ninguém. Numa estação gigantesca como esta (cerca de 20 linhas de comboio e 5 ou 6 de metro) em que os mapas são um emaranhado de linhas, números e caracteres japoneses que deixam qualquer um de olhos em bico, 30 mins foi uma espécie de milagre. Lembro-me que em Londres demorei 10 minutos só para descobrir que linha de metro devia seguir. e a informação estava toda em inglês. Afinal, a experiência sempre serve para alguma coisa. Depois disto acho que posso conduzir naves espaciais e ir à Lua.
Vim de autocarro desde Takayama. Ficava muito mais barato que o comboio e só demorava mais uma hora, com a vantagem de que provavelmente ofereceu paisagens mais bonitas. Atravessámos várias montanhas, muitos túneis super inclinados (ainda nós dizemos mal do do Marquês!), passámos por rios e lagos azul turquesa e vimos as cores de Outono a instalarem-se. Como ontem dizia o Kenji: as cores estão a descer os montes. No topo já se vê tudo dourado e a meio das encostas convive uma sinfonia de laranjas e vermelhos com alguns verdes mais resistentes.
A cerca de duas horas de Tokyo vi finalmente o Monte Fuji e o meu coração palpitou mais forte. Eu julgava que as montanhas que tinha atravessado e que me acompanharam no horizonte durante todo o caminho, já eram enormes e imponentes, mas o Monte Fuji meteu-as a todos a um canto. Que monstro! Mas um monstro lindo, com o cume rodeado de nuvens de algodão doce.
Chegada a Tokyo, POW! Outro impacto profundo: a explosão de gente, os arranha-céus impressionantes e os néons que ofuscam a vista. Aquela Tokyo dos filmes na qual desejamos secretamente desaparecer por algum tempo para voltar a emergir como se tivéssemos voltado de outra dimensão. No momento em que saí do autocarro, desejei logo deixar-me levar pela corrente sanguínea de Tokyo, mas precisava mesmo de pousar as malas e tomar um duche.
A minha mãe perguntou-me numa mensagem se esta viagem não é a maior loucura. Curiosamente tudo tem fluido tão naturalmente que a maior parte das vezes nem me lembro que estou no Japão. Quando me relembro a mim mesma "Estás no Japão, pá!", nessas alturas penso de facto que é de doidos, mas fora esses breves momentos de hiper-consciência, ando por aqui como se fosse um passeio como outro qualquer.