Tuesday, August 23, 2011

Go Canucks!

Demorei mais de dois meses a escrever sobre a minha viagem ao Canadá. Já me perguntaram se não tenho nada a dizer ou se é segredo o que lá andei a fazer. Nem uma coisa nem outra, mas as recordações que trago são daquelas que se guardam mais do que se partilham e por isso desta vez tive que me obrigar a escrever, ao invés de correr para a escrita. Outra razão é que tenho tanto para contar que não consigo separar o que é importante do que é acessório.
O primeiro episódio desta viagem aconteceu ainda no aeroporto de Lisboa. Enquanto o avião se encaminhava para a pista e o comandante dava informações sobre o vôo, de repente ouvimo-lo dizer "ups!" e tudo ficou silencioso e às escuras. Segundos depois as luzes do avião voltaram a ligar-se, os motores voltaram a rugir e o comandante pediu desculpas, dizendo que tinha carregado no botão errado. Alguns passageiros riram-se a bandeiras despregadas, outros riram-se nervosamente, interrogando-se sobre se aquilo não seria sinal para voltarmos para trás. Mas aguentámo-nos todos estoicamente no avião e seguimos viagem, sem mais incidentes. 
O meu primeiro contacto com os canadianos teve lugar na chegada ao aeroporto de Heathrow, onde fiz escala. Um grupo de casais de meia-idade meteu-se comigo, aparentemente motivado por um instinto protector para com aquela menina que viajava sozinha entre continentes, quem sabe assustada e a precisar de apoio. Tinham estado de férias em Portugal e foram apenas os primeiros de muitos canadianos de meia-idade com que falei, que já tinham passado férias em Portugal. Não houve nenhum dentre eles que me dissesse que não conhecia o nosso país.
Uma vez que conheciam bem Portugal, queriam instruir-me sobre o Canadá, para que eu me sentisse em casa assim que lá chegasse, mas na verdade não me disseram nada de verdadeiramente útil que eu já não soubesse. Falaram até à (minha) exaustão sobre hóquei no gelo e desportos de inverno, como se a vida não fizesse sentido sem girar em torno disso. Confesso que me aborreceram com a sua atitude condescendente e vazio de ideias, mas encarei-o como uma oportunidade de conhecer os nativos e enriquecer a minha experiência.
À chegada a Vancouver fui recebida ainda no aeroporto por totens lindíssimos dos nativos das Primeiras Nações, cuja cultura e arte estariam omnipresentes nos dias seguintes - nas lojas de artesanato, nos totens do Stanley Park, no MOA (Museu de Antropologia). Já no exterior do aeroporto fiquei impressionada com a paisagem de montes nevados e um céu azul límpido.
Apanhei o SkyTrain para o centro da cidade, um misto de metro e montanha-russa. Não tem condutor, por isso podemos sentar-nos na primeira carruagem frente a uma janela panorâmica. Quando sobe e desce pontes e viadutos, parece uma montanha-russa e quando entra nos túneis, o efeito é hipnótico. Um simples passeio de SkyTrain e fiquei logo com a impressão que Vancouver seria uma cidade muito moderna e futurista.
No centro da cidade, fiquei alojada por alguns dias num hostel perto do Vancouver Lookout (torre panorâmica) e do Waterfront (frente ao porto de Vancouver, onde se situa o Canada Place). O porto tem uma paisagem fabulosa com as montanhas a norte, a ponte Lions Gate a noroeste e a zona de amaragem e descolagem dos hidroaviões que dali partem para paragens mais remotas.
Nos dias seguintes mudei-me para um hostel dentro do campus da UBC (University of British Columbia), que fica no extremo oeste da "península" de Vancouver, num mundo muito próprio e à parte. O caminho de autocarro até lá demora uma boa meia hora, por uma de várias avenidas paralelas alternativas, todas elas pejadas de lojas de 2ª mão, livrarias comunitárias, supermercados biológicos e esse tipo de coisas. Obviamente isso fez-me descer do autocarro umas quantas vezes e demorar-me mais uma quantas horas a chegar ao destino.
A oferta no mais humilde dos supermercados era de se lhe tirar o chapéu: cereais, leguminosas, sementes, especiarias e tudo o mais que se possa pensar - sementes de cânhamo, bagas goji, stévia - avulso e a preços imbatíveis. Eu e a Isabel (que apareceu alguns dias depois) queríamos encher as malas com quilos e quilos de mercearias e produtos naturais, mas tivémos que fazer escolhas inteligentes. A minha mala já estava carregada de livros em 2ª mão e roupa quente adquirida com urgência no Salvation Army.
O campus da UBC é percorrido por três linhas de autocarro, tem dezenas de restaurantes, supermercados, farmácias, museus, uma sala de espectáculos, parques lindíssimos, um jardim botânico, percurso em pontes suspensas pelo bosque, uma quinta e floresta escarpada em toda a frente para o mar, com raros caminhos de acesso a praias quase secretas. O jardim das rosas fica num terraço lindíssimo com vista sobre o Estreito de Geórgia e as sempre presentes montanhas no horizonte - fiquei lá sentada a olhar o horizonte, até ter os ossos gelados. A praia também me cativou, pura e agreste, águas geladas e límpidas e um areal cinzento salpicado de troncos de árvores caídas.(a saga Twilight serve novamente como referência). Apesar das temperaturas abaixo dos 15ºC - e eu enrolada num cachecol a tiritar - magotes de canadianos faziam nudismo deitados na areia.
Tinha esperança de dar um pulo à Grouse Mountain e ver uns ursos grizzlies, mas não deu para tudo. Em jeito de compensação vi águias, lontras, veados, guaxinins e avisos de coiotes - infelizmente não os coiotes em si. Não encontrei coiotes nem mesmo na floresta ou na quinta da UBC, aonde parece que são comuns, mas de qualquer forma os encontros com eles são de evitar. Acho que nunca tinha estado num sítio onde a natureza ainda é tão selvagem e tão imponente. Percebi que tenho andado sempre num certo circuito de países e cidades demasiado humanizados e "limpos" de natureza. No Canadá senti-me mais conectada à Terra e com todos os sentidos mais alerta. Nalguns pedaços de floresta, entrei mesmo numa dimensão mais mística e senti arrepios na espinha quando tive visões do que pareciam ser os espíritos da floresta. Estavam zangados e eram ameaçadores. Talvez por sentirem a pressão do avanço das cidades dos homens, estavam prontos a ferrar garras e dentes em quem por ali se aventurasse. Mas eu mostrei-lhes que vinha por bem e eles alargaram o cerco. No entanto podia sentir os seus olhos cravados em mim e os dentes arreganhados sempre perto do meu pescoço. Compreendo melhor os cuidados dos índios em não perturbar estes espíritos. não era por sentimentos de compaixão e nostalgia, como aqueles que hoje em dia nos movem para a preservação da natureza, era o medo genuíno das consequências de ter estes espíritos irados com eles. Hoje estamos ao nível destes deuses no nosso poder de manipular o mundo, por isso não precisamos mais de nos preocupar com as inimizades que criamos, mas falta-nos a sabedoria para usar esse poder de forma correcta e isso vai ser o nosso fim.

Andei pelos lados do Vanier Park e vi parte da Granville Island, mas só de passagem. De qualquer forma foi onde vi os primeiros avisos de coiotes e algumas das primeiras paisagens mais cativantes, mas estava de chuva e não prolonguei o passeio.
No último dia estive no Stanley Park, um paraíso verde de 400 hectares, com acesso pela baixa de Vancouver. Nesse dia tive sorte com o tempo, não choveu e em certa altura o sol até apareceu. Mas tinha comido um iogurte grego que uma amiga me deu e como resultado precisei de correr para a casa-de-banho a cada 5 minutos. Quando me embrenhei mais para o centro do parque para ver o lago dos castores (infelizmente nada de castores), deixei de ter casas-de-banho por perto. Então tive que recorrer à boa velha natureza e a uns arbustos mais densos como casa-de-banho. Nem aí apareceram os coiotes, apenas uns esquilos mais curiosos.
Em Vancouver propriamente dita, fiz incursões quase diárias para conhecer os cantos à casa. Desta vez não havia subterrâneos a visitar. Além do Waterfront, há o bairro antigo de Gastown com lojinhas pitorescas e vibrante vida nocturna; a Chinatown, onde fui várias vezes e onde gostei particularmente do jardim chinês; e as avenidas centrais da baixa, como a Howie e a Seymour - onde se concentram as montras que os hooligans do hóquei do gelo gostam de partir e que também merecem umas caminhadas.
Há uma zona a Este da baixa e de Chinatown, que não é nada recomendável. Infelizmente, eu só soube disso depois de lá ter ido parar acidentalmente. Estava à procura duma rua onde existiria um mercado português mas acabei numa avenida pejada de centenas de toxicodependentes, pedintes e meninas da má vida. Parecia que de repente tinha entrado numa outra dimensão. Instantes antes tinha ali decorrido uma Feira da Ladra - que ali faz mesmo jus ao nome e não é recomendada às famílias - e ainda estavam ocupados a finalizar transacções, a arrumar os tarecos, pelo que quase nem deram por mim. Tentei sair dali o mais depressa possível, porque percebi que não era o sítio mais seguro para uma menina só andar a vaguear. Não gosto de julgar as pessoas sem um bom fundamento, mas senti-me insegura naquele sítio.
Outro dia fui novamente parar àquela zona quando procurava uma livraria comunitária alternativa e assisti a um negócio de droga a dois passos de mim no passeio. Um carro topo de gama estava encostado ao passeio pelo qual eu caminhava, um tipo atravessou a estrada a correr desde o outro lado e em dois movimentos muito rápidos recebeu um pacote dos chineses que estavam dentro do carro, entregou-lhes outro pacote e zarparam todos no segundo seguinte. Enquanto caminhava só pensava "que não comecem aos tiros. que nem reparem que estou aqui."
Na verdade, assisti a mais cenas to tipo das séries americanas em Vancouver, do que propriamente em Seattle. Mas estive mais tempo emVancouver, pelo que a minha experiência não pode ser considerada uma boa indicadora.
Mais tarde li sobre que a zona Este de Vancouver sofre de graves problemas sociais e que há décadas tem uma assutadora taxa de desaparecimentos de mulheres, que as autoridades não têm mostrado interesse em investigar. Nasceram movimentos de mulheres que denunciam a situação, criaram-se websites onde são divulgados os nomes e as fotos das desaparecidas e organiza-se uma marcha anual de chamada de atenção para o problema. Felizmente para mim, os raptos não são de turistas mas de mulheres locais, principalmente de prostitutas, jovens desamparadas e nativas índias. Em tempos parece que prenderam um homem que foi acusado da morte de umas quantas, mas centenas de casos permanecem por resolver e ele diz não ter nada a ver com eles.
Os canadianos têm fama de ser muito bem comportadinhos, civilizados e pacíficos e os americanos são os primeiros a gozar com isso em todas as ocasiões possíveis. No entanto, também têm os seus problemas de pobreza e criminalidade como qualquer outro país. É verdade que aparentam ser mais calmos e menos sanguíneos que os americanos, mas durante a minha estadia, alguns deles estiveram para partir a loiça toda. estava a decorrer o campeonato de hóquei no gelo e os Canucks de Vancouver perderam a final contra Boston. O termo "Canuck" é um nome depreciativo de origem incerta, para designar os canadianos, mas numa demonstração de bom humor e fair-play, os Vancouverites adoptaram-no para a sua equipa - algo que se esperaria deles. Mas este ano, quando perderam a final do campeonato, talvez por já haver algum descontentamento com outras questões e uma certa tensão social, alguns canadianos menos típicos deram origem a motins na baixa. Partiram montras e deixaram tudo de pantanas numa extensão de vários quarteirões através de várias avenidas.
Eu não estava na baixa quando aconteceu, mas dois dias depois quis ir ver os estragos causados. Tinha ouvido dizer que as pessoas estavam a deslocar-se até lá num movimento espontâneo de solidariedade com os lojistas afectados e para tentarem dizer ao mundo que eles não são assim. Havia bandeirinhas e posters, desenhos inspiradores, ramos de flores e quilómetros de frases de apoio escritas nos painéis de contraplacado que tapavam as montras partidas.
Antes mesmo de ir para o aeroporto, decidi dar um pulo a Richmond. Li algures que havia por lá um mosteiro e templo tibetanos, à imagem e semelhança de um que existe na India. Demorei horas a chegar lá, porque as distâncias no mapa são enganadoras e eu julgava que uma vez em Richmond, conseguiria lá ir ter a pé, quando na verdade tive que apanhar uns três autocarros para lá chegar. Esperei tempos infinitos na beira de estradas em bairros suburbanos, debaixo de um sol abrasador, até que me lembrei que tinha comigo um chapéu de mountie que tinha comprado para o Pedro. Os autocarros não vieram mais depressa, mas pelo menos suportei melhor o calor e mantive-me animada com as reacções das pessoas que passavam a pé ou de carro. Presumo que não estejam habituadas a ver o chapéu de mountie fora do seu contexto; presumo que fosse o equivalente a nós vermos uma miúda à beira da estrada vestida de civil com um chapéu da GNR na cabeça - de facto parece despropositado.
A 4th Street, onde ficava o templo, estava afinal pejada de templos: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas e critãos de várias espécies. Achei bonito como todos eles se alinhavam lado a lado, convivendo pacificamente. Aquela rua deveria ser um monumento à tolerância religiosa! Até que passei por uma igreja evangélica que tinha um cartaz bem grande à entrada onde se lia algo como "No matter what others tell you, only Jesus Christ can save you!". Lá se foi a tolerância religiosa... Algumas pessoas simplesmente não conseguem suportar as escolhas e pontos de vista dos outros e se andam entre eles, é só para poderem recrutá-los para o seu lado.
Chegada finalmente ao templo budista que eu procurava, infelizmente já estavam a fechá-lo para almoço, mas perante o meu ar desanimado, um Lama mais novinho veio falar comigo e acabou por me convidar a almoçar com eles. Foi uma experiência bizarra entrar num salão cheio de monges tibetanos, usando um vestido justo de decote acentuado e segurando um chapéu de mountie na mão. Centenas de cabeças viraram-se para mim e quase juro que vi um ponto de interrogação no topo de cada uma. Tentei passar despercebida (como?) e sentei-me num cantinho onde encontrei uma senhora ocidental, que afinal vivia há longos anos no Nepal e sentia-se ali mais estrangeira do que eu. Rinpoche (o lama principal do mosteiro) estava para chegar naquela tarde, após longa ausência e havia um ambiente de excitação com o seu regresso e uma grande azáfama no templo com os preparativos para uma cerimónia que iria ter lugar à tarde. Depois do almoço deixaram-me estar no templo a assistir às preparações, mas não fiquei muito tempo ou acabaria por perder o avião. Eles não entenderam por que não fiquei. Para eles nada havia de mais importante naquele momento além da chegada de Rinpoche. Eu entendia perfeitamente, mas para mim a prioridade era voltar a casa.

Thursday, July 07, 2011

Sleepless in Seattle


Seattle, a terra da chuva, do Bill Gates, dos Nirvana, do Jimi Hendrix, do Bruce Lee, do "Grey's Anatomy", do "Frasier" e do Starbucks. (E da saga Twilight, ali tão perto.)
Não voei directamente para lá, porque o meu passeio aos States foi um mero desvio do meu destino principal que era o Canadá. Mas sobre isso escreverei mais tarde.
Há um ano atrás, quando conheci o meu amigo Leo no Museu de História Natural de Tokyo e ele me disse que era de Seattle, contei-lhe que tinha sonhado visitar Vancouver e Seattle quando não sabia sequer que as duas cidades ficavam tão perto. Nessa altura não tinha qualquer indício de que eu lá iria realmente, mas alguns meses depois surgiu a oportunidade de ir a Vancouver e pensei "Não posso deixar de dar um pulo a Seatlle!". E assim o sonho tornou-se realidade. Ah, mas o que deixa a cabeça a remoer é a questão: teria dado o pulo a Seattle se não tivesse sonhado com isso?
Infelizmente, o Leo não estava lá para me receber, porque no dia da minha chegada, partia ele para uma temporada no Hawaii. Parece que não estava escrito.
Em Seattle conheço também o Phil, um respeitável professor universitário que me tinha oferecido guarida mas que teve que recuar no convite, pois a família tinha vindo toda instalar-se na sua casa para umas festividades judaicas e eu tive que me amanhar.
Por questões logísticas, voei para Vancouver e de lá apanhei o Amtrak Cascades para Seattle no dia seguinte. A viagem foi extremamente agradável. A paisagem é soberba, com a linha de comboio ao longo da costa do Pacífico e das Cascades. [cadeia montanhosa que se estende do Canadá à Califórnia e que inclui o famoso vulcão Saint Helens a sul de Seattle]. O comboio, que é publicitado como sendo "european-style" consegue ser melhor que os nossos intercidades. Todos os lugares têm tomadas eléctricas para as electronicidades a que vivemos agarrados e há wifi gratuito no comboio. Experimentei partilhar a minha viagem em directo no Facebook e receber o feedback imediato do amigos, o que foi divertido, mas seria um desperdício se o fizesse a viagem toda. Após ter experimentado a gracinha, desliguei o computador e desfrutei da paisagem.
A minha viagem a terras do tio Sam estava a deixar-me um pouco nervosa. Eu tinha-me informado bem sobre a necessidade ou não de visto e tinha comigo uma declaração que supostamente me deixaria entrar sem grandes dificuldades, mas ouvira tantas estórias de pessoas "normais" impedidas de entrar nos States, que deixei alguma paranóia anti-big brother instalar-se.
Um dinamarquês num banco mais à frente descorria sobre as suas tentativas de entrada nos EUA. Esta seria a sua terceira vez. Na primeira vez ele não sabia que tinha de ter visto, declaração de isenção de visto ou o formulário I-94 correctamente preenchido e na segunda vez ele levava consigo o formulário certo mas mal preenchido. Estava esperançoso que desta vez iria conseguir, mas agora era eu que tinha dúvidas se conseguiria.
Após uma hora de viagem, anunciaram pelos altifalantes de que estávamos a 15 minutos da fronteira e que se precisássemos de ir à casa de banho ou ao bar, seria melhor despacharmo-nos, porque uma vez que os agentes da alfândega entrassem no comboio, era melhor não nos levantarmos ou fazermos qualquer movimento brusco. Diziam eles que os agentes não gostavam muito disso. O tom do aviso não me inspirou muita serenidade. Quanto mais nos aproximávamos da hora, mais me parecia que teria mesmo de ir à casa de banho. Até àquele momento, todos os americanos no comboio e especialmente o staff da Amtrak, tinham demonstrado ser nada menos que pessoas adoráveis e super afáveis, mas o meu pobre imaginário carregado de séries e filmes de Hollywood e clips sensacionalistas do Youtube, fez-me imaginar agentes musculados de óculos escuros, arma automática na mão, tasers prontos a disparar e cães de dentes arreganhados. Em vez disso, surgiram um rapaz e uma rapariga de ar doce, que inspecionaram o meu passaporte, sorriram-me e desejaram-me boa estadia. Haaaah... Só isso? De certeza que não querem saber quem sou, porque estou aqui, com quem me vou encontrar, o que estou a conspirar contra o vosso império? Parece que afinal a paranóica ali era só eu.
Cerca de duas horas e meia mais e chegava finalmente a Seattle. O sol brilhava, o que é uma sorte para aquelas bandas e a cidade estava particularmente animada e colorida.
O meu hostel ficava no cruzamento entre a Pike Street e a 1st Ave, numa zona altamente turística, frente ao Pike Place Market. Pike Place é uma espécie de coração pulsante da cidade. Vagueei por ali repetidas vezes, porque a oferta de coisas interessantes e exóticas era grande e merecia atenção. Gostei particularmente duma loja de livros usados na cave do Pike Place Market. O dono da loja recebeu-me com um "Where have you been all my life!???". Primeiro julguei que estaria no gozo, depois acreditei que era sincero quando começou a ler-me poesia, até que por fim percebi que aquela era mais ou menos a maneira como ele recebia todas as miúdas que lá entravam. Deu-me 21 anos e supôs que eu era de Israel. Apesar dessas falhas de julgamento, quase lhe dei um beijinho pelos livros fabulosos que ele lá tinha, especialmente a colecção gigantesca de sci-fi que enchia uns 2 corredores do chão ao tecto. Tinha acabado de chegar a Seattle e já começava a questionar-me sobre como iria levar para casa a montanha de livros que eu iria sem dúvida comprar.
Nesse dia almocei no mercado, num pequeno restaurante chinês de ar modesto, onde comi o melhor prato de tofu com algas e cogumelos da minha vida, carregado de pimenta preta e que me fez chorar baba e ranho durante meia hora. Para um cafézinho, procurei pelo famoso primeiro Starbucks do mundo, que supostamente ficaria em Pike Place, mas não o encontrei. Não estava indicado no mapa turístico e ninguém me dizia com rigor exactamente onde era - em cada esquina há um, como distinguir qual deles é o mais histórico? Às tantas desisti, afinal não sou assim tão fã de café que não possa viver sem ter ido à sua meca. Claro que agora me arrependo de não ter continuado à procura. É como ir a San Bernardino e não ver o primeiro MacDonalds ou ir a Roma e não ver o Papa! Seattle orgulha-se da sua febre por cafeína e tem um enorme negócio de copos em cerâmica com tampa de borracha, idênticos aos descartáveis do Starbucks, que os beberrões cafeínicos inveterados aviam continuamente ao longo do dia no café da esquina mais próximo. O sangue deles deve ser castanho.
No primeiro fim de tarde em Seattle acabei por ir para o hostel dormir com o sol ainda alto. Mas depois de 12 horas de sono, a maior parte do jet lag ficou sob controlo.
No dia seguinte o sol não apareceu, pelo que optei por ir fazer compras em vez de sightseeing. Tinha visto uma reportagem na net sobre Capitol Hill e a sua cultura alternativa, lojas vintage e gente gira e estava convencida de que iria lá encontrar algo com que me ocupar até o sol reaparecer. Passei por uma série de locais que tinha visto anteriormente em filme e sorri para mim mesma.
Tropecei numa famosa estátua de Jimi Hendrix e enquanto lhe tirava fotos, um universitário a caminho do "Community College" mesmo em frente, meteu-se comigo "Queres que te tire uma foto ao lado da estátua?". Primeiro disse-lhe que não, mas ele insistiu, garantiu que toda a gente quer, apesar de se fazerem rogados e eu acabei por aceitar a oferta embora não estivesse de facto a pensar no assunto. Ele perguntou-me de onde eu era e quando respondi Portugal ele fez uma cara que eu veria em muitas outras pessoas nos dias seguintes: cara de "Ohhhh, estou a ver! [Onde raio fica isso???]". Perguntou-me se eu sabia quem era o tipo da estátua, provavelmente na esperança que eu dissesse que não e ele pudesse dar-me uma liçãozinha e sair dali a sentir-se esperto. Respondi-lhe que era o Jimi Hendrix, com cara de "não é óbvio?" e ele pareceu perder todo o interesse em continuar a conversa.
Ao longo dos dias seguintes iria ouvir comentários deliciosos como "Ah, és de Portugal? E vens com alguma excursão da América do Sul ou sozinha?" ou "Gosto sempre de saber como é que as pessoas que vivem em países obscuros como o teu têm acesso à informação." ou "Oh, peço desculpa, já deveria saber falar espanhol melhor, mas ainda estou a aprender!". Os americanos são uns doces, mas o cliché da sua burrice em termos de geografia e história do mundo, é bastante sólido. Uma australiana confessou-me que mais grave era terem-lhe perguntado se ela tinha vindo da Austrália de comboio. Que não saibam onde é Portugal, um país pequenino e "obscuro", compreende-se, mas que não saibam o que é a Austrália...
De tarde fui convencida a fazer o tour guiado aos subterrâneos da cidade e como o sol teimava em não aparecer, túneis bolorentos e canos ferrugentos, parecia-me tão bom ou melhor do que estar à superfície. Talvez eu tenha um fascínio especial por andar debaixo do chão, tal como tenho por subir aos pontos mais altos, mas achei que valeu a pena a visita, mais não fosse pelas fascinantes histórias que o guia contou sobre Seattle: a corrida aos novos territórios, rivalidades na aquisição de terras, trapaças e negociatas sujas e menos sujas, puritanos versus libertinos, madeireiros e prospectores de ouro, o grande incêndio, a origem do termo "skid row" e a rocambolesca reconstrução que deu origem aos subterrâneos.
Depois disso e no dia seguinte, caminhei pelas ruas sem rumo, entrei em cada loja mais exótica ou alternativa que encontrei, encontrei um lindo jardim comunitário em Chinatown, visitei a biblioteca pública retorcida do mesmo arquitecto que a nossa Casa da Música, visitei o Volunteer Park e o Lake Union e subi ao Space Needle, a famosa torre panorâmica de Seattle. Lá em cima, outro cliché: Frank Sinatra e Billie Holiday em música de fundo, famílias espreitando pelos telescópios,  arranha-céus no horizonte e eu a sós com o vento... Não era o Empire State Building, mas era como se fosse e demasiadas referências cinematográficas cruzadas começavam a fazer curto-circuito na minha cabeça.
Ali em baixo ficava o EMP (Experience Music Project), um museu com um nome apelativo mas que me disseram só valer a pena se eu fosse maluquinha por rock. Não sou, mas também havia um museu de sci-fi acoplado que me estava a atrair mais que o rock. No final, o preço da entrada e o cansaço que sentia acabaram por sair vencedores. Na net o Carlos perguntava-me mais tarde se eu já tinha ido visitar a campa do Kurt Cobain. Ao investigar onde isso ficava descobri que não existe uma campa, porque ele foi cremado e as suas cinzas espalhadas no Viretta Park. As pessoas fazem lá romaria para lhe prestar homenagem, mas eu sinceramente não fazia questão disso. Através das minhas pesquisas fiquei no entanto a saber que o Kurt Cobain tinha um amigo imaginário chamado "Boddah", o que foi muito mais crucial, pois respondi assim à questão existencial mais profunda que afligiu toda uma geração de adolescentes: "Quem é o Boddah?".
Seattle não tem um verdadeiro metro, apenas um tram que circula num pequeno percurso subterrâneo, mas tem um sistema excelente de autocarros grátis, entre as 7h e as 19h, que percorre todo o centro da cidade. Não precisaria de ter gasto dinheiro em transportes, não fosse um daqueles azares da vida. No meu último dia em Seattle, entrei num autocarro às seis da manhã para ir apanhar o comboio de regresso ao Canadá. Estiquei uma nota de 20 dólares ao motorista para pagar a tarifa de 2 dólares, que àquela hora tinha que ser paga. O motorista indicou-me que devia metê-la na máquina automática de bilhetes. Para ter a certeza de não estar a fazer asneira, perguntei-lhe novamente se devia lá meter a nota e onde. Ele ajudou-me, indicou-me a ranhura, fiz tudo certinho, mas depois não saía nada, nem bilhete, nem troco. Passados uns segundos em suspenso, o motorista deu um berro "My god!!! What have you done!???". "Haaaa... Não sei. O que fiz eu??".  Parece que a máquina só aceitava o valor exacto e não dava troco e para cúmulo era impossível abri-la e o motorista não tinha dinheiro nenhum com ele. Apesar da acusação que ele me fez, penso que ele sabia ter mais culpa que eu pelo sucedido, por isso em prometeu tentar receber dos passageiros que entrassem até perfazer o valor que me devia. Logo por azar a maior parte das pessoas que entrou tinha passe e eu tinha que sair dali a apenas cinco quarteirões. Consegui recuperar 4 dólares. O resto do dinheiro foi donativo para melhorar o sistema de transportes de Seattle.
Uma úlltima estória de Seattle: no hostel onde fiquei, fui apanhada no meio de uma conversa entre uma rapariga japonesa e um rapaz americano na cozinha, enquanto preparávamos cada um o seu jantar. Ela dizia que era estudante de artes e que estava ali a trabalhar num projecto qualquer para o seu mestrado e ele dizia que era advogado mas farto da vida que tinha estava ali para se tornar pescador e embarcar rumo ao Alasca. Rimo-nos com agrado da estória dele e a japonesa disse "Ah, então estás só de passagem, és um viajante." Ele respondeu "Claro, mas também tu e provavelmente todos os que aqui estão. Somos todos viajantes. Se não o fôssemos, porque raio estaríamos em Seattle?"

Monday, June 06, 2011

A Peste de Buda

No momento em que escrevo isto, estou em Vancouver no Canadá, mas a semana passada estive na Hungria e devia escrever qualquer coisa sobre isso antes de passar ao próximo episódio.
Não conheço nenhum estereótipo sobre os húngaros e talvez por isso nada de especial me tenha saltado à vista no seu comportamento. Pareceram-me correctos e muito discretos. Reparei que apesar de muitos serem loiros de olhos azuis, têm quase sempre uma pele pigmentada e rude, como se fossem uma mistura de povo nórdico com povo cigano. Essa mistura parece revelar-se noutros aspectos: quase nunca me passaram recibos - ciganos!, mas em oposição até mesmo os taxistas são uns anjos a conduzir - nórdicos!
Estive em Budapeste, mas o meu destino principal era Debrecen. Debrecen é supostamente a segunda maior cidade da Hungria, mas tem apenas 200 mil habitantes e muito pouco para se ver, além duma igreja, uma universidade e um ou dois museus. Isso deu-me a ideia de que a Hungria é Budapeste e o resto é paisagem. Não quer dizer no entanto que a paisagem não seja bonita!
Budapeste é monumental, mas assim que chegamos aos subúrbios e seguimos para outras paragens, percebemos claramente que se trata de um país ex-comunista que ficou parado no tempo ali por volta dos anos 70.
O meu novo amigo espanhol Juan-Felipe entrou num frenesim de fotos, em delírio absoluto com cada comboio, estação ou pormenor totalmente retro que encontrávamos. Eu comentei que era giro para nós, que somos turistas e estamos ali de passagem, mas que quem lá vive e trabalha com certeza não tem uma visão tão romântica do seu país.
Mas voltando a Budapeste, do lado Este temos Peste, a baixa da cidade, com muito comércio e animação e o gigantesco Parlamento como edifício dominante. Do outro lado do rio, a Oeste, temos Buda, a zona de encostas cobertas de palácios e castelos e com vistas fabulosas sobre Peste. Perdi algum tempo a percorrer ambas as "cidades" a pé, mas para o topo da colina de Buda, subi no mais antigo funicular da Europa - nós chamar-lhe-íamos elevador.
Em Buda, num miradouro do palácio real, com vista sobre Peste
Lá em cima procurei visitar o Bastião dos Pescadores e a Igreja de Matias, dois monumentos famosos e imponentes. Comprei bilhete para ambos, mas enquanto que na Igreja o bilhete me serviu para entrar e ver as suas relíquias, no Bastião não encontrei entrada nenhuma. Depois de muitas voltas ao monumento e de voltas à cabeça, percebi que o bilhete afinal era apenas uma nota de agradecimento que dizia "Obrigada por ter contribuído para a preservação do Bastião dos Pescadores". Acontece que o monumento é ao ar livre e 99% dos turistas não paga "entrada" nenhuma, mas como eu não sabia disso e fui directa ao guiché, os húngaros enganaram-me! São espertos. Devíamos começar também a vender entradas para a Praça do Comércio e para os miradouros de Lisboa, era um negócio da China. Uns quantos turistas iam ficar chateados, mas dávamos-lhes um papel a dizer "Obrigada pela sua contribuição!" talvez com a fotografia duns portugueses sorridentes e a coisa passava.
O melhor de tudo em Buda(Peste) é o labirinto subterrâneo por debaixo do castelo de Buda. Vi logo que não era aventura para qualquer um, quando na entrada me cruzei com uma série de turistas americanos que diziam mal da vida por não terem conseguido ir além dos primeiros 100 metros do labirinto. O labirinto é uma das 7 maravilhas subterrâneas do mundo, tem cerca de 1500 metros de comprimento, é muito pouco iluminado e alguns troços são mesmo mantidos na escuridão total, obrigando-nos a recorrer às apalpadelas à parede e a guiar-nos através dum cordão que indica o percurso. Há muito tempo que eu não sentia aquele friozinho no estômago que ali teimou em insinuar-se. Estranhas figuras esculpidas espreitavam nas sombras, estranhos sons sussurravam das paredes e eu tinha que me lembrar constantemente que estava numa atracção turística sem perigo nenhum. Outras pessoas passavam por mim de vez em quando, mas talvez tivessem mais medo do que eu, porque desapareciam dali num instante.
O percurso levou-me através da evolução do homem numa espécie de caminhada iniciática: no primeiro troço ouviam-se batuques e vislumbravam-se pinturas rupestres nas paredes, seguiam-se nos troços seguintes as várias etapas da civilização humana e perto do final, viam-se fósseis de garrafas de Coca-Cola e impressões de laptops na rocha, simbolizando o fim da civilização. Havia ainda um último troço catalisador da auto-descoberta na escuridão, com espelhos surpresa e vórtices de luz. A cereja no topo do bolo era a projecção de um estranho filme-monólogo sobre o Diabo em Budapeste anunciando o fim do mundo.
Talvez por eu andar com ar de "quem procura a luz", fui constantemente abordada nas ruas de Budapeste e de Debrecen por testemunhas de Jeová e missionários vários. Rapazes e raparigas que eu julgava serem apenas nativos simpáticos, metiam-se comigo nos locais turísticos com perguntas da praxe "És de que nacionalidade? Estás a gostar da Hungria? O que é que já visitaste?", para quando eu estava já descontraída oferecerem-me um folheto qualquer sobre o fim do mundo ou pedirem-me que lhes tirasse uma foto para um pedi-paper religioso qualquer em que estavam a participar. Foi particularmente engraçado falar com duas meninas testemunhas de Jeová que me perguntaram se acredito em Deus, ao que lhes respondi ser budista e que era mais complicado do que uma resposta sim ou não. "Mas vocês adoram Buda como o vosso Deus?". Digamos que foi um desafio explicar-lhes que para os budistas não há necessidade de acreditar numa realidade última e que Buda não é um deus. Perante a cara de perplexidade das meninas, decidi calar-me, sorri e aceitei a brochura que tanto me queriam dar, sobre o "mito" da teoria da evolução.
Terminei o meu périplo húngaro ao lado do famoso mercado de Peste, numa loja de roupa em 2ª mão, onde cada quilo de roupa custava perto de 11 EUR. Acho que não consta dos roteiros turísticos, mas na minha opinião é uma experiência cultural completamente menosprezada. Voltei para casa com mais 2.5 kg de roupa do que a que levei para lá.