Demorei mais de dois meses a escrever sobre a minha viagem ao Canadá. Já me perguntaram se não tenho nada a dizer ou se é segredo o que lá andei a fazer. Nem uma coisa nem outra, mas as recordações que trago são daquelas que se guardam mais do que se partilham e por isso desta vez tive que me obrigar a escrever, ao invés de correr para a escrita. Outra razão é que tenho tanto para contar que não consigo separar o que é importante do que é acessório.
O primeiro episódio desta viagem aconteceu ainda no aeroporto de Lisboa. Enquanto o avião se encaminhava para a pista e o comandante dava informações sobre o vôo, de repente ouvimo-lo dizer "ups!" e tudo ficou silencioso e às escuras. Segundos depois as luzes do avião voltaram a ligar-se, os motores voltaram a rugir e o comandante pediu desculpas, dizendo que tinha carregado no botão errado. Alguns passageiros riram-se a bandeiras despregadas, outros riram-se nervosamente, interrogando-se sobre se aquilo não seria sinal para voltarmos para trás. Mas aguentámo-nos todos estoicamente no avião e seguimos viagem, sem mais incidentes.
O meu primeiro contacto com os canadianos teve lugar na chegada ao aeroporto de Heathrow, onde fiz escala. Um grupo de casais de meia-idade meteu-se comigo, aparentemente motivado por um instinto protector para com aquela menina que viajava sozinha entre continentes, quem sabe assustada e a precisar de apoio. Tinham estado de férias em Portugal e foram apenas os primeiros de muitos canadianos de meia-idade com que falei, que já tinham passado férias em Portugal. Não houve nenhum dentre eles que me dissesse que não conhecia o nosso país.
Uma vez que conheciam bem Portugal, queriam instruir-me sobre o Canadá, para que eu me sentisse em casa assim que lá chegasse, mas na verdade não me disseram nada de verdadeiramente útil que eu já não soubesse. Falaram até à (minha) exaustão sobre hóquei no gelo e desportos de inverno, como se a vida não fizesse sentido sem girar em torno disso. Confesso que me aborreceram com a sua atitude condescendente e vazio de ideias, mas encarei-o como uma oportunidade de conhecer os nativos e enriquecer a minha experiência.
À chegada a Vancouver fui recebida ainda no aeroporto por totens lindíssimos dos nativos das Primeiras Nações, cuja cultura e arte estariam omnipresentes nos dias seguintes - nas lojas de artesanato, nos totens do Stanley Park, no MOA (Museu de Antropologia). Já no exterior do aeroporto fiquei impressionada com a paisagem de montes nevados e um céu azul límpido.
Apanhei o SkyTrain para o centro da cidade, um misto de metro e montanha-russa. Não tem condutor, por isso podemos sentar-nos na primeira carruagem frente a uma janela panorâmica. Quando sobe e desce pontes e viadutos, parece uma montanha-russa e quando entra nos túneis, o efeito é hipnótico. Um simples passeio de SkyTrain e fiquei logo com a impressão que Vancouver seria uma cidade muito moderna e futurista.
No centro da cidade, fiquei alojada por alguns dias num hostel perto do Vancouver Lookout (torre panorâmica) e do Waterfront (frente ao porto de Vancouver, onde se situa o Canada Place). O porto tem uma paisagem fabulosa com as montanhas a norte, a ponte Lions Gate a noroeste e a zona de amaragem e descolagem dos hidroaviões que dali partem para paragens mais remotas.
Nos dias seguintes mudei-me para um hostel dentro do campus da UBC (University of British Columbia), que fica no extremo oeste da "península" de Vancouver, num mundo muito próprio e à parte. O caminho de autocarro até lá demora uma boa meia hora, por uma de várias avenidas paralelas alternativas, todas elas pejadas de lojas de 2ª mão, livrarias comunitárias, supermercados biológicos e esse tipo de coisas. Obviamente isso fez-me descer do autocarro umas quantas vezes e demorar-me mais uma quantas horas a chegar ao destino.
A oferta no mais humilde dos supermercados era de se lhe tirar o chapéu: cereais, leguminosas, sementes, especiarias e tudo o mais que se possa pensar - sementes de cânhamo, bagas goji, stévia - avulso e a preços imbatíveis. Eu e a Isabel (que apareceu alguns dias depois) queríamos encher as malas com quilos e quilos de mercearias e produtos naturais, mas tivémos que fazer escolhas inteligentes. A minha mala já estava carregada de livros em 2ª mão e roupa quente adquirida com urgência no Salvation Army.
O campus da UBC é percorrido por três linhas de autocarro, tem dezenas de restaurantes, supermercados, farmácias, museus, uma sala de espectáculos, parques lindíssimos, um jardim botânico, percurso em pontes suspensas pelo bosque, uma quinta e floresta escarpada em toda a frente para o mar, com raros caminhos de acesso a praias quase secretas. O jardim das rosas fica num terraço lindíssimo com vista sobre o Estreito de Geórgia e as sempre presentes montanhas no horizonte - fiquei lá sentada a olhar o horizonte, até ter os ossos gelados. A praia também me cativou, pura e agreste, águas geladas e límpidas e um areal cinzento salpicado de troncos de árvores caídas.(a saga Twilight serve novamente como referência). Apesar das temperaturas abaixo dos 15ºC - e eu enrolada num cachecol a tiritar - magotes de canadianos faziam nudismo deitados na areia.
Tinha esperança de dar um pulo à Grouse Mountain e ver uns ursos grizzlies, mas não deu para tudo. Em jeito de compensação vi águias, lontras, veados, guaxinins e avisos de coiotes - infelizmente não os coiotes em si. Não encontrei coiotes nem mesmo na floresta ou na quinta da UBC, aonde parece que são comuns, mas de qualquer forma os encontros com eles são de evitar. Acho que nunca tinha estado num sítio onde a natureza ainda é tão selvagem e tão imponente. Percebi que tenho andado sempre num certo circuito de países e cidades demasiado humanizados e "limpos" de natureza. No Canadá senti-me mais conectada à Terra e com todos os sentidos mais alerta. Nalguns pedaços de floresta, entrei mesmo numa dimensão mais mística e senti arrepios na espinha quando tive visões do que pareciam ser os espíritos da floresta. Estavam zangados e eram ameaçadores. Talvez por sentirem a pressão do avanço das cidades dos homens, estavam prontos a ferrar garras e dentes em quem por ali se aventurasse. Mas eu mostrei-lhes que vinha por bem e eles alargaram o cerco. No entanto podia sentir os seus olhos cravados em mim e os dentes arreganhados sempre perto do meu pescoço. Compreendo melhor os cuidados dos índios em não perturbar estes espíritos. não era por sentimentos de compaixão e nostalgia, como aqueles que hoje em dia nos movem para a preservação da natureza, era o medo genuíno das consequências de ter estes espíritos irados com eles. Hoje estamos ao nível destes deuses no nosso poder de manipular o mundo, por isso não precisamos mais de nos preocupar com as inimizades que criamos, mas falta-nos a sabedoria para usar esse poder de forma correcta e isso vai ser o nosso fim.
Andei pelos lados do Vanier Park e vi parte da Granville Island, mas só de passagem. De qualquer forma foi onde vi os primeiros avisos de coiotes e algumas das primeiras paisagens mais cativantes, mas estava de chuva e não prolonguei o passeio.
No último dia estive no Stanley Park, um paraíso verde de 400 hectares, com acesso pela baixa de Vancouver. Nesse dia tive sorte com o tempo, não choveu e em certa altura o sol até apareceu. Mas tinha comido um iogurte grego que uma amiga me deu e como resultado precisei de correr para a casa-de-banho a cada 5 minutos. Quando me embrenhei mais para o centro do parque para ver o lago dos castores (infelizmente nada de castores), deixei de ter casas-de-banho por perto. Então tive que recorrer à boa velha natureza e a uns arbustos mais densos como casa-de-banho. Nem aí apareceram os coiotes, apenas uns esquilos mais curiosos.
Em Vancouver propriamente dita, fiz incursões quase diárias para conhecer os cantos à casa. Desta vez não havia subterrâneos a visitar. Além do Waterfront, há o bairro antigo de Gastown com lojinhas pitorescas e vibrante vida nocturna; a Chinatown, onde fui várias vezes e onde gostei particularmente do jardim chinês; e as avenidas centrais da baixa, como a Howie e a Seymour - onde se concentram as montras que os hooligans do hóquei do gelo gostam de partir e que também merecem umas caminhadas.
Há uma zona a Este da baixa e de Chinatown, que não é nada recomendável. Infelizmente, eu só soube disso depois de lá ter ido parar acidentalmente. Estava à procura duma rua onde existiria um mercado português mas acabei numa avenida pejada de centenas de toxicodependentes, pedintes e meninas da má vida. Parecia que de repente tinha entrado numa outra dimensão. Instantes antes tinha ali decorrido uma Feira da Ladra - que ali faz mesmo jus ao nome e não é recomendada às famílias - e ainda estavam ocupados a finalizar transacções, a arrumar os tarecos, pelo que quase nem deram por mim. Tentei sair dali o mais depressa possível, porque percebi que não era o sítio mais seguro para uma menina só andar a vaguear. Não gosto de julgar as pessoas sem um bom fundamento, mas senti-me insegura naquele sítio.
Outro dia fui novamente parar àquela zona quando procurava uma livraria comunitária alternativa e assisti a um negócio de droga a dois passos de mim no passeio. Um carro topo de gama estava encostado ao passeio pelo qual eu caminhava, um tipo atravessou a estrada a correr desde o outro lado e em dois movimentos muito rápidos recebeu um pacote dos chineses que estavam dentro do carro, entregou-lhes outro pacote e zarparam todos no segundo seguinte. Enquanto caminhava só pensava "que não comecem aos tiros. que nem reparem que estou aqui."
Na verdade, assisti a mais cenas to tipo das séries americanas em Vancouver, do que propriamente em Seattle. Mas estive mais tempo emVancouver, pelo que a minha experiência não pode ser considerada uma boa indicadora.
Mais tarde li sobre que a zona Este de Vancouver sofre de graves problemas sociais e que há décadas tem uma assutadora taxa de desaparecimentos de mulheres, que as autoridades não têm mostrado interesse em investigar. Nasceram movimentos de mulheres que denunciam a situação, criaram-se websites onde são divulgados os nomes e as fotos das desaparecidas e organiza-se uma marcha anual de chamada de atenção para o problema. Felizmente para mim, os raptos não são de turistas mas de mulheres locais, principalmente de prostitutas, jovens desamparadas e nativas índias. Em tempos parece que prenderam um homem que foi acusado da morte de umas quantas, mas centenas de casos permanecem por resolver e ele diz não ter nada a ver com eles.
Os canadianos têm fama de ser muito bem comportadinhos, civilizados e pacíficos e os americanos são os primeiros a gozar com isso em todas as ocasiões possíveis. No entanto, também têm os seus problemas de pobreza e criminalidade como qualquer outro país. É verdade que aparentam ser mais calmos e menos sanguíneos que os americanos, mas durante a minha estadia, alguns deles estiveram para partir a loiça toda. estava a decorrer o campeonato de hóquei no gelo e os Canucks de Vancouver perderam a final contra Boston. O termo "Canuck" é um nome depreciativo de origem incerta, para designar os canadianos, mas numa demonstração de bom humor e fair-play, os Vancouverites adoptaram-no para a sua equipa - algo que se esperaria deles. Mas este ano, quando perderam a final do campeonato, talvez por já haver algum descontentamento com outras questões e uma certa tensão social, alguns canadianos menos típicos deram origem a motins na baixa. Partiram montras e deixaram tudo de pantanas numa extensão de vários quarteirões através de várias avenidas.
Eu não estava na baixa quando aconteceu, mas dois dias depois quis ir ver os estragos causados. Tinha ouvido dizer que as pessoas estavam a deslocar-se até lá num movimento espontâneo de solidariedade com os lojistas afectados e para tentarem dizer ao mundo que eles não são assim. Havia bandeirinhas e posters, desenhos inspiradores, ramos de flores e quilómetros de frases de apoio escritas nos painéis de contraplacado que tapavam as montras partidas.
Antes mesmo de ir para o aeroporto, decidi dar um pulo a Richmond. Li algures que havia por lá um mosteiro e templo tibetanos, à imagem e semelhança de um que existe na India. Demorei horas a chegar lá, porque as distâncias no mapa são enganadoras e eu julgava que uma vez em Richmond, conseguiria lá ir ter a pé, quando na verdade tive que apanhar uns três autocarros para lá chegar. Esperei tempos infinitos na beira de estradas em bairros suburbanos, debaixo de um sol abrasador, até que me lembrei que tinha comigo um chapéu de mountie que tinha comprado para o Pedro. Os autocarros não vieram mais depressa, mas pelo menos suportei melhor o calor e mantive-me animada com as reacções das pessoas que passavam a pé ou de carro. Presumo que não estejam habituadas a ver o chapéu de mountie fora do seu contexto; presumo que fosse o equivalente a nós vermos uma miúda à beira da estrada vestida de civil com um chapéu da GNR na cabeça - de facto parece despropositado.
A 4th Street, onde ficava o templo, estava afinal pejada de templos: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas e critãos de várias espécies. Achei bonito como todos eles se alinhavam lado a lado, convivendo pacificamente. Aquela rua deveria ser um monumento à tolerância religiosa! Até que passei por uma igreja evangélica que tinha um cartaz bem grande à entrada onde se lia algo como "No matter what others tell you, only Jesus Christ can save you!". Lá se foi a tolerância religiosa... Algumas pessoas simplesmente não conseguem suportar as escolhas e pontos de vista dos outros e se andam entre eles, é só para poderem recrutá-los para o seu lado.
Chegada finalmente ao templo budista que eu procurava, infelizmente já estavam a fechá-lo para almoço, mas perante o meu ar desanimado, um Lama mais novinho veio falar comigo e acabou por me convidar a almoçar com eles. Foi uma experiência bizarra entrar num salão cheio de monges tibetanos, usando um vestido justo de decote acentuado e segurando um chapéu de mountie na mão. Centenas de cabeças viraram-se para mim e quase juro que vi um ponto de interrogação no topo de cada uma. Tentei passar despercebida (como?) e sentei-me num cantinho onde encontrei uma senhora ocidental, que afinal vivia há longos anos no Nepal e sentia-se ali mais estrangeira do que eu. Rinpoche (o lama principal do mosteiro) estava para chegar naquela tarde, após longa ausência e havia um ambiente de excitação com o seu regresso e uma grande azáfama no templo com os preparativos para uma cerimónia que iria ter lugar à tarde. Depois do almoço deixaram-me estar no templo a assistir às preparações, mas não fiquei muito tempo ou acabaria por perder o avião. Eles não entenderam por que não fiquei. Para eles nada havia de mais importante naquele momento além da chegada de Rinpoche. Eu entendia perfeitamente, mas para mim a prioridade era voltar a casa.
O primeiro episódio desta viagem aconteceu ainda no aeroporto de Lisboa. Enquanto o avião se encaminhava para a pista e o comandante dava informações sobre o vôo, de repente ouvimo-lo dizer "ups!" e tudo ficou silencioso e às escuras. Segundos depois as luzes do avião voltaram a ligar-se, os motores voltaram a rugir e o comandante pediu desculpas, dizendo que tinha carregado no botão errado. Alguns passageiros riram-se a bandeiras despregadas, outros riram-se nervosamente, interrogando-se sobre se aquilo não seria sinal para voltarmos para trás. Mas aguentámo-nos todos estoicamente no avião e seguimos viagem, sem mais incidentes.
O meu primeiro contacto com os canadianos teve lugar na chegada ao aeroporto de Heathrow, onde fiz escala. Um grupo de casais de meia-idade meteu-se comigo, aparentemente motivado por um instinto protector para com aquela menina que viajava sozinha entre continentes, quem sabe assustada e a precisar de apoio. Tinham estado de férias em Portugal e foram apenas os primeiros de muitos canadianos de meia-idade com que falei, que já tinham passado férias em Portugal. Não houve nenhum dentre eles que me dissesse que não conhecia o nosso país.
Uma vez que conheciam bem Portugal, queriam instruir-me sobre o Canadá, para que eu me sentisse em casa assim que lá chegasse, mas na verdade não me disseram nada de verdadeiramente útil que eu já não soubesse. Falaram até à (minha) exaustão sobre hóquei no gelo e desportos de inverno, como se a vida não fizesse sentido sem girar em torno disso. Confesso que me aborreceram com a sua atitude condescendente e vazio de ideias, mas encarei-o como uma oportunidade de conhecer os nativos e enriquecer a minha experiência.
À chegada a Vancouver fui recebida ainda no aeroporto por totens lindíssimos dos nativos das Primeiras Nações, cuja cultura e arte estariam omnipresentes nos dias seguintes - nas lojas de artesanato, nos totens do Stanley Park, no MOA (Museu de Antropologia). Já no exterior do aeroporto fiquei impressionada com a paisagem de montes nevados e um céu azul límpido.
Apanhei o SkyTrain para o centro da cidade, um misto de metro e montanha-russa. Não tem condutor, por isso podemos sentar-nos na primeira carruagem frente a uma janela panorâmica. Quando sobe e desce pontes e viadutos, parece uma montanha-russa e quando entra nos túneis, o efeito é hipnótico. Um simples passeio de SkyTrain e fiquei logo com a impressão que Vancouver seria uma cidade muito moderna e futurista.
No centro da cidade, fiquei alojada por alguns dias num hostel perto do Vancouver Lookout (torre panorâmica) e do Waterfront (frente ao porto de Vancouver, onde se situa o Canada Place). O porto tem uma paisagem fabulosa com as montanhas a norte, a ponte Lions Gate a noroeste e a zona de amaragem e descolagem dos hidroaviões que dali partem para paragens mais remotas.
Nos dias seguintes mudei-me para um hostel dentro do campus da UBC (University of British Columbia), que fica no extremo oeste da "península" de Vancouver, num mundo muito próprio e à parte. O caminho de autocarro até lá demora uma boa meia hora, por uma de várias avenidas paralelas alternativas, todas elas pejadas de lojas de 2ª mão, livrarias comunitárias, supermercados biológicos e esse tipo de coisas. Obviamente isso fez-me descer do autocarro umas quantas vezes e demorar-me mais uma quantas horas a chegar ao destino.
A oferta no mais humilde dos supermercados era de se lhe tirar o chapéu: cereais, leguminosas, sementes, especiarias e tudo o mais que se possa pensar - sementes de cânhamo, bagas goji, stévia - avulso e a preços imbatíveis. Eu e a Isabel (que apareceu alguns dias depois) queríamos encher as malas com quilos e quilos de mercearias e produtos naturais, mas tivémos que fazer escolhas inteligentes. A minha mala já estava carregada de livros em 2ª mão e roupa quente adquirida com urgência no Salvation Army.
O campus da UBC é percorrido por três linhas de autocarro, tem dezenas de restaurantes, supermercados, farmácias, museus, uma sala de espectáculos, parques lindíssimos, um jardim botânico, percurso em pontes suspensas pelo bosque, uma quinta e floresta escarpada em toda a frente para o mar, com raros caminhos de acesso a praias quase secretas. O jardim das rosas fica num terraço lindíssimo com vista sobre o Estreito de Geórgia e as sempre presentes montanhas no horizonte - fiquei lá sentada a olhar o horizonte, até ter os ossos gelados. A praia também me cativou, pura e agreste, águas geladas e límpidas e um areal cinzento salpicado de troncos de árvores caídas.(a saga Twilight serve novamente como referência). Apesar das temperaturas abaixo dos 15ºC - e eu enrolada num cachecol a tiritar - magotes de canadianos faziam nudismo deitados na areia.
Tinha esperança de dar um pulo à Grouse Mountain e ver uns ursos grizzlies, mas não deu para tudo. Em jeito de compensação vi águias, lontras, veados, guaxinins e avisos de coiotes - infelizmente não os coiotes em si. Não encontrei coiotes nem mesmo na floresta ou na quinta da UBC, aonde parece que são comuns, mas de qualquer forma os encontros com eles são de evitar. Acho que nunca tinha estado num sítio onde a natureza ainda é tão selvagem e tão imponente. Percebi que tenho andado sempre num certo circuito de países e cidades demasiado humanizados e "limpos" de natureza. No Canadá senti-me mais conectada à Terra e com todos os sentidos mais alerta. Nalguns pedaços de floresta, entrei mesmo numa dimensão mais mística e senti arrepios na espinha quando tive visões do que pareciam ser os espíritos da floresta. Estavam zangados e eram ameaçadores. Talvez por sentirem a pressão do avanço das cidades dos homens, estavam prontos a ferrar garras e dentes em quem por ali se aventurasse. Mas eu mostrei-lhes que vinha por bem e eles alargaram o cerco. No entanto podia sentir os seus olhos cravados em mim e os dentes arreganhados sempre perto do meu pescoço. Compreendo melhor os cuidados dos índios em não perturbar estes espíritos. não era por sentimentos de compaixão e nostalgia, como aqueles que hoje em dia nos movem para a preservação da natureza, era o medo genuíno das consequências de ter estes espíritos irados com eles. Hoje estamos ao nível destes deuses no nosso poder de manipular o mundo, por isso não precisamos mais de nos preocupar com as inimizades que criamos, mas falta-nos a sabedoria para usar esse poder de forma correcta e isso vai ser o nosso fim.
Andei pelos lados do Vanier Park e vi parte da Granville Island, mas só de passagem. De qualquer forma foi onde vi os primeiros avisos de coiotes e algumas das primeiras paisagens mais cativantes, mas estava de chuva e não prolonguei o passeio.
No último dia estive no Stanley Park, um paraíso verde de 400 hectares, com acesso pela baixa de Vancouver. Nesse dia tive sorte com o tempo, não choveu e em certa altura o sol até apareceu. Mas tinha comido um iogurte grego que uma amiga me deu e como resultado precisei de correr para a casa-de-banho a cada 5 minutos. Quando me embrenhei mais para o centro do parque para ver o lago dos castores (infelizmente nada de castores), deixei de ter casas-de-banho por perto. Então tive que recorrer à boa velha natureza e a uns arbustos mais densos como casa-de-banho. Nem aí apareceram os coiotes, apenas uns esquilos mais curiosos.
Em Vancouver propriamente dita, fiz incursões quase diárias para conhecer os cantos à casa. Desta vez não havia subterrâneos a visitar. Além do Waterfront, há o bairro antigo de Gastown com lojinhas pitorescas e vibrante vida nocturna; a Chinatown, onde fui várias vezes e onde gostei particularmente do jardim chinês; e as avenidas centrais da baixa, como a Howie e a Seymour - onde se concentram as montras que os hooligans do hóquei do gelo gostam de partir e que também merecem umas caminhadas.
Há uma zona a Este da baixa e de Chinatown, que não é nada recomendável. Infelizmente, eu só soube disso depois de lá ter ido parar acidentalmente. Estava à procura duma rua onde existiria um mercado português mas acabei numa avenida pejada de centenas de toxicodependentes, pedintes e meninas da má vida. Parecia que de repente tinha entrado numa outra dimensão. Instantes antes tinha ali decorrido uma Feira da Ladra - que ali faz mesmo jus ao nome e não é recomendada às famílias - e ainda estavam ocupados a finalizar transacções, a arrumar os tarecos, pelo que quase nem deram por mim. Tentei sair dali o mais depressa possível, porque percebi que não era o sítio mais seguro para uma menina só andar a vaguear. Não gosto de julgar as pessoas sem um bom fundamento, mas senti-me insegura naquele sítio.
Outro dia fui novamente parar àquela zona quando procurava uma livraria comunitária alternativa e assisti a um negócio de droga a dois passos de mim no passeio. Um carro topo de gama estava encostado ao passeio pelo qual eu caminhava, um tipo atravessou a estrada a correr desde o outro lado e em dois movimentos muito rápidos recebeu um pacote dos chineses que estavam dentro do carro, entregou-lhes outro pacote e zarparam todos no segundo seguinte. Enquanto caminhava só pensava "que não comecem aos tiros. que nem reparem que estou aqui."
Na verdade, assisti a mais cenas to tipo das séries americanas em Vancouver, do que propriamente em Seattle. Mas estive mais tempo emVancouver, pelo que a minha experiência não pode ser considerada uma boa indicadora.
Mais tarde li sobre que a zona Este de Vancouver sofre de graves problemas sociais e que há décadas tem uma assutadora taxa de desaparecimentos de mulheres, que as autoridades não têm mostrado interesse em investigar. Nasceram movimentos de mulheres que denunciam a situação, criaram-se websites onde são divulgados os nomes e as fotos das desaparecidas e organiza-se uma marcha anual de chamada de atenção para o problema. Felizmente para mim, os raptos não são de turistas mas de mulheres locais, principalmente de prostitutas, jovens desamparadas e nativas índias. Em tempos parece que prenderam um homem que foi acusado da morte de umas quantas, mas centenas de casos permanecem por resolver e ele diz não ter nada a ver com eles.
Os canadianos têm fama de ser muito bem comportadinhos, civilizados e pacíficos e os americanos são os primeiros a gozar com isso em todas as ocasiões possíveis. No entanto, também têm os seus problemas de pobreza e criminalidade como qualquer outro país. É verdade que aparentam ser mais calmos e menos sanguíneos que os americanos, mas durante a minha estadia, alguns deles estiveram para partir a loiça toda. estava a decorrer o campeonato de hóquei no gelo e os Canucks de Vancouver perderam a final contra Boston. O termo "Canuck" é um nome depreciativo de origem incerta, para designar os canadianos, mas numa demonstração de bom humor e fair-play, os Vancouverites adoptaram-no para a sua equipa - algo que se esperaria deles. Mas este ano, quando perderam a final do campeonato, talvez por já haver algum descontentamento com outras questões e uma certa tensão social, alguns canadianos menos típicos deram origem a motins na baixa. Partiram montras e deixaram tudo de pantanas numa extensão de vários quarteirões através de várias avenidas.
Eu não estava na baixa quando aconteceu, mas dois dias depois quis ir ver os estragos causados. Tinha ouvido dizer que as pessoas estavam a deslocar-se até lá num movimento espontâneo de solidariedade com os lojistas afectados e para tentarem dizer ao mundo que eles não são assim. Havia bandeirinhas e posters, desenhos inspiradores, ramos de flores e quilómetros de frases de apoio escritas nos painéis de contraplacado que tapavam as montras partidas.
Antes mesmo de ir para o aeroporto, decidi dar um pulo a Richmond. Li algures que havia por lá um mosteiro e templo tibetanos, à imagem e semelhança de um que existe na India. Demorei horas a chegar lá, porque as distâncias no mapa são enganadoras e eu julgava que uma vez em Richmond, conseguiria lá ir ter a pé, quando na verdade tive que apanhar uns três autocarros para lá chegar. Esperei tempos infinitos na beira de estradas em bairros suburbanos, debaixo de um sol abrasador, até que me lembrei que tinha comigo um chapéu de mountie que tinha comprado para o Pedro. Os autocarros não vieram mais depressa, mas pelo menos suportei melhor o calor e mantive-me animada com as reacções das pessoas que passavam a pé ou de carro. Presumo que não estejam habituadas a ver o chapéu de mountie fora do seu contexto; presumo que fosse o equivalente a nós vermos uma miúda à beira da estrada vestida de civil com um chapéu da GNR na cabeça - de facto parece despropositado.
A 4th Street, onde ficava o templo, estava afinal pejada de templos: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas e critãos de várias espécies. Achei bonito como todos eles se alinhavam lado a lado, convivendo pacificamente. Aquela rua deveria ser um monumento à tolerância religiosa! Até que passei por uma igreja evangélica que tinha um cartaz bem grande à entrada onde se lia algo como "No matter what others tell you, only Jesus Christ can save you!". Lá se foi a tolerância religiosa... Algumas pessoas simplesmente não conseguem suportar as escolhas e pontos de vista dos outros e se andam entre eles, é só para poderem recrutá-los para o seu lado.
Chegada finalmente ao templo budista que eu procurava, infelizmente já estavam a fechá-lo para almoço, mas perante o meu ar desanimado, um Lama mais novinho veio falar comigo e acabou por me convidar a almoçar com eles. Foi uma experiência bizarra entrar num salão cheio de monges tibetanos, usando um vestido justo de decote acentuado e segurando um chapéu de mountie na mão. Centenas de cabeças viraram-se para mim e quase juro que vi um ponto de interrogação no topo de cada uma. Tentei passar despercebida (como?) e sentei-me num cantinho onde encontrei uma senhora ocidental, que afinal vivia há longos anos no Nepal e sentia-se ali mais estrangeira do que eu. Rinpoche (o lama principal do mosteiro) estava para chegar naquela tarde, após longa ausência e havia um ambiente de excitação com o seu regresso e uma grande azáfama no templo com os preparativos para uma cerimónia que iria ter lugar à tarde. Depois do almoço deixaram-me estar no templo a assistir às preparações, mas não fiquei muito tempo ou acabaria por perder o avião. Eles não entenderam por que não fiquei. Para eles nada havia de mais importante naquele momento além da chegada de Rinpoche. Eu entendia perfeitamente, mas para mim a prioridade era voltar a casa.


