Thursday, September 21, 2006

Cocktail

Hoje acompanhei o Marco a um cocktail de inauguração do novo escritório doutra organizacao com quem colaboramos. Ele não me deu quaisquer tipo de instruções em relação a indumentária, por isso fui com roupa normal. Nem hippie, nem formal, apenas calças e camisola, púrpura claros, normais - e que para os meus conceitos já seriam demasiado formais. Mas nunca me lembro que há conceitos estranhos na cabeça das pessoas, como o facto de considerarem o preto uma cor formal e portanto, mesmo que estejam de t-shirt e calças de ganga, se estes forem pretos, já consideram estar vestidos de forma formal. Portanto o que eu encontrei, basicamente, foi um funeral. Vinte a trinta pessoas todas vestidas de preto, nem por isso com roupas formais, apenas todos de preto. Vestida de púrpura dos pés à cabeça, não podia ter dado mais nas vistas. Senti-me logo extraterrestre.
Depois como não conhecia absolutamente ninguém, o Marco tentava integrar-me nas conversas que ele tinha com as pessoas, mas como ele tem 2 metros de altura, deve sentir algum apelo especial por falar pessoas com a mesma estatura, portanto vi-me rodeada de 3 ou 4 homens de 2 metros de altura que eu mal conseguia ouvir, pois as vozes deles nem sequer atingiam o meu rés-do-chão.
Então ofereceram-me canapés, mas eram todos de camarão, patés, queijos, coisas animais, pelo que eu perguntei se não teriam nada vegetariano. Lá havia umas rodelas de pepino com um molho qualquer por cima e eu arrisquei. Mas no meio do molho havia delícias-do-mar. Enfim, desisti de comer fosse o que fosse. Também por essa altura já não tinha fome nenhuma.
Sendo eles protectores de aves (nao digo qual é a organizacao, mas posso dizer que protege aves), fazia sentido que pelo menos aves não comessem, mas claro que eles só protegem as aves que não são boas para comer. Estranho sempre estes ecologistas, conservacionistas, que no momento de encher a barriga deixam imediatamente de se preocupar com a ecologia e a protecção dos animais. Mas claro que isto é uma questão complexa e eu estou a simplificar.
O Marco disse-me que quando chegou a Bruxelas era praticamente um hippie vegan e que agora come tudo o que lhe põem à frente e anda de fato e gravata, porque é muito difícil fazer lobby e ir a este e àquele cocktail, evento, jantar, etc, se não se alinhar com os hábitos irracionais das pessoas que estamos a tentar trazer para o nosso lado (embora ele diga que detesta ter de o fazer). Não é nada que eu já não soubesse quando vim para cá e vim disposta a experimentar esse teatro. Mas há limites até onde estou disposta a ir. Posso vestir-me mais ou menos como é esperado, fazer conversa da treta como é esperado, dar alguma manteiga como é esperado, mas não abdico da minha alma.
Sinto que estou a viver uma espécie de "My Fair Lady". O Marco viu qualquer potencial em mim e agora está a mostrar-me como ser uma "lady" para dar uso a esse potencial. Eu aceito até certo ponto essa transformacao, pois sinto que é benéfico para mim e quando vim para cá já contava com ela, mas há princípios dos quais não abdico. Não quero ser apenas mais uma qualquer vestida de preto, bebendo champanhe e comendo um camarãozinho, muito vermelhusca e a dar risadinhas porque o Comissário X me deu a honra de me dirigir uma palavra. Quero ser capaz de me integrar e deixar de me sentir um ET, mas quero manter a minha identidade.
Por exemplo, eu tenho a certeza que é possível fazer lobby e ser-se vegetariano, o Marco é que não se quis dar ao trabalho de ser firme nisso, quando as opcoes sao mais reduzidas. Afinal a cantina do Parlamento tem uma seccao de comida vegetariana. Deve haver deputados vegetarianos. E quando nao há comida especificamente dirigida a vegetarianos, arranja-se sempre algo vegetariano para comer, nem que seja arroz com salada.
Estive a observar o Marco uma boa parte do tempo e a pensar curiosa como seria ele há 3 anos atrás quando cá chegou. É que olhando para ele agora, parece que sempre fez isto.
Curiosamente, a Lena e o Stylanos comentaram comigo que ele só continua a ser rígido em relação ao álcool, que não bebe nunca. Pois, pois,... então eu assisti à queda do império, porque ao fim de 2 sumos de laranja, ele lá aceitou um champanhezito e depois disso perdi-lhes a conta. Quando me vim embora ele estava visivelmente... digamos que...animado ;) Eu só bebi sumo de laranja, cerca de 5 copos.
A noite estava a ser uma seca, até que conheci um amigo grego do Stylanos. É engraçado como o mundo é pequeno. Vieram os dois da Grécia e conheceram-se na Holanda, onde eram colegas na Universidade de Wagenigen e um dia mais tarde, por acaso, encontraram-se em Bruxelas, os dois a estagiar em organizações que colaboram entre si. E agora fui eu que tive a oportunidade de os conhecer em separado. Tivémos uma conversa animada de 1 hora até que eu lhe disse que tinha mesmo que me ir embora, porque já era tarde e porque eu já estava a ficar sem voz. Mas combinámos voltar a encontrar-nos, juntamente com o Stylanos, já que nos conhecemos todos e temos tanto em comum. Começo a gostar muito dos gregos, pelo menos os que são ecologistas, gostam de agricultura biológica e estagiam em Bruxelas ;)

2 comments:

NoKas said...

Olá! Em BXL mudar hábitos vegetarianos? Nã! Conheci muito mais vegetarianos aí do que cá. E todos vamos às mesmas festas, felizes e contentes, e há comida para todos os gostos, hábitos, conceitos, etc! :p Não vás nessa cantiga!

Quanto a ecologistas que não são vegetariano... terreno movediço e frágil! Eu não sou e não pretendo ser vegetariana. Mas isso não signifique que não lute por melhores hábitos alimentares, maneiras de explorar recursos mais "limpas", maneiras de criar animais mais "humanas", etc etc etc... Acho que se todos fizermos um pouco faremos a diferença. A mim faz-me mais impressão os ecologistas que não sabem reciclar! E que gostam das luzes das autoestradas belgas!

Olha, mas tens que me dizer onde é a tal loja de produtos biológicos gigante! Que mencionaste num post anterior!

Bjokas e boa sorte para os próximos cocktails (vai de barriguita cheia... é melhor)

I.Maia said...

Oi Nokas, sim tens razao em relacao aos ecologistas nao-vegetarianos, daí eu ter feito a ressalva de que esse é um assunto complexo e que eu estou a simplificá-lo. Depois podemos falar disso :) Quanto à loja bio, nao é gigante, é bem mais pequena que a Biocoop em Lisboa, mas parece que é a maior que se conhece por aqui - fica perto da Grand Place, mas nao sei a morada certa, depois digo-te. Bjinhos