Wednesday, November 12, 2008

Vi-me grega

No momento em que escrevo isto já estou sentadinha em Bruxelas, mas há poucas horas atrás ainda deambulava por Atenas. Não fui com muitas expectativas, pois já me tinha constado que o tamanho das minhas expectativas corresponderia ao tamanho das minhas desilusões, daí que a minha desilusão é moderada.
Gostei de visitar a Acrópole, a Ágora, o Museu Arqueológico de Atenas e a parte velha da cidade nas encostas da Acrópole, mas a cidade em si é feia, suja e os gregos não são propriamente parecidos àqueles das estátuas.
Na minha sincera opinião, acho que o Sócrates (o filósofo e não o engenheiro) ficaria muito desiludido se visse a Atenas de hoje. Pensaria "como é possível que esta gente se considere civilizada - pior ainda, se considere mais civilizada que no meu tempo!?" É deprimente ver que de uma civilização grandiosa, monumental, filosófica e democrática, evoluímos para uma (in)civilização comercial, engarrafada, adormecida e embrutecida. Atenas é bonita vista da Acrópole, porque não se vêem os detalhes, mas lá em baixo é uma selva.


O ambiente é caótico e temi pela minha saudínha cada vez que tive que atravessar uma passadeira. Mesmo nas avenidas movimentadas do centro da cidade, ou não existem semáforos para os peões ou mesmo quando existem, estarem lá é o mesmo que não estarem. Certa vez foi necessário que um grego mais expedito e conhecedor do sistema se metesse à frente dos carros com os braços abertos, caso contrário eu poderia ter ficado à espera todo o dia que os condutores me fizessem o favorzinho de parar ao sinal vermelho.
Ruas de sentido único? “Eh pá, mas o hotel fica já ali a 10 metros, não vou dar meia volta à cidade para entrar no sentido certo.”
Há engarrafamentos às 10 da manhã, às 15h da tarde, à uma da manhã... Disseram-me os amigos gregos que as pessoas saem a essa hora para irem tomar café (!)
Tive problemas com a comida logo desde o 1º dia. Caí na asneira de comer uma salada e muito queijo feta e andei com vómitos, diarreia e dores de estômago durante 4 dias. Daí para a frente só consegui beber água e comer alguma fruta só para não cair para o lado.
Tudo começou porque os meus anfitriões gregos andaram a passear-me pela feira Bio de Atenas por volta da hora de almoço. Eu já estava com fome e por isso aceitei que me levassem de banca em banca a provar as especialidades gregas. Queijo feta, queijo feta, mais queijo feta, azeite, mais queijo feta. Às tantas perguntei “Só têm queijo feta? Que outras especialidades têm?”. Feta com pimenta, outro queijo que não é feta mas que se fosse ia dar no mesmo e mais azeite e mais feta. "OK, ok, chega de feta, vamos comer qualquer coisa diferente!"
À uma e meia ainda andavam a mostrar-me as vistas e quando perguntei se íamos a algum sítio almoçar, olharam para mim espantados: ”Ah, mas queres comer agora?” Ya...?
Lá me levaram ao restaurante do centro de congressos – “Desculpe, mas só abrimos às 14h, tudo o que lhe podemos arranjar agora é uma salada”. “Às 14h??? Que restaurante é que só abre às 14h??? OK, venha de lá a salada, que eu recuso-me a conferenciar de barriga vazia.” Talvez o devesse ter feito, porque o mais provável é que a salada estivesse contaminada com microrganismos gregos para os quais eu não estava vacinada.
Os queridos amigos gregos diziam-me que as dores de estômago eram nervos, saudades de casa... Mas quem queriam eles enganar? Já lá vai o tempo em que isso me acontecia, agora estes sintomas só poderiam indiciar intoxicação alimentar. Finalmente lá se ofereceram para me levar ao hospital se eu quisesse, mas senti que isso seria ainda mais perigoso e optei antes por passar umas 12 horas de cama no hotel e beber muitos líquidos. Demorei uns 5 dias a recuperar totalmente, mas a verdade é que ao fim dessas 12 horas já estava suficientemente bem para sair e ver as vistas.
E será que os gregos primam pela simpatia e honestidade? Tive que mudar de hotel e pedi ao recepcionista que me chamasse um táxi pois eu estava fraca e adoentada e não conseguia meter-me a caminho do metro cheia de malas. Da central disseram que não se davam ao trabalho de me ir buscar para me levar uma distância tão curta. Disseram-me para ir para a rua e esperar que passasse um táxi. OK, eles até passam frequentemente, mas bolas, não há um bocadinho de compaixão por alguém que se sente em baixo? Perguntei se viriam se eu pagasse o dobro, o recepcionista encolheu os ombros e nem sequer lhes perguntou.
Na minha partida de Atenas acabei por ir de táxi até ao aeroporto, porque só a ideia de subir e descer metro, mudar de linha, etc, já me deixava de rastos. Quando cheguei ao destino o condutor pediu-me 27 EUR mas o taxímetro marcava 17 EUR. Ele balbuciou que não sabia meter no taxímetro as "outras coisas, como a taxa de bagagem, impostos...". Ya, claro, a "taxa de meter ao bolso"... Mas que podia eu fazer: era o táxi dele, a terra dele, as regras dele. Há que ter compaixão pelos seres humanos mesmo quando eles não têm por nós.
Ei, mas nem tudo foi mau! Pelo meio diverti-me. Assisti ao fim da famosa maratona no Stadium de Atenas, fui até ao porto de Pireu ver o pôr-do-sol, aprendi uns passinhos das danças tradicionais gregas, recebi um convite para voltar no Verão e visitar as ilhas gregas, um convite para ir a Chipre...
Para terminar falta-me referir os cães de Atenas. Devem ser as vacas sagradas lá do sítio, pois há um bem gordinho a dormir em cada esquina, saída de metro, porta de loja, entrada de monumentos... Por vezes é preciso cuidado para não se tropeçar num quando se vai mais distraído a ler um mapa.

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