Monday, October 11, 2010

Não me tirem daqui!

Gostava de poder ficar no Japão um ano ou dois ou (quem sabe) para sempre. Claro que ajuda o facto de eu ser naturalmente fã do Japão antes mesmo de cá ter metido os pezinhos, mas a sério... é fabuloso.
Tenho encontrado pessoas, incluindo japoneses, que não conseguem pensar numa única razão para se gostar do Japão. Eu cá acho que eles devem ter batido com a cabeça, mas gostos nao se discutem..
Estou maravilhada com a beleza, o bom gosto, as maneiras, o sentido de conforto e a limpeza que esta gente tem. Quero comprar o Japão todo, embrulhá-lo e levá-lo para casa!
Ao contrário do comummente aceite, o Japão não é assim tão caro. Depende. Por exemplo, após vários dias sem ver uma peça de fruta e quase nenhuns legumes, finalmente encontrei um supermercado com esses itens. Vendem uvas ao preço de mirtilos em Portugal. Fotografei uma caixa de uvas pretas que devia ter para aí meio kilo e custava o equivalente a 17 EUR. Uma maçã custava cerca de 1 EUR e as cenouras eram vendidas individualmente a cerca de 70-90 cts cada. Também procurei intensivamente pão com textura de pão e não a massa branca gelatinosa que eles comem como pao - e hoje finalmente encontrei pacotes de 3 fatias de pão de forma pelo preço absurdo de 1 EUR! Em compensação, o tofu, os cogumelos, as massas e todo o tipo de peixe são super-baratos. Ou seja, o que é caro é aquilo a que nós estamos habituados. Quem se adaptar à comida local, não terá dificuldades em comer barato. Hoje, por exemplo, comprei um pacote de cogumelos amarelos que soltavam uma espécie de baba ao serem cozinhados e fiz um jantar bastante gourmet por 2 EUR.
O alojamento pode ser caro, mas para quem não precisa de luxos, consegue-se dormir em sítios simpáticos por 20 EUR e mesmo menos. Comida nos restaurantes também pode ser cara - muitos sítios com pratos a quase 20 EUR - mas também há muitos onde se come bem por 5 EUR, É uma questão de saber escolher.
Os japoneses também não são avessos a coisas em 2ª mão. Parece que têm umas feiras da ladra muitos boas. Não sei se vou ter oportunidade de ver alguma, mas encontrei uma loja de kimonos em 2ª mão ao preço da chuva e aviei-me deles.
Este fim-de-semana que passou era impossível ficar em Nagoya, porque havia competição de fórmula 1 e todos - mesmo todos - os quartos e camas de Nagoya estavam reservados há semanas e eu não tinha onde dormir. Como me tinha sido recomendado o festival de Takayama que decorria precisamente nesses dias, decidi aproveitar a necessidade de dormir fora para sair mesmo de Nagoya.
Takayama
Escusado será dizer que valeu mesmo a pena. Takayama é lindíssima, rodeada por montanhas, cruzada por rios e pontes, com o seu centro histórico de casas antigas medievais, um percurso de templos e santuários budistas e xintoístas de tirar o fôlego e um festival colorido e tipicamente japonês que trouxe milhares de japoneses cá durante o fim-de-semana. Sim, porque 99% dos turistas no Japão são japoneses.
Não se vêem por cá muitos ocidentais e na verdade quando me cruzo com algum, quase que fazemos uma festa. Os que já cá estão instalados e integrados são os que fazem o ar mais surpreso, como se há anos não vissem um ocidental. Claro que isto sucede mais em locais "remotos" como Takayama.
Além de Takayama propriamente dita, visitei também os arredores. Um dos funcionários do hostel, o Kenji, leva os hóspedes de carro a visitar as redondezas, quando há inscritos suficientes para um determinado tour. Fomos visitar Shirakawago, que era exactamente o que eu tinha em mente visitar além de Takayama. Património mundial da UNESCO. Uma foto vale mais que mil palavras :)

Shirakawago
O Kenji conduziu todo o tempo em excelentes auto-estradas sem passar dos 90 km/h. Quando lhe perguntei se todos os japoneses conduzem devagar em todas as estradas, ele perguntou-me ingenuamente "O que queres dizer com devagar?" Tive que o esclarecer que em Portugal numa auto-estrada daquelas, os carros circulariam de 140 km/h para cima ao que ele exclamou incrédulo "O quê? Mas porque fazem isso?" Tão fofinho!
Amanhã parto para Tokyo. Depois disso para Kyoto. Este último destino não estava nos meus planos, mas como o mundo é mesmo pequeno, em Nagoya dei de caras com o meu amigo Wen (chinês)  que me fez alterar os planos. Conheci-o o mês passado na Bélgica. Na altura sentimos uma grande afinidade mas não tivemos tempo para conversar por causa do trabalho avassalador em que estávamos envolvidos e despedimo-nos com alguma tristeza. Quando nos vimos em Nagoya, apontámos um para o outro com os olhos esbugalhados e exclamámos em uníssono: "No way!", "No way!"
Concluímos que ele estava alojado na mesma Ryokan que eu. "No wayyyy!" Isso já era demasiada coincidência. Encontrámo-nos lá nessa noite, comparámos planos de viagem e agendámos uma ida a Kyoto, lá para o final desta semana. Foi-nos dada uma segunda oportunidade. Penso é que tenho que o esclarecer que não é suposto ser uma viagem romântica pois acho que ele tem esperanças que seja.

Thursday, October 07, 2010

Lost in jet lag

Tive uma série de sonhos em que estava num avião a caminho do Japão. Como estava cheia de sede e consciente de estar a sonhar, tentei acordar para beber água mas sempre que abria os olhos, dava comigo a reviver exactamente o mesmo sonho do princípio - nuns era de noite, noutros a luz entrava pelas janelas do avião, mas o cenário era sempre o mesmo e a sequência de acontecimentos também. Após 3 ou 4 tentativas de acordar ou pelo menos mudar de sonho para quebrar aquele "loop", tive um sonho em que finalmente bebi a minha água e acabei mesmo por aterrar no Japão... E ainda cá estou, com o ouvido interno a flutuar a 11.000 metros e com o relógio biológico a dizer-me que eram horas de dormir durante todo o dia e agora que é noite é que é tempo de acordar.
Estou numa Ryokan (estalagem tradicional japonesa), já descansei no meu futon e agora estou no meu quimono sentadinha ao estilo seiza com o laptop numa mesa baixinha,.
Ainda não experimentei o onsen (banho público) aqui na Ryokan, mas parece-me delicioso. Sò tenho que perder a vergonha de estar em pelota a partilhar a banheira com outras senhoras - felizmente este aqui tem separação de sexos, mas há locais onde são unisexo e isso para mim já seria esticar a corda.
Tomei um duche na casa de banho super-engraçada do quarto - é um módulo único tipo WC portátil instalado no quarto. Parece uma casa de banho de avião ou comboio, mas com chuveiro incluído e claro, daquelas sanitas que nos lavam o rabinho (que também ainda não experimentei).
Neste momento estou fascinada com as regras matemáticas por trás dos tatami: as salas são feitas à medida de um certo número de tatami  (e não o contrário) e o tamanho dos tatami varia de região para região. Imaginem se fôssemos assim tão rigorosos com os tamanho dos nossos tapetes.
Entre as inúmeras regras de etiqueta que estudei antes de vir, já falhei na aplicação de algumas. Cometi o erro grave de ao acordar no avião assoar o nariz ruidosamente, o que parei imediatamente de fazer assim que vi várias cabeças a virarem-se para ver quem tinha sido o sacrilego. Por outro lado o rapaz sentado ao meu lado fartou-se de libertar flatulências, com alguns efeitos sonoros (eu tinha tampões nos ouvidos e mesmo assim ouvi) e ninguém pareceu demasiado incomodado com isso.
Outra regra que quebrei foi pousar a nota para pagar o alojamento, em cima do balcão e o senhor que me atendia fez uma exclamação qualquer muito aguda, que me fez sentir extremamente culpada não sei bem de quê. O senhor pegou na nota com as duas mãos, fez uma vénia enquanto dizia algo em japonês e levou a nota com as duas mãos estendidas até à sala do lado, voltando com o troco  que me entregou da mesma forma, com muita reverência. Dessa vez já peguei com as duas mãos, com um ar  muito humilde e agradecido e muitas vénias à mistura.
Ainda não percebi muito bem a filosofia por trás disto, apenas sei que devemos sempre dar e receber seja o que for com as duas mãos e que as vénias nunca são demais.
Agora vou recuperar mais um pouco do jet lag e comer qualquer coisa, de preferência nada demasiado esquisito para começar.

Friday, September 24, 2010

BXXL

Voltei a Bruxelas (o regresso anual obrigatório), com passagem por Ghent incluída no roteiro.
Pela primeira vez não me senti muito entusiasmada com a minha ida a Bruxelas e julguei que o "amor" já se tinha esgotado. Mas acho que era a perspectiva de muito trabalho e pouca diversão que me estava a roubar o interesse pela viagem.
No fim soube-me tão bem como de costume e na hora do regresso já queria ficar por lá novamente. Bruxelas é tão fixe! Enfim, não me ocorre algo mais profundo para a descrever - nunca me aborreço naquela cidade.
Por cancelamento de algumas reuniões de trabalho, acabei por ter dois dias livres em Bruxelas em que acabei por fazer a ronda habitual às lojas de 2ª mão, ao BOZAR, às livrarias alternativas, aos brocantes, etc... Como é da praxe, trouxe mais umas 10 caixas de chocolates belgas para a família e amigos e mesmo mesmo antes de regressar ao aeroporto passei numa típica "baraque à frites" para um engordativo pacote de crocantes batatas fritas belgas. Uma japonesa acabadinha de aterrar em Bruxelas (a sair da Gare Centrale com a mochila às costas) quase me saltou para cima e me matou de susto para me perguntar "Ihhh! Onde posso comprar disso!",  "Hãã... O quê?", "Isso, Isso!" e apontava para as batatas fritas. Ah, isto! "É só descer a rua e naquela esquina encontra um pequeno snack de cor amarela com "frites"." E lá vai ela em passo acelerado como se não pudesse aguentar nem mais um segundo para provar as famosas "frites belges". Infelizmente só desta vez descobri que o verdadeiro segredo das batatas belgas é serem fritas em gordura animal... Uma colega alemã perguntou-me se eu era assim tão "radical" que ia deixar de comer as ditas batatas por causa disso. Eu disse-lhe que talvez não, mas só porque as como uma vez ao ano. Se as comesse regularmente, com certeza deixaria de o fazer. Além do mais descobri que - pelo menos em Ghent - existem locais onde servem a versão vegetariana das famosas batatas (fritas em óleo vegetal), pelo que da próxima vez irei tentar descobrir tal coisa também em Bruxelas. Radical, com muito prazer.
Passei pelo meu antigo escritório para visitar os colegas. Não estava nos meus planos, mas a Sevelina mais ou menos arrastou-me e eu não me fiz rogada. Digamos que o ambiente que outrora existiu já se extinguiu e isso reflecte-se até na varanda que no meu tempo com os meus cuidados estava vibrante de verde e agora tem meia dúzia de plantinhas murchas e serve de arrecadação de todo o tipo de lixo. Tudo muda.


De resto o que posso contar mais? Só mesmo a minha aventura no Parlamento Europeu, que vai ficar nos anais da história.
Cheguei a uma 4ª feira à tarde a Bruxelas e fui directa ao Parlamento onde estavam já colegas meus a prepararem a conferência que estávamos a co-organizar para o dia seguinte no Parlamento. Com a autorização de uma parlamentar dos Verdes, foi-me emitido um cartão de acesso ao Parlamento para dois dias.
Estava planeado ficar até ao final da tarde e depois juntar-me a um jantar dos organizadores que teria lugar num restaurante ali perto. Acontece que toda a gente começou a desaparecer e apenas ficámos 4 pessoas no escritório com cerca de 300 capas para encher com o programa e outros documentos da conferência. Se fosse apenas isso, seria rápido, mas cada capa tinha o nome do participante, tinham que ser organizadas alfabeticamente e em cada uma deveríamos colocar uma série de facturas e/ou recibos com o nome respectivo da pessoa. Afiguravam-se horas de trabalho pela frente. 
 
Eu tinha reservado um quarto em Ghent, mas não fazia sentido nenhum ir até lá para voltar no dia seguinte a Bruxelas, pelo que perguntei à minha amiga Sevelina se podia dormir em casa dela. Ela anuiu, mas pediu-me que não chegasse depois das 0h00, pois estava doente e precisava de descansar.
O trabalho prosseguiu a bom ritmo, mas às 0h00 estava longe de estar terminado e dois outros colegas resolveram ir embora sem terminarmos a tarefa. Entretanto os últimos metros e trams estavam a partir e as minhas opções a reduzirem-se. O meu colega José (americano-mexicano) disse-me que tinha decidido dormir no Parlamento. Então liguei à Sevelina a dizer que também ia dormir no Parlamento e que ela poderia ir descansar.
Só os dois, terminámos o trabalho às 3 da manhã. Pegámos em todas as pastas e outros documentos e levámos tudo em trolleys até à sala da conferência. Subimos de elevador, descemos rampas, percorremos corredores e em todas essas voltinhas, nunca vimos vivalma. Por essa altura eu já me interrogava se haveriam alguns seguranças (ao menos um?) em todo o Parlamento. Seria assim tão normal pessoas ficarem a trabalhar lá de noite, que os seguranças que nos vissem nas câmaras de vigilância nem nos ligavam? Duas pessoas a transportar caixotes de papéis às 3 da manhã... Não despertaria a atenção da segurança? Aparentemente não.
Quando tudo estava mesmo terminado, e depois de darmos mais umas voltinhas e de tirarmos umas fotos no hemiciclo com toalha de rosto na mão e sem sapatos (ainda pensei em vestir o pijama, mas o meu colega americano receou que isso fosse ir longe demais), lá decidimos abancar nuns sofás muito confortáveis que estão na ala dos Verdes e passar pelas brasas.
Talvez passada uma hora acordei com o som de heavy metal de alguém que usava headphones mas tinha a música demasiado alta. Aproximava-se rapidamente com o bater sequencial de portas ao longo do corredor. Percebi que era um segurança que andava a fazer a ronda e percebi que a nossa aventura estava a chegar ao fim. Um segurança novinho ficou estático a olhar para nós mas depressa se descontraiu quando percebeu que éramos só uns "verdes" malucos descalços a dormir no sofá. Divertido, perguntou-nos o que raio estávamos ali a fazer. Explicámos que tínhamos ficado até às 3 da manhã a trabalhar para a conferência que iria ter lugar de manhã, e que depois era tarde demais para irmos onde quer que fosse. Mostrámos-lhe os nossos passes e perguntámos se podíamos ficar. Ele disse que por ele não havia problema, mas que o superior dele não ia gostar nada. Então surgiu o superior e passámos por uma cena do tipo "good cop, bad cop". Ele era o "polícia mau", matulão, cara de poucos amigos... "Quem são vocês e o que estão aqui a fazer?". Explicou-nos que apesar de termos passe para os dois dias (logo, supostamente 48 horas) na verdade este não nos permitia passarmos lá a noite, apesar de por acaso até haver esse tipo de autorização especial a quem a pede - mas como é que nós poderíamos ter adivinhado? E mesmo sabendo, nunca saberíamos que iríamos precisar dela.
Apesar de tudo, mesmo o segurança mais velho no fim também já sorria, divertido com o caso. Afinal de contas o trabalho deles deve ser extremamente aborrecido e quando uns malucos como nós aparecem para animá-los, eles até agradecem. 
O meu colega americano estava em pânico total. Só perguntava "Estamos metidos em apuros? O que nos vai acontecer?". Ele já estava convencido que ia para a prisão e depois como seria para voltar a casa?  Eu disse-lhe "Relaxa, estás na Europa!" Até mesmo os seguranças tentaram acalmá-lo dizendo que não ia acontecer nada. Apenas iam registar o acontecimento e desde que não fosse registado nenhum outro incidente (tipo documentos desaparecerem), não sofreríamos qualquer punição.
O segurança senior disse que compreendia perfeitamente a nossa situação, mas que também tínhamos que compreender a situação dele, que ele não podia permitir que ficássemos, sob risco de recair sobre ele a responsabilidade de algo que acontecesse. Claro que eu compreendi. Fizemos um bocadinho de choradinho, pedimos para ficarmos algures num local vigiado por eles (lá fora estava a nevar e temperaturas negativas), mas ele quis ensinar-nos uma lição e meteu-nos mesmo na rua.
Disse-nos que caminhássemos para nos mantermos quentes e que às 5 da manhã abriria a Gare du Luxembourg (subterrânea, mesmo por baixo do Parlamento) e que poderíamos refugiar-nos lá do frio. Também disse que às 6 da manhã abria lá uma pastelaria onde podíamos beber um cházinho quente e comer uns croissants fresquinhos. O meu colega estava mesmo cheio de sono e desesperado por não poder dormir, mas eu estava super-divertida e a aproveitar cada momento. Claro que tive imenso frio e fome (é que para agravar a situação, o nosso jantar tinham sido umas "gummy bears" e o meu almoço do dia anterior foi só uma sandes que os meus colegas desencantaram algures no Parlamento, uma vez que eu tinha chegado demasiado tarde para ir à cantina). Fquei com dores de tentar dormitar sentada e reclinada  nos mais diversos sítios frios e desconfortáveis onde tentámos encontrar refúgio, mas aproveitei a experiência para imaginar o sofrimento diário das pessoas sem-abrigo e me sentir ainda mais solidária com elas. Ás 7 da manhã voltámos a entrar no Parlamento. Os seguranças na entrada já eram outros, pelo que se perdeu a oportunidade de nos rirmos juntos da situação. Uma lavagem à gato na casa-de-banho, uma muda de roupa e lá estava eu de pé a entregar as pastas aos participantes que chegaram a partir das 8h, sem imaginarem a aventura vivida por trás do meu olhar cansado.