Tuesday, November 18, 2008

Bruxelloise au coeur

Um ano depois, regressei a Bruxelas. Uma emoção surda instalou-se assim que vi ao longe o perfil da cidade. Enquanto lá estive tentei analisar os porquês daquilo que sinto e excluí coisas concretas como casos mal-resolvidos dentro dos seus limites. Concluí que, para além do sentimento que terei para sempre associado a esta cidade, por ter sido o local do meu renascimento, a cidade tem um je-ne-sais-quoi que se escapa por todos os seus poros e que me invade.


Quando estava pela madrugada na varanda do Palais de Justice sobre os Maroles, a ver a cidade em silêncio e coberta por uma névoa espessa, convenci-me de que estava suspensa numa bolha fora da qual nada mais existia. Naquele momento só a cidade era real e nada mais existia para lá do nevoeiro. Quando estou nesta cidade, não existe nada para lá dela. Apodera-se de mim uma melancolia que nem em Lisboa sinto.
Noutra ocasião sentei-me no parapeito da sala redonda das estufas do Botanique e ali fiquei a ver anoitecer. O jardim oitocentista lá em baixo rodeado pelos prédios altos envidraçados das avenidas que o rodeiam, pareceu-me partilhar comigo os meus sentimentos. Sentimentos de nostalgia pela inevitabilidade do passar do tempo, da mudança, do adeus, dum romantismo sempre ansiado mas nunca vivido.
No metro do Botanique há um painel de azulejos de homenagem a Fernando Pessoa. Um esboço dele meio pensativo, debruçado sobre um rapaz que lhe engraxa os sapatos. Sempre achei muito adequado encontrá-lo ali quando saio do Botanique. Porque ali a poesia torna-se real.

Les feuilles jaunes des arbres tombent l'une après l'autre, comme je tombe d'amour et ensuite je tombe du haut de mes illusions.

Soube que nas Caves de Cureghem estava a exposição Körperwelten e não resisti a ir dar uma espreitadela. Tinha ouvido rumores de que o mentor da exposição era um tipo um bocado manhoso - tem fama de nazi e de usar corpos de chineses executados para as suas experiências de plastinação de corpos - mas apesar disso achei que devia ir ver com os meus próprios olhos tão polémica exibição.
Ao longo da exposição é repetido incessantemente o quanto esta revela a beleza escondida por baixo da nossa pele. É discutível. Há quem diga que "beauty is skin deep". De facto não somos tão atraentes sem pele e com os orgãos à mostra, mas também não senti qualquer tipo de repulsa. Somos como somos, tão bonitos ou tão repulsivos, por dentro ou por fora, consoante mudemos de perspectiva e nos desprendamos de preconceitos.
A maior parte das pessoas que vê esta exposição de certeza que fica uma semana sem vontade de comer carne, mas no meu caso, ao olhar para uma coluna vertebral com os músculos e tendões agarrados, de repente senti desejo de costeletas. Tudo é relativo.

Estive em casa da Sevelina, num dos inúmeros e memoráveis jantares que se realizam na rua Hôtel de la Monnaie e ela disse que não queria ver tal coisa, que se sentiria mal. Eu disse-lhe que é importante confrontarmo-nos com a nossa própria mortalidade e aceitá-la com naturalidade, mas um coro de vozes se levantou - ninguém em meu redor parecia querer sequer pensar nisso. É mesmo verdade que estamos cada vez mais desligados da morte e convencidos de que vamos viver para sempre, frescos e radiantes. Apercebi-me de que nunca vi nenhuma pessoa morrer. Já morreram nos meus braços animais não-humanos, mas nunca vi sequer um cadáver humano - excepto agora os plastinados. Fazemos de tudo para afastar e esconder a morte que ela já nem sequer faz parte da equação da vida. É algo de que não queremos falar até ao dia em que nos acontecer. E porquê? Porque as pessoas acomodaram-se à ideia de que a matéria, tal como os seus sentidos iludidos a apercebem, é tudo o que existe e sentem-se agoniadas perante a perspectiva do vazio da não-existência. Esse é o triste legado da nossa civilização materialista. Felizmente eu não herdei esse legado e tenho uma perspectiva diferente, logo a morte não me angustia.
Muitas vezes penso que a única coisa que me faria agarrar com unhas e dentes à vida se me visse às portas da morte, seria o querer evitar a todo o custo o sofrimento daqueles que deixaria para trás. Porque sei que eles sentiriam imensa agonia e é só isso que eu não suporto.

Também fui ver a exposição "Le sourire de Bouddha" no BOZAR. Como sempre no BOZAR, uma exposição lindíssima. Uma viagem pela história do budismo na Coreia através de estátuas e pinturas impressionantes.
Durante a minha estadia em Bruxelas tive ainda possibilidade de jantar no trendy Belgo-belge, almoçar no acolhedor Imagin'air, beber kriek num pub anónimo, tomar vodka com ananás no Calabriego e viver um serão multicultural com um artesão argentino, um dançarino do Burkina Faso, uma escriturária alemã e uma empregada de bar espanhola. L'habituel à Bruxelles

Wednesday, November 12, 2008

Vi-me grega

No momento em que escrevo isto já estou sentadinha em Bruxelas, mas há poucas horas atrás ainda deambulava por Atenas. Não fui com muitas expectativas, pois já me tinha constado que o tamanho das minhas expectativas corresponderia ao tamanho das minhas desilusões, daí que a minha desilusão é moderada.
Gostei de visitar a Acrópole, a Ágora, o Museu Arqueológico de Atenas e a parte velha da cidade nas encostas da Acrópole, mas a cidade em si é feia, suja e os gregos não são propriamente parecidos àqueles das estátuas.
Na minha sincera opinião, acho que o Sócrates (o filósofo e não o engenheiro) ficaria muito desiludido se visse a Atenas de hoje. Pensaria "como é possível que esta gente se considere civilizada - pior ainda, se considere mais civilizada que no meu tempo!?" É deprimente ver que de uma civilização grandiosa, monumental, filosófica e democrática, evoluímos para uma (in)civilização comercial, engarrafada, adormecida e embrutecida. Atenas é bonita vista da Acrópole, porque não se vêem os detalhes, mas lá em baixo é uma selva.


O ambiente é caótico e temi pela minha saudínha cada vez que tive que atravessar uma passadeira. Mesmo nas avenidas movimentadas do centro da cidade, ou não existem semáforos para os peões ou mesmo quando existem, estarem lá é o mesmo que não estarem. Certa vez foi necessário que um grego mais expedito e conhecedor do sistema se metesse à frente dos carros com os braços abertos, caso contrário eu poderia ter ficado à espera todo o dia que os condutores me fizessem o favorzinho de parar ao sinal vermelho.
Ruas de sentido único? “Eh pá, mas o hotel fica já ali a 10 metros, não vou dar meia volta à cidade para entrar no sentido certo.”
Há engarrafamentos às 10 da manhã, às 15h da tarde, à uma da manhã... Disseram-me os amigos gregos que as pessoas saem a essa hora para irem tomar café (!)
Tive problemas com a comida logo desde o 1º dia. Caí na asneira de comer uma salada e muito queijo feta e andei com vómitos, diarreia e dores de estômago durante 4 dias. Daí para a frente só consegui beber água e comer alguma fruta só para não cair para o lado.
Tudo começou porque os meus anfitriões gregos andaram a passear-me pela feira Bio de Atenas por volta da hora de almoço. Eu já estava com fome e por isso aceitei que me levassem de banca em banca a provar as especialidades gregas. Queijo feta, queijo feta, mais queijo feta, azeite, mais queijo feta. Às tantas perguntei “Só têm queijo feta? Que outras especialidades têm?”. Feta com pimenta, outro queijo que não é feta mas que se fosse ia dar no mesmo e mais azeite e mais feta. "OK, ok, chega de feta, vamos comer qualquer coisa diferente!"
À uma e meia ainda andavam a mostrar-me as vistas e quando perguntei se íamos a algum sítio almoçar, olharam para mim espantados: ”Ah, mas queres comer agora?” Ya...?
Lá me levaram ao restaurante do centro de congressos – “Desculpe, mas só abrimos às 14h, tudo o que lhe podemos arranjar agora é uma salada”. “Às 14h??? Que restaurante é que só abre às 14h??? OK, venha de lá a salada, que eu recuso-me a conferenciar de barriga vazia.” Talvez o devesse ter feito, porque o mais provável é que a salada estivesse contaminada com microrganismos gregos para os quais eu não estava vacinada.
Os queridos amigos gregos diziam-me que as dores de estômago eram nervos, saudades de casa... Mas quem queriam eles enganar? Já lá vai o tempo em que isso me acontecia, agora estes sintomas só poderiam indiciar intoxicação alimentar. Finalmente lá se ofereceram para me levar ao hospital se eu quisesse, mas senti que isso seria ainda mais perigoso e optei antes por passar umas 12 horas de cama no hotel e beber muitos líquidos. Demorei uns 5 dias a recuperar totalmente, mas a verdade é que ao fim dessas 12 horas já estava suficientemente bem para sair e ver as vistas.
E será que os gregos primam pela simpatia e honestidade? Tive que mudar de hotel e pedi ao recepcionista que me chamasse um táxi pois eu estava fraca e adoentada e não conseguia meter-me a caminho do metro cheia de malas. Da central disseram que não se davam ao trabalho de me ir buscar para me levar uma distância tão curta. Disseram-me para ir para a rua e esperar que passasse um táxi. OK, eles até passam frequentemente, mas bolas, não há um bocadinho de compaixão por alguém que se sente em baixo? Perguntei se viriam se eu pagasse o dobro, o recepcionista encolheu os ombros e nem sequer lhes perguntou.
Na minha partida de Atenas acabei por ir de táxi até ao aeroporto, porque só a ideia de subir e descer metro, mudar de linha, etc, já me deixava de rastos. Quando cheguei ao destino o condutor pediu-me 27 EUR mas o taxímetro marcava 17 EUR. Ele balbuciou que não sabia meter no taxímetro as "outras coisas, como a taxa de bagagem, impostos...". Ya, claro, a "taxa de meter ao bolso"... Mas que podia eu fazer: era o táxi dele, a terra dele, as regras dele. Há que ter compaixão pelos seres humanos mesmo quando eles não têm por nós.
Ei, mas nem tudo foi mau! Pelo meio diverti-me. Assisti ao fim da famosa maratona no Stadium de Atenas, fui até ao porto de Pireu ver o pôr-do-sol, aprendi uns passinhos das danças tradicionais gregas, recebi um convite para voltar no Verão e visitar as ilhas gregas, um convite para ir a Chipre...
Para terminar falta-me referir os cães de Atenas. Devem ser as vacas sagradas lá do sítio, pois há um bem gordinho a dormir em cada esquina, saída de metro, porta de loja, entrada de monumentos... Por vezes é preciso cuidado para não se tropeçar num quando se vai mais distraído a ler um mapa.

Thursday, October 02, 2008

I'm going deeper underground

Tenho estado ocupada. Entre a natação, curso de alemão e agora dança oriental, lá vou trabalhando e tentando estar a par do que acontece no mundo. Uma vez que dificilmente consigo fazer tudo o que quero - desenhar, escrever, meditar mais, ler mais, desenvolver projectos megalómanos para salvar o ser humano de si próprio - tomei a decisão de cortar nas coisas que além de consumirem o meu tempo precioso, contribuem para a minha alienação do "mundo real", ao mesmo tempo que me expõem demasiado a ele.
Falo da minha participação na web. Facebooks, hi5s, last.fms, iReads, iGoogles, Yahoos, Flixters,... chega! Vou manter apenas o útil e indispensável à comunicação com amigos distantes e o resto vai às urtigas. Estou farta de voluntariamente esparramar informação pessoal na internet.
Há dias um homem comentava num fórum que o Google sabe mais sobre ele do que a sua própria mulher alguma vez saberá. E eu senti o mesmo: não tenho nenhum amigo ou familiar que me conheça tão bem como a internet me conhece. A internet sabe a história da minha vida, que filmes vejo, que música ouço, que personalidade tenho, em que causas me envolvo, as minhas opiniões sobre tudo e sobre nada... Quase tenho inveja das pessoas sobre as quais o Google encontra "0 resultados". É como se não existissem, deveriam sentir-se tão livres!
Até aqui tive algum gozo em experimentar as redes sociais e as milhentas ferramentas online que hoje existem para o nosso entretenimento, mas não só começo a sentir que perco demasiado tempo com isto, como atingi o meu limite de aceitação da exposição pública. Além dos malefícios óbvios, a exposição também tem o inconveniente de alimentar o meu ego, algo no qual não quero de forma alguma investir o meu tempo.
Um amigo entendido nas artes da internet descobriu que a maior fatia de tráfego que vai parar ao site dele é reencaminhado a partir dum link num dos meu blogs e após mais alguma pesquisa sobre as origens dessas pessoas concluiu que muitas vão ter aos meus blogs googlando pelo meu nome. Diz ele com um sorriso sarcástico que isso não é muito comum e que tudo indica que eu sou famosa.
Até agora foi útil estar disponível para ser encontrada e fiz uns quantos amigos novos por causa dos blogs e redes sociais, mas acho que as desvantagens superam as vantagens. É giro ouvir constantemente "Ah, tu é que és a Irina!" quando conheço alguém que já "ouviu falar de mim" na net, mas eu não quero ser "célebre", quero apenas paz de espírito e o amor dos amigos que me foram conhecendo aos poucos, em carne e osso e olhos nos olhos.