Passou um mês desde que aqui cheguei, mas parece-me que sempre cá estive. É uma sensação estranha. Como se toda a minha vida até aqui fosse na verdade uma vida anterior e não houvesse uma continuidade com esta vida presente. A viagem de avião foi literal e figurativamente uma ascensão ao céu e a passagem entre uma vida e a outra.
Desde o início que não me sinto num país estrangeiro. Sinto-me num outro tempo, num outro planeta, num mundo paralelo, numa outra existência?
Nos primeiros dias, penso que o meu cérebro teve algumas dificuldades de adaptação, pois todos os pontos de referência desapareceram de uma vez só. Por causa disso tive sonhos angustiantes de que continuava em Portugal e que tudo o que se passava de dia na Bélgica é que era um sonho do qual eu precisava acordar. Mas não foi nada de mais e já está ultrapassado.
Tenho escrito muito sobre as minhas actividades, mas ainda não falei muito sobre Bruxe1as e os bruxe1enses, porque tenho estado a fazer uma lista de observações das coisas boas, das coisas menos boas e das coisas estranhas ou simplesmente engraçadas que por cá encontrei. Ainda faltam referir imensas coisas, mas decidi apresentar a lista que já tenho.
As coisas boas
Sacos de plástico - Quem quiser sacos de plástico no supermercado, tem que os pagar. Em contrapartida, os supermercados vendem carrinhos e sacos de vários tamanhos, em pano ou tela, para incentivar as pessoas a transportarem as suas compras para casa de forma mais sustentável.
Mercados e feiras - Há mercados e feiras em todo o lado, todos os dias e todo o tipo de pessoas os frequentam, levando consigo os seus carrinhos e sacos de pano. Parece-me a mim que são muito mais concorridos que os supermercados e não são apenas os pobres e os velhos que os frequentam, mas toda a gente (ok, o rei e a rainha e os comissários europeus não contam.
Produtos ecológicos - Não é uma regra geral, mas aqui muitos dos produtos ecológicos são mais baratos que os convencionais - pelo menos o papel reciclado, desde o papel higiénico ao de cadernos e resmas, estavam mais baratos que os convencionais num supermercado a que eu fui.
Produtos biológicos - Os produtos biológicos estão mais ou menos ao mesmo preço que os produtos convencionais no supermercado. Alguns são mais caros, outros são ao mesmo preço e alguns são mais baratos, como o caso dumas ervilhas congeladas bio que eu comprei e que eram mais baratas que as convencionais. Também são fáceis de encontrar e os supermercados têm-nos em abundância e diversidade e não apenas um ou dois num canto, a preços exorbitantes, como acontece em Portugal.
Lojas de 2ª mão - Ainda só conheço 3, mas elas abundam em Bruxe1as. Uma vende roupas dos anos 50, 60 e 70 a preço razoáveis (10-20 euros). Outra vende principalmente móveis, mas também peças de decoração, livros e cds e tem uma secção de antiguidades, mas os preços não são tão modestos, embora ainda assim sejam razoáveis. Doutra já eu falei (aquela que parece a Pollux) e é a mais interessante. Só vende coisas doadas e por isso os preços são incrivelmente baixos - a média dos preços do que eu já trouxe de lá deve rondar 1 euro. Esta loja tem objectivos humanitários. Acho que as pessoas que lá trabalham são todas pessoas carenciadas e os lucros de todas as vendas servem para sustentar uma série de projectos em Bruxe1as para pessoas carenciadas. E parece que têm imenso sucesso, que as pessoas doam imensas coisas - acho que eles vão a casa das pessoas buscar móveis e outros volumes.
Os transportes públicos - A rede de transportes é excelente e como me disse o Marco, não há razão nenhuma para uma pessoa andar de carro em Bruxelas. Comprei um passe anual de metro+bus+tram (metro+autocarro+eléctrico) e em 5 minutos já tinha na minha mão um passe com a minha foto, para poder usar estes 3 transportes livremente durante todo o ano. Alguma vez isto era possível em Portugal?
Eficiência - Ouvi muitas coisas sobre Bruxe1as e a sua burocracia, mas até agora ainda não vi essa burocracia em acção, pelo menos não a um ponto que me fizesse desesperar como acontece tão regularmente em Portugal. As pessoas são muito cuidadosas e fazem tudo "certinho",a bem da transparência e de evitar dúvidas. Mas são também rápidas e eficientes na maioria dos casos. Eu diria que há alguma burocracia, dado que é provavelmente o país com a governação mais complicada do mundo, mas por isso mesmo acho que está de parabéns. Ainda há dias comentei com alguém que Portugal, que fala uma só língua e tem um só governo, é a república das bananas que nós conhecemos, imagino que nunca teria saído da idade da pedra se tivesse a multiplicidade de línguas, comunidades e orgãos governativos que a Bélgica tem. Um destes dias falo um bocado do sistema belga só para verem o caos absoluto que seria se os portugueses tivessem que o pôr a funcionar.
A multi-etnicidade e multi-culturalidade - É muito raro ver por aqui "verdadeiros belgas". Há imensos indianos, chineses, japoneses, africanos, árabes, sul-americanos, franceses, ingleses, alemães, portugueses e tantas outras nacionalidades e etnias, que tenho muitas vezes a sensação de estar numa espécie de ilha no centro do mundo ou numa estação espacial das nações unidas e não num país específico.
As coisas menos boas
Os multibancos - Não há multibancos nesta cidade! Quer dizer, já encontrei um ou dois num espaço de um mês, mas para quem vem da terra dos multibancos, isso corresponde a nada! Quem quer levantar dinheiro tem que ir às caixas do seu próprio banco, caso contrário disseram-me que cada transacção numa outra caixa custa 80 cts (informação por confirmar). O pior é que as sucursais de cada banco também não abundam. Do banco em que abri conta também ainda só vi duas sucursais, felizmente uma delas é na mesma rua que o meu escritório.
Internet - Ciber-cafés nem vê-los. Já me disseram que há lojas onde podemos consultar a internet, em quase cada esquina da cidade, por apenas 20 cts/hora. Pois, isso é muito bonito, mas porque será que eu já corri metade da cidade e ainda não vi nem uma!!! Será que se escondem de mim, será que preciso de óculos? Também me disseram que há Wi-Fi por todo o lado e que só preciso de um portátil para aceder à net em qualquer lado. Mais uma vez, curiosamente, a teoria não se aplica ao meu caso particular porque eu não apanho rede em casa. Contactei o fornecedor de internet e disseram-me que só conseguiria apanhar o sinal a partir dum 6º andar para cima. Serão doidos? Tentei internet móvel (via rede telemóvel) disseram-me que por questões técnicas não podem satisfazer o meu pedido (pedi mais explicações e ainda não me deram), pedi internet via fio de electricidade (é verdade, existe! e é muito inovador!), mas disseram-me que a minha rua ainda não é coberta por este serviço. Se eu estivesse a morar num bairro da lata nos subúrbios da cidade, eu até compreendia tudo isto, mas estou numa avenida duma zona "bem", a dois passos do centro da cidade, como é isto possível? Só me resta internet por cabo e ADSL, que eu andava a evitar, porque envolve instalação de fios. Já pedi à Belgacom que viesse instalar um fio telefónico, mas tenho que esperar quase 2 meses para me fazerem esse favor...
Telemóveis - Comprar um telemóvel foi fácil, o mais difícil é carregá-lo. Habituada a carregar o telemóvel no multibanco, lá fui em busca de uma caixa e passado uma semana sem saldo lá encontrei uma, apenas para saber que as únicas opções disponíveis na caixa eram mudar o pin ou levantar dinheiro. Lá procurei então uma loja da Mobistar (a minha rede) e descobri que há um sistema qualquer que me permite fazer os carregamentos via telemóvel, mas para o activar não aceitam o meu cartão visa e exigem que eu tenha uma conta e um cartão de um banco belga (algo de que já tratei mais ainda estou à espera).
Recolha do lixo - Aqui faz-se recolha porta-a-porta. As pessoas têm que comprar sacos brancos, azuis e amarelos para lixo indiferenciado, embalagens e papel, respectivamente e colocá-los na rua nos dias de recolha de cada um. O desafio está em descobrir em que dias é que é recolhido o quê. Tentei perceber através do que as pessoas faziam - se via sacos amarelos na rua, anotava na agenda "dia de sacos amarelos" e por aí fora - mas depois a coisa complicou-se, porque aparentemente muitas pessoas não respeitam o calendário e põem o lixo na rua quando lhes apetece. Perguntei ao meu vizinho de cima e ele pareceu-me mais perdido nessa questão que eu e só contribuiu para me baralhar mais. Primeiro disse que sacos amarelos eram na 2ª feira, para depois dizer que eram amarelos e azuis, para depois dizer que se calhar era antes à 3ª... Continuo sem saber muito bem, mas como toda a gente põe os sacos amarelos e/ou azuis, às 2ª e às 3ª, eu faço o mesmo. Já procurei a informação na internet e até mesmo em folhetos da comuna sobre a separação do lixo e nem aí indicam o misterioso calendário dos sacos amarelos e azuis. Lá terei que fazer unstelefonemas...
Os aldrabões - Já por duas vezes me tentaram aldrabar com os trocos. Uma vez foi numa feira da ladra - um tipo vendia um ferro de engomar por 2.5 euros, eu dei-lhe 4, ele devolveu-me 50 cts e ficou à espera que eu não reparasse na falta de 1 euro. Mas eu reclamei e ele fez-se de tontinho e pediu muitas desculpas. Pior ainda foi numa banca de comida rápida, onde pedi um "diavoletto vegetariano" que custa 2.80 euros e eu só tinha uma nota de 50. O homem deu-me troco para 10 euros! Olhei para ele com os olhos esbugalhados a pensar que nunca um snack me tinha custado tão caro. Ele percebeu que eu não estava distraída nem era parvinha e também se desfez em desculpas e lá me deu o dinheiro. É preciso ter cuidado com estes tipos. Quando percebem que eu não falo francês muito bem devem achar que com sorte também não faço contas muito bem.
A xenofobia escondida - Ainda não aconteceu nada que me fizesse sentir mal-recebida por aqui, pelo contrário, acho que as diversas comunidades que habitam Bruxe1as vivem harmoniosamente e usufruem ao máximo da troca inter-cultural que aqui se proporciona. Mas há zunzuns de que os belgas não gostam muito dos não-belgas. Em Bruxe1as isso não se sente mas eventualmente é mais notório noutras regiões do país. Aqui os belgas são eles mesmos uma minoria, pelo que mesmo que não gostem, têm que aceitar que Bruxe1as já não é a capital do país deles, mas sim uma nação à parte - uma nação de nações.
Mas mesmo que houvesse xenofobia aberta e às claras, eu seria sempre um alvo improvável. Apenas quando abro a boca eles se apercebem que eu não sou belga e quando isso acontece, na maioria dos casos julgam que eu sou alemã. Quando sou apresentada às pessoas e não lhes é dito que eu sou portuguesa, elas pensam sempre, sempre que eu sou belga. Mesmo que toda a gente esteja a falar inglês no local, comigo tentam sempre começar uma conversa em francês e é engraçadíssimo quando explico que tenho muito gosto em praticar o meu francês, mas que essa não é a minha língua materna. E depois, claro, vem a pergunta inevitável se eu sou alemã. LOL
Os "europeus" - Numa outra categoria de xenofobia, está o desagrado dos belgas para com os "europeus". O Marco aconselhou-me a guardar sempre o crachá do Parlamento Europeu quando sair do seu "espaço protegido" para a "cidade lá fora", porque os belgas não gostam muito dos "europeus". Fiquei boquiaberta quando ele me disse que uma vez ele se esqueceu de guardar o crachá e que só se apercebeu disso quando notou que os belgas o tratavam de maneira diferente, mais rude e grosseira. Eu pensei que também pode ter sido porque achavam que ele se estava a exibir "Eh, olhem para mim! Eu vou ao Parlamento" (lol) e que isso poderia desagradar-lhes por não gostarem de exibicionistas, mas eu sei que os belgas nunca gostaram muito que a União Europeia viesse aterrar na terra deles. Ainda por cima há umas histórias estranhas sobre a construção do Parlamento (ou será da Comissão? Agora não me lembro) ter causado a destruição duma zona com valor arquitectónico ou histórico belga e que isso lhes ficou atravessado - e com toda a razão, penso eu.
As coisas estranhas ou simplesmente engraçadas
Marca branca - Aqui a marca do próprio supermercado nem sempre é mais barata que as outras marcas, por vezes é bastante mais cara, vá-se lá saber porquê...
Madame Pipi - As senhoras que supervisionam as casas de banho públicas e recebem as nossas moedinhas, aqui recebem o carinhoso nome de Madame Pipi.
Plaquinhas com nome - Acho que não é geral, mas por aqui usa-se muito as plaquinhas com os nomes dos residentes, na campaínha e na caixa de correio, em vez da indicação do andar e do dtº ou esqº. Mandar fazer estas plaquinhas, segundo me disseram, além de custar quase 15 euros,também demora algum tempo, tal é o número de encomendas. Já tenho uma plaquinha com o meu nome na campainha, mas felizmente não tive que a pagar, porque o senhorio assumiu essa responsabilidade. Acho que é uma questão de negócio, porque com a quantidade de pessoas que chegam e partem de Bruxe1as todos os anos, há sempre clientes para as plaquinhas. Disseram-me que não, que esquisito é não pôr o nome na porta, pois assim como sabemos que a correspondência chega ao destino? Tentei explicar que tanto se pode perder se indicarmos "nº53 - 3º direito" como se indicarmos "nº53 - Maria Joaquina", porque os erros acontecem na mesma, mas a minha opinião não foi compreendida.
C0uve-de-Bruxe1as - Há por cá couves-de-Bruxe1as e finalmente pude comê-las frescas em vez de congeladas como sempre as conheci. Mas estranhamente, estas couvinhas não são o símbolo vegetal de Bruxe1as, mas sim as endívias. Há por cá uma verdadeira adoração por endívias e os bruxe1enses gabam-se de ter mil e uma receitas com este vegetal. No mercado as senhoras acotovelavam-se numa banca de endívias como se lá estivessem a oferecer dinheiro.
Cães portáteis - Os bruxe1enses adoram cães mas, penso que por razões de economia de espaço, só os têm em tamanho mini, entre 25-50 cms de comprimento. Já vi dezenas e dezenas de pessoas a passearem os seus cãezinhos, mas apenas 3 cães "grandes", dos quais apenas 1 era realmente grande (um pastor-alemão) e os outros 2 eram de tamanho médio (tipo dálmata). Todos os outros cães que vi poderiam ser confundidos com gatos e nalguns casos extremos, com ratos... Nalguns bairros mais bem-equipados, no meio dos jardinzinhos que se encontram ao longo duma avenida, separando as estradas de sentido inverso, encontram-se casas de banho para cães - zonas cercadas, com areia para os cãezinhos fazerem os seus dejectos. Ocorreu-me que em Portugal estes wc caninos poderiam chamar-se Cócãos :)
Carrinhos de compras - Já falei um pouco sobre a necessidade de se ter um carrinho para se ir às compras em Bruxelas, mas ainda não sabia aonde se podiam comprar esses carrinhos. Finalmente descobri-os, nas lojas de malas e sapatos, em vários tamanhos, formas e padrões. O sucesso destes carrinhos é tal que há para todos os gostos e carteiras, desde os mais baratos a 20 euros aos modelos de luxo a 150 euros!!! Infelizmente os que têm a melhor razão qualidade/preço andam em redor dos 50 euros, mas inventiva como sempre sou, já estou a engendrar maneira de construir o meu próprio carrinho por menos de 10 euros ;)
Trocar o carro por uma bicicleta - Está a decorrer em Bruxe1as uma campanha que eu julgava que nunca ninguém teria coragem para lançar a não ser os ecologistas mais radicais que tivessem fumado umas passas. Está a ser proposto aos bruxe1enses que entreguem a placa de matrícula do seu carro, por uma ano, a troco de um passe gratuito anual para os transportes públicos. Quem quiser ser mais ousado, pode entregar o carro todo para ser destruído e nesse caso oferecem além do passe, uma bicicleta topo de gama. Eu pergunto-me, quem no seu perfeito juízo vai destruir o seu automóvel para receber uma bicicleta em troca? Só quem tenha um carro que esteja tão velho e a cair de poder, que o fosse entregar na sucata de qualquer maneira ou alguém que por acaso atingiu a iluminação recentemente e que tenha perdido todo o apego ao dinheiro e bens materiais. Que nos incentivem a não usar o carro exige coragem, mas que nos incentivem a destruí-lo é preciso loucura! Mas eu apoio a campanha, mais não seja porque é revolucionária!
Desde o início que não me sinto num país estrangeiro. Sinto-me num outro tempo, num outro planeta, num mundo paralelo, numa outra existência?
Nos primeiros dias, penso que o meu cérebro teve algumas dificuldades de adaptação, pois todos os pontos de referência desapareceram de uma vez só. Por causa disso tive sonhos angustiantes de que continuava em Portugal e que tudo o que se passava de dia na Bélgica é que era um sonho do qual eu precisava acordar. Mas não foi nada de mais e já está ultrapassado.
Tenho escrito muito sobre as minhas actividades, mas ainda não falei muito sobre Bruxe1as e os bruxe1enses, porque tenho estado a fazer uma lista de observações das coisas boas, das coisas menos boas e das coisas estranhas ou simplesmente engraçadas que por cá encontrei. Ainda faltam referir imensas coisas, mas decidi apresentar a lista que já tenho.
As coisas boas
Sacos de plástico - Quem quiser sacos de plástico no supermercado, tem que os pagar. Em contrapartida, os supermercados vendem carrinhos e sacos de vários tamanhos, em pano ou tela, para incentivar as pessoas a transportarem as suas compras para casa de forma mais sustentável.
Mercados e feiras - Há mercados e feiras em todo o lado, todos os dias e todo o tipo de pessoas os frequentam, levando consigo os seus carrinhos e sacos de pano. Parece-me a mim que são muito mais concorridos que os supermercados e não são apenas os pobres e os velhos que os frequentam, mas toda a gente (ok, o rei e a rainha e os comissários europeus não contam.
Produtos ecológicos - Não é uma regra geral, mas aqui muitos dos produtos ecológicos são mais baratos que os convencionais - pelo menos o papel reciclado, desde o papel higiénico ao de cadernos e resmas, estavam mais baratos que os convencionais num supermercado a que eu fui.
Produtos biológicos - Os produtos biológicos estão mais ou menos ao mesmo preço que os produtos convencionais no supermercado. Alguns são mais caros, outros são ao mesmo preço e alguns são mais baratos, como o caso dumas ervilhas congeladas bio que eu comprei e que eram mais baratas que as convencionais. Também são fáceis de encontrar e os supermercados têm-nos em abundância e diversidade e não apenas um ou dois num canto, a preços exorbitantes, como acontece em Portugal.
Lojas de 2ª mão - Ainda só conheço 3, mas elas abundam em Bruxe1as. Uma vende roupas dos anos 50, 60 e 70 a preço razoáveis (10-20 euros). Outra vende principalmente móveis, mas também peças de decoração, livros e cds e tem uma secção de antiguidades, mas os preços não são tão modestos, embora ainda assim sejam razoáveis. Doutra já eu falei (aquela que parece a Pollux) e é a mais interessante. Só vende coisas doadas e por isso os preços são incrivelmente baixos - a média dos preços do que eu já trouxe de lá deve rondar 1 euro. Esta loja tem objectivos humanitários. Acho que as pessoas que lá trabalham são todas pessoas carenciadas e os lucros de todas as vendas servem para sustentar uma série de projectos em Bruxe1as para pessoas carenciadas. E parece que têm imenso sucesso, que as pessoas doam imensas coisas - acho que eles vão a casa das pessoas buscar móveis e outros volumes.
Os transportes públicos - A rede de transportes é excelente e como me disse o Marco, não há razão nenhuma para uma pessoa andar de carro em Bruxelas. Comprei um passe anual de metro+bus+tram (metro+autocarro+eléctrico) e em 5 minutos já tinha na minha mão um passe com a minha foto, para poder usar estes 3 transportes livremente durante todo o ano. Alguma vez isto era possível em Portugal?
Eficiência - Ouvi muitas coisas sobre Bruxe1as e a sua burocracia, mas até agora ainda não vi essa burocracia em acção, pelo menos não a um ponto que me fizesse desesperar como acontece tão regularmente em Portugal. As pessoas são muito cuidadosas e fazem tudo "certinho",a bem da transparência e de evitar dúvidas. Mas são também rápidas e eficientes na maioria dos casos. Eu diria que há alguma burocracia, dado que é provavelmente o país com a governação mais complicada do mundo, mas por isso mesmo acho que está de parabéns. Ainda há dias comentei com alguém que Portugal, que fala uma só língua e tem um só governo, é a república das bananas que nós conhecemos, imagino que nunca teria saído da idade da pedra se tivesse a multiplicidade de línguas, comunidades e orgãos governativos que a Bélgica tem. Um destes dias falo um bocado do sistema belga só para verem o caos absoluto que seria se os portugueses tivessem que o pôr a funcionar.
A multi-etnicidade e multi-culturalidade - É muito raro ver por aqui "verdadeiros belgas". Há imensos indianos, chineses, japoneses, africanos, árabes, sul-americanos, franceses, ingleses, alemães, portugueses e tantas outras nacionalidades e etnias, que tenho muitas vezes a sensação de estar numa espécie de ilha no centro do mundo ou numa estação espacial das nações unidas e não num país específico.
As coisas menos boas
Os multibancos - Não há multibancos nesta cidade! Quer dizer, já encontrei um ou dois num espaço de um mês, mas para quem vem da terra dos multibancos, isso corresponde a nada! Quem quer levantar dinheiro tem que ir às caixas do seu próprio banco, caso contrário disseram-me que cada transacção numa outra caixa custa 80 cts (informação por confirmar). O pior é que as sucursais de cada banco também não abundam. Do banco em que abri conta também ainda só vi duas sucursais, felizmente uma delas é na mesma rua que o meu escritório.
Internet - Ciber-cafés nem vê-los. Já me disseram que há lojas onde podemos consultar a internet, em quase cada esquina da cidade, por apenas 20 cts/hora. Pois, isso é muito bonito, mas porque será que eu já corri metade da cidade e ainda não vi nem uma!!! Será que se escondem de mim, será que preciso de óculos? Também me disseram que há Wi-Fi por todo o lado e que só preciso de um portátil para aceder à net em qualquer lado. Mais uma vez, curiosamente, a teoria não se aplica ao meu caso particular porque eu não apanho rede em casa. Contactei o fornecedor de internet e disseram-me que só conseguiria apanhar o sinal a partir dum 6º andar para cima. Serão doidos? Tentei internet móvel (via rede telemóvel) disseram-me que por questões técnicas não podem satisfazer o meu pedido (pedi mais explicações e ainda não me deram), pedi internet via fio de electricidade (é verdade, existe! e é muito inovador!), mas disseram-me que a minha rua ainda não é coberta por este serviço. Se eu estivesse a morar num bairro da lata nos subúrbios da cidade, eu até compreendia tudo isto, mas estou numa avenida duma zona "bem", a dois passos do centro da cidade, como é isto possível? Só me resta internet por cabo e ADSL, que eu andava a evitar, porque envolve instalação de fios. Já pedi à Belgacom que viesse instalar um fio telefónico, mas tenho que esperar quase 2 meses para me fazerem esse favor...
Telemóveis - Comprar um telemóvel foi fácil, o mais difícil é carregá-lo. Habituada a carregar o telemóvel no multibanco, lá fui em busca de uma caixa e passado uma semana sem saldo lá encontrei uma, apenas para saber que as únicas opções disponíveis na caixa eram mudar o pin ou levantar dinheiro. Lá procurei então uma loja da Mobistar (a minha rede) e descobri que há um sistema qualquer que me permite fazer os carregamentos via telemóvel, mas para o activar não aceitam o meu cartão visa e exigem que eu tenha uma conta e um cartão de um banco belga (algo de que já tratei mais ainda estou à espera).
Recolha do lixo - Aqui faz-se recolha porta-a-porta. As pessoas têm que comprar sacos brancos, azuis e amarelos para lixo indiferenciado, embalagens e papel, respectivamente e colocá-los na rua nos dias de recolha de cada um. O desafio está em descobrir em que dias é que é recolhido o quê. Tentei perceber através do que as pessoas faziam - se via sacos amarelos na rua, anotava na agenda "dia de sacos amarelos" e por aí fora - mas depois a coisa complicou-se, porque aparentemente muitas pessoas não respeitam o calendário e põem o lixo na rua quando lhes apetece. Perguntei ao meu vizinho de cima e ele pareceu-me mais perdido nessa questão que eu e só contribuiu para me baralhar mais. Primeiro disse que sacos amarelos eram na 2ª feira, para depois dizer que eram amarelos e azuis, para depois dizer que se calhar era antes à 3ª... Continuo sem saber muito bem, mas como toda a gente põe os sacos amarelos e/ou azuis, às 2ª e às 3ª, eu faço o mesmo. Já procurei a informação na internet e até mesmo em folhetos da comuna sobre a separação do lixo e nem aí indicam o misterioso calendário dos sacos amarelos e azuis. Lá terei que fazer unstelefonemas...
Os aldrabões - Já por duas vezes me tentaram aldrabar com os trocos. Uma vez foi numa feira da ladra - um tipo vendia um ferro de engomar por 2.5 euros, eu dei-lhe 4, ele devolveu-me 50 cts e ficou à espera que eu não reparasse na falta de 1 euro. Mas eu reclamei e ele fez-se de tontinho e pediu muitas desculpas. Pior ainda foi numa banca de comida rápida, onde pedi um "diavoletto vegetariano" que custa 2.80 euros e eu só tinha uma nota de 50. O homem deu-me troco para 10 euros! Olhei para ele com os olhos esbugalhados a pensar que nunca um snack me tinha custado tão caro. Ele percebeu que eu não estava distraída nem era parvinha e também se desfez em desculpas e lá me deu o dinheiro. É preciso ter cuidado com estes tipos. Quando percebem que eu não falo francês muito bem devem achar que com sorte também não faço contas muito bem.
A xenofobia escondida - Ainda não aconteceu nada que me fizesse sentir mal-recebida por aqui, pelo contrário, acho que as diversas comunidades que habitam Bruxe1as vivem harmoniosamente e usufruem ao máximo da troca inter-cultural que aqui se proporciona. Mas há zunzuns de que os belgas não gostam muito dos não-belgas. Em Bruxe1as isso não se sente mas eventualmente é mais notório noutras regiões do país. Aqui os belgas são eles mesmos uma minoria, pelo que mesmo que não gostem, têm que aceitar que Bruxe1as já não é a capital do país deles, mas sim uma nação à parte - uma nação de nações.
Mas mesmo que houvesse xenofobia aberta e às claras, eu seria sempre um alvo improvável. Apenas quando abro a boca eles se apercebem que eu não sou belga e quando isso acontece, na maioria dos casos julgam que eu sou alemã. Quando sou apresentada às pessoas e não lhes é dito que eu sou portuguesa, elas pensam sempre, sempre que eu sou belga. Mesmo que toda a gente esteja a falar inglês no local, comigo tentam sempre começar uma conversa em francês e é engraçadíssimo quando explico que tenho muito gosto em praticar o meu francês, mas que essa não é a minha língua materna. E depois, claro, vem a pergunta inevitável se eu sou alemã. LOL
Os "europeus" - Numa outra categoria de xenofobia, está o desagrado dos belgas para com os "europeus". O Marco aconselhou-me a guardar sempre o crachá do Parlamento Europeu quando sair do seu "espaço protegido" para a "cidade lá fora", porque os belgas não gostam muito dos "europeus". Fiquei boquiaberta quando ele me disse que uma vez ele se esqueceu de guardar o crachá e que só se apercebeu disso quando notou que os belgas o tratavam de maneira diferente, mais rude e grosseira. Eu pensei que também pode ter sido porque achavam que ele se estava a exibir "Eh, olhem para mim! Eu vou ao Parlamento" (lol) e que isso poderia desagradar-lhes por não gostarem de exibicionistas, mas eu sei que os belgas nunca gostaram muito que a União Europeia viesse aterrar na terra deles. Ainda por cima há umas histórias estranhas sobre a construção do Parlamento (ou será da Comissão? Agora não me lembro) ter causado a destruição duma zona com valor arquitectónico ou histórico belga e que isso lhes ficou atravessado - e com toda a razão, penso eu.
As coisas estranhas ou simplesmente engraçadas
Marca branca - Aqui a marca do próprio supermercado nem sempre é mais barata que as outras marcas, por vezes é bastante mais cara, vá-se lá saber porquê...
Madame Pipi - As senhoras que supervisionam as casas de banho públicas e recebem as nossas moedinhas, aqui recebem o carinhoso nome de Madame Pipi.
Plaquinhas com nome - Acho que não é geral, mas por aqui usa-se muito as plaquinhas com os nomes dos residentes, na campaínha e na caixa de correio, em vez da indicação do andar e do dtº ou esqº. Mandar fazer estas plaquinhas, segundo me disseram, além de custar quase 15 euros,também demora algum tempo, tal é o número de encomendas. Já tenho uma plaquinha com o meu nome na campainha, mas felizmente não tive que a pagar, porque o senhorio assumiu essa responsabilidade. Acho que é uma questão de negócio, porque com a quantidade de pessoas que chegam e partem de Bruxe1as todos os anos, há sempre clientes para as plaquinhas. Disseram-me que não, que esquisito é não pôr o nome na porta, pois assim como sabemos que a correspondência chega ao destino? Tentei explicar que tanto se pode perder se indicarmos "nº53 - 3º direito" como se indicarmos "nº53 - Maria Joaquina", porque os erros acontecem na mesma, mas a minha opinião não foi compreendida.
C0uve-de-Bruxe1as - Há por cá couves-de-Bruxe1as e finalmente pude comê-las frescas em vez de congeladas como sempre as conheci. Mas estranhamente, estas couvinhas não são o símbolo vegetal de Bruxe1as, mas sim as endívias. Há por cá uma verdadeira adoração por endívias e os bruxe1enses gabam-se de ter mil e uma receitas com este vegetal. No mercado as senhoras acotovelavam-se numa banca de endívias como se lá estivessem a oferecer dinheiro.
Cães portáteis - Os bruxe1enses adoram cães mas, penso que por razões de economia de espaço, só os têm em tamanho mini, entre 25-50 cms de comprimento. Já vi dezenas e dezenas de pessoas a passearem os seus cãezinhos, mas apenas 3 cães "grandes", dos quais apenas 1 era realmente grande (um pastor-alemão) e os outros 2 eram de tamanho médio (tipo dálmata). Todos os outros cães que vi poderiam ser confundidos com gatos e nalguns casos extremos, com ratos... Nalguns bairros mais bem-equipados, no meio dos jardinzinhos que se encontram ao longo duma avenida, separando as estradas de sentido inverso, encontram-se casas de banho para cães - zonas cercadas, com areia para os cãezinhos fazerem os seus dejectos. Ocorreu-me que em Portugal estes wc caninos poderiam chamar-se Cócãos :)
Carrinhos de compras - Já falei um pouco sobre a necessidade de se ter um carrinho para se ir às compras em Bruxelas, mas ainda não sabia aonde se podiam comprar esses carrinhos. Finalmente descobri-os, nas lojas de malas e sapatos, em vários tamanhos, formas e padrões. O sucesso destes carrinhos é tal que há para todos os gostos e carteiras, desde os mais baratos a 20 euros aos modelos de luxo a 150 euros!!! Infelizmente os que têm a melhor razão qualidade/preço andam em redor dos 50 euros, mas inventiva como sempre sou, já estou a engendrar maneira de construir o meu próprio carrinho por menos de 10 euros ;)
Trocar o carro por uma bicicleta - Está a decorrer em Bruxe1as uma campanha que eu julgava que nunca ninguém teria coragem para lançar a não ser os ecologistas mais radicais que tivessem fumado umas passas. Está a ser proposto aos bruxe1enses que entreguem a placa de matrícula do seu carro, por uma ano, a troco de um passe gratuito anual para os transportes públicos. Quem quiser ser mais ousado, pode entregar o carro todo para ser destruído e nesse caso oferecem além do passe, uma bicicleta topo de gama. Eu pergunto-me, quem no seu perfeito juízo vai destruir o seu automóvel para receber uma bicicleta em troca? Só quem tenha um carro que esteja tão velho e a cair de poder, que o fosse entregar na sucata de qualquer maneira ou alguém que por acaso atingiu a iluminação recentemente e que tenha perdido todo o apego ao dinheiro e bens materiais. Que nos incentivem a não usar o carro exige coragem, mas que nos incentivem a destruí-lo é preciso loucura! Mas eu apoio a campanha, mais não seja porque é revolucionária!


5 comments:
Olá Irina,
Vi o teu blog através de um link da nokas.
Só um comentário, para perceberes exactmente como funciona a recolha do lixo na tua "commune", vai ver o site da commune de Etterbeek, na rúbrica Ambiente.
Normalmente, a recolha é dois dias por semana, um dia para todos os tipos de lixo (saco branco- lixo orgânico; saco azul-embalagens e saco amarelo-papéis)e outro dia (sexta ou sábado) só para os sacos brancos.
É só comprar os sacos certos e por à porta a partir das 18h do dia anterior.
Boa sorte!
Susana
Olá Susana. Obrigada, mas isso eu já sabia. As cores dos sacos, etc, porque já os uso há um mês. A questão é que os dias exactos de recolha não estão no site da comuna - pelo menos não estavam das últimas vezes que lá fui - mesmo na página onde explicam o que colocar em cada saco. Se não dizem lá, não acredito que digam noutro local do site. O dia de recolha de todos os sacos, pelo que percebi através do que as outras pessoas fazem, é a 2ªf, mas ao longo da semana as pessoas colocam sacos amarelos e azuis na rua sem qualquer nexo. Daí a minha dúvida.
Olá de novo,
Eu sei que é um pouco complicado, mas ve lá no site em "Environment" e depois em "collecte des déchets: jours et heures d'enlèvement", e depois ainda tens que seleccionar a tua rua, mas está lá a info.
Susana
Olá!
OK, no site que te foi indicado têm-me mesmo as horas de recolha e os dias! Atenção, geralmente quem põe lixo na rua antes da hora permitida paga multa (antes das 6 acho que ninguém põe) a não ser estabelecimentos comerciais, esses podem pôr mais cedo! Mas é uma tristeza andar na cidade com tudo sujo cheio de sacos do lixo! enfim! barg!
multibancos: flagey tens um fortos e um dexia (o segundo com multibanco ca fora gratis), tens tb lojas de telefones com internet e na rua malibra (a que liga a flagey ao trone e que tem um minimercado portugues onde encontras boa couve nacional, azeite e afins) tens varias lojas de telefones com net. No belga há sinal de alguém q n protegeu a net e podes levar pa la o teu portatil e aceder facilmente.
em shuman há um ING e acho que tb há fortis. NO centro ha varios multibancos, na chasse (cruzamento) tb bancos.... na place jourdan (entre a flagey e shuman)..... no centro há! claro! bom! se precisares de correios tb sei alguns. :p ao pé do cemiterio de ixelles (solbosh) tb ha.....
pa carregar telemovel, pay and go, vais a qq loja de telemoveis. Há varias, novamente perto destes sitios centrais que acabei de referir.
mmmm
qq coisa pergunta, pode ser q alguem que veja o blog saiba responder! Né susana?
bjokas
Olá novamente :) Em relação aos dias de recolha do lixo, lá encontrei finalmente essa informação, mas já por 2 vezes tinha visto o site exaustivamente sem a encontrar. Mas confirmo que na minha rua certas pessoas não cumprem as regras. P.ex., desde a semana passada, fim-de-semana incluído, que o meu vizinho do lado colocou 2 ou 3 caixotes de cartão na rua e um saco azul e outro amarelo, que por lá continuam à espera de serem recolhidos. E como este já vi vários outros casos de infracção na minha rua. Em teoria as pessoas deveriam ser multadas, mas se calhar existe apenas 1 ou 2 fiscais para toda a cidade pelo que a maioria dos infractores continua impune. Quanto aos bancos, pontos internet, etc, desde que me queixei que não os encontro, comecei a encontrá-los. lol Mesmo assim ainda me deparo com dificuldades. Agora é o meu cartão que não funciona nos multibancos - só nas caixas do meu banco - e por isso ainda não me serviu para nada. Terei de voltar ao banco para esclarecer o que se passa.
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