Tuesday, October 12, 2010

Tou-aqui-yo!

Estou em Tokyo. Aterrei directamente em Shinjuku, a estação de comboio e metro mais movimentada de Tokyo, logo, possivelmente do mundo! É a famosa estação em que, nas horas de ponta, uns senhores  simpáticos empurram as pessoas para dentro das carruagens para que fiquem bem compactadinhas.
Felizmente cheguei às 19h, mesmo no fim da hora de ponta e apesar de ter sido complicado movimentar-me no meio do mar de gente que àquela hora ainda circula, consegui bater o meu recorde pessoal de desenrascanço e em apenas meia hora tinha comprado bilhete, encontrado a linha de comboio e apanhado o comboio certo para chegar ao hostel, sem ter pedido ajuda a ninguém. Numa estação gigantesca como esta (cerca de 20 linhas de comboio e 5 ou 6 de metro) em que os mapas são um emaranhado de linhas, números e caracteres japoneses que deixam qualquer um de olhos em bico, 30 mins foi uma espécie de milagre. Lembro-me que em Londres demorei 10 minutos só para descobrir que linha de metro devia seguir. e a informação estava toda em inglês. Afinal, a experiência sempre serve para alguma coisa. Depois disto acho que posso conduzir naves espaciais e ir à Lua.
Vim de autocarro desde Takayama. Ficava muito mais barato que o comboio e só demorava mais uma hora, com a vantagem de que provavelmente ofereceu paisagens mais bonitas. Atravessámos várias montanhas, muitos túneis super inclinados (ainda nós dizemos mal do do Marquês!), passámos por rios e lagos azul turquesa e vimos as cores de Outono a instalarem-se. Como ontem dizia o Kenji: as cores estão a descer os montes. No topo já se vê tudo dourado e a meio das encostas convive uma sinfonia de laranjas e vermelhos com alguns verdes mais resistentes.
A cerca de duas horas de Tokyo vi finalmente o Monte Fuji e o meu coração palpitou mais forte. Eu julgava que as montanhas que tinha atravessado e que me acompanharam no horizonte durante todo o caminho, já eram enormes e imponentes, mas o Monte Fuji meteu-as a todos a um canto. Que monstro! Mas um monstro lindo, com o cume rodeado de nuvens de algodão doce.
Chegada a Tokyo, POW! Outro impacto profundo: a explosão de gente, os arranha-céus impressionantes e os néons que ofuscam a vista. Aquela Tokyo dos filmes na qual desejamos secretamente desaparecer por algum tempo para voltar a emergir como se tivéssemos voltado de outra dimensão. No momento em que saí do autocarro, desejei logo deixar-me levar pela corrente sanguínea de Tokyo, mas precisava mesmo de pousar as malas e tomar um duche.
A minha mãe perguntou-me numa mensagem se esta viagem não é a maior loucura. Curiosamente tudo tem fluido tão naturalmente que a maior parte das vezes nem me lembro que estou no Japão. Quando me relembro a mim mesma "Estás no Japão, pá!", nessas alturas penso de facto que é de doidos, mas fora esses breves momentos de hiper-consciência, ando por aqui como se fosse um passeio como outro qualquer.

Monday, October 11, 2010

Não me tirem daqui!

Gostava de poder ficar no Japão um ano ou dois ou (quem sabe) para sempre. Claro que ajuda o facto de eu ser naturalmente fã do Japão antes mesmo de cá ter metido os pezinhos, mas a sério... é fabuloso.
Tenho encontrado pessoas, incluindo japoneses, que não conseguem pensar numa única razão para se gostar do Japão. Eu cá acho que eles devem ter batido com a cabeça, mas gostos nao se discutem..
Estou maravilhada com a beleza, o bom gosto, as maneiras, o sentido de conforto e a limpeza que esta gente tem. Quero comprar o Japão todo, embrulhá-lo e levá-lo para casa!
Ao contrário do comummente aceite, o Japão não é assim tão caro. Depende. Por exemplo, após vários dias sem ver uma peça de fruta e quase nenhuns legumes, finalmente encontrei um supermercado com esses itens. Vendem uvas ao preço de mirtilos em Portugal. Fotografei uma caixa de uvas pretas que devia ter para aí meio kilo e custava o equivalente a 17 EUR. Uma maçã custava cerca de 1 EUR e as cenouras eram vendidas individualmente a cerca de 70-90 cts cada. Também procurei intensivamente pão com textura de pão e não a massa branca gelatinosa que eles comem como pao - e hoje finalmente encontrei pacotes de 3 fatias de pão de forma pelo preço absurdo de 1 EUR! Em compensação, o tofu, os cogumelos, as massas e todo o tipo de peixe são super-baratos. Ou seja, o que é caro é aquilo a que nós estamos habituados. Quem se adaptar à comida local, não terá dificuldades em comer barato. Hoje, por exemplo, comprei um pacote de cogumelos amarelos que soltavam uma espécie de baba ao serem cozinhados e fiz um jantar bastante gourmet por 2 EUR.
O alojamento pode ser caro, mas para quem não precisa de luxos, consegue-se dormir em sítios simpáticos por 20 EUR e mesmo menos. Comida nos restaurantes também pode ser cara - muitos sítios com pratos a quase 20 EUR - mas também há muitos onde se come bem por 5 EUR, É uma questão de saber escolher.
Os japoneses também não são avessos a coisas em 2ª mão. Parece que têm umas feiras da ladra muitos boas. Não sei se vou ter oportunidade de ver alguma, mas encontrei uma loja de kimonos em 2ª mão ao preço da chuva e aviei-me deles.
Este fim-de-semana que passou era impossível ficar em Nagoya, porque havia competição de fórmula 1 e todos - mesmo todos - os quartos e camas de Nagoya estavam reservados há semanas e eu não tinha onde dormir. Como me tinha sido recomendado o festival de Takayama que decorria precisamente nesses dias, decidi aproveitar a necessidade de dormir fora para sair mesmo de Nagoya.
Takayama
Escusado será dizer que valeu mesmo a pena. Takayama é lindíssima, rodeada por montanhas, cruzada por rios e pontes, com o seu centro histórico de casas antigas medievais, um percurso de templos e santuários budistas e xintoístas de tirar o fôlego e um festival colorido e tipicamente japonês que trouxe milhares de japoneses cá durante o fim-de-semana. Sim, porque 99% dos turistas no Japão são japoneses.
Não se vêem por cá muitos ocidentais e na verdade quando me cruzo com algum, quase que fazemos uma festa. Os que já cá estão instalados e integrados são os que fazem o ar mais surpreso, como se há anos não vissem um ocidental. Claro que isto sucede mais em locais "remotos" como Takayama.
Além de Takayama propriamente dita, visitei também os arredores. Um dos funcionários do hostel, o Kenji, leva os hóspedes de carro a visitar as redondezas, quando há inscritos suficientes para um determinado tour. Fomos visitar Shirakawago, que era exactamente o que eu tinha em mente visitar além de Takayama. Património mundial da UNESCO. Uma foto vale mais que mil palavras :)

Shirakawago
O Kenji conduziu todo o tempo em excelentes auto-estradas sem passar dos 90 km/h. Quando lhe perguntei se todos os japoneses conduzem devagar em todas as estradas, ele perguntou-me ingenuamente "O que queres dizer com devagar?" Tive que o esclarecer que em Portugal numa auto-estrada daquelas, os carros circulariam de 140 km/h para cima ao que ele exclamou incrédulo "O quê? Mas porque fazem isso?" Tão fofinho!
Amanhã parto para Tokyo. Depois disso para Kyoto. Este último destino não estava nos meus planos, mas como o mundo é mesmo pequeno, em Nagoya dei de caras com o meu amigo Wen (chinês)  que me fez alterar os planos. Conheci-o o mês passado na Bélgica. Na altura sentimos uma grande afinidade mas não tivemos tempo para conversar por causa do trabalho avassalador em que estávamos envolvidos e despedimo-nos com alguma tristeza. Quando nos vimos em Nagoya, apontámos um para o outro com os olhos esbugalhados e exclamámos em uníssono: "No way!", "No way!"
Concluímos que ele estava alojado na mesma Ryokan que eu. "No wayyyy!" Isso já era demasiada coincidência. Encontrámo-nos lá nessa noite, comparámos planos de viagem e agendámos uma ida a Kyoto, lá para o final desta semana. Foi-nos dada uma segunda oportunidade. Penso é que tenho que o esclarecer que não é suposto ser uma viagem romântica pois acho que ele tem esperanças que seja.

Thursday, October 07, 2010

Lost in jet lag

Tive uma série de sonhos em que estava num avião a caminho do Japão. Como estava cheia de sede e consciente de estar a sonhar, tentei acordar para beber água mas sempre que abria os olhos, dava comigo a reviver exactamente o mesmo sonho do princípio - nuns era de noite, noutros a luz entrava pelas janelas do avião, mas o cenário era sempre o mesmo e a sequência de acontecimentos também. Após 3 ou 4 tentativas de acordar ou pelo menos mudar de sonho para quebrar aquele "loop", tive um sonho em que finalmente bebi a minha água e acabei mesmo por aterrar no Japão... E ainda cá estou, com o ouvido interno a flutuar a 11.000 metros e com o relógio biológico a dizer-me que eram horas de dormir durante todo o dia e agora que é noite é que é tempo de acordar.
Estou numa Ryokan (estalagem tradicional japonesa), já descansei no meu futon e agora estou no meu quimono sentadinha ao estilo seiza com o laptop numa mesa baixinha,.
Ainda não experimentei o onsen (banho público) aqui na Ryokan, mas parece-me delicioso. Sò tenho que perder a vergonha de estar em pelota a partilhar a banheira com outras senhoras - felizmente este aqui tem separação de sexos, mas há locais onde são unisexo e isso para mim já seria esticar a corda.
Tomei um duche na casa de banho super-engraçada do quarto - é um módulo único tipo WC portátil instalado no quarto. Parece uma casa de banho de avião ou comboio, mas com chuveiro incluído e claro, daquelas sanitas que nos lavam o rabinho (que também ainda não experimentei).
Neste momento estou fascinada com as regras matemáticas por trás dos tatami: as salas são feitas à medida de um certo número de tatami  (e não o contrário) e o tamanho dos tatami varia de região para região. Imaginem se fôssemos assim tão rigorosos com os tamanho dos nossos tapetes.
Entre as inúmeras regras de etiqueta que estudei antes de vir, já falhei na aplicação de algumas. Cometi o erro grave de ao acordar no avião assoar o nariz ruidosamente, o que parei imediatamente de fazer assim que vi várias cabeças a virarem-se para ver quem tinha sido o sacrilego. Por outro lado o rapaz sentado ao meu lado fartou-se de libertar flatulências, com alguns efeitos sonoros (eu tinha tampões nos ouvidos e mesmo assim ouvi) e ninguém pareceu demasiado incomodado com isso.
Outra regra que quebrei foi pousar a nota para pagar o alojamento, em cima do balcão e o senhor que me atendia fez uma exclamação qualquer muito aguda, que me fez sentir extremamente culpada não sei bem de quê. O senhor pegou na nota com as duas mãos, fez uma vénia enquanto dizia algo em japonês e levou a nota com as duas mãos estendidas até à sala do lado, voltando com o troco  que me entregou da mesma forma, com muita reverência. Dessa vez já peguei com as duas mãos, com um ar  muito humilde e agradecido e muitas vénias à mistura.
Ainda não percebi muito bem a filosofia por trás disto, apenas sei que devemos sempre dar e receber seja o que for com as duas mãos e que as vénias nunca são demais.
Agora vou recuperar mais um pouco do jet lag e comer qualquer coisa, de preferência nada demasiado esquisito para começar.